Blogie - Cinema da VIP Ricardo Garrido

Nosso blogueiro mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta

/// 5 razões pelas quais o novo Batman é o único filme de ação que importa

De uns tempos pra cá, tenho ficado cada vez mais refratário a filmes de ação e franquias de super-heróis. A repetição sem fim dos filmes em série e o tédio das cenas de ação digitalizadas ao limite (que, para mim, não trazem nenhuma diferença em relação a vídeo-games) simplesmente me cansaram. Não vi um dos X-Men, não vi uns outros três ou quatro recentes da Marvel (Thor, Hulks, Capitão América…) e não vi um outro Super-Homem que, desconfio, tenha sido lançado recentemente. Eu já vinha suspeitando de que se trata, acima de tudo, de uma questão da idade que avança  implacável, e que eu estou me tornando um cara chato. Mas daí aparece mais um Batman do Christopher Nolan e me restitui o prazer de ver um bom filme de super-herói. Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge é o único filme de ação que importa, e BLOGIE lista abaixo cinco provas irrefutáveis disso.

1- O roteiro inteligente equilibra personagens fortes e cheios de história, motivos, defeitos e manias, com uma trama complicada e, ao mesmo tempo, crível: dá para entender o que faz Bruce Wayne/Batman e seu parceiro Comissário Gordon retirarem o time de campo e observarem uma mentira ganhar os livros de História. Dá para entender – ainda que só no final – o que faz o maluco do Bane querer destruir Gotham City com seu exército de meliantes crescidos e treinados nos esgotos da cidade. Acima de tudo, dá para se surpreender com os “pontos de virada” do roteiro, com surpresas que vão nos deixar com a sensação de “como não pensei nisso?” O nome disso é roteiro, e faz uma falta danada a tantos outros filmes de heróis.

2- A delícia de todo o universo do Batman é que ele é recheado de personagens humanos, gente de carne e osso com família e emprego, e é bom se identificar com gente que nasceu no Planeta Terra e que costuma pisar numa calçada e comer uma broa no café da manhã. Com efeito, boa parte da graça de Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge está no ótimo trio de grandes atores e personagens que servem de família a Batman: Michael Caine como o mordomo Alfred (com maior destaque do que nos outros filmes, e com Caine entregando uma daquelas suas atuações, de dez em dez anos, que nos lembram de que ele é um dos maiores atores vivos), o executivo e inventor maluco Fox (Morgan Freeman) e o perturbado e contido Gordon de Gary Oldman. Outro tanto está nos novatos, o jovem tira bisbilhoteiro de Joseph Gordon-Levitt (de 500 Dias com Ela e A Origem); a deliciosa ladra cheia de senso de humor de Anne Hathaway (sexy, enfim); a milionária bonita e apaixonada por Wayne de Marion Cotillard; e, claro, o vilão da vez, Bane.  Bane é um sujeito que fala e respira feito o Darth Vader, e vejo aí uma descarada homenagem ao vilão de Star Wars, tantas são as referências: por exemplo, Bane mata um de seus jagunços com as próprias mãos, suspendendo-o no ar enquanto o estrangula (igualzinho acontece no primeiro filme da série de George Lucas); além disso, os embates do vilão com Batman são todos pontuados por calmas observações de Bane como “seus poderes são fracos”, além de elegias à força superior das sombras e das trevas (ou do “lado negro da Força”, as you wish). Homenagem à parte, Bane é gente de carne e osso e terá suas motivações reveladas ao longo do filme.

3- Christopher Nolan contextualiza a atual crise econômica mundial, de uma maneira inteligente, mas não pretensiosa nem idiota. O mais importante é que ele faz uma parábola para dar seu recado para o grande público (e um tapa na cara da turma do Occupy Wall Street e congêneres): tentar derrubar “tudo o que está aí” e botar abaixo o sistema não vai fazer do mundo um lugar melhor – especialmente se forem abandonados os pilares da democracia, sejam os populares como a ideia da justiça para todos, sejam os impopulares, como a polícia e o sistema bancário que mantém de pé a geração de empregos. Quando a coisa começa a engrossar pra valer em Gotham, pessoas são condenadas sem julgamento e se cria a falsa impressão de que a justiça está sendo feita. Mas o que está sendo feito é a aproximação com a barbárie – e, aí, Batman encontra Saramago e a situação não fica muito diferente de Ensaio Sobre a Cegueira. O horror.

4- O caos em Nova York (afinal, para Nolan Gotham City é Nova York com outro nome) é nas ruas e é levado para a vida das pessoas. O impacto destrutivo dos vilões é sentido no acúmulo de lixo nas ruas, nas lojas fechadas, na falta de comida, no cerceamento do ir e vir das pessoas comuns. Mais uma vez, é mais próximo de Ensaio Sobre a Cegueira (boa literatura) do que de Os Vingadores (mau cinema). Não se trata de destruir uns prédios aqui e ali, mas de como isso afeta a vida dos “civis”.

(Observação: continuo preferindo a Gothan City de Tim Burton, naqueles dois filmes de vinte anos atrás, pois ela é sombria e estilizada feito os quadrinhos; mas não deixo de aplaudir a decisão de Nolan por uma Gotham tão realista quanto é possível – talvez porque a Nova York real, com todos aqueles arranha-céus incrustrados numa ilha cuja ligação com o mundo dependa de meia dúzia de pontes, beire o inacreditável.)

Veja o trailer de Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge

Spoiler Alert: não leia se não quiser descobrir informações importantes que só são reveladas no final do filme!

5- No magnífico terceiro ato (e o terceiro ato previsível é o câncer dos filmes de ação), são abertas portas para mil possibilidades de continuação da franquia, e todas promissoras: um filme com Anne Hathaway como Mulher-Gato? Um filme sobre a transformação de Gordon-Levitt em Robin? Mais um Batman com Christian Bale? Tudo isso junto? Tudo pode acontecer. O mais divertido é a maneira como Batman espalha as dicas de que sobreviveu à hecatombe nuclear que ele carregou para longe: para Fox, a caixa preta dá o recado (o piloto automático fora consertado); para Gordon, deixou um holofote novinho em folha, como quem diz “precisando, estamos aí”; e para Alfred, o sonhado encontro involuntário num café na Toscana deixa o fiel escudeiro em paz. Genial.

Enfim, Nolan tem  muita coisa que falta a quase toda a concorrência: um talentoso e carismático elenco, personagens ricos e cheios de possibilidades, uma cabeça privilegiada para escrever roteiros ao mesmo tempo intrincados e verdadeiros e o cuidado visual de valorizar as pequenas lutas, a ação humana, em detrimento de grandiosos efeitos digitais (que, quando usados, encantam). E isso tudo vale mais um Batman, hoje e sempre.


/// Kristen e o diretor

Quer dizer que você cria umas intimidades com seus diretores? Conte-me mais.


/// Em cartaz: “Na Estrada”, de Walter Salles

Antes de tudo, a confissão: eu não li o clássico On The Road, de Jack Kerouac. Não sei dizer exatamente o que faltou: em momentos diferentes da vida, fui fã devoto de Bob Dylan, dos Beatles e do Jim Morrison, de modo que o fantasma da influência beat esteve sempre ali, me acenando com um exemplar do livro que tanto influenciou o estilo de vida rocker e a filosofia hippie. Mas o backlog de leitura se manteve crescendo, e o Kerouac foi sempre deixado de lado para dar lugar a qualquer outra coisa, de guias de viagens a literatura mais “séria”. Talvez tenha sido a lenda de que o cara escreveu seguindo o “fluxo da consciência”, tendo datilografado o livro inteiro em um único parágrafo, num pergaminho interminável (e eu sou meio fundamentalista quanto à composição de personagens e estrutura do romance, mas isso é outra história). Enfim, não li o livro e, com isso, o leitor terá agora o prazer de ler a primeira crítica a respeito do filme Na Estrada que não o coloca no banco dos réus, sofrendo a terrível comparação com o livro que lhe serve de matriz.

(Há de haver alguma vantagem na ignorância.)

Na Estrada é mais uma peça na série de road movies de Walter Salles. O cineasta brasileiro começou a carreira levando um jovem brasileiro arruinado pelo Plano Collor e pela morte da mãe para uma fria entre Portugal e Espanha, no belo preto-e-branco de Terra Estrangeira. Depois, botou Fernanda Montenegro ajudando um menino analfabeto a buscar o pai sertão adentro em Central do Brasil. E refez, em Diários de Motocicleta, os desbravamentos de um jovem Che Guevara pelo continente sul-americano, no período de formação que precedeu seus anos revolucionários. Era natural que a câmera de Salles resolvesse cruzar os EUA, o país que mais soube trasnformar a busca da felicidade em uma aventura física, territorial, em busca do ouro ou de qualquer outra explicação, de Atlântico a Pacífico. E Na Estrada casa bem com a simpatia do cineasta por personagens jovens e perdidos na vida, em busca da descoberta de quem são e pra que servem na vida.

Se há algo de novo no filme em relação ao resto da obra de Salles, é a maneira como a vida na estrada é reduzida a hiatos entre períodos de reflexão. Os críticos mais cultos do que eu reclamaram do tempo dedicado a eventos entre quatro paredes e do tédio retratado na tela, pois o que gostariam mesmo era de ver agito. Já eu gostei da maneira como Na Estrada (o filme) passa, meio assim passando, pelas viagens, tratando-as como breve iterações de vida entre os frustrantes períodos de Sal Paradise (o personagem principal, baseado no próprio Kerouac) tentando se convencer de que é um escritor de verdade e que conseguirá completar um livro. A primeira ida a São Francisco e as outras viagens não servem para o rapaz descobrir quem é; a bem da verdade, servem para ele ir se distraindo com umas drogas e umas transas, e para ele ir se frustrando com uma pessoa e com outra, até ele se cansar daquilo tudo e resolver contar tudo o que viveu. E, afinal, virou um escritor.

É fato que o espírito do filme é todo Dean Moriarty, o vagabundo aspirante a escritor cheio de vida que inspira Paradise e seus amigos urbanoides e intelectuais. O personagem é vivido com entrega total e muito carisma por Garrett Hedlund, de Tron – o Legado. Impressionante. Assim como é uma surpresa o desempenho soltinho e sexy de Kristen Stewart, uma moça que está se esforçando para se livrar da sombra de seu personagem mais famoso, a Bella de Crepúsculo. Aqui, ela é a amalucada Marylou, ninfomaníaca e protagonista da melhor sacanagem de estrada já filmada: uma das “grandes ideias” de Dean, no meio de uma viagem do nada para lugar nenhum, que termina com a moça e dois rapazes nus na direção do carro. Juntos. De alguma maneira.

Agora, o filme sofre – desconfio – da mesma doença de toda adaptação de algum livro muito importante ou cultuado: não pode querer dizer algo que já foi dito na matriz, então se limita a reproduzi-la com a maior fidelidade ou admiração possível. É o que estragou tantas adaptações de Fitzgeralds e Hemingways. Aqui, não chega a estragar, mas deixa um resultado muito bonito e um tanto insípido.

Veja o trailer de Na Estrada!

Resumindo, Na Estrada é um filme bacana, com alguns momentos brilhantes e divertidos e memoráveis, uma bela fotografia e atuações fortes e carismáticas, mas ao qual falta uma personalidade própria e a vontade de ser algo a mais do que um tributo. Algo que nunca faltou aos filmes de Salles, mas todo artista tem seus heróis, e um fã será sempre um fã.

 


/// O horror e a burrice

Gostaria de estar falando sobre o novo filme do Batman – que parece ser sensacional -, mas mais uma vez um maluco estraga tudo.

Como o leitor já sabe, um freak chamado James Holmes entrou armado numa sessão de estreia de Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge nos EUA e matou 12 pessoas, ferindo mais de 50. O rapaz usava uma máscara, emulando toscamente a aparência do vilão do filme.

Uma vez que sobre a barbárie em si – o assassinato em massa – nada possa ser dito ou explicado, coube ao diretor do filme, Christopher Nolan, o lamento pela triste escolha do cenário: “o cinema é minha casa; violar um lugar tão inocente e cheio de esperança de um modo tão insuportavelmente selvagem é devastador para mim”, declarou ele.

Quanto a mim, fico tão atônito quanto qualquer um que pare pra pensar sobre o que isso significa, e fico especialmente triste que esse tipo de coisa aconteça numa sala de cinema. É chocante quando a violência acontece em lugares de celebração da vida, da paz, da educação, da arte – como o caso nas Olimpíadas de Munique ou tantos outros em escolas de ensino médio.

Mas tenho algo a dizer sobre uma certa repercussão do acontecido. É um tipo de declaração da boca pra fora, ressentida de algo não muito bem definido, que tem ganhado as redes sociais. Manifestações idiotas que, ao mesmo tempo, relativizam a violência cometida por Holmes e incriminam suas dezenas de vítimas. São frases que vão do “ah, se fosse muçulmano diriam isso ou aquilo” ao “bem feito, porque isso é pouco perto do que os americanos fazem no Oriente Médio…”

Ora, um maníaco entrou no cinema e matou um monte de gente. Como já aconteceu aqui no Brasil. É o horror. Não tem nada a ver com a política internacional dos EUA ou com ataques terroristas.

