Jamais recuse um contra
Se você negar o desafio, será um “arregão” para sempre
POR MAURÍCIO BARROS, colunista da VIP

Tem gente que vive da imagem.
Eu não. Sempre sobrevivi
apesar dela. Se um raio
partisse o mundo em dois,
você me encontraria tomando uma
com o Zé Ramalho, olhando a distância
a turma do Santoro se afastar. Uma
frase que ouvi muito na adolescência
foi: “Te vejo mais como amigo”. Sorte
que também escutei: “Você joga muita
bola!” E assim cresci, me vingando
na quadra. E no campo. Cada chapéu,
caneta, voleio que eu dava era um bico
nas espinhas, na magreza alfinética,
na timidez mendicante.
Mas tem mesmo gente que vive da
imagem. Esses tipos acreditam que
carro importado, jacarezinho na pólo,
domingo no shopping, gel, mocassim
e pacote para Aspen trazem por si só grandeza, relevância. E acham que homem
deve dirigir rápido, ganhar mais
que a mulher e partir pra porrada. Se
você joga bola, sabe que tudo issoé bobagem. Homem que é homem, acima
de tudo, nunca diz não a um contra.
Simples assim. Não sabe o que é um
contra? Eu explico.
“Contra” é um jogo-contra. “Você tem um time? Vamos marcar um contra
lá no nosso campo.” Dois times que
nunca se enfrentaram se desafiam. Rua
de Cima x Rua de Baixo. Marketing x
Contabilidade, Escola x Outra Escola,
Gráfica x Redação. Futiba de Terça x
Futiba de Quinta.
“Ah, um amistoso!”, você deve estar
pensando. Evidente que não. Um contra
jamais é um amistoso. Um contra é uma final, uma Copa do Mundo de
um jogo só. E homem que é homem
encara um contra como uma luta entre
o bem e o mal – você é o bem e o adversário,
o Tinhoso. E esteja certo de
que o inimigo pensa o mesmo de você. Isso é um contra. E jamais se deve dizer
não a ele (procure o significado de “arregar” e você entenderá).
Combinado o local, define-se o uniforme:
quem vai de branco, quem vai
de escuro (azul, preto, marrom, vale
tudo junto). O juiz é sempre do time
da casa. Ser tendencioso é o mínimo
que se espera dele. Como visitante,
você o pressionará para que roube pouco.
Em campo alheio, você deve chegar
preparado para começar a partida com
1 x 0 pros caras.
Num contra, o ideal é que haja amizade
somente entre dois caras, um de
cada time, justamente os que marcaram
o jogo. Estes, obrigatoriamente,
viram capitães. Terão que segurar a
bronca, berrar para todo mundo maneirar.
Fazer com que a partida chegue
até o fim sem quebra-pau. Porque
um contra é valioso demais para terminar
em porrada. É preciso deixar
as portas abertas para que, dali a alguns
meses ( jamais menos de dois,
senão vira carne-de-vaca), marque-se
outra final de Copa.
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