Quando da publicação do post com os dez melhores filmes de rock de todos os tempos, este blogueiro recebeu protestos pela não inclusão de Escola de Rock, comédia de sucesso com o Jack Black. Protestos aceitos – realmente o filme é um grande tributo ao rock’n'roll e merecia um lugar na lista. Para a retratação, BLOGIE preparou um verdadeiro dossiê devassando Escola de Rock, revelando cada uma (ou pelo menos boa parte) das toneladas de citações musicais no filme.
Pra começo de conversa, note que o letreiro do filme emula o logo da revista Rolling Stone, um ícone roqueiro.

1- Do Diretor:

Richard Linklater é um cineasta bem eclético. Ele é autor de comédias românticas que pagam tributo a Truffaut (Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol) e de filmes-cabeça como Fast Food Nation e O Homem Duplo. Mas também é um competente diretor profissional que bota de pé projetos “comerciais” como a comédia meio western The Newton Boys. O ponto em comum na sua trajetória é uma obsessão pela cultura pop e sua força junto aos jovens. Isso aparece em homenagens à nouvelle vague, em estudos sobre a influência do fast food nos EUA e, claro, na celebração do rock. Para isso, um filme chave em sua carreira é o ótimo Dazed and Confused, uma das melhores comédias de high school de todos os tempos, passada no meio da década de 70. Detentora de uma trilha sonora irretocável, a comédia mostra a moçada da década de 70 sofrendo massiva influência das bandas que vendiam milhões e milhões de LPs naquela década dourada para o rock. O próprio título do filme veio de uma canção clássica do primeiro disco do Led Zeppelin – que, em um episódio corriqueiro, não liberou Dazed and Confused para a trilha sonora.

Em Escola de Rock, Linklater voltou à carga. Mostrou tudo o que sabia do assunto e remeteu um vídeo, já no meio das filmagens, para o Led Zeppelin. O vídeo mostrava Jack Black, à frente de um auditório lotado de figurantes, berrando ao microfone: “Ei, Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones: deuses do rock, maior banda de todos os tempos… nós precisamos da sua música, cara. Precisamos de Immigrant Song. Este é um filme sobre rock, e sem essa música… este filme vai desabar. Quer dizer, o filme detona, mas, cara, sua canção seria a cereja roqueira no topo da montanha! Por favor…” - e põe o público todo a repetir, “Senhores do Rock, Led Zeppelin: nos abençoe com seu poderoso amor!”, e a galera se põe a acompanhar Black berrando o riff de guitarra de Immigrant Song.

Depois de tal apelação, desta vez os sobreviventes do Zep concordaram. Veja o episódio todo, desde o vídeo enviado para Page e Plant até a cena em que Immigrant Song foi usada – por, digamos, dez ou quinze segundos. Valeu a pena, não?

2- Jack Black:

Todos sabem que Black é mais do que um comediante engraçado – é um roqueiro que é comediante. Ele tem sua banda, ele abraça filmes que reciclam a cultura pop (Rebobine por Favor, Alta Fidelidade), ele não perde a chance de demonstrar suas habilidades musicais (duvidosas, para alguns).

Em Escola de Rock, ele carrega o filme nas costas, com um competente e carismático time de pré-adolescentes que obviamente curte o seu tutor roqueiro. Trouxe um guarda-roupas de Angus Young, do AC/DC, uma atitude de Pete Townsend, do The Who, e uma  entrega de banda punk.

3- A banda perfeita:

Jack Black, como o falso professor substituto Mr. Ass (o codinome pelo qual ele é respeitosamente chamado por seus pupilos), não aceita substitutos, diz o cartaz do filme – citando Substitute, do Who. Para ele, a coisa é séria. Sem saber nada de literatura, matemática ou história, ele se põe a treinar a molecada sob os preceitos mais fundamentalistas do rock e molda a banda dos seus sonhos. Notando alguma habilidade musical na molecada, traz instrumentos e vai ensinando riffs de guitarra, linhas de baixo – e também caras feias, poses e chutes e todo tipo de atitude roqueira. Lá pelas tantas, ele dá lição de casa para a molecada: distribui CDs para cada integrante da banda, escolhidos a dedo. Vejamos a banda perfeita de Mr. Ass:

- A baixista leva um exemplar do primeiro disco do Led Zeppelin;

- Para a loirinha que faz backing vocals afinados, Blondie;

- Para o tecladista, Fragile, do Yes (ele sugere atenção ao solo do Rick Wakeman em Roudabout);

- Para o baterista, claro, o clássico 2112, do Rush (que conta com Neil Peart, tido e havido como maior baterista do mundo);

- Para o guitarrista, Axis: Bold as Love, do Jimi Hendrix. É o disco que traz Little Wing, uma das músicas mais lindas que já foram feitas.

- A Tomika, a garota negra tímida com voz de Aretha Franklyn, ele empresta The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. A intenção é que ela escute Great Gig in the Sky, aquele longo solo de piano com uma mulher gritando de maneira entre etérea e histérica.

