Comer, beber, viajar, coisas de ler e de ouvir. Rodrigo Levino

Comer, beber, viajar, coisas de ler e de ouvir.

/// A incrível máquina de fazer cerveja em casa

Você põe os ingredientes no tanque da direita e, uma semana depois, tira a cerveja pronta na torneira da esquerda

Fazer cerveja em casa é um serviço sujo, demorado, desgastante e que exige uma força braçal considerável. Pelo menos era, antes do surgimento da WilliamsWarn, uma máquina que promete fazer sozinha o processo todo em sete dias, com o mínimo de bagunça — e ainda tem uma torneirinha para você tirar o chope pronto e geladinho quando a semana acabar.

Lindo, não?

Existem alguns senões. O maior deles é que a máquina usa extrato líquido de malte — o que elimina as fases de moagem do malte, brassagem, filtração… enfim, todo o trabalho sujo. Mas também tira tudo o que possa haver de autoral no processo de fazer uma cerveja: para os adeptos do hobby, é como aquecer uma lasanha congelada em vez de cozinhar.

O outro problema é o preço. Na Nova Zelândia, onde a coisa é fabricada, ela custa o equivalente a R$ 7 mil. Você acha que vale a pena?

 


/// Ponte aérea da cerveja

A cerveja que motivou o bate-volta para o Rio, em perspectiva artístico-alcoólica no quintal do Aconchego Carioca

Você pagaria passagem de avião mais hotel para tomar uma cerveja em outra cidade e voltar às 6h da manhã seguinte? Não sei se foi muito esperto, mas eu fiz, gostei e repetiria sem hesitar.

Não era uma cerveja qualquer: ela tinha sido feita pela minha classe do curso de cerveja caseira do Leonardo Botto, a maior fera do assunto no Brasil. Acontece que ele mora no Rio, e eu em São Paulo. Daí o deslocamento.

A brincadeira começou no dia 15 de janeiro, em uma chácara nas proximidades da Barra da Tijuca, onde o Botto reuniu 30 alunos (29 homens e uma menina) para passar o sábado inteiro aprendendo e bebendo cervejas de turmas anteriores. Eu não tinha a intenção de por em prática as lições — fui porque escrevo sobre o assunto, devo saber e gosto de saber como as coisas são feitas.

Botto é uma enciclopédia da cerveja. O cara sabe de cor os tipos de malte, os tipos de lúpulo, o fermento ideal para cada estilo, fatores como pH e temperatura… A aula, que vai das 9h às 21h, vai das noções teóricas até o momento em que enchemos um tanque de fermentação com o líquido que passamos o dia todo cozinhando, filtrando, fervendo, resfriando… É um trabalho cão, que exige tempo, espaço, equipamento, estudo, atenção, disposição para lavar caldeirões cheios de restos de matéria vegetal e, principalmente, dedicação. Ainda não fui convencido de que é melhor fazer em casa do que gastar uns trocos numa garrafa pronta, mas desta vez consegui entender o que move os cervejeiros caseiros. Se você tem a tal dedicação, pode ser divertido passar um dia com amigos igualmente apaixonados por cerveja, bebendo, dando risadas e cuidando do preparo da cerveja (que provavelmente será o combustível da próxima reunião de amigos, numa espécie de moto-contínuo bebum).

Sopão, não: mosto, ou malte cozido que um dia será uma bela cerveja. Botto (de camiseta preta) ensina a arte enquanto um discípulo rala no caldeirão

Minha participação se resumiu a algumas voltas de colher de pau no malte que era aquecido (brassado, no jargão cervejeiro) numas das fases iniciais do processo. Mas fiz questão de voltar ao Rio algumas semanas depois, ontem à noite, para reencontrar a turma e conferir o resultado do trabalho coletivo no botequim Aconchego Carioca, o principal ponto de encontro dos cervejeiros locais. A cerveja da minha turma era uma american pale ale — traduzindo, uma cerveja de alta fermentação feita com malte claro e lúpulos aromáticos americanos (também adicionados depois que a cerveja está pronta, num processo conhecido por dry hopping).

