O melhor mesmo em toda a biografia de Bill Watterson está nesse rápido resumo: durante cinco anos, seu trabalho foi inteiramente recusado por diversos sindicatos; no auge da fama, decidiu escrever sua última tira e, até hoje, essa decisão não foi revogada.

Bill Watterson, que hoje completa 54 anos, tratava suas crias como forma de arte e tinha certeza absoluta que o valor desse tipo de coisa não pode ser agregado a um pijama ou a um parachoque de carro. Mesmo os alvos de sua admiração tendo feito muito dinheiro com o comércio de licenciamento de produtos a partir de suas crias (Schulz ePeanuts, por exemplo), ele não se dobrou quando as pressões vinham de todos os lados.

Preferiu, no último dia do ano de 1995, parar de publicar depois de quase 10 anos unanimemente bem sucedidos, à sua maneira. Mas, antes disso, discutiu com quase todos os sindicatos de cartunistas que se dobravam às exigências flutuantes dos jornais, responsáveis pela publicação dos trabalhos de seus associados.

Restrições do espaço onde as tiras eram publicadas e irritantes pedidos de ursinhos de seus personagens e camisas e cuecas sendo estampados pelos mesmos foram as causas maiores de esbravejamentos a favor da integridade do seu trabalho. Ele manteve uma atitude tão coerente sobre isso, que deixou de autografar os seus livros vendidos em uma livraria da família, depois que descobriu que os parentes estavam vendendo esses exemplares por preços mais altos na internet.

À medida que seu público crescia, mais vozes se juntavam ao coro de quem não se contentava só com a tira, querendo algo mais físico para ostentar um falso sentimento de apreciação desmedida. Esses malditos só aumentaram a ira e o sentimento de reclusão em Bill Watterson, que não só pôs um fim em seu trabalho, como vive em quase completa reclusão midiática desde então.

De acordo com a Wikipedia (se precisarem de uma fonte mais confiável, boa sorte em procurar o cartunista), Watterson fez apenas cinco aparições na mídia até hoje, desde que parou de publicar novas tiras de Calvin and Hobbes: em 1999, 2005, 2007, 2008 e 2010, para falar ou de Charles Schulz (criador de Peanuts, de quem Watterson é fã ardoroso), ou do fim do seu trabalho mais famoso ou do cartunista Richard Thompson, autor da tira Cul de Sac.

Na última entrevista que deu, explicou que a decisão de parar de criar novas tiras de Calvin and Hobbes foi puramente criativa. “É sempre melhor sair da festa antes do fim”, disse, prevendo que, se continuasse, iria se tornar um rascunho de si mesmo e que os próprios fãs que idolatram sua obra hoje estariam desejando a sua morte.

Ocasionalmente, ele deve topar com um adesivo que mostra o um Calvin com cara de mau em atos despidos de pudor e suspira de alívio, imaginando o estrago desproporcionalmente maior, caso tivesse dito “sim” para o consumo de coisas que ficam bem melhor assim, só em desenhos: