/// Os melhores vídeos de hoje

O primeiro é, inevitavelmente, essa edição sensacional das reações de almas mais sensíveis ao nono episódio da terceira temporada de Game of Thrones, exibido na noite de ontem. Se já assistiu, é a melhor cura para o vazio que tomou conta de você quando os créditos finais subiram. Se ainda não viu, sinto muito pela frustração de tentar fugir dos spoilers ao longo do dia. O vídeo não entrega o que acontece com quem (a não ser que você seja muito bom em identificar quem está soltando os grunhidos de agonia pelo áudio das TVs). E, se nunca tiver visto a série, esse vídeo é a melhor maneira de convencê-lo a finalmente se importar com aquele bando de escrotos. Pô, a última vez que vi tanta reação extrema de uma só vez foi quando “2 girls 1 cup” foi divulgado, e Game of Thrones nem precisou apelar para lesbianismo e dejetos para incitar tanta ira.

Imagem de Amostra do You Tube

O segundo é o novo vídeo do Vampire Weekend, para a música Diana Young, a faixa mais animada do novo disco dos caras, Modern Vampires of the City (na Vip de junho, que já está nas bancas, tem uma mini resenha sobre [spoiler alert: é bem incrível]). Tem um bocado de artistas, como Sky Ferreira, Dirty Projectors, Santigold, Hamilton Leithauser (vocalista do The Walkman), Chromeo e um cara numa máscara, reunidos numa Santa Ceia regada a champanhe e maconha, certamente a reprodução mais fiel do acontecimento original.

Imagem de Amostra do You Tube


/// A gente já entendeu, Justin

Antes de mais nada, atentem para essas duas imagens:

Na Vip de abril, que chega às bancas no dias 29 de março, resenho The 20/20 Experience usando a quantidade exata de superlativos que a música do terceiro disco de Justin Timberlake merece: muitos. Quanto as letras, parece que o cara ainda não trocou o jeans lavado da imagem acima pela suit & tie que se gaba justamente de saber exibir por aí.

Não que se possa exigir muita proficiência verbal de alguém que faça música pop. Mas até a concorrência de ritmo duvidoso mostra alguma esperteza quando escreve uma letra para virar hit. De cabeça, lembro de Carly Rae Jepson e Taylor Swift, que cantaram dois dos refrões mais gozadinhos de 2012 em Call Me Maeby e We Are Never Ever Getting Back Together.

E é bom lembrar da autoria: os créditos da primeira vão para Jepsen e um outro cara, enquanto Swift precisou de mais dois letristas para escrever seu hit mais aturável (agradável, até). A música com a letra menos vergonhosa de 20/20 precisou de – atenção porque aí você percebe que é um trabalho muito árduo não fazer uma música para o gosto popular soar tão derivativa – OITO PESSOAS.

A letra de Suit & Tie, uma música sobre “os prazeres de ser bonito e bem vestido”, usou a mesma força tarefa necessária para erguer um prédio de 10 andares (de acordo com uns dados que recolhi andando pela vizinhança). Com exceção dessa, as outras nove faixas de 20/20 arrepiam ainda mais no maior (e único) problema de FutureSex/LoveSounds: a autoafirmação excessiva.

Justin tem uma voz fina e a usou para iniciar sua carreira como líder de uma boy band. Por mais moderno que seja esse mundão, esses ainda são dois sinais de ausência de masculinidade. Não ajuda que os promoters do ‘N Sync tenham feito a banda atravessar quase uma década de existência forçando os caras a usarem um vestuário feito de ideias descartadas do Ronaldo Ésper.

Quando Justin percebeu que tinha algum talento próprio e planejou a sua carreira solo, decidiu que só com muita referência escancarada ao fato de que gosta mesmo de mulher, apesar da voz fina e de uma boy band no currículo, para apagar um passado tão bandeiroso. E é uma temática muito nobre, mas vem executando-a da maneira mais limitada possível: sem um adendo cômico, sem o uso de qualquer metáfora criativa em uma afirmação tão abusadamente repetida, sem uma nesga de vergonha em usar a própria voz para dizer que “é o melhor cara que há por aí”.

Obviamente, o mundo da música pop tem egos maiores do que a circunferência de Timbaland, mas os melhores conseguem transformar a necessidade de autoafirmação em letras inesperadamente criativas, tornando mais aturável para o público ouvir pela enésima vez que seu artista favorito venceu na vida, decorou nomes de marcas e que come tantas mulheres quanto consome Chandons no café da manhã.

Jay-Z e Kanye West estão no topo da cadeia alimentar por saberem fazer exatamente isso: “I’m planking on a million”, verso de Gotta Have It, tem cinco palavras e cumpre muito bem todas as suas funções: esclarece a autoafirmação, é engraçado e inesperado e ainda faz referência (e justifica a existência) de uma prática bocó dos nossos tempos.

Tudo bem que a autoafirmação de Justin não é material, é sexual. Só que outro cara de voz fina e trajes espalhafatosos construiu uma carreira inteira em cima de letras de autoafirmação no campo do lovemaking, aumentando e mantendo em altíssimo nível o padrão de comparação para qualquer um que queira se aventurar nesse terreno. Não vou nem invocar um clássico de Prince. Segue um trecho de International Lover, música que encerra o sensacional álbum 1999:

Good evening / This is your pilot Prince speaking / You are flying aboard the Seduction 747 / And this plane is fully equipped with anything your body desires / If for any reason there’s a loss in cabin pressure / I will automatically drop down to apply more / And to activate the flow of excitement / Extinguish all clothing materials and pull my body close to yours / Place my lips over your mouth, and kiss, kiss, normally / In the event there is over excitement / Your seat cushion may be used as a flotation device.

Nem parece, mas essa é uma balada, cantada lentamente para que a gata não perca nenhum detalhe da cantada do Prince. São versos tão constrangedores pela ótica do bom senso, mas tão criativos em sua finalidade (autoafirmação sexual), que Prince poderia dar aulas em Harvard com o tema “Metáforas Sexuais no Pop: Síntaxe, Safadeza e Originalidade”. Não tem recanto da gramática que ele não tenha utilizado como base para dizer de um jeito diferente que curte uma vagina.

Agora, trecho de Spaceship Coupe, uma das músicas mais fracas de 20/20 e que, como International Lover, usa transporte aéreo como metáfora sexual:

We can’t take an airplane / Where we’re going is way too high / Going where the day sky turns into night / I got the windows special tinted for the stars that get too bright / And I saved you a seat, so let’s ride / Hope into my spaceship coupe / There’s only room for two / And with the top down / We’ll cruise around / Land and make love on the moon / Would you like that?

Whoa, que pena da gata que tenha ouvido esse convite do Justin. Não só deve ter dormido de tédio no quarto verso (porque raios ela vai querer saber que ele colocou vidro fumê na caranga espacial?), como acordou só para soltar um sonoro “pfff” quando ouviu o convite para fazer amor na lua. Essa também, infelizemente, é uma balada: o ritmo lento deixa todo esse amontoado de cantada de encanador (que, imagino, esteja uma escala abaixo da de pedreiro) ainda mais audível.

No novo disco, ele ainda inventa os termos mais retardados e inadequadamente infantis em Strawberry Bubblegum para se referir a vagina (“chiclete de morango”) e pênis (“pirulito de mirtilo”). Essas escolhas só não são passíveis de queimar numa fogueira em praça pública porque a música é bem sensacional.

Justin já é um cara casado, seu currículo de mulheres é mundialmente conhecido e o ‘N Sync acabou há mais de uma década. Se a ideia é continuar insistindo na autoafirmação sexual, rouba as ideias de letras do Prince também. Se aprendeu com o cara a fazer música pop de verdade, não deve ser tão difícil aprender a escrever letras além do nível “estava no avião tomando leita moça / meu pai foi mais esperto e comeu a aeromoça”.


/// Celeste, Jesse e a melhor trilha de 2012

Celeste e Jesse para Sempre (em exibição nos cinemas) deveria ter chamado mais atenção, ao menos pelo nobre esforço de escapar dos sólidos clichês de comédias românticas. A começar pela premissa: o filme inicia quando o casal principal já está separado e, pelo motivo rapidamente mostrado, é uma decisão sem volta. Jesse é um largado, que faz bicos de designer e mora no quarto dos fundos da ex-namorada, Celeste, que é tão bem-sucedida, que seu quarto dos fundos tem sala, cozinha, quarto e banheiro.

Sendo a incompatibilidade financeira (ou desajuste de ambições) o principal motivo do fim do relacionamento, eles terminam o casamento e conseguem manter uma relação bem convincente de amizade, já que o motivo do fim não foi por falta de confiança, traição, ou algo que deixasse algum resquício emocional negativo. Até que Jesse engravida, sem querer, uma das suas ficantes, sente a obrigação de finalmente amadurecer e Celeste percebe que o cara que tanto gosta finalmente está trabalhando no único aspecto da vida dele que não a agradava.

Taí um desenvolvimento genuíno em comédia romântica, mas que resulta em um impasse manjado: Celeste quer retomar o relacionamento com Jesse justamente quando ele faz a fila andar. Como os dois não tem não volta, grande parte do filme se ocupa em mostrar como Celeste vai da negação à superação dos seus sentimentos por Jesse, fazendo uma parada quase imperceptível no quesito “aceitação” e se tornando um fardo na vida dos amigos e de todos os caras que tentam dar em cima dela.

O que distância Celeste e Jesse - especialmente sua porção meio Bridget Jones – das comédias românticas melosas é o fato de Rashida Jones, que a interpreta e roteirizou o filme, ter construído uma personagem impossivelmente atraente, e não só para o público feminino (que deve se identificar com as lamúrias que uma situação do tipo provoca). Mas principalmente para o masculino.

Algumas sequências do filme mostram Celeste alugando os ouvidos de caras que, como de costume, só se submetem a esse tipo de conversa pensando no sexo depois da chorada no ombro. Os caras do filme pensam e dizem isso, mas antes, esperam consolá-la também do jeito convencional, porque ela realmente é uma boa companhia: engraçada pra caramba, bebe, fuma, disfarça decepção amorosa com umas danças constrangedoras na balada. E é a Rashida Jones, a atriz mais beleza carioca daquelas bandas.

Celeste e Jesse para Sempre, mesmo com uma protagonista mulher, se estende para além do “feito para mulheres” de um jeito tão consciente e bem sucedido, que, às vezes, parece algo dirigido por Judd Apatow. Há ainda o clima bacana e quase ininterrupto de balada do filme, ajudado pela trilha sonora mais original de 2012: uma mixtape formada por indies e faixas soul bem distantes de escolhas óbvias. Aqui, uma compilação de todas as ótimas músicas executadas no filme.


/// Pulp, festivais fracos e shows para ver ainda em 2012

Com raras exceções (Justice? Tv On The Radio?), nenhum dos melhores shows de 2012 aconteceu nos principais festivais de música de São Paulo. A apresentação dos britânicos do Pulp na noite de quarta-feira, dia 28, no Via Funchal, em São Paulo, só inflou o pacote de argumentos de que a curadoria desses eventos (Lollapalooza, Planeta Terra, Sónar) foi especialmente equivocada em 2012. E, se contarmos a partir dos excelentes shows da Feist (que aconteceram nos dias 22 e 23 de outubro em São Paulo, e no dia 24, no Rio de Janeiro), a programação desse último trimestre dá um line-up bem mais decente que os desses três festivais*.

