A cerveja que motivou o bate-volta para o Rio, em perspectiva artístico-alcoólica no quintal do Aconchego Carioca

Você pagaria passagem de avião mais hotel para tomar uma cerveja em outra cidade e voltar às 6h da manhã seguinte? Não sei se foi muito esperto, mas eu fiz, gostei e repetiria sem hesitar.

Não era uma cerveja qualquer: ela tinha sido feita pela minha classe do curso de cerveja caseira do Leonardo Botto, a maior fera do assunto no Brasil. Acontece que ele mora no Rio, e eu em São Paulo. Daí o deslocamento.

A brincadeira começou no dia 15 de janeiro, em uma chácara nas proximidades da Barra da Tijuca, onde o Botto reuniu 30 alunos (29 homens e uma menina) para passar o sábado inteiro aprendendo e bebendo cervejas de turmas anteriores. Eu não tinha a intenção de por em prática as lições — fui porque escrevo sobre o assunto, devo saber e gosto de saber como as coisas são feitas.

Botto é uma enciclopédia da cerveja. O cara sabe de cor os tipos de malte, os tipos de lúpulo, o fermento ideal para cada estilo, fatores como pH e temperatura… A aula, que vai das 9h às 21h, vai das noções teóricas até o momento em que enchemos um tanque de fermentação com o líquido que passamos o dia todo cozinhando, filtrando, fervendo, resfriando… É um trabalho cão, que exige tempo, espaço, equipamento, estudo, atenção, disposição para lavar caldeirões cheios de restos de matéria vegetal e, principalmente, dedicação. Ainda não fui convencido de que é melhor fazer em casa do que gastar uns trocos numa garrafa pronta, mas desta vez consegui entender o que move os cervejeiros caseiros. Se você tem a tal dedicação, pode ser divertido passar um dia com amigos igualmente apaixonados por cerveja, bebendo, dando risadas e cuidando do preparo da cerveja (que provavelmente será o combustível da próxima reunião de amigos, numa espécie de moto-contínuo bebum).

Sopão, não: mosto, ou malte cozido que um dia será uma bela cerveja. Botto (de camiseta preta) ensina a arte enquanto um discípulo rala no caldeirão

Minha participação se resumiu a algumas voltas de colher de pau no malte que era aquecido (brassado, no jargão cervejeiro) numas das fases iniciais do processo. Mas fiz questão de voltar ao Rio algumas semanas depois, ontem à noite, para reencontrar a turma e conferir o resultado do trabalho coletivo no botequim Aconchego Carioca, o principal ponto de encontro dos cervejeiros locais. A cerveja da minha turma era uma american pale ale — traduzindo, uma cerveja de alta fermentação feita com malte claro e lúpulos aromáticos americanos (também adicionados depois que a cerveja está pronta, num processo conhecido por dry hopping).

Era boa? Não, era ótima. O lúpulo americano é uma bomba de aroma (lembra maracujá e goiaba) e também dá à cerveja um amargor considerável. O mérito é do Botto, que comandou todo o processo enquanto a maioria de nós se esforçava para absorver uma quantidade brutal de informação. Para acompanhar, os petiscos do Aconchego (recomendo o bolinho de feijoada, mas a pimenta dedo-de-moça recheada e frita é para poucos bravos). Difícil foi acordar às 5h para pegar o primeiro avião enquanto o sol nasce atrás do mar. Tudo o que eu quero neste momento é dormir, mas se você quer aprender a fazer cerveja, entre em contato com o Botto clicando aqui.