Boa Vida

/// Eu odiei a melhor cachaça do Brasil

A cachaça Anísio Santiago é objeto de culto e custa centenas de reais. Eu provei e detestei.

Há pelo menos 15 anos eu escuto e leio a respeito da cachaça Havana/Anísio Santiago – a duplicidade de nomes se deve a um rolo judicial com uma marca cubana de rum. Numa época em que cachaça era bebida de vagabundo, a Havana já era nobre, distinta, digna de um bebedor de uísque. Já naqueles tempos, o destilado mineiro de Salinas alcançava valores absurdos: hoje, o preço de uma garrafa começa nos R$ 150, podendo bater nos R$ 1000 dependendo do lote e do ponto de venda.

Nunca me dispus a pagar esse dinheiro por uma garrafa de pinga. E, até ontem, nunca havia encontrado alguém que me oferecesse uma dose de Anísio Santiago. Dos anos 90 para cá, a cachaça ganhou status de bebida descolada, e o mito de seu Anísio de Salinas cresceu. Todo mundo que a tinha provado dizia que havia cachaças tão boas quanto ela, mas que a Havana era “única”.

Pois bem, ontem à noite eu participei de um encontro de cervejeiros e cachaceiros no restaurante Mocotó, aqui em São Paulo (espero poder escrever sobre esse jantar em breve). Uma das cachaças oferecidas era a Anísio Santiago. Ao ver as garrafas, fiquei contente. Finalmente preencheria essa falha no meu currículo etílico. Preenchi. Provei. E detestei, preciso confessar.

Na hora de servi-la, o sommelier de cachaças (é, isso existe) Leandro Batista já havia avisado que ela teria”um gosto bastante característico de anis”. Eu sempre odiei anis, mas não me preocupei. Nas degustações de vinho, quando alguém fala em aromas de anis, alcaçuz ou menta, geralmente se refere a um componente marginal da sensação total, algo que muitas vezes exige um bom grau de abstração (ou até de imaginação) de quem degusta. A Anísio Santiago, por sua vez, parecia uma bomba de anis, de dropes azuis turbinados com muito álcool e secos no paladar. Provei mais uma vez e não, eu não havia sido enganado pelos meus sentidos. Deixei meio copinho da cachaça mais conceituada do Brasil dando mole na mesa até que o garçom o recolhesse.

Não contei este episódio para malhar a cachaça Anísio Santiago. Tem razão quem diz que ela é única, e eu não posso de modo algum afirmar que se trata de uma má cachaça. Também não devo concluir que sou incapaz de captar as sutilezas de aroma e sabor de uma bebida excepcional. O que aconteceu é que o aroma dominante de uma excelente cachaça calhou de ser um que eu não tolero.

Contei o episódio para dizer que é preciso ser crítico sobre o que críticos escrevem. Não acredite no consenso e não tenha medo de não gostar de algo que todos adoram.

Se alguém estiver interessado em adquirir uma garrafa de Anísio Santiago, pode seguir este link.

*

Quando escrevi sobre a Great South Beer Cup, no post A Copa América da cerveja, prometi retomar o assunto. A grande notícia é que a Bamberg, do interior de São Paulo, ganhou o prêmio de cervejaria do ano. O quadro completo de resultados você vê aqui, em espanhol. Leia mais sobre o assunto na VIP de junho. Abraço.

 

 


/// A Copa América da cerveja

A seleção argentina chega forte, com um time quase quatro vezes maior do que o nosso

Começa hoje, em Buenos Aires, a Great South Beer Cup, uma espécie de Copa América da cerveja artesanal. Pela primeira vez, um painel de degustadores vai comparar cervejas de 22 estilos produzidas nos países da América do Sul. O Brasil está bem representado, com a presença de 13 participantes, alguns de peso, como Bamberg, Colorado e Bodebrown. Mas os donos da casa comparecem com uma delegação quase quatro vezes maior — são 48 competidores argentinos. Se isso vai resultar num massacre, para mim é uma incógnita: nenhuma cerveja artesanal argentina chega ao Brasil e, da última vez que fui a Buenos Aires, a única que eu vi à venda era a Duff, com toda a estratégia de marketing baseada na bebida favorita do Homer Simpson… não tive vontade de provar. Dos concorrentes restantes, outros 13 vêm do Chile, 3 do Uruguai e 1 da Colômbia. Eu adoraria acompanhar o evento ao vivo, mas a data coincide com o fechamento da revista especialíssima que estamos fazendo para você em junho. Quando o resultado sair, converso com quem foi lá e escrevo a respeito. Agora fica a pergunta: que cerveja é melhor, argentina ou brasileira?