Era boa? Não, era ótima. O lúpulo americano é uma bomba de aroma (lembra maracujá e goiaba) e também dá à cerveja um amargor considerável. O mérito é do Botto, que comandou todo o processo enquanto a maioria de nós se esforçava para absorver uma quantidade brutal de informação. Para acompanhar, os petiscos do Aconchego (recomendo o bolinho de feijoada, mas a pimenta dedo-de-moça recheada e frita é para poucos bravos). Difícil foi acordar às 5h para pegar o primeiro avião enquanto o sol nasce atrás do mar. Tudo o que eu quero neste momento é dormir, mas se você quer aprender a fazer cerveja, entre em contato com o Botto clicando aqui.




/// Cervejas esquisitonas

O site americano Slashfood listou 10 cervejas com sabores que eles consideram “malucos”, tais como pizza, torta de limão e pimenta chipotle. Se formos ver bem, a adição de elementos estranhos na cerveja é um costume bastante tradicional: veja só o exemplo das cervejas frutadas tipo lambic, fabricadas há seculos na Bélgica (neste link, você pode comprar uma que tem gosto de cereja). Só nesta semana, eu recebi a notícia do lançamento de duas brejas fora do comum. Uma é a italiana Noel, que supostamente traz notas de passas e chocolate para combinar com a sobremesa da ceia de Natal. A outra é a brasileira Due, feita para comemorar os dois anos do bar de cervejas Melograno. O nome do boteco significa romã, e a bebida tem essa fruta na lista de ingredientes.
Qual foi a cerrveja mais bizarra que você já tomou?


/// Tequila!

Pegue cálice daqueles de pinga, com limão e sal ao lado. Encha-o de tequila e tome de uma vez só. Repita o ato várias vezes e acorde com uma dor-de-cabeça infernal na manhã seguinte.
A indústria da tequila está tentando se desvencilhar dessa imagem de bebida para porres homéricos de consequências desastrosas. Tequila não precisa ser assim, dizem. Eu concordo. Tequila é o tema da minha coluna a VIP que chega às bancas na semana que vem.
Só para dar um preview do que trata a coluna: tequila é feita de uma planta chamada agave azul, mas pode ter até 49% de outro aguardente. Geralmente é de cana, ou seja, um tipo de pinga. As tequilas realmente boas são feitas 100% de agave. Por coincidência, depois de escrever o texto, fui convidado a dois eventos que promoveram essa versão sofisticada da bebida.
O primeiro foi o lançamento da marcas Olmeca (da multinacional Pernod Ricard) e de sua versão superpremium, a Tezón (foto ao lado). Sim, Tezón, mas isso não é de forma alguma relacionado à palavra “tesão” – é uma forma reduzida de tezontle, a pedra usada nos antigos moinhos mexicanos. A Tezón é feita num moinho assim, de forma semiartesanal, e isso se reflete no preço (acima dos R$ 150). É uma bebida que pode ser apreciada lentamente, pura, sem limão nem sal.
O outro, no dia seguinte, foi uma almoço com o pessoal da Cuervo, que detém 90% (!) do mercado brasileiro. Embora também quisessem falar das garrafas menos nobres, eles frisaram que o objetivo da corporação é distanciar a imagem da tequila do folclore mexicano e do abuso. E me apresentaram toda a linha de produtos premium (foto no alto) da companhia, que vai do 1800 blanco até o Reserva de la Familia, que custa uns R$ 350 e lembra mais um belo cognac.
Filtrando todo o bullshit corporativo, sobra o seguinte: já há boas opções de tequila, numa faixa de preço um pouco superior, para você beber sossegado e não acordar com um mariachi tocando dentro da sua cabeça.

/// Vinho: alimento ou bebida perigosa?