São classes de barbárie diferentes, e infelizmente há profusão de exemplos de um e do outro. E o antiamericanismo que mistura as estações traz embutido um bom tanto de intolerância e burrice.


/// Em cartaz: “Para Roma, Com Amor”, de Woody Allen

Quem acompanha este blog sabe que, por aqui, o momento mais esperado do ano não é o Natal, nem as férias, nem o coelhinho da Páscoa. O presente que todos ganhamos, ano após ano, e que faz a vida valer a pena, é mesmo o novo filme do Woody Allen.

É recompensador, para mim, ver esse brilhante final de carreira de Allen (não que ele se veja em final de carreira; é a simples e triste constatação de que o homem tem quase 80 anos). De 2005 para cá, a partir do londrino Match Point e Europa adentro com Vicky Cristina Barcelona e Meia Noite em Paris, os filmes de Allen deixaram de ser sinônimo de filme chato e cabeça para o grande público, e os shopping centers ganharam filas – filas! – de casais dispostos a conferir suas ironias, reflexões, piadas e paranoias.

Um belo exemplo dessa evolução são os cartazes dos filmes: lembro-me de quando Match Point foi lançado, e o cartaz que era exibido nos cinemas brasileiros trazia Scarlett Johansson se agarrando cheia de sorrisos com o galã do filme, Big Ben e outras paisagens londrinas ao fundo, num climão de comédia romântica – e nenhuma menção ao nome do diretor, que deveria afugentar o público (de acordo com o entendimento dos marqueteiros da distribuidora).

Acontece que o filme fez sucesso de verdade, e daí veio Vicky Cristina Barcelona – cujo cartaz também se serviu da aprazível figura de Scarlett, desta vez reforçada de Penélope Cruz e Javier Bardem. O cartaz informava: “do mesmo diretor de Match Point“. Oscar para Cruz, sucesso de bilheteria, mais um passo em direção ao improvável Meia Noite em Paris, uma comédia em que o protagonista viaja no tempo e interage com baluartes da década de 20, batendo papos e bebendo com Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Salvador Dalí… como isso foi se tornar o maior sucesso da carreira de Allen, eu não sei. Mas sei que foi a redenção definitiva da obra do baixinho junto ao grande público, coroada com mais uma esnobada pra cima dos Oscars (ele teve o roteiro premiado mas, como fez das outras duas vezes, não compareceu à festa para buscar a estatueta).

E todo esse contexto nos traz a 2012 e nos leva a Roma, cidade escolhida para o diretor ambientar seu 43º filme: Para Roma, Com Amor.

Devidamente anunciado, aliás, com a imagem de Woody Allen em destaque e com o título respeitosamente precedido de um rótulo de autor: “escrito e dirigido por Woody Allen”.

Um dia especial em Roma

Eu vivi para chegar este dia. Parece que foi ontem quando nós, os cinéfilos, nos reuníamos feito clandestinos no Espaço Unibanco para conferir o lançamento tardio de Poderosa Afrodite ou Descontruindo Harry. Tínhamos que correr, porque sairia de cartaz em uma ou duas semanas.

Mas vamos a Roma.

O filme, seguindo a fórmula de sucesso de seu antecessor parisiense, consegue encapsular uma tonelada de citações e piadas que são tão bem aproveitadas quanto maior for o repertório cultural do espectador. Se em Paris era necessário conhecer os humores de Hemingway e a loucura da mulher do Fitzgerald e o frisson em torno da Josephine Baker, em Roma é desejável saber tudo de cinema italiano, desde as iniciativas mais pop e mais cabeça de Fellini até a tradicional comédia de costumes italiana. Por outro lado, assim como em Paris, quem não tem todo o conhecimento não deixa de ver graça e de se divertir com as situações e personagens de Allen, e não deixa de se apaixonar pelas cidades, fotografadas com o carinho de um turista curioso (e talentoso).

Ou seja, o filme não frustra os admiradores de longa data do cineasta, agradando-os na mesma medida em que se deliciam os frequentadores mais desinteressados (os casais em busca de um “filminho leve para o sábado à noite”). A bem da verdade, sobe a barra um pouco, e isso é muito bem-vindo num mundo de Vingadores e congêneres.

Perder-se em Roma

Para Roma, Com Amor é uma comédia, e  uma das boas. Segue aquela linha de quatro núcleos completamente independentes de personagens, cujas histórias jamais se cruzam, mas ajudam a compor o quadro. Todos eles começam de um mesmo ponto, aquele pelo qual todos que já visitaram a Cidade Eterna passaram: se perdendo em Roma.

