Adam Yauch (de preto) aprova o luto em clima de esbórnia

Adam Yauch, “MCA” e a voz rouca do Beastie Boys, morreu hoje, depois de travar uma batalha de três anos contra um câncer em uma glândula salivar e um linfoma. É uma notícia profundamente triste, mas é a uma das poucas mortes que merecem um período de luto regado a álcool e a seu disco favorito da banda tocado no volume máximo. 

Yauch era o membro do Beastie Boys mais ligado a cinema. Usava o nome “Nathanial Hörnblowér” para assinar a direção de alguns vídeos e outras incursões audiovisuais da banda. Tinha um gosto apurado pela coisa, como esse top 10 feito por ele pode provar.

Logo depois do lançamento de To The 5 Burroughs, o disco mais politizado dos caras, fiz um texto afirmando que ninguém além do Beck ou do Beastie Boys foi capaz de criar música com o mesmo clima de esbórnia infinita que só eles sabiam atingir. Continuo com a mesma impressão, e uma ainda mais pesarosa, já que a morte de Yauch representa o fim definitivo desse estado de espírito.

Desde que o Beastie Boys e o Beck perderam um pouco da graça, ninguém mais conseguiu chegar ao nível de entertainment que eles chegaram. GRAÇA eles tinham enquanto faziam a música mais egoísta de toda a curta história da música pop. Tudo o que o Beck fez antes do Mutations e o Beastie Boys antes do To The 5 Buroughs são livres de qualquer citação a outra pessoa ou objeto usados para outra coisa além de dar uma satisfação extremamente pessoal a quem os propaga. Sexual delight, na maioria dos casos. Se os anos 90 foram a década do cinismo, ninguém conseguiu elevar essa bandeira a tão alto pico quanto essa trinca de Bs.

Eles eram produtos de uma conjunção de fatores que creio ser impossível de reproduzir novamente, uma constatação penosa, já que a esbórnia toda que só eles sabiam fazer não será mais nunca recriada. Eram brancos, de classe média, infanto-juvenis quando atingiram reconhecimento nacional, e sem qualquer ligação política declarada (ou sem qualquer ligação política mesmo, que é o mais provável). Só essas condições já riscaram da lista de prioridades de suas letras uma penca de assuntos secundários: racismo, pobreza, existencialismo, monogamia e música militante. Não consigo pensar em outros assuntos que tornem uma música instantaneamente menos divertida do que esses. E outra, o produto branco, classe média, despolitizado e cheio de sarcasmo pra dar deve estar mais desvalorizado nos dias de hoje do que churrasquinho de gato.

Atualmente, quem se propõe a entreter as massas oferecendo coisa boa de verdade sempre arranha ou é especialista em uma dessas temáticas. O próprio Beck e todos do Beastie Boys já construiram discos inteiros em cima de alguma dessas variantes, mas há a desculpa de que eles cresceram, casaram. Só dá pra manter o bom senso nesse estado sem querer emular uma criançona de 40 anos. Certo eles. Mas, por mais que eu respeite a M.I.A., o LCD Soundsystem, o Vampire Weekend, sempre fico com a impressão de que eles deviam ser mais cínicos só um pouco, pra que a esbórnia que eles fazem com tanto gosto em suas músicas chegue ainda mais perto da criada pelos senhores absolutos.

Sei que é meio absurdo querer que a nostalgia por essa era de ouro seja aplacada por gente que evita a todo custo comparações com outros e quer atingir seu lugar único. Eles atingem, mas fazem uso de tanto ranço terceiro-mundista, tanto existencialismo de brechó, que não ficam imunes a uma eventual acusação de cafonice ou de deslocamento temático. A M.I.A. é a melhor e mais improvável descendente do The Clash que já ouvi, e Jimmy é esbórnia a granel, mas é só uma música no meio de um mar de reclamações contra a opressão do capitalismo, do homem branco, do calor senegalês. James Murphy, criador do LCD Soundsystem, já despontou no business com idade e temas favoritos do seu tio preferido. O Vampire Weekend é limpinho demais, mauricinho demais para falar coisas como “passing the dutchee from coast to coast” ou “had to diss the girl because she got too emotional”.

O melhor é que todo esse egocentrismo era realmente valorizado nos anos 90, o que só aumenta ainda mais a chateação de ter crescido no tempo errado.