Chegou ao meu e-mail uma mensagem de uma loja de vinhos. Ela decidiu promover um abaixo-assinado virtual que, se comovesse o Congresso Nacional e a Presidência da República, transformaria o vinho de bebida em alimento. Claro que o vinho continuaria líquido e inebriante, mas a medida o colocaria em uma categoria fiscal diferente: segundo os organizadores da coisa, o preço das garrafas seria imediatamente reduzido em 20%.
Sempre achei um absurdo o que se paga pelo vinho no Brasil e, como consumidor, quase aderi ao tal movimento da loja (que, cá entre nós, é um concurso que funciona mais como jogada de marketing e vendas — a chance de uma iniciativa assim ir adiante neste momento é quase nula).
Só que a questão é muito complexa.
Entre os ferozes opositores de uma redução fiscal para o vinho, está gente que não rasga dinheiro nem sai pelada na rua. Uma decisão desse calibre teria um impacto enorme na saúde pública, já que a definição “vinho” abarca brunellos, cabernets chilenos, Chapinha e San Tomé, vinhos finos e tinturas que embebedam trabalhadores nos botecos. Os mais baratos não são bebidos como alimento ou para hamonizar com uma refeição de três pratos — e preços ainda menores seriam um estímulo ao abuso. Ao mesmo tempo, excluir as marcas populares do benefício fiscal seria puro preconceito.
Sem falar que a redução do imposto para o vinho poderia abrir alguma brecha jurídica para outras bebidas mais fortes, que representam o grosso das estatísticas de alcoolismo, também requisitassem a mudança.
Só que o vinho fino é caro demais por aqui. Compare com França, Inglaterra, Portugal, Argentina, Chile, Estados Unidos…
O que pode ser feito para resolver a situação? O que você pensa sobre isso?

Imagem: Virgem e Criança, de Joos Van Cleve


/// Pegadinha: como fazer um drinque explosivo


A revista Wired traz neste mês uma pegadinha para os pândegos de plantão pregarem nos convidados de festinhas, reuniões e eventos afins: um drinque que explode. Trata-se de uma versão do já célebre experimento da bala Mentos com refrigerante (aqui, um vídeo do que acontece quando os dois são misturados).
Aqui, eles dão um jeito de retardar a explosão ao colocar a balinha dentro de uma pedra de gelo. Os outros ingredientes do drinque são irrelevantes e podem ser trocados por qualquer outra coisa. O artigo completo está aqui (em inglês).


/// Refrigerantes esquisitos


O blog Now That‘s Nifty, que compila tudo o que é tranqueira estranha da internet, traz uma lista de refrigerantes com sabores bizarros, engraçados ou simplesmente de venda limitada a uma determinado região (o post está em duas partes: 1 e 2). Tem até o guaraná Antarctica. Alguns destaques:
Calpis, bebida japonesa que parece um Yakult com gás.
O tradicional guaraná Jesus, do Maranhão.
Irn-Bru, a bebida nacional da Escócia (uísque? o que é isso?), feita de gengibre.
As edições especiais da Jones Soda, que já vieram nos sabores: peru ao molho, couve-de-bruxelas, cassarola de vagem e antiácido.


/// Por que os homens bebem vinho?


Estive ontem numa degustação dos vinhos produzidos pelo argentino Carlos Pulenta, dono das marcas Vistalba e Tomero (foto). Vinhos ótimos, mas eu gosto de ir a esse tipo de evento mais para observar as pessoas ao meu redor. Para definir tais reuniões, pego emprestado um versinho de Y.M.C.A., do Village People: you can hang out with all the boys, você pode se divertir com todos os rapazes. Só dá homem. Longe de parecer um albergue gay de Nova York, o círculo do vinho reúne respeitáveis pais de família. E pouquíssimas mulheres. Por que o clube do bolinha? Enumero abaixo algumas possíveis razões.

  • É um clube do bolinha, oras. Homens em geral — e homens casados em particular — precisam sair com os amigos, sem as mulheres, de vez em quando. Alguns jogam bola às terças. Outros jogam pôquer às quintas. Outros vão beber vinho com os amigos.
  • O meu é maior que o seu. Como no futebol ou no pôquer, rola uma competitividade nas degustações. Não é tão explícito assim, mas os enovarões passam o jantar inteiro medindo o conhecimento e o tamanho da adega dos outros machos à mesa.
  • É brincadeira de menino. Junto com o interesse por vinho, vem a coleção de garrafas. E com ela, o saca-rolhas bacana, o decânter, a adega climatizada, a assinatura da revista especializada, as taças específicas para cada tipo de vinho.
  • É papo de bar. Melhor: é um metapapo de bar, já que o assunto é a própria bebida que move a conversa.

Claro que algumas mulheres aprendem a regra do jogo e jogam melhor que qualquer homem. Mas a maioria das moças que entram nessa não está nem aí para todo o ritual masculino. Elas confiam na própria intuição e falam sem se importar com a próxima cartada do oponente. Por isso eu confio mais na opinião das mulheres quando o assunto é vinho.


/// Justin Timberlake lança marca de tequila

Essa é a grande notícia do dia, mal podemos esperar pelas primeiras garrafas!
Enquanto isso, contentemo-nos com…


/// Black & Tan


Receita publicada na seção Boa Vida da VIP de março-09

Encha metade de um copo grande com cerveja clara. Sobre uma colher de sopa com o lado convexo para cima, complete com cerveja stout irlandesa (Guinness, por exemplo). A colher vai fazer com que as bebidas não se misturem de cara.


/// Cerveja verde

Receita publicada na seção Boa Vida da VIP de março-09

Num copo grande cheio de cerveja clara (irlandesa, de preferência, como a Harp), pingue 5 ou 6 gotas de corante alimentício verde. Misture muito suavemente com uma colher de cabo longo para uniformizar a cor.


/// Feliz Saint Patrick’s Day!

Amanhã é dia de São Patrício. Seguem as dicas de bares e drinques publicadas na seção Boa Vida deste mês.

Todas pro santo
Festa irlandesa de São Patrício é um pretexto para beber
cerveja verde — ou escura, ou clara, ou com uísque…


A cerveja é sagrada para os irlandeses no dia 17 de março. No dia de São Patrício — Saint Patrick’s Day em inglês ou Lá fhéile Phádraig em gaélico –, a tradição envolve encher a cara com cerveja tingida de verde, a cor nacional da Irlanda. Nos países de língua inglesa, a bebedeira rola na rua, em grandes paradas que fecham cidades do tamanho de Chicago ou Boston. Por aqui, os pubs fazem promoções no dia do santo. Ou você pode homenagear o padroeiro com drinques irlandeses, como os que o Edu Passareli, sócio da cervejaria Melograno, ensina a seguir.

Por que verde?
Por causa dos gramados que cobrem a Irlanda e de uma lenda que envolve São Patrício. O santo, que teria nascido na Grã-Bretanha, foi catequizar os irlandeses no século 5º. Para explicar o mistério da Santíssima Trindade, Patrício teria recorrido a um trevo de três folhas. Graças a essa lenda, o trevo virou um símbolo da Irlanda. Assim como a cor verde da planta, que no dia de São Patrício está nas roupas, na cerveja e em todo lugar. Até nos poodles.


/// Le Chef Rouge combina champanhe e comida


Na onda do Ano da França no Brasil, o bistrô paulistano Le Chef Rouge vai servir, entre 14 de abril e 17 de maio, um menu especial de harmonização com quatro rótulos diferentes da casa Moët et Chandon. Como é bem curtinho, aí vai o cardápio da chef Renata Braune:

Torta de pêras com queijo azul + 1/2 taça de Moët demi-sec: R$ 38
Crème brûlée com foie gras + 1/2 taça de Moët brut: R$ 48
Brandade de bacalhau em trouxa de massa phyllo + 1 taça de Moët brut rosé: R$ 82
Risoto de coelho e cogumelos (foto) + 1 taça de Moët Grand Vintage: R$ 89
Crepe de maçã com creme de amêndoas + 1/2 taça de Moët demi-sec: R$ 39

Num evento para jornalistas, eu experimentei o menu completo. Rapidamente: a torta de pêra casou direitinho com a champanhe meio-doce, a crème brûlée decepcionou a todos na mesa (estava rala demais, talvez tenha ocorrido algum contratempo na cozinha), o bacalhau estava muito bom, o risoto era fenomenal (o melhor risoto de coelho que eu já comi — e também o único) e a sobremesa era boa. Se fosse pagar, eu iria de torta pela experiência da harmonização e, para esbanjar, prosseguiria com o risoto.

Le Chef Rouge: rua Bela Cintra, 2238, São Paulo, tel.: (11) 3081-7539.


/// Uísque mágico

Duas hipósteses: a diferença de densidade dos líquidos e armação.


/// Energético do Steven Seagal

É porrada pura. Mais informações aqui.