Como uma boa ficção pode se valer de inúmeros suportes para ser contada, ao longo desses milênios todos em que as narrativas se espalharam por paredes de cavernas e telas de IMAX, uns suportes acumularam mais respaldo que outros, na medida em que a diversidade de histórias contadas através desses de menor prestígio foi se limitando e se repetindo. No Brasil, em alguns círculos, um livro premiado sempre vai ser melhor que o horário nobre da Rede Globo. Avenida Brasil vem fazendo desse achismo um equívoco desde que o último livro nacional realmente bom foi premiado (Modesto Carone?).

Comecei a acompanhar a novela de João Emanuel Carneiro um mês antes da reviravolta do 100º episódio, o muito divulgado e comentado início da vingança de Rita contra Carminha. Como foram muitos os comentários sobre a qualidade da ficção de Avenida Brasil feitos por gente bem distante do público cativo de donas de casa noveleiras, decidi esperar um pouco mais para ver até onde o autor conseguiria sustentar esse patamar e até onde o público “formador de opinião” continuaria se importando.

O autor e seu time de roteiristas só melhoraram a qualidade da novela desde então. Já o público “diferenciado” parece que deixou de se importar uma semana depois, tão logo aquele post do Xico Sá com 10 razões “cabeçudas” para ver a novela foi dando espaço a sua velha ladainha de CHIFRE É BOM, CHIFRE É DAORA. No twitter, pararam de contar os episódios. Nem sei porque começaram, mas ficou a impressão de que é fácil contar a partir de 100, mas depois de 110, a coisa fica complicada.

Se deixaram de acompanhar, estão perdendo justamente a melhor fase da novela. A fase em que até a direção dos passos de cada um dos personagens principais (os envolvidos diretamente na disputa Rita X Carminha) é difícil de apontar. Com o início da vingança, a trama só conseguiria manter o interesse do público se colocasse a disputa em pé de igualdade, com cada um dos lados de posse de provas e dinheiro o suficiente (o trabalho que Rita e Carminha dão aos seus contadores poderia ser explorado em uma minissérie emocionante) para esticar e diversificar as chantagens. Justamente o que aconteceu: Rita tem as benditas fotos para arrancar o que quiser de Carminha; e a falta de juízo de Carminha lhe dá licença para matar de imediato assim que sua paciência se esgotar.

Essa tensão entre as duas, de baixo do mesmo teto da mansão do Divino, colocou Avenida Brasil no quase inalcançável patamar das ficções em novelas: o patamar da imprevisibilidade.

Novela geralmente é um troço chato porque você consegue detalhar os 150 episódios seguintes vendo os 15 primeiros minutos do capítulo de estreia. Com comédias românticas, por exemplo, isso também é regra. Mas ao menos as melhores apresentam diálogos e situações originais antes do final óbvio, segurando o nosso interesse. Diálogos e enredos de novela parece que são retirados de um globo gigante de bingo, contendo centenas de papeis com as situações e dizeres mais comuns da nossa existência. Para uma nova novela, um novo sorteio reordenando esses papeis.

Tente resumir o que já aconteceu em Avenida Brasil até agora e perceba você mesmo como a trama é bem mais complicada do que o usual “cara encontra a mulher da sua vida em local distante do país, os dois voltam para o Brasil, mas seus futuros já estavam traçados pela família/convenções sociais/segredos do passado até que finalmente o poder do amor (ou um assassinato misterioso) supera tudo, descambando em um último episódio com igrejas e maternidades superlotadas”.

Carneiro ainda conseguiu se desviar da repetição de troca de posições entre vilã e mocinha que fez em sua novela anterior, A Favorita, para acinzentar ainda mais as índoles de Rita e Carminha. Para um bom termômetro, pergunte a sua mãe ou tia quem elas acham que é do bem e quem é do mal na novela. Talvez elas nem saibam responder a essa altura do campeonato, especialmente com o segredo sobre a criação de Carminha ameaçando transformá-la em uma vítima do sistema. Pergunte também se Nilo e Max, dois dos parasitas mais sensacionais da ficção, merecem uma bala na cabeça ou um colo materno.

Agora, repita essas perguntas depois de um outro episódio. Com personagens tão convincentemente flexíveis, a carga de imprevisibilidade da novela só aumenta, assim como o interesse em descobrir o que vai acontecer logo em seguida, principal requisito de qualquer ficção que queira garantir a sua atenção até o final.

E justo no mês de comemoração do centenário de Nelson Rodrigues, Carneiro faz com que o público cativo e meio carola de novela engula como entretenimento dois formatos incomuns de família. Nas tramas secundárias (até essas melhoraram consideravelmente depois da reviravolta central) Cadinho agora é casado oficialmente com três mulheres, as madames mais realisticamente irritantes daquele lado do Pão de Açúcar (se Manoel Carlos, essa gola roulet em formato de gente, já mostrava o Rio de Janeiro como um lugar mais irreal que a Terra do Nunca, depois de Avenida Brasil, suas novelas serão tão válidas quanto suas piadas). Suelen, Roni e Leandro agora dividem o mesmo teto, um threesome tão óbvio que até sua avó já entendeu a piada.

Se nada disso lhe convencer (a novela ainda tem os diálogos mais engraçados da TV aberta desde nem sei quando), vale como último e, ao menos para mim, inegável argumento: S-U-E-L-E-N. Não consigo lembrar de outros trabalhos de Ísis Valverde e tenho cá minhas dúvidas de que sua beleza se mantenha com tanta ARDÊNCIA ACACHAPANTE sem os trejeitos de sua personagem: as munhecas penduradas, o andar evoluído para um constante rebolado, as gírias que fazem com que ela trate qualquer estranho com intimidade e, por último, o incurável fogo na bacurinha. É a coadjuvante que vai se sobrepor aos protagonistas em nossa memória coletiva, muito, muito depois da reprise em Vale a Pena Ver de Novo.