/// Um filme de Oswaldo Montenegro?

A coisa soa tão bizarra que não quero sucumbir ao lugar-comum.

O fato é que deixaram Oswaldo Montenegro, o músico mais odiado do Brasil, fazer um filme. O filme é Leo e Bia, nome compartilhado com uma das canções mais famosas do cara.

Veja o trailer:

O formato do trailer, inspirado nas propagandas de peças de teatro – e, talvez, nos trailers do Hitchcock -, deixa claro que o papo-cabeça rola solto. Papo de ditadura, ideologia, engajados x alienados… um cenário “lúdico”, com pinta de peça do Zé Celso… e a voz e o violão sempre abertamente exibicionistas de Oswaldo Montenegro.

O cheiro de roubada é tão grande, mas tão grande, que não vou morder a isca fácil de descer a lenha antes de checar. Seria desonesto e seria burro.

Vou ver qual que é a de Leo e Bia. Afinal de contas, seu autor é um cara que carrega sem constrangimento a fama de maior chato da MPB há trinta anos, e inegavelmente tem o talento de cantar e tocar bem,  e consegue conceber algumas músicas que simplesmente não podem ser chamadas de ruins (penso naquela Lua e Flor, que foi trilha de novela da Globo e cuja melodia invade sua cabeça e não vai mais embora). E tem o dom de pegar atrizes globais chegadas ao seu cabecismo – Mayara Magri nos anos 80, Paloma Duarte mais recentemente…

Enfim, o cara deve saber uma coisa ou duas. O filme estreia nesta semana. Vou conferir, por que não? Espero que não sofra danos irreversíveis e que eu esteja vivo para relatar a experiência para você.


/// Lista: Grandes Fanfarrões do Cinema

Alguns integrantes da redação da VIP se divertem no Twitter desenterrando termos para a série “palavras em desuso”: é um tal de “fornida”, “piparote”, “corruptela”… É uma iniciativa importante, porque mantém essas palavras vivas, esperando que alguém, numa música ou num filme, lhes restitua o direito a sair das bocas das pessoas.

Foi o que aconteceu com o termo “fanfarrão”. Eu escuto o termo e me vem à cabeça a imagem do Luiz Gustavo como Beto Rockefeler ou Mário Fofoca – algo bem, tipo assim, antes de eu nascer. O fanfarrão era um cara metido a esperto, um enganador, um pobre diabo travestido de poderoso – como aquele vilão de desenho animado que se transformava no Capitão Guapo para tapear os outros personagens. O fanfarrão é um personagem de contos-de-fadas, o contraponto cômico para amenizar sua vilanice.

Eis que chega Tropa de Elite e reinventa a palavra: Capitão Nascimento pergunta ao Zero Meia quanto tempo ele quer para comer a lavagem que é servida no treinamento do Bope. O moleque pede dois minutos, e ouve do chefão: “o senhor é um FANFARRÃO!” – e pronto, uma palavra sai da UTI e ganha as ruas, uma delícia.

O mais interessante é que o Capitão Nascimento deve ser muito bom em “evoluir” nos morros cariocas, mas não manda muito bem em semântica: seu “fanfarrão” passou a servir como sinônimo de incompetente, ingênuo, paspalho, qualquer coisa. Durante os dois últimos anos, o xingamento mais frequente e divertido do Brasil passou a ser “fanfarrão”.

BLOGIE restitui o significado original da palavra, pensando em grandes personagens do cinema que usaram e abusaram da fanfarronice (neologismo muito comum entre os seguidores de Nascimento), e que marcaram época. Divirta-se com os cinco maiores fanfarrões do cinema.

5- Rhett Butler, de … E o Vento Levou

Naquele que deve ser o filme mais popular de todos os tempos, a mocinha (Scarlet O’ Hara, vivida por Vivian Leigh) faz beicinho, grita e esperneia, mas quem dá as cartas é  Rhett Butler (Clark Gable), um sujeito arrogante, ultrasseguro, chegado a uma ostentação e metido a galanteador. Sua confidente é uma prostituta caidaça – e ainda assim a mulherada se mata por ele. De quebra, é autor da frase mais famosa da história do cinema: “francamente, minha cara, não estou nem aí.”

4- Biff, de De Volta Para o Futuro

Fanfarronice da boa é criar um bordão. E nisso, Biff, o valentão da Hill Valley High School em meados dos anos 50, foi insuperável. Pegava Mc Fly, seu saco de pancadas particular, e, em uma série de croques aplicados com grande precisão e velocidade no cocoruto do pobrezinho, perguntava: “tem alguém aí? tem alguém aí?” O reinado de Biff só teve fim com o reforço vindo do futuro – contra o rock’n’roll e skates e cuecas Calvin Klein, não tinha como competir…

Veja uma coletânea com as melhores frases de Biff:

3- Barry, de Alta Fidelidade

São passados dez ou quinze minutos de filme, e sabemos que John Cusack levou um pé na bunda, ganha a vida em sua loja de discos de vinil derrubada e não possui muitos talentos além de pensar bastante sobre música pop. Sua vida parece um tédio, até entrar em cena Jack Black, como Barry, o funcionário da loja chato e falastrão em uma dimensão até então impensável. O gordo saca sua fita para animar as manhãs de segunda-feira e conhecemos um cara que se julga incrivelmente esperto, inteligente e atrativo. Sua saga pessoal encontrará final feliz, quando ele canta Let’s Get It On, do Marvin Gaye, com competência e fidelidade – sem perder uma gota de sua fanfarronice.