É o que acontece com Haley (Alisson Pill, a Zelda Fitzgerald de Meia Noite em Paris), uma mocinha que se perde tentando achar a Fontana di Trevi. Conhece um italiano bonitão, namora e noiva e recebe os pais para conhecer a família do cara – e é aí que surge a história central do núcleo, com o pai da moça (o próprio Allen) tentando convencer o sogro a se tornar cantor de ópera.

Não muito longe dali, um arquiteto renomado vivido por Alec Baldwin se perde tentando encontrar o lugar onde vivera por algum tempo na juventude. É reconhecido por um estudante de arquitetura que se encontra na mesma situação – vivendo em Roma – e vão dar uma volta juntos.

Mas a mais perdida é mesmo a gracinha Alessandra Mastronardi, uma recém casada do interior que procura um cabelereiro antes de um importante compromisso com seu travado maridinho. Atrapalhada, não consegue distinguir o rumo lá do meio da Piazza del Popolo (que é um troço confuso, simétrico, com prédios idênticos lado a lado). Acaba resignada, sentadinha na Fontana delle Tartarughe – onde dá de cara com um ator famoso, do qual é fã.

Ale Mastronardi: eu não preciso de outro motivo para ver esse filme; e você?

E há Roberto Benigni, um cidadão comum e tranquilamente instalado com a família na cidade, o único cara que sabe o caminho por Roma – mas por pouco tempo. Um certo dia, na porta da sua casa, uma multidão de jornalistas e fotógrafos misteriosamente o cercarão e sua vida será instantaneamente transformada num inferno de mega-celebridade.

O surreal acontece

A partir daí, todos os núcleos viverão o improvável, o absurdo, o impossível: veremos um tenor de talento inigualável, mas que só canta debaixo do chuveiro; veremos a prostituta mais gostosa do mundo (uma Penélope Cruz sempre inspirada e carismática) caindo na cama de um desavisado; veremos um Jesse Eisenberg (o Zuckerberg d‘A Rede Social) sendo aconselhado pela sua própria consciência personificada; veremos Roberto Benigni sendo engraçado, dando entrevistas sobre fatos de interesse nacional, como o que comeu no café da manhã ou de que modo ele faz a barba; veremos, enfim, um monte de coisas absurdas, que não aconteceriam na vida real ou nem de fato acontecem nas vidas dos personagens do filme – mas que são engraçadas, espirituosas e verdadeiras como análise das falhas humanas, da cultura das celebridades, do embate entre o impulso e a razão…

Woody Allen dirige Penélope Cruz numa festa de ricaços onde ela finge não ser uma profissional do amor…

Tão importante quanto o ponto de partida – Roma é uma cidade para se perder – ou quanto o recheio – o cinema italiano é uma delícia porque aceita todo tipo de situação absurda – é o arremate das quatro histórias: a transformação dos personagens passa por experiências libertárias, que os tiram da sua mesmice e que incluem fazer sexo ardente com pessoas diferentes. Quem se arriscar a pular a cerca sairá recompensado e com uma bela história pra contar de Roma, além de mais sábio e seguro para a vida. É o que Woody Allen deseja para seus jovens e belos personagens (e até para o Benigni), e os mais velhos observam tudo com interesse e nostalgia.

O elenco, como sempre, é inacreditável, trazendo todos os nomes bacanas já citados e mais outros desconhecidos (mas igualmente competentes), e ainda algumas redescobertas: como é bom ver Judy Davis (que já fez cinco filmes de Allen) como a esposa do diretor, gastando o verbo e oferecendo as melhores piadas (“você está pensando em dólar; em euros, seu QI é bem menor…”).

O xis da questão


Pelo menos para mim, o ponto central de Para Roma, Com Amor são as aparências: todos os personagens pensam ser ou tentam se passar por algo diferente do que são. Ellen Page (a Juno) é tida como sexy e irresistível e inteligente, mas é de um visual desleixado e vazia feito a atriz wannabe que é. O diretor de óperas de Woody Allen se julga um gênio incompreendido e se vangloria do seu QI de gênio, mas é sua esposa quem arremata as discussões com tiradas geniais. Benigni adora dar opinião sobre tudo e todos, mas verá que não é tão interessante quando todos estiverem sedentos por suas opiniões. Posso continuar falando por duas horas sobre cada personagem.

E Roma, afinal, é o lugar perfeito para isso, com seus belos cartões postais enfeiados pelas hordas de turistas, e seus restaurantes-arapucas cheios de gente de classe média remediada pagando de ricaços em mesas nas calçadas, e toda aquela bela e sábia civilização arrasada e reduzida a ruínas.

Que lugar Roma ocupará na obra de Allen? Para a História, acredito que num estágio intermediário, como “mais um filme da sua fase europeia”. Já pessoalmente, eu creditarei uns pontinhos a mais, pois julgo o filme superior a Barcelona e Paris, colocando-o no brilhante bloco de ótimos filmes do diretor, como Todos Dizem Eu Te Amo, Tiros na Broadway, Tudo Pode Dar Certo e Poderosa Afrodite. Não chega ao patamar das obras-primas (onde residem Match Point, Crimes e Pecados, Annie Hall, Manhattan, Hannah e Suas Irmãs e A Rosa Púrpura do Cairo), mas quem se importa? Enquanto Allen estiver bem e lançando filmes, estarei feliz e aguardando pelo ano que vem.


/// Estreia: “Sombras da Noite”, de Tim Burton

Depois de tantos filmes, começando lá atrás com Edward Mãos de Tesoura e chegando ao blockbuster da Disney Alice no País das Maravilhas, parece que se esgotou tudo que podia ser dito sobre a parceria de Tim Burton e Johnny Depp. Os cabelos estranhos, os trejeitos, a aparência freak - sinceramente, tudo meio que perdeu a graça. OK, entendi, você é o Johnny Depp e faz o que lhe der na telha; logo, de dois em dois anos você faz um filme esquisitão com seu amigo esquisitão, Tim Burton. Boring.

Mas não é que esse Sombras da Noite (que estreou no último fim-de-semana no Brasil) me fez esquecer todo esse histórico?

Durante as duas horas de humor negro e clima ao mesmo tempo sombrio e infantiloide, não precisei me lembrar do tratamento de auteur que Burton recebe há anos, e também pude rir dos personagens e situações do filme por seu próprios méritos, e não pela piada metalinguística de vermos o maior astro de Hollywood fazendo-se de ridículo. Sombras da Noite é uma delícia de filme, sem se levar a sério e não abandonando jamais o afeto pelos seus personagens. E é esse afeto humano que torna geniais os melhores momentos de Burton, como Ed Wood, Peixe Grande e Edward Mãos de Tesoura - assim como é sua ausência e uma ironia gratuita e exagerada que estragam filmes como Alice.. e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça.

Johnny Depp e Eva Green: ele vira e mexe sucumbe aos encantos da moça…

Sombras da Noite conta a história dos Collins, uma família inglesa que imigrou para os EUA há séculos, e que lá desbravou um porto e fundou uma cidade, vivendo na fortuna e desfrutando da admiração de todos, até que seu herdeiro – Barnabas Collins, um rapaz de modos soturnos e aparência esquisita feito um Johnny Depp em filme do Tim Burton – se envolve com a mulher errada (e eis uma rara ocasião em que Eva Green é a mulher errada). Acontece que a moça é uma bruxa e, tendo o rapaz se apaixonado por outro rabo-de-saia, ela exorcisa a rejeição lançando uma maldição secular sobre o pobrezinho e sua família. E assim chegamos aos dias de hoje com o que restou dos Collins vivendo na opulenta mansão caindo aos pedaços, com seus negócios sucateados na cidade que os ignora solenemente.

E do que se trata essa maldição? Bem, digamos que há espaço para o “penhasco da viúva”, mansão mal assombranda por fantasmas etéreos, vampiros, lobisomens e muito glam rock (com direito a ponta de Alice Cooper) numa trama que se equilibra entre A Hora do Espanto, Os Sete Suspeitos e o Carlitos de Charles Chaplin. Depp confere vulnerabilidade e coração ao amaldiçoado Barnabas, que atravessa os séculos e volta ao seu lar em plenos anos 70, onde tem de lidar com hippies, feministas e sexo livre (entre uma refeição e outra, dada sua situação peculiar). Eva Green se diverte no papel da bruxa gostosa eternamente apaixonada pelo sujeito. O mesmo pode ser dito do belo elenco que compõe o freak show da família Collins: Michelle Pfeiffer como a viúva durona que comanda a família; Helena Bonham-Carter como a psiquiatra alcoólatra que se interessa pela natureza um tanto diferente de Barnabas; e Chloë Grace Moretz, a impagável Hit Girl de Kick-Ass, aqui crescidinha como a adolescente problemática que curte Alice Cooper e vive entupida de drogas.

