Sabe aquele pornô que você já viu uma dezena de vezes e era válido no início, mas, depois de conhecer tão bem, não se excita mais com nada? É exatamente essa a sensação que O Espetacular Homem-Aranha provoca. As origens do personagem são tão conhecidas e já foram tão reproduzidas, que começar uma nova franquia com o mesmo lenga-lenga que inicia não só a história do Peter Parker – como a origem de quase todos os super-heróis que ganharam versões para o cinema recentemente – é disparar um aborrecimento que ultrapassa o tédio e chega a irritar seriamente.

Não ajuda que as mudanças feitas nas histórias da origem do novo Homem-Aranha sejam distantes dos quadrinhos e da trilogia anterior. Esse nem é um defeito grave, o cinema já tirou essas liberdades outras vezes, sem prejudicar em nada a essência do personagem. Mas foi justamente na essência do Peter Parker que mexeram. A morte do seu tio é o evento mais traumatizante da sua vida, já que foi indiretamente provocada por ele, e é também principal motivo da existência do Homem-Aranha.

No novo filme, não só ele não impede o bandido que, logo mais, vai assassinar seu tio, como também provoca a saída do seu tio de casa (depois de um rompante besta de menino mimado) colocando-o no meio do caminho do bandido. O Espetacular Homem-Aranha adiciona uma camada extra de culpa para, três minutos depois, fazer com que o Peter esqueça de tudo isso. Não existe tia May de luto, não existe um confronto que o faça sentir qualquer remorso. A procura pelo bandido que matou o seu tio ocupa pouquíssimo tempo do filme e é atropelada, sem finalização, pela trama principal, quando o Lagarto aparece. Sam Raimi, diretor da trilogia anterior, mostrou esse aspecto da origem à perfeição. Marc Webb, que dirige o novo filme, reduziu a tragédia de Peter Parker a um gif de Arrested Development.

Andrew Garfield é um excelente ator, tremendo fã de Homem-Aranha, mas os roteiristas fizeram do seu Peter Parker um guri irritante, desobediente e “respondão” quando confrontado. Um Peter Parker mais próximo dessa geração mimada, mas muito distante de qualquer encarnação válida do herói.

Se a primeira parte incomoda bastante, o restante do filme até diverte. Depois que Peter Parker se aproxima do cientista Curt Connors, que já foi colega do seu pai e pode ter alguma resposta sobre o desaparecimento dele, Parker resolve a última equação para que Connors finalmente consiga uma fórmula válida para um bem sucedido cruzamento de espécies. O cientista não tem um braço e usa a fórmula (com o DNA de um lagarto) nele mesmo para tentar regenerar seu membro. Dá errado e ele vira o Lagarto, um mutante que ficou convincente pra caramba como efeito especial, mas com uma voz meio errada, mais distração do que complemento da sua vilania.

O único alívio de Parker no meio de tudo isso é Gwen Stacey, feita por uma Emma Stone em constante estado de graça. Ela é, inclusive, o único motivo pelo qual o filme nunca se torna uma perda de tempo completa. Linda pra caramba, sempre aparece com as pernas de fora e nunca faz burrices para atrapalhar o Homem-Aranha. É o raro caso de interesse amoroso que não só não dá trabalho para o herói como o salva duas vezes de problemas (a única vez em que ela corre sério perigo de vida é uma sequência que reproduz espertamente uma outra de Jurassic Park).

Os pontos muito positivos do filme existem por conta das sequências de ação, que nunca envolvem muitos personagens. Por serem fáceis de acompanhar, são bem intensas e mostram mais drama do que coisas sendo destruídas. As cenas do Aranha se locomovendo pelos prédios de Nova York ainda provocam sensações de vertigem arrepiantes, potencializadas ainda mais pelo 3D. Ah, O Espetacular Homem-Aranha também tem a melhor de todas as pontas de Stan Lee.

Mas, quando o filme acaba, é preciso fazer uma conta realista e de resultado decepcionante: exatamente dez anos e três filmes depois, a franquia Homem-Aranha volta a começar do zero nos cinemas. Se continuar assim, quem viver por mais 50 anos, vai ver ao menos mais umas cinco trilogias do herói. E, pelo aborrecimento que o início da nova franquia provoca, essa vai ser uma das experiências mais chatas e repetitivas da história do entretenimento.