Previsível, mas de eficiência inegável.

4- Stevie Nicks, deusa do rock:

Stevie Nicks à frente do Fleetwood Mac nos anos 70

À primeira vista, o vilão de Escola de Rock é a diretora da escola, vivida por Joan Cusack. Ela é durona, incorruptível, conservadora. Jamais dará a permissão para o professor de araque levar a sua turma para o festival de bandas de rock. Até que…

… Na sala dos professores, lhe contam que a diretora, quando toma umas e outras, dá vazão ao seu lado mais louco e se revela fã incondicional de Stevie Nicks, a cantora do Fleetwood Mac, um ícone de comportamento abusivo e maluquice – e também de beleza e talento.

Mr. Ass leva a tal diretora para um bar, vai até a Jukebox e põe Bella Donna, o primeiro disco solo de Nicks (de 1981), pra tocar. Entra o maior clássico da moça, Edge of Seventeen, com seu riff de guitarra seco. Joan Cusack dá show ao se soltar e, em coisa de um minuto, está cantando a letra e emulando os gestos característicos de “Stevie”, como a cantora é intimamente chamada pelos seus devotos.
Stevie Nicks, que aqui no Brasil não é muito conhecida, é uma instituição americana – o disco Rumours, do Fleetwood Mac, ostentou por alguns anos a marca de “disco mais vendido de todos os tempos” (ele foi lançado em 1976). Quatro das suas faixas são assinadas por Stevie Nicks, inclusive o maior sucesso da banda, o hit Dreams, que já foi regravado pelo The Coors e em versões bate-estaca para baladas em geral. Na opinião deste blogueiro, maior artista feminina do rock, à frente de Janis Joplin e tudo. Justa homenagem.

5- AC/DC, a referência central:

A roupa, a guitarra e as palavras de Jack Black são totalmente tiradas da banda australiana, cuja barulhenta passagem recente pelo Brasil nos permite dispensar maiores explicações. Mas há muitas outras referências à banda de Angus Young.

Por exemplo, em determinada passagem, o mestre recorre a recursos áudio-visuais para ensinar um pouco de atitude com uma guitarra pendurada no pescoço. Vemos imagens de Pete Townsend girando o braço, em seu movimento característico, vemos Hendrix quase copulando com sua guitarra Fender Stratocaster, mas o ápice da aula é Angus Young rolando no chão com sua Gibson SG.

Já no finzinho do filme, no festival onde a banda de fedelhos debutará, a preleção de Mr. Ass termina com o refrão que dá fim aos shows do AC/DC: “we’ll roll tonight to the guitar bite… and for those about to rock… we salute you!” Além disso, o bis da apresentação da Escola de Rock vai de uma esquecida canção do primeiro disco do AC/DC, It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock’n'Roll). A letra, que trata das agruras de ser um pobre integrante de uma banda batalhadora, à espera de fama e fortuna, foi um achado para terminar um grande filme. Enquanto sobem os créditos, vemos a criançada e Black se divertindo muito, como só poderia acontecer quando se juntam uns amigos, se plugam uns instrumentos e se toca um AC/DC.

Veja Jack Black e a meninada de Escola de Rock honrando o AC/DC!

6- As citações, em ordem de aparição no filme:

- Na cena de abertura, vemos Black com uma roupa que evoca Jimmy Page e barbatanas do Ozzy Osbourne. Após seus excessos no solo com uma Gibson Explorer, faz um strip-tease à Angus Young e arrisca um mosh, se estatelando no chão. Sabemos em dois minutos que ele é um roqueiro sonhador, uma compilação de clichês roqueiros – um cara que, na prática, irrita seus companheiros de banda, mais preocupados em ser cool.

- Logo depois, sabemos que Dwey Finn (é esse o nome do personagem de Black) mora de favor com seu amigo professor de primário – um nerd que, antigamente, fora companheiro de banda de Finn num troço chamado Maggot Death (trocadilho com a banda de speed metal  Megadeth, do Dave Mustaine; a imagem e o nome evocam a bizarrice do Marylin Manson). Meio por acidente, meio por necessidade de grana, Finn recebe a ligação de uma escola e, fingindo ser o amigo, topa entrar como professor substituto para uma turma de fedelhos de uma escola pra lá de conservadora.

- Para Zack, o menino que sola lindamente no violão clássico, Finn (já chamado simplesmente Mr. Ass) ensina riffs básicos: Iron Man, do Sabbath, Smoke on the Water, do Purple, e Highway to Hell, do AC/DC. Para o japinha pianista, apresenta uma partitura de Touch Me, do Doors, que o rapaz se põe prontamente a acompanhar, para a piração do professor. Já para Katie, a menina que se vira no baixo, e para o trombadinha que esmurra uns tambores, ele volta ao básico e põe a banda para funcionar pela primeira vez ao som de Smoke on the Water – como aconteceu com praticamente 100% de todas as bandas de garagem formadas durante os últimos 40 anos.

