Primeira noite do Lollapalooza BR


OS ALTOS

Pontualidade: Todos os shows começaram com uma pontualidade tão exata que nem parecia que era no Brasil. Alguns tiveram a audácia de começar minutos antes da hora marcada. Com três palcos e shows acontecendo simultaneamente, essa exatidão só ajudou a vida de quem queria ver ao menos um naco dos shows das bandas que gostava (e estava com a resistência intacta para conseguir cruzar as distâncias nível Terra Média entre os palcos). Só o Racionais MC’s atrasou quase uma hora pra subir no palco. Brasileiros lembrando que aqui é o Brasil: melhor licença poética do festival.

Perry Farrell: Torço muito para que, em algum lugar, esteja sendo editado o documentário “As Loucas Aventuras de Perry Farrell no Brasil”. Se acontecer, é possível que seja mais divertido que o próprio Lollapalooza. No twitter do líder do Jane’s Addiction e fundador do festival, você vai encontrar as melhores pérolas do turismo acidental. Numa dessas, Farrell saiu para comprar repelente de insentos e voltou com veneno. Passou no corpo mesmo assim. Em todas as entrevistas que deu para a TV, estava mais chapado que macumbeiro recebendo exú, e sempre acompanhado de alguma moça de comportamento estranho e, possivelmente, fetiches sexuais idem. Ah, houve também a maravilha de ruído de comunicação entre entrevistado e entrevistador. Pouco antes do Jane’s Addiction subir ao palco, Farrell confirmou em entrevista para a Multishow que levaria O Rappa para a edição americana do evento. A repórter: “It’s revealed!”. Farrell: “Did you say I’m from de village?”. Tóim!

Matthew Schultz, do Cage The Elephant

Cage The Elephant: o primeiro show acima da média do festival. Os americanos se apresentaram na muito quente tarde de sábado e só ajudaram a aumentar a temperatura do local. Já na primeira música, o vocalista pulou para a platéia. Continuou fazendo isso ao longo da apresentação, ganhando os corações e as mentes dos jovens com a ajuda do espectro do Pixies em todas as músicas que executaram. O segundo disco da banda, Thank You Happy Birthday (EMI, R$ 29,90) foi lançado no Brasil recentemente e vale repetidas audições.

Peaches: A doida do eletroclash subiu ao palco vestida de peitos. Na primeira música, que incendiou o povão de imediato, o computador dela falhou, a mesma batida ficou em loop infinito, ela ficou irada, gritou com o pessoal da produção que estava na lateral do palco, jogou microfone no chão, deu uns cascudos no técnico de som e, quando tudo foi consertado, abraçou o cara e foi pra galera. Nunca pensei ver uma artista apanhando de um computador como uma mãe tentando programar um videocassete.

Tv On The Radio

Tv On The Radio: Fez o melhor show do festival. Pena que foi a última banda a tocar no palco Cidade Jardim antes do Foo Fighters e foi recebida por uma platéia mais indiferente que judeu a Jesus Cristo. Começaram com “Halfway Home”, uma música que, no disco, é mergulhada em produção pesada e que foi executada ao vivo com a mesma precisão (sinceramente) acachapante. Seguiram com “Dancing Choose” e “The Wrong Way”, duas maravilhas do swing barulhento e saxofônico. Apresentaram um setlist que deu atenção a músicas conhecidas e outras nem tanto de todos os quatro discos da banda. Dave Navarro, do Jane’s Addiction, deu uma palhinha no solo final de “Repetition”. Tocaram um cover do Fugazzi (!) e encerraram com a genial “Wolf Like Me”. O público só levantava as mãos quando as câmeras que registraram o evento passava por cima da platéia. Nesse nível.

Joan Jett

Joan Jett: a mulher já cruzou meio século de vida e tá tão inteira que deveria dar palestras motivacionais sobre.

Dave Grohl, do Foo Fighters

Foo Fighters: Para os fãs presentes (a quantidade de pessoas indiferentes à banda no primeiro dia caberia numa vaga de garagem do Hot Wheels), o Foo Fighters entregou bem mais do que o esperado. Duas horas e meia de show, músicas alongadas em solos de guitarra e bateria, piadinhas, um Taylor Hawkins que parecia o filho bastardo e desnutrido do Iggy Pop, Joan Jett dando uma canja, Dave Grohl se esgoelando, todos os hits de 17 anos de carreira e um público tão dado que, nas mãos de seitas erradas, seria capaz de destruir uma nação.

Friendly Fires

Friendly Fires: Se o som não tivessão tão fraco, quem estava há mais de 50 metros de distância do palco ouviria bem as versões esticadas e animadonas das músicas geralmente regulares do Friendly Fires. Clima de balada que atravessa a madrugada, só que em fim de tarde.

Skrillex

Skrillex: Haters gonna hate, mas a multidão que lotou o palco Perry para ver o Skrillex foi uma das platéias mais animadas do festival. Com imagens de projeção que iam de gifs famosos a trechos de musicais Bollywoodianos, passando por closes de bundas com tamanhos bem nacionais, o dj entregou um set que fez os pescoços mais duros se flexibilizarem ao eletrônico pesado criado pelo nome mais ascendente do gênero atualmente (e o cabelo mais ridículo).

Alex Turner, do Arctic Monkeys

Arctic Monkeys: Se o Quentin Tarantino fizer algum filme ruim na vida, o protagonista vai ser algúem parecido com o Alex Turner de hoje. O líder do Arctic Monkeys abandonou o estilo “cara normal” adotado ao longo dos dois primeiros (e melhores) discos da banda, para cultivar um visual caminhoneiro boliviano em crise de meia idade nos últimos anos. Felizmente, isso não estragou o jeito de fazer show dos caras. No palco, continuam sem firulas ou frescurinhas visuais, mantendo a velocidade da execução das músicas tão rápidas quanto as pausas entre uma e outra. E o setlist foca nas músicas da melhor fase da banda. “Brianstorm” ao vivo só a fortalece no posto de um dos melhores rocks surgidos na década passada. E aproveitar “The View From The Afternoon” e “I Bet You Look Good On The Dancefloor” da maneira que merecem é um dos testes mais difíceis para a saúde das suas pernas (foram executadas uma seguida da outra, do jeito que está no primeiro disco). Se o Suck It and See foi um álbum dolorosamente ruim, o show de ontem deu a entender que, talvez, essa seja uma má fase passageira.

OS BAIXOS

Segundo dia do Lollapalooza BR

Organização: No primeiro dia, o festival alcançou sua lotação máxima: 75 mil pessoas. Filas que cruzavam de uma ponta a outra o espaço do Jockey para comprar fichas, para pegar produtos e para os sanitários deixaram o lugar parecido com o labirinto de Pac-Man. Os palcos Perry e Butantã estavam colados. Quem não conseguia ficar próximo da grade do segundo, ficava bem no meio de uma pororoca formada pela colisão do som dos dois. Mas uma coisa muito válida seja dita: Tremenda ideia a de fazer um festival desse porte num lugar como o Jockey Club. Bem no meio de São Paulo, de fácil acesso, com espaço para alojar tudo o que um festival de grande porte precisa. Como foi o primeiro ano, é de se esperar que algumas falhas não sejam notadas durante o planejamento.

O Rappa: Apenas que >>houve boatos de playback<<

Foo Fighters: É difícil dedicar duas horas e meia de atenção para uma banda que não mostra quase nenhuma diferença na maneira como executa da primeira à última música. Depois de uma hora de show, só o fá mais dedicado (e só tinha esse tipo de gente por lá) conseguiu manter a empolgação intacta. E fã é um troço chato. Quem estava guardando lugar na plateia para ver o Foo Fighters quatro horas antes da banda subir ao palco tratava qualquer um que quisesse ver qualquer outra coisa feito lixo.

Calvin Harris: o dj entregou um set tão ordinário que parecia um cd-r com o top 10 da Jovem Pan.

Gogol Bordello

Gogol Bordello: se alguém quiser ver ciganos se comportando mal, não precisa se prostar em frente a um palco. Tá cheio deles no centro de São Paulo.

MGMT: os caras subiram no palco bem na hora que a chuva começou a cair no Jockey. Nem com a melhor iluminação natural possível (os raios eram constantes), a banda mostrava animação. A primeira metade do show foi até correta, quando executaram as músicas mais aceleradas do segundo disco e dois dos três hits do primeiro (“Kids” e “Electric Feel”). Na segunda parte, executaram uma música inédita, que mostra que o MGMT continua se esforçando para afinar a ruindade de suas composições, e outras igualmente irritantes. O estrago foi tão grande que nem “Time To Pretend”, penúltima música do show, trouxe de volta a atenção do público.

Line-up: Se o Foo Fighters foi a maior razão para que o primeiro Lollapalooza Brasil acontecesse, que trouxessem a banda para fazer um show no Morumbi e pensassem no festival como um evento de grande porte que precisa ser. Sem outro nome do mesmo peso do Foo Fighters, a banda quase conseguiu estragar todas as outras apresentações do primeiro dia (muito por causa do problema citado no parágrafo sobre o TV On The Radio) e desvalorizou o segundo dia. Tinha cambista dando ingresso na entrada do evento no dia 8. Comparando esse line-up com o do último SWU, o Lolla fica bem anêmico.

O SWU trouxe a possível última apresentação do Sonic Youth; o Kanye West no auge da sua popularidade (tinha acabado de lançar Watch The Throne e era “o” assunto em qualquer conversa sobre cultura pop); o Snoop Dogg e o Black Eyed Peas, os maiores arroz de festa de anos recentes; e aquela penca de bandas metal/stoner que inflaram o último dia do evento (Megadeth, Stone Temple Pilot, Faith No More, Alice In Chains). De novo, dá-se um desconto porque foi o primeiro ano do evento. Mas uma filial do Lollapalooza falhar no line-up é um defeito que mancha até a honra da matriz.

Fotos Primeira Noite, Cage The Elephant, TV On The Radio, Dave Grohl: Fernando Saraiva.

Todas as outras: Divulgação.