Era uma vez na África
Surpresas e sensualidade (e uma supergata brasileira) nos bastidores do mais cobiçado calendário de borracharia do mundo

POR RENATO KRAUSZ

No meio do nada em Botsuana, a modelo curitibana Isabeli Fontana disse três vezes “não” ao fotógrafo nova-iorquino Peter Beard. Os dois trabalhavam nas fotos para o Calendário Pirelli de 2009, a mais exótica e ousada edição desde que a folhinha da fábrica italiana de pneus veio ao mundo pela primeira vez, 45 anos atrás.

No delta do rio Okavango, perto do deserto de Kalahari, o primeiro “não” de Isabeli foi quando Peter pediu que ela tirasse umas fotos nadando em meio às fezes dos elefantes. Depois quando sugeriu que Isabeli posasse sob a pata de um deles. E, por último, quando ele quis fotografá-la emergindo de um lago infestado de crocodilos e sanguessugas. No final, quem fez as fotos no lago foi a canadense Daria Werbowy. “Ela saiu da água toda cortada, sangrando”, lembra Isabeli.

Isabeli todo mundo conhece. É uma das mais famosas modelos brasileiras. Hoje está em segundo lugar no ranking das maiores tops do mundo do site Models.com. Foi sua terceira participação em um calendário da Pirelli. Peter Beard também está no seleto grupo dos melhores do mundo. Viveu 30 dos seus 70 anos na África, onde documentou a morte de 35 mil elefantes e 5 mil rinocerontes.

O estoque de “nãos” de Isabeli já havia chegado ao fim na hora em que Peter teve a ideia de fotografá-la com um inseto gigante, pouco mais nojento que uma barata, sobre seu rosto. Desta vez, Isabeli resolveu encarar. “Eu disse que ia tentar, mas que não podia garantir.” Uma das patas do monstrinho ficou praticamente dentro do olho esquerdo da modelo. “Odeio insetos. Tenho nojo, pavor, aquele nojo nojento mesmo, que vem de dentro.” Ela chorou. Teve horror. Quase desistiu. Mas a foto foi feita.

Não foi a única vez em que Isabeli sentiu pânico na África. Numa noite, sozinha em seu bangalô de lona, ela começou a ouvir um bicho bater violentamente as patas contra a tenda, que chacoalhava inteira. O animal parecia enorme. Sedento. O barulho era assustador. “Eu estava menstruada.” Ele arfava. “Gritei por socorro.” Ninguém ouvia. Parecia que o bicho não desistiria até conseguir entrar. Isabeli apertou violentamente o botão de alarme. Achou que ia ser morta, que iam comê-la viva. Pensou nos dois filhos. Enfim chegaram os homens com as escopetas. Encontraram Isabeli tremendo, em cima da cama. O animal fugiu e não foi achado. Talvez fosse uma hiena. Os homens disseram à modelo que o fato de ela estar menstruada não tinha nada a ver. “Mas disseram isso só para eu não ficar apavorada.” Depois um deles disse que ela deveria jogar o O.B. na privada, não no lixo. “Eles sentem o cheiro.” E Isabeli sentia medo toda vez que caminhava à noite para seu bangalô, com vista para o lago dos hi po pó tamos. Sempre via pegadas de animais. No úl - timo dia, uma delas era de um leão. “Ele simplesmente veio visitar o espaço. Dá para acreditar?”

Dito isso pode parecer que Isabeli pas sou o maior perrengue em Botsuana. Não, não foi. Foi uma das melhores experiências da vida dela. “Foi a mais legal e mais maluca de todas. Foi uma coisa tão boa, um aprendizado de vida, adorei o contato profundo com a natureza. Foi sensacional.”

Os três momentos mais marcantes para ela foram todos com os elefantes. “Logo na primeira noite, fomos fotografar no meio da floresta eu e um monte deles. O Peter queria que eu fosse tipo uma apresentadora de circo, levantando as mãos, os braços, e numa dessas eu enfiei minha mão dentro da boca de um elefante. Ele lambeu meu braço. Inesquecível.” No dia seguinte, ao lado de um elefante ainda neném, fazendo carinho em seu lombo, Isabeli viu o bicho se deitar aos seus pés, o que, segundo lhe disseram, no gestual dos elefantes significa o mais profundo sinal de respeito. Mas o momento mais impactante foi o que viria depois. Ela estava ao lado de outro elefante, desta vez adulto, e o bicho chorou. Todo mundo viu. “Está no vídeo do making of”, afirma ela. “O Peter ficou comovido também.” A “lágrima”, explica Isabeli, escorre de uma glândula na têmpora do animal. “Não sei seé bem um choro, mas é algo muito forte para o elefante, que é muito sensível.” Com essa glândula, o bicho produz substâncias com odor para atrair fêmeas. “Fiquei surpresa com o jeito que ele tomava conta de mim. Cuidava para não bater a tromba e as presas em mim.”