- Influências: a criançada está numas de Christina Aguilera, Puff Daddy, e nunca ouviu falar em Led Zeppelin, Black Sabbath etc. Mr. Ass resolve preparar uma agenda pesada de aulas de rock. Desfaz as noções “equivocadas” de que montar uma banda serve  pra pegar garotas ou ficar chapado de drogas, e então explica o conceito de “enfrentar o homem” (tipo, enfrentar o sistema ou algo assim). Raiva juvenil como combustível. Parece óbvio, mas apropriado para as gerações atuais, criadas com liberdade e excesso de consumo.

- Nome da banda: as groupies oficiais (duas loirinhas angelicais) da turma estão encarregadas de dar nome à banda. Sugerem As Abelhinhas (derivando de Beatles e Crickets) e Os Coalas, mas o professor explica que isso é coisa de veado. Então as meninas mandam, que tal Reto Suíno? Acredito que isso venha da lenda segunda a qual o Van Halen quase se chamou Rat Salad.

- O figurinista afetadinho encarregado do guarda-roupas da banda, por algum motivo, parece ter saído dos anos 70: aparece com um visual entre Marc Bolan (T. Rex) e David Bowie circa 1973.

- Há projeção de slides de uma aula punk. Em cinco segundos, vamos de Iggy Pop a Ramones a Sex Pistols a Kurt Kobain. Direto ao ponto, como só o punk pode ser.

- A aula de reforço fica pro baterista delinquente: vídeo-aulas de Herbie Hancock e imagens clássicas de Keith Moon, do Who.

7- Teoria roqueira:

Uma lousa repleta de ligações entre sub-gêneros roqueiros – cada um acompanhado de nomes de bandas – é um dos objetos de desejo deste blogueiro. O quadro aparece em um pequeno relance, e sua visão completa não é possível em cena. Mas uma observação quadro a quadro permite identificar o seguinte:

- Heavy Metal (Judas Priest, Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath, Motorhead, Dio), apresenta ligações com Hard Rock (The Who, Led Zeppelin, Aerosmith, Deep Purple, Van Halen, AC/DC), com Grunge (Nirvana, Peral Jam, Mudhoney, Soundgarden e Alice in Chains) e com Punk (Sex Pistols, Ramones, The Clash, Patti Smith).

- O Rock Psicodélico (The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Velvet Underground) abastece quase todos os gêneros musicais dos anos 70: através de Jimi Hendrix, abastece  Hard Rock; mas também influencia Prog Rock (Yes, Pink Floyd, Jethro Tull, Rush, ELO, Genesis), Glitter/Glam (David Bowie, Alice Cooper, T. Rex, Roxy Music) e Southern Rock (Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Black Oak Arkansas).

- Outro “provedor geral” é o Brit Invasion (Beatles, Stones, Animals, Yardbirds, Cream), que cria o Pop Rock (um balaio de gatos que inclui Fleetwood Mac, Beach Boys, Go Gos, Kiss, Elton John e Neil Diamond!) e influencia tanto o Folk Rock (Jackson Browne, Simon and Garfunkel, Byrds, Neil Young) quanto o Soul (Gladys Night, Otis Redding, Sam Cooke, Marvin Gaye, Stevie Wonder, Diana Ross e James Brown). O Soul, por sua vez, abastece Rock Psicodélico, através da Janis Joplin.

- O Doo Wop (grupos vocais negros como The Platters), que dá cria tanto ao Soul quanto ao Funk (Prince, Parliament Funkadelic, Isley Brothers), acaba gerando a Disco (Bee Gees, Village People, Donna Summers) e, por consequência, o Hip Hop (Salt N Pepa, etc).

- Prog Rock chama uma caixa com um inusitado ponto de interrogação, sob o qual aparece o nome do maluco Frank Zappa.

- O início de tudo, ao final revelado no lado esquerdo da lousa, é o Country, o Blues e, indiretamente o Jazz. Deles, surgem o Folk (Woody Guthrie), que tem Bob Dylan como o conector com  Folk Rock, o Rockabilly (Elvis, Buddy Holly, Eddie Cochran), que influenciou as bandas inglesas, e o Rythim and Blues (Chuck Berry, Bo Didley, Little Richard), que abasteceu tanto o Rockabilly e o Doo Wop quanto o distante Hard Rock (o Zep foi beber direto na fonte).

Acho que há nomes suficientes para pesquisar por meses e meses o melhor da música dos últimos 60 anos, não? Mas melhor do que ler tudo isso é checar diretamente na fonte. Por graça de Elvis Presley, alguém no set tirou uma foto do quadro todo preenchido. Deleite-se:

Acho que é isso. BLOGIE é o único veículo que dá tratamento de Cidadão Kane para Escola de Rock. Como canta Black na canção original, “rock não tem razão, rock não tem rima”. Simplesmente existe.

Espero que tenha gostado.