Villas Boas em momento de descontração

O novo filme do diretor Cao Hamburguer (do muito bacana O Ano em que meus pais saíram de férias) é uma espécie de western tupiniquim. Sem o bang bang, só com a exploração de novas fronteiras e os conflitos que surgem disso. Conta a história real dos irmãos Villas Boas, três homens (interpretados por Caio Blat, João Miguel e Felipe Camargo) que foram até a Amazônia para negociar terras com os índios em nome do governo federal e acabaram se afeiçoando ao lado mais fraco da disputa.

Bem feito, é um raro filme entre a safra recente do cinema nacional porque dispensa todos as escolhas narrativas fáceis. Tem um romance, que só é explorado para aumentar ainda mais a tensão contínua do filme. Tem discurso em prol dos fracos e oprimidos, mas nem quem o faz tem fé no que está falando, porque sabe que os precedentes em situações do tipo descambaram inevitavelmente em um conflito trágico.

Todas as escolhas narrativas do filme são feitas para destacar essa tensão constante, sobre a qual uma disputa do gênero se sustenta. Os Villas Boas excercitam o tempo inteiro a retórica, a paciência e o cúmulo da flexibilidade para evitar que qualquer tiro seja disparado. O esforço, raras vezes, resulta no que se espera.

Xingu é o primeiro filme brasileiro que trata parte importante da história do país com plena consciência de que é uma obra de ficção. Como tal (mesmo baseada em fatos reais), precisa se distanciar de julgamentos e/ou acusações de qualquer uma das partes envolvidas e se importar em manter o público interessado na narrativa que está contando. Qualquer reflexão que surja é efeito (benéfico) colateral.

Nem o trio de personagens principais se exalta escandalosamente com os golpes baixos que os representantes do governo desferem constantemente contra os índios e eles mesmos. E não por conformismo, apenas por pura consciência de que o máximo que eles podiam fazer já estava sendo feito.

Xingu consegue entregar justamente o que uma ficção precisa para satisfazer público (às vezes, além das melhores expectativas): produção impecável, atuações idem e um roteiro que evita com cuidado as obviedades que enredos similares foram acumulando ao longo de décadas. O filme estreia amanhã.