Outra brasileira entre as sete modelos do calendário de 2009, a pernambucana Emanuela de Paula, também teve experiências inesquecíveis com os bichos. Ficou um pouco assustada quando fotografou com quatro suricatos sobre seu corpo.“Subiam em cima de mim, e eu não podia me mexer, porque eles têm unhas afiadas. Se me mexesse, poderia assustá-los e me machucar. Mais foi maravilhoso.”

Pneu rodado
O primeiro Calendário Pirelli foi publicado em 1964. Jane Lumb, Sonny Freeman Drane e Marisa Forsyth foram fotografadas nas praias de Maiorca por Robert Freeman, famoso por ter feito cinco capas de discos dos Beatles nos anos 60, entre elas a do segundo melhor álbum da história da banda, Rubber Soul.

A partir daí, 29 fotógrafos consagrados, como Sarah Moon (1972) e Annie Leibovitz (2000), se sucederam retratando ora anônimas ora as melhores modelos do mundo, como Cindy Crawford (1994) e Gisele Bündchen (2001 e 2006), sem falar em ganhadoras do Oscar, como Hilary Swank e Sophia Loren (2007), ou indicadas a ele, como Penélope Cruz e Naomi Watts (2007).

O calendário não foi publicado em 1967 e por nove anos seguidos entre 1975 e 1983, devido à crise do petróleo. Mas voltou em grande estilo em 1984, com mais força do que antes e menos roupa do que nunca: pela primeira vez, todas as mulheres estavam nuas, em fotos de Uwe Ommer, nas Bahamas. Exemplos: Julie Martin, deitada pelada numa rede toda furadinha, e Angie Layne, saltando de um trampolim para as nuvens brancas de um céu azulado, sem nada de nada de roupa.

Com o tempo, a imagem do calendário mudou. O que foi criado para servir de brinde de final de ano acabo ganhando status de obra de arte, trocando a parede das borracharias pela de museus como MoMA, de NY. Até a função de calendário propriamente dita deixou de existir. “Tem meses ou versões inteiras em que você não consegue ler os dias, as datas”, conta o diretor de marketing da Pirelli na América Latina, Marco Provera. Mas para que saber que dia é hoje, se Kate Moss de topless aparece num carro conversível, olhando para você?

Houve alguns deslizes, como em 1998, ano em que o fotógrafo Bruce Weber colocou, além das gatas, uma penca de barbudos, entre eles o Bono – e talvez aqui esteja mais um motivo para ele ser odiado – e o B.B. King – mais um motivo para ser admirado.

A constante busca pelo novo e pela arte tem seu ponto crucial na escolha do fotógrafo. É ele quem vai dar o tom e definir a capacidade de inovação do calendário. Muitas vezes, o fotógrafo de uma edição já está escolhido um ano e meio antes. A Pirelli tenta manter segredo, mas o burburinho é forte. Em reportagem de setembro do ano passado, o jornal italiano la Repubblica diz que Patrick Demarchelier, responsável pelos calendários de 2005 e 2008, pode assinar também o de 2010.

Às vezes acontece de o próprio fotógrafo procurar a Pirelli com uma ideia. Foi o que aconteceu com o calendário atual. Peter Beard foi à empresa querendo tratar da destruição da natureza na África e dizendo que faria de graça. Mas a Pirelli o pagou. E quanto custou toda a produção? Não revelam. O presidente mundial da fábrica, Marco Tronchetti Provera, na entrevista coletiva de lançamento, disse que foram menos de US$ 2 milhões.

Se por um lado a liberdade do fotógrafo é grande, por outro, o calendário ainda é um produto de marketing – em 2004, a Forbes o considerou a maior operação de marketing do mundo –, e os interesses nos negócios da empresa são também determinantes. Em 2007, por exemplo, uma fábrica da Pirelli foi aberta na China. E qual foi a locação do calendário de 2008? A China.

Após a Pirelli, outras empresas lançaram calendários. O da Campari acaba de fazer dez anos, com fotos de Jessica Alba feitas por Mario Testino. As tiragens hoje estão cada vez menores. Este ano, o da Campari teve 9 999 cópias, e o da Pirelli, 26 mil – cerca de metade do que já chegou a ter. Segundo Marco Provera, a circulação está cada vez mais fora do mundo “business” e dentro do mundo da arte, da fotografia, da moda. “Ele precisa chegar às pessoas que definem tendências”, diz ele. Isabeli Fontana conta que lhe prometeram unzinho só. Emanuela recebeu dois. “Um eu vou colocar no meu apartamento em NY. O outro eu não sei ainda. É tanta gente pedindo...”

16 436 DIAS DE MULHER BONITA ALGUNS MOMENTOS INESQUECÍVEIS DOS ÚLTIMOS 45 ANOS
1. Kate Moss “flagrada” no conversível por Mert Alas e Marcus Piggot, na França (2006);
2. Christy Turlington em foto de Richard Avedon, em NY (1995);
3. Sonny Freeman Drane retratada por Robert Freeman no primeiro calendário, em Maiorca (1964);
4. Adriana Lima fotografada por Patrick Demarchelier, no Rio (2005);
5. Penélope Cruz com lençóis, na Califórnia (2007), pelas lentes de Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin