Menu manuscrito do festival do Kinoshita, colado ao balcão de sushi para orientar a equipe de serviço

Fui aos dois neste fim-de-semana. Para quem conhece a cena da comida nipônica em SP, a comparação pode parecer um disparate. Afinal, são duas casas de perfis bem diferentes: o Kinoshita é um dos lugares mais caros, mais “finos” da cidade, com ambiente e comida modernos; o Issa, como o nome diz, é um izakaya, palavra japonesa para designar o equivalente ao botequim brasileiro.

Mas…

…acontece que o Kinoshita, para a comemoração de terceiro aniversário de funcionamento no chique endereço da Vila Nova Conceição, meio que resolveu voltar às origens. Entre 1978 e os anos 2000, o lugar funcionou numa portinha da Liberdade, com portas deslizantes e tatames, um lugar bem parecido com o Izakaya Issa. A comida era japonesa tradicional, mais benfeita que a da concorrência, assim como a do Izakaya Issa. Com o passar dos anos, o talento do chef Tsuyoshi Murakami começou a não caber mais nessa fórmula, e tudo deu no que deu. Mas agora, em reverência ao sogro e ex-patrão Toshio Kinoshita, ele reapresenta clássicos da primeira encarnação do restaurante, feitos a quatro mãos. O festival vai até o dia 28 e, se eu disse acima que ele “meio que” voltou às origens, é porque esse menu custa uma pequena fortuna e é harmonizado com a champanhe francesa Krug Grande Cuvée. Vamos ao duelo.

Comida

Issa: otoshi (entradas variadas de conservas vegetais), tofu frito em caldo dashi, berinjela grelhada com flocos de bonito e gengibre, takoyaki (bolinhos de polvo), costela suína cozida em caldo com nabo, zaru soba (macarrão de trigo-sarraceno com molho gelado). Tudo perfeitamente preparado. Os destaques vão para a costelinha, soltando do osso de tão macia e saborosa como porco deve ser, e para o macarrão gelado, ideal para fechar o jantar de uma noite quente de fevereiro.

Kinoshita: um exteeeeenso menu-degustação de 11 pratos, que começa com tofu e berinjela (em preparações diferentes do Issa), tem algumas iguarias como enguia e bife wagyu (quase cru e picadinho num tataki delicioso), passando por sashimi de vieira, tampura de camarão gigante e finalizando com macarrão gelado, desta vez ao molho de chá verde. Precisei sair antes da sobremesa, um doce de feijão com flã de leite.

Ambiente

Issa: uma típica taverna japonesa, aconchegante e despojada. O ar-condicionado, que não funcionava bem (ou não existia) em visitas anteriores, agora deu conta do recado. Poucos lugares divididos entre balcão – onde estranhos fatalmente acabam ficando amigos – e quatro tatames.

Kinoshita: restaurante sofisticado, confortável, bem-decorado e um tanto impessoal. Como estava em um evento para a imprensa, acabei ficando amigo de alguns estranhos sentados à mesa, mas isso não deve acontecer com o público pagante.

Serviço

Issa: é feito pelas proprietárias Margarida e Takai, que não deixam ninguém ficar sem saquê ou cerveja gelada na mesa.

Kinoshita: profissional e eficiente.

Anfitrião

Issa: as simpaticíssimas Margarida e Takai são a alma do lugar. Conversam com todo mundo e não hesitam em dar reprinmendas em clientes relapsos como eu. Ao recolher os pratinhos de otochi, dona Takai viu que eu havia salgado os meus com molho de soja e arregalou os olhos sem desfazer o sorriso: “Você pôs shoyu na MINHA COMIDA?”. Pedi desculpas, tudo ficou bem e ela trouxe a berinjela grelhada, explicando que “aqui vocês põem shoyu…” Eu interrompi: “Agora fiquei confuso”. “É simples”, disse ela, “se eu digo para por shoyu, vocês põem, se eu não digo nada, não é para por”. Ah, tá.

Kinoshita: Murakami, ou Mura, é outro campeão de simpatia. Nascido no Japão e criado no Rio de Janeiro, fala português com voz de trovão, sotaque carioca e gírias paulistanas. Circula entre as mesas e faz questão de cumprimentar todos os clientes.

Custo

Issa: R$ 60 por pessoa, com cerveja nacional, saquê japonês e 10% inclusos.

Kinoshita: R$ 988 por pessoa, com champanhe Krug Grande Cuvée (a garrafa de 750 ml sai por R$ 880 nas lojas) à vontade. Não inclui 10% e outras bebidas.

CONCLUSÃO

Se dinheiro não for problema para você, o festival do Kinoshita é uma oportunidade imperdível de comer do melhor bebendo do melhor – a quantia cobrada pela comida não é especialmente exorbitante (digamos que sai por uns R$ 100, mais a champanhe a preço de varejo, este sim muito alto). Mas nem todos podem pagar por isso, e a cozinha do Issa não deve nada à do Kinoshita (pelo menos quando não tem toro nem wagyu na jogada). Ontem estava jantando lá quando apareceu o Murakami, que sorriu e disse ao me cumprimentar: “Aqui só vem quem sabe o que é bom…”. Ele sabe.

Izakaya Issa: rua Barão de Iguape, 89, Liberdade, São Paulo, tel.: (11) 3208-8819.

Kinoshita: rua Jacques Félix, 405, Vila Nova Conceição, São Paulo, tel.: (11) 3849-6940