Se, por um lado, ver um show da sua banda favorita num lugar onde ela é a única atração garante uma experiência ainda mais completa, por outro, sua conta bancária é quem mais sua nessa maratona. Com o preço do ingresso de um dia de festival na média de R$ 200, e cada apresentação de uma banda isolada cobrando cerca de R$ 150, se você sacrificasse seis shows ao longo do ano, conseguiria ir a ao menos um dia de três festivais diferentes, com a possibilidade de ver cinco bandas por dia, ao invés de apenas uma. E economizando um outro bocado em transporte e bebidas. Mas quem, de posse de ao menos 15% de saúde mental, deixaria de ver nem que fosse apenas a execução da música This Is Hardcore ao vivo por um dia do Lollapalooza Brasil 2012?

Esse momento do show do Pulp foi o ápice de uma apresentação que durou 2 horas e 20 minutos, nunca se alongou em pausas por mais de três minutos (nem durante os dois intervalos que precederam os bis) e mostrou um Jarvis Cocker com uma vontade de agradar o público bem superior a 90% dos vocalistas que apalparam mulatas no Brasil em 2012.

Foi além do “tudo bem?” em português (falou de “massa” a “sinistro”) e rebolou e desmunhecou o suficiente para ser a síntese perfeita de todos os tios bêbados em festas de casamento ao redor do mundo. A longo prazo, provou que, assim como os shows da turnê do Pavement em 2010, reuniões de bandas tão sensacionais como essas têm que acontecer ao menos de cinco em cinco anos, não importa que sejam motivadas especificamente pelo dinheiro (nada de material novo, músicas executadas no palco sem mudanças significativas das versões do disco). Quem cria álbuns como Different Class e Crooked Rain, Crooked Rain, tem moral para brincar com nossa memória afetiva sem culpa nenhuma, de ambos os lados.

Sublinhar a execução de This Is Hardcore como o melhor momento de um show do Pulp, que caprichou absurdamente na empolgação ao executar hits mais famosos e mais velozes, como Common People, Babies e Mis-Shapes, é fugir da redundância: esses hits provocariam pulos coreografados de 100% do público presente mesmo se fossem tocadas em versão “pau e lata”. Mas, tanto This Is Hardcore como outras músicas menos óbvias da banda, como Like A Friend, Sunrise e Bar Italia, pegaram de surpresa parte do público que, se não respondeu com a mesma empolgação, ao menos ficou quieto sustentando um olhar de reverência hipnótico em direção ao palco. Quem conhecia mesmo o Pulp, talvez nunca mais se esgoele tanto ao cantar junto com um vocalista numa apresentação ao vivo.

*Abaixo, uma lista com breves comentários dos ótimos shows que devem acontecer no Brasil ainda esse ano (devem né, taí a cadela doente da Fiona Apple para estraçalhar nossas expectativas):

Dirty Projectors

Os zé-doidinhos dessa ótima banda novaiorquina tocam daqui a pouco no Rio de Janeiro, no Circo Voador, com ingressos de R$ 70 a R$ 140. Amanhã, tocam em São Paulo, no Cine Joia. Os ingressos para essa apresentação já estão no segundo lote, de R$ 60 a R$ 120.

Supercordas

Nesse fim de semana, fazem em São Paulo o último show do ano. A Mágica Deriva dos Elefantes é tão bom que até sem a ajuda do “nacional”, continua entre os melhores discos de 2012.

01/12 – São Paulo
Studio SP
De R$ 15 a R$ 40.

Ben Kweller

Ah, Ben Kweller! Meu eu de 15 anos custa a acreditar que vou finalmente ver um show desse cara ao vivo (se Grandaddy e Eels se apresentarem por aqui nos próximos meses, volto a usar camisa básica da C&A diariamente, em memória a esses anos de outrora). E ele continua gravando boas músicas. Esse ano, lançou Go Fly A Kite: ótimo título, faixas meio automáticas (até para os padrões Ben Kweller), mas You Can Count On Me vale umas centenas de audições. RunSha Sha, aquela e outras tantas já fazem desse show um melhor que metade do line-up do último Terra.

04/12-São Paulo
Sesc Vila Mariana
De R$ 6 a R$ 24 (e ainda tem o custo/benefício mais alinhado com as diretrizes econômicas do Brasil)

06/12-Rio de Janeiro
Imperator
De R$ 40 a R$ 80

Norah Jones

Tem que ser um ser humano muito derrubado para não gostar de Norah Jones. Ainda mais depois da sua participação no filme Ted, onde prova que tem um senso de humor bem desprendido. E ela tem uma vontade constante de ampliar o escopo da sua música, como a excelente Sinkin’ Soon e o seu mais recente disco, Little Broken Hearts, provam. Os ingressos para os shows em São Paulo (15/12) e no Rio de Janeiro (16/12) já estão esgotados. Para a apresentação em Porto Alegre (12/12), os ingressos custam de R$ 170 a R$ 240. Clique aqui para mais informações.


/// Top 5 candidatas a proibidões das baladas

À esquerda, The Party God

Dia desses, numa maratona não planejada, acabei indo ao menos em duas baladas por noite ao longo de um fim de semana e escutei em 70% das discotecagens a mesma música, uma com mais de 30 anos de idade, de ampla aceitação entre o público, mas que é tão executada, que já deveria ter esgotado a sua cota de rotatividade no mundo há ao menos uma década.

Claro que sou eu quem está errado. Tivesse ficado em casa mais tempo, teria economizado uma grana e ganhando uns cinco anos extra de vida útil do fígado. Mas ouvindo em um curto espaço de tempo discotecagens de dê-jotas variados, foi fácil perceber que a aparência entre eles é inversamente proporcional ao gosto por escolhas óbvias no som.

E não é só mandar uma Satisfaction entre uma música do Ty Segall e outra do Dismembermant Plan. É tocar uma seleção de duas horas que mais parece um best of dos best ofs da Jovem Pan lançados nos anos 90. Músicas tão manjadas, que o pagodeiro desavisado que entrou na balada errada vai saber cantar ao menos o refrão de todas as músicas escolhidas pelo DJ, que usa camisa do Sonic Youth para não passar a mensagem errada, mas é pego na mentira quando toca o combo mais repetitivo que fast forward em filme pornô formado por Rage Against the Machine, Pearl Jam e Alice in Chains.

Para tentar colocar alguma sensibilidade na cabeça dos dê-jotas desse Brasil, segue um top 5 das músicas que deveriam ser proibidas em discotecagens de baladas indie/rock/eletrônica/pop e subgêneros. Longe de querer ensinar vossas senhorias a fazer vossos trabalhos (até dias desses, minha banda favorita era Diante do Trono). Mas é porque é chato pra caramba pagar umas dezenas de reais para escutar músicas de alta rotação no táxi, no supermercado e na casa do tio do pavê.

5º) Rock The Casbah – The Clash

Tremenda música de uma tremenda banda. Mas até o grupo menos connoisseur de cultura pop desse país (políticos? ufanistas?) deve conhecer a piada da “Charlize, que saudade!”, de tanto que ouviram nos by nights das FMs, e quiçá AMs, do Brasil desde que foi lançada, no longínquo ano de 1982.

Substitua por: Look Here, do incrível e, caramba, ainda meio ignorado Sandinista!

 4º)  Killing in the Name – Rage Against the Machine

Quando tocam essa, qualquer pessoa sensata sai no prejuízo: as mulheres são enxotadas da pista, empurradas pelos caras que ainda classificam músicas em seus iPods como “rock nacional” e “rock internacional”. Esses mesmos caras acham que todos curtem um corpo a corpo violento mediado por muito suor. E raios! Para cada minuto de atenção que vocês dão a essa banda, um yuppie de Wall Street enrica na base de uns 2%. É uma pena que, com tanta internet por aí, esses caras ainda consigam formar público novo entre pessoas que acreditam que o efeito é justamente o contrário.

Substitua por: combata a crítica de condomínio fechado com ironia em estado puro: a banda de pagode evangélico do ex-jogador Marcelinho Carioca, Divina Inspiração. Não é um Raça Negra, não é um É o Tchan, esses que a indiezada já adotou há um tempo. É um troço que nem o Carioca deve lembrar que já existiu. É futebol, pagode e cristianismo juntos, numa colisão de Brasil pré-Lula que deixaria até Sérgio Buarque de Holanda sem jeito. E qualquer um com mais de 20 anos vai lembrar na hora ao menos dos primeiros versos, as minas vão chamar outras minas “porque vocês não vão acreditaaaaaar no que tá tocando”. Enfim, só vantagem.

 3º) Bizarre Love Triangle – New Order

Parece que o gosto incansável por essa está intimamente ligado à descoberta de drogas mais pesadas pelas pessoas que ainda se importam com com a execução pública do clássico do New Order. Perceba que, quando tocada, a pista lota de gente com mais de 30 anos, se movendo em velocidade colombiana.

Substitua for: se a ideia é manter esse grupo demográfico animado, vá de Can’t You Hear Me Knocking, uma das melhores, mais animadas e menos executadas músicas dos Rolling Stones em pistas desse (ouso dizer) mundo. Vai trocar uma de sete minutos por outra de mesma duração, suingue superior e escolha bem mais surpreendente.

 2º) Lust For Life – Iggy Pop

Enquanto vocês refletem sobre a execução excessiva dessa música desde que foi lançada, aproveitem e pensem também sobre como Cova Rasa é bem superior a Trainspotting.

Substitua por: qualquer uma do The Stooges. The Stooges está sempre em falta nas casas de esculhambação desse país.

 1º) Psycho Killer – Talking Heads

A música a qual me refiro no primeiro parágrafo desse apanhado de generalizações rasteiras (mas reais ^^) é essa. Nem preciso elaborar muito sobre a necessidade urgente de criminalizar quaisquer execuções futuras dessa música do Talking Heads. A sagacidade do dê-jota que toca essa nos dias de hoje tá no nível da desses caras: http://www.youtube.com/watch?v=6RUKolPEsDA

Substitua por: não entendo como LCD Soundsystem ainda é tão pouco tocado nas quebradas. Quando a banda ainda estava por aí, qualquer dê-jota de churrascaria alardeava seu amor  incondicional pelo James Murphy. Mas, tirando uma All My Friends aqui, uma Daft Punk Is Playing At My House ali, é raro ouvir alguma coisa da banda em baladas. E até já acabou. Se dê-jota óbvio é dê-jota que só toca velharia óbvia, pode usar isso como desculpa. Com 30 megas de conexão chegando até no interior do Ceará, LCD Soundsystem já pode ser considerado tão antigo quanto Mozart. A essa altura, uma música como Yeah deveria ser primeiro lugar nessa lista, de tão obviamente massa e não-ignorável que é, a primeira escolha de qualquer dê-jota preguiçoso. Mas segue reclusa a fones de ouvido, a saída menos recomendada para se ouvir essa catarse de awesomeness.

 P.S.: o link da imagem do texto é um gif da animação Adventure Time, uma das coisas mais criativas e engraçadas já veiculadas na TV desde que Henry Winkler pulou sobre um tubarão em Arrested Development.


/// Melhor vídeo do ano?

O vídeo acima é o da música “Set It Off”, do breve ep Express Yourself, do produtor Diplo. Dirigido por Ryan Staake, a premissa do vídeo é uma pergunta que você provavelmente nunca se fez, mas que, finalmente respondida, parece o questionamento mais importante desde a descoberta da eletricidade: quantas strippers são necessárias para se chegar na estratosfera? Reserve ao menos meia hora do seu dia antes de dar o primeiro play. Com pouco mais de três minutos, você vai querer ver ao menos umas dez vezes seguidas.


/// Mixtape dos corações inflados

A mixtape de hoje vem a calhar num domingo: só músicas sobre sentimentos nobres. Não necessariamente lentas ou tristes, também não só sobre mulheres. A do Harry Nilsson é sobre seu filho; a do Kanye West, sobre sua avó; a do Auerbach, sobre a sua casa. Mas todas muito sinceras, pendendo mais para uma sensação de satisfação com o estado das coisas ou ao menos otimismo em relação a elas, do que para arrependimento ou autopiedade. Abaixo, a lista de músicas e seus respectivos discos.

01 Harry Nilsson – Little Cowboy I e II (Aerial Ballet)

02 Josh House – Italian Dry Ice (Country Mouse, City House)

03 Alison Krauss – Down to The River To Pray (“O Brother, Where Art Thou?” Soundtrack)

04 Pavement – Newark Wilder (Crooked Rain, Crooked Rain)

05 Ride – Starlight Motel (Tarantula)

06 Rolling Stones – Sweet Virginia (Exile On Main St.)

07 The Kinks – Little Miss Queen Of Darkness (Face To Face)

08 Kanye West – Roses (Late Registration)

09 Gordon Jenkins – Maybe You’ll Be There (The Very Best Of)

10 Dan Auerbach – Goin’ Home (Keep It Hid)


/// Mixtape sabor churrasco

Essa é a primeira mixtape que Cabeça apresenta, só apertar o play aí em cima. A ideia é postar uma por aqui sempre nos fins de semana, para evitar que você tenha que forçar a vista em dias de tão merecido descanso. A de hoje foi feita para animar um churrasco ou qualquer reunião que necessite de uma trilha animada, que divirta, mas não interrompa as conversas com barulhos exagerados. Quem quiser sugerir temas para as próximas mixtapes, só exercer o seu direito na caixa de comentários. Abaixo, a lista de músicas escolhidas e seus respectivos discos entre parênteses, caso queiram ir atrás do pacote completo.

01 Beck – Bottle of Blues (Mutations)

02 Beach Boys – It’s About Time (Sunflower)

03 Unite 4 + 2 – Concrete & Clay (#1 Featuring Concrete And Clay)

04 The Roots – Kool On (undun)

05 Stephen Malkmus – Malediction (Face The Truth)

06 The Avalanches – A Different Thing (Since I Left You)

07 Real State – Kinder Blumen (Days)

08 Sondre Lerche – She’s Fantastic (Phantom Punch)

09 Spoon – They Never Got You (Gimme Fiction)

10 Father John Misty – Well, You Can Do It Without Me (Fear Fun)


/// Rock psicodélico com conhecimento de causa

 

Os australianos do Tame Impala estão por aí desde 2010 engrossando a curta lista de coisas daquela região que valem muito a pena serem conhecidas (O Senhor dos Anéis, Flight of the Conchords, Nicole Kidman, fim da lista). Innerspeaker, o primeiro disco da banda, lançado em 2010, colocou na roda um rock psicodélico feito mais com conhecimento de causa do que como projeto de marketing (o Wolfmother, adepto dessa última corrente, fez um sucesso que durou o tempo de uma badtrip).

Cada uma das 11 e ótimas faixas de Innerspeaker lembra um tanto de The Who (Lucidity), outro de Beatles (Desire Be Desire Go), outro de Led Zeppelin (The Bold Arrow of Time), mais um de Flaming Lips (Alter Ego) e por aí vai.

Prestes a lançarem o segundo disco, Lonerism, a banda se prepara para fazer suas primeiras apresentações no Brasil. De acordo com a notícia de um show recente em Nova York, as músicas do novo disco mostram que os caras do Tame Impala estão ainda melhores e mais seguros no som que fazem. No nosso caso, só vantagem na demora em desembarcarem por aqui.

A primeira das três apresentações da banda será amanhã, em São Paulo, na quinta edição do evento Mixtape, do canal Multishow. A festa será fechada, mas o show vai ser transmitido ao vivo, a partir das 22h, no site http://multishow.globo.com/Mixtape/ e no Multishow HD.

No dia 15, a banda faz show para público pagante no Cine Joia, também em São Paulo. Os ingressos custam de R$ 70 a R$ 140. No dia 16, se apresentam no Rio de Janeiro, no Imperator, com ingressos de R$ 40 a R$ 80. Abaixo, Elephant, primeiro e sensacional single do novo disco. Aproveite que todos os shows serão feitos em espaços que não comportam mais de 3 mil pessoas, o montante ideal de pessoas para compartilhar o que deve ser uma experiência sonora e visual memorável.

Update: O show será transmitido no Multishow HD às 23h30.


/// Especial Lawrence Arabia

James Milne é um músico neozelandês ainda desconhecido do grande público. Até mesmo do público PP. Enquanto nossos escavadores de novidades ainda se empolgam com as picaretagens de bandas como Two Door Cinema Club e The Vaccines, Lawrence Arabia (a alcunha em voga de Milne) vai, aos poucos, muito aos poucos mesmo, se fazendo ser ouvido por quem costuma ir além da página inicial da Pitchfork. Seu terceiro disco, The Sparrow, que acaba de ser lançado, já lhe rendeu ao menos uma página inteira na Rolling Stone americana desse mês.

Em 2006, Milne lançou dois discos: o primeiro e homônimo como Lawrence Arabia, e o ainda único com a banda The Reduction Agents. The Dance Reduction Agents é um disco em que quase todas as músicas começam como baladinhas e viram rockinhos nos refrões, como um adulto que tem um espírito excessivamente juvenil que se recusa a ser superado. As piadas nos vídeos e nas letras das músicas fazem os temas de amor juvenil e consequente sofrimento banal parecerem menos batidos, mais atraentes até.

“Waiting For Your Love” e “The Pool”, por exemplo, são os cartões de visita que toda banda iniciante deveria ter: agradam de imediato, porque sabem como transformar a produção tosca quase inevitável de todo início em charme extra. E, se precisar de uma música muito animada e completamente desconhecida para impressionar nas festas em seu apartamento, “80′s Celebration” deve provocar urros de “toca de novo!” (se não for o caso, selecione melhor os convidados da próxima vez).

 Lawrence Arabia dá o tom de todos os discos seguintes de Milne, onde ele abandona o golpe das guitarrinhas fáceis para caprichar ainda mais nas melodias infladas de Henry Nilsson, Zombies, Kinks e ressacas dominicais. Como Lawrence Arabia, ele segue mantendo o humor, mas apresentado de um jeito mais melancólico, especialmente em todos os seus ótimos vídeos.

 Abaixo, o de “Talk About Good Times”, que bem que poderia ser uma das músicas oficiais da hora de fechar do boteco da esquina.

 Chant Darling (2009), o segundo disco de Lawrence Arabia, talvez seja o meu disco favorito jamais listado em uma seleção de melhores. Bem produzido e uma beleza do início ao fim, tem observações distintas para cada estágio emocional de qualquer relacionamento. “Apple Pie Bed”, uma das músicas mais superlativas de Lawrence, tem um vídeo, de início, constrangedor. É uma festa do cabide da terceira idade, com muitos closes em áreas impróprias:

 Já o de “Auckland CBD Part Two” mostra o quão bonito pode ser um dia qualquer e solitário:

 O vídeo de “Beautiful Young Crew” é uma propaganda política do candidato Lawrence, com os obrigatórios documentos assinados e bebês abraçados mostrados com uma seriedade ainda mais engraçada.

 O primeiro single do novo disco de Lawrence Arabia é “Travelling Shoes”, que gerou seu primeiro vídeo comum: uma execução da música ao vivo com uma fotografia estilizada. O disco também reflete a mudança de foco. Em The Sparrow, ele troca o pop sessentista dos discos anteriores por um mais próximo das canções de Serge Gaisnbourg e do pop calculado de Talking Heads. É cedo para afirmar se a mudança foi benéfica. Gerando mais falatório em cima dele, isso vai ser um detalhe menor.