Veja o trailer de Sombras da Noite!

E tem a linda Bella Heathcote, um pitelzinho descoberta por Tim Burton numa novela australiana (a moça é natural daquelas praias), que serve de objeto do afeto de Johnny Depp e alvo preferencial da bruxaria de Eva Green. A moça decora a tela, além de ter bom timing cômico, e isso é bem agradável.

Pois é… eu também.

Ao final de Sombras da Noite, temos a sensação de ter viajado no tempo, aprendendo algo e imaginando um tanto sobre a formação das cidades abastadas no Nordeste dos EUA, além de curtir de um ponto-de-vista adequado a bizarrice dos anos 70. O resto é a magia de escuridão e imaginação de Tim Burton – que, afinal, é mesmo um autor genial. Quando está inspirado – e quando se ocupa em apenas divertir e se divertir -, não tem pra ninguém.


/// O E.T. de Spielberg, 30 anos

Se você acha que o último Harry Potter ou um bando de heróis da Marvel são grandes blockbusters, você deve ser muito novo para se lembrar ou ter vivido 1982. Foi uma época engraçada. A Ditadura Militar estava meio morta no Brasil, mas se recusava a entregar os pontos – naquele ano, aconteceram as primeiras eleições para governador em mais de uma década; já para presidente, as Diretas Já dariam com os burros n’água. No futebol, a Seleção encantava com Zico, Sócrates e Falcão, mas parou na Itália numa partida trágica em Barcelona, durante a Copa de 82. O rock brasileiro ia surgindo, cheio de cores new wave, com a Blitz e o Barão Vermelho e todo o resto. A música que mais fez sucesso naquele ano foi um samba do Gonzaguinha, aquele que convoca todo mundo pra berrar: “viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

O clima era de euforia, um país na iminência de entrar num Carnaval eterno. Só que a bola foi batendo na trave, batendo na trave… e o hino daquela geração seria mesmo o Inútil do Ultraje a Rigor (“a gente não sabemos escolher presidente” etc). Enfim, a década terminaria com hiperinflação e Collor na presidência e a Seleção do Lazaroni fazendo papelão.

Mas não sabíamos nada disso no meio de 1982. Acreditávamos na redenção coletiva e nada nos impedia de repetir que a vida é bonita, é bonita e é bonita.

E o que tudo isso tem a ver com cinema?, você pergunta.

Bom, é que nada, nada disso teve tanta repercussão e causou tanta comoção como o advento de E.T., o Extra-Terrestre, de Steven Spielberg, que estreou há exatos 30 anos atrás. Coloquemos assim: nenhum filme foi tão largamente comentado, amado e estendido em um universo de produtos, de álbuns de figurinhas a brinquedos a toalhas a todo tipo de merchandising oficial e pirata que possa ser imaginado. Durante semanas, o Fantástico se desdobrava em encontrar mais matérias sobre o filme, o simpático E.T. e seu mago criador. O assunto era inesgotável. Na escola, as crianças mediam sua popularidade em termos de quantas vezes tinham visto o filme. Lá pelas tantas, a diretoria organizava excursões para ir ao cinema, porque as crianças que não tinham tido a oportunidade de ver o filme estavam sofrendo bullying (na época, não era esta a palavra, mas era isso).

Eu me lembro muito bem de onde e como vi E.T. pela primeira vez: num cinema em Santana, na zona norte de São Paulo, com gente saindo pelo ladrão. Mesmo. As pessoas se sentavam no chão, nas escadas, ou assistiam lá do fundo em pé, porque vendiam (muito) mais ingressos do que os assentos comportavam. E ninguém reclamava. (Bem, lembro-me da minha mãe reclamando, mas isso foi antes de começar a projeção – assim que começou o filme, ela ficou tão embasbacada e imersa na vidinha de Elliot e o E.T. quanto nós.)

Na verdade, aquela foi a primeira vez que fui ao cinema para ver um filme de verdade (antes, eu já tinha ido ver animações da Disney, mas dessas não guardo lembrança). Não poderia haver filme mais adequado.

Spielberg se tornou um nome amplamente conhecido, de brasileiros e brasileiras, ricos e pobres, interessados por cinema ou executivos sizudos. Basicamente, E.T. fez de Spielberg  sinônimo de excelência de realização, pureza de propósitos, inteligência e sensibilidade – tudo o que faltava no Brasil que acabava só batendo na trave e não encontrava o caminho. Spielberg seria eleito presidente da república, e não faria feio à frente da Seleção Brasileira. Ele era o cara, sem concorrência ou contestação.

Os anos seguintes trariam uma série de filmes que carregavam a assinatura de Steven Spielberg como produtor executivo – filmes que ele escolhia por afinidade com seu universo de aventuras infantis e que botava nas mãos de protegidos. Esses escolhidos iriam de Joe Dante (Gremlins) a Richard Donner (Goonies) a Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro). No imaginário coletivo, era tudo “o novo filme do Spielberg”. É como aquele monte de frases e textos que circulam pela internet e que atribuem a Millôr Fernandes ou ao Luís Fernando Veríssimo ou ao Arnaldo Jabor, como se qualquer coisa mais sagaz e inteligente só pudesse sair da pena desses caras.

A questão é: E.T. merecia toda essa repercussão?

Selo comemorativo dos Correios dos EUA

Sim, e muito. É um filme definidor de época, ao retratar uma família separada sob o ponto de vista da criança (Kramer Vs Kramer e Gente Como a Gente se levavam a sério demais, e se empenhavam demais em fazer a mulherada chorar; E.T. vai na veia e mostra o moleque vivendo a vida, com suas sequelas misturadas à própria solução caseira que se encontra e bola pra frente). Ele deflagrou a moda das “bicicross” (aquelas bikes de aro 20 e sem marcha, que TODOS os moleques pedalaram felizes nos anos 80, rampando nas calçadas e derrapando em série). Deve ter sido o primeiro filme a mostrar pizzas entregues em casa, e também deve ter sido o primeiro a exibir orgulhoso um controle remoto zapeando pela TV a cabo com dezenas de canais. Era um verdadeiro showroom do estilo de vida dos anos 80.

E tinha a paranoia do que vinha do espaço e de como o Governo escondia tudo da população. E aí a aventura ganha contornos absolutamente mágicos, com aquele bichinho engraçado, claramente derivado do Mestre Yoda de George Lucas, aprendendo a falar e dando aulas de astronomia para a molecada. E aquela simbiose com o Elliot? Um fica bêbado, o outro fica bêbado; um fica doente, o outro cai de cama… que ideia!

Para mim e para quase todos, nada é mais memorável do que o bando de moleques, Elliot à frente, pedalando suas bikes ameaçadoras em direção à barricada de policiais apontando armas para suas testas, e então as bikes levantam voo e passam em frente à enorme lua cheia. Todos sabem do que estou falando. A cena é daquelas poucas que entrariam numa lista de 10 cenas mais famosas do cinema, junto com a Scarlett O’Hara gritando que nunca mais vai passar fome, ou a Dorothy batendo os sapatinhos e dizendo que não há lugar como o lar, ou o Humphrey Bogart e a Ingrid Berman se despedindo na pista de decolagem em Casablanca. Simples assim.

Veja a cena:

Assisti E.T. recentemente e achei o filme tão mágico e cativante quanto na primeira vez, e também achei os efeitos especiais tão convincentes e reais quanto os de última geração que vemos hoje, todos feitos no computador. Claro, não gostei do Spielberg ter apagado digitalmente os revólveres dos policiais na tal cena, substituindo-os por walkie-talkies inofensivos. Mas o saldo foi amplamente positivo.

O residual de E.T. foi tão forte que suas estrelas mirins se viram amaldiçoadas pelo sucesso acachapante do filme. O moleque que fez o Elliot sumiu; e Drew Barrymore, que deu  graça e carisma irresistíveis à irmãzinha de 4 anos, passou mais de uma década no inferno – alcoolismo antes dos 10 anos, drogas na pré-adolescência etc. Quando Barrymore finalmente ressurgiu, aos 18 anos, fazendo uma ponta num filme do Batman, todos se lembravam dela: “a menininha do E.T. cresceu!” – e dali para um filme do Woody Allen e, então, para virar a rainha da comédia romântica, foi um pulo.

Se você não viveu 1982, é provável que não entenda ou não concorde com tudo isso que contei. É capaz que você pense, esse cara é um velho saudosista cuja memória começa a aumentar as coisas do passado. Sem problema. Mas acredite, E.T. é o filme definitivo de Spielberg; é o filme em que foi colocada toda a carga emocional, de valores e frustrações e pirações de um cara talentoso e tímido. E é o molde de quase tudo que é feito hoje em dia, de animações a blockbusters, ao tratar adultos como crianças e crianças como adultos, com gente normal lidando com problemas maiores do que a vida.