Veja a entrada em cena do mala sem alça:

2- Han Solo, da série Guerra nas Estrelas

Harrison Ford é um fanfarrão de nascença. Seu charme cafajeste e seguro deram personalidade ao arqueólogo Indiana Jones e aos executivos de Uma Secretária de Futuro e Sabrina. Mas, em matéria de marra, nada se compara ao seu primeiro papel de destaque: Han Solo, o mercenário de Guerra nas Estrelas. Sem um pingo de caráter, o cara empresta sua nave para uma turminha esquisita liderada por um velho com pinta de monge, e acaba se tornando um herói da liberdade. Ironiza os poderes da Força, mantém uma bela amizade com um cão workshire gigante e é perseguido pelo mafioso mais escroto de uma galáxia muito, muito distante: Jabba the Hut. Mas se dá bem no final: pega a única personagem feminina do filme, a nossa Princesa Leia. Ela se derrete: “eu te amo”. E ele: “eu sei.”

1- Cobra Kai, de Karate Kid

OK, o nome do cara é ‘Sensei’ John Kreese. Mas ele ficou conhecido por toda uma geração como Cobra Kai – que é, na verdade, o nome da sua academia de karatê. Ele é o rei dos fanfarrões por liderar e transformar um bando de filhinhos de papai de Los Angeles em delinquentes da pior espécie. Aqueles adolescentes loirinhos e entediados ganham roupas pretas e aprendem a repetir “no mercy! no mercy!” enquanto treinam para o campeonato de karatê da cidade. Depois da aula, saem espancando uns desavisados pelo caminho. No final, ao constatar que seus protegidos estavam, um a um, levando um pau do maior fracote do pedaço, Kreese perde a esportiva e manda quebrarem-lhe a perna. Mas não contava com o golpe da garça. Fanfarrão de verdade é sempre desmascarado no final.

Veja uma bela homenagem ao maior fanfarrão de todos os tempos, ao som do Rage Against the Machine:

A lista é longa, muita gente ficou de fora. Stiffler, o “Stifflodão”, o pretenso comedor de American PieApollo Creed, o oponente de Rocky Balboa nos dois primeiros filmes da série.  Sonny Corleone, o irmão mais velho de Michael em O Poderoso Chefão. Ou seu filho, Vinny, vivido por Andy Garcia em O Poderoso Chefão 3. Joe Pesci nos filmes do Scorsese. E, claro, Mel Gibson em qualquer papel de sua vida, de Máquina Mortífera a Do Que as Mulheres Gostam. Pensando bem, deveria ter feito um top ten.

Frente a um time desses, até o Capitão Nascimento desistiria.


/// Filme VIP da semana: “Karate Kid”, o original

Não sei por que alguém pensaria ser um bom programa ir ao cinema para ver o filho do Will Smith, com uma marra digna de fazer o Romário parecer uma noviça tímida, encara a odisseia anti-bullying com redenção via artes marciais que marcou os anos 80: Karate Kid.

Uma olhada mais de perto aumenta o cheiro de roubada: o filme se chama Karate Kid, mas o moleque aprende kung fu; além disso, o coroa sábio e experiente que treina o pirralho é Jackie Chan. Enfim, o filme está em cartaz, e o dinheiro e o tempo são seus, mas o velho Didi Mocó faria a advertência: é fria, Psit!

Bacana mesmo é aproveitar o ensejo para rever o Karate Kid original. O filme é um daqueles fenômenos espontâneos que marcam uma geração, e que, a despeito de não ter a intenção de ser nenhum Cidadão Kane, tem qualidades notáveis e uma personalidade forte e sedutora, como uma boa música pop, e jamais será esquecido.

O filme, lançado em 1984, traz Ralph Macchio (um dos jovens revelados no obscuro e mítico Vidas sem Rumo, de Francis Ford Coppola – outros foram Tom Cruise, Matt Dylon, Rob Lowe e outros galãs oitentistas) como Daniel Larusso, o moleque de New Jersey que se muda a contragosto para a Califórnia. Lá, encontrará um bando de WASPs loiros, chatos e arrogantes, que não enxergarão nada valoroso na habilidade do rapaz em fazer embaixadinhas com uma bola de futebol (que coisa mais hispânica).

A maior gata da turma, Ali (Elisabeth Shue, entrando para a mitologia de uma geração), no entanto, achou a coisa interessante, e puxa um papo com Daniel, que mal acredita no sonho americano que está prestes a viver. Já o ex-namorado da moça, um almofadinha de caráter pra lá de duvidoso, não gosta nada da brincadeira e põe sua turma de puxa-sacos para espancar Daniel em várias oportunidades. E tome porrada.

Lá pelas tantas, o fracote é salvo pelo Sr. Miyagi (Pat Morita, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante), o pacato e envelhecido zelador oriental do conjunto de apês caidaços onde mora. Sr. Miyagi dá lições de auto-estima a Daniel San (é assim que o coroa o chama), e uma amizade vai nascendo aos poucos, até que se descobre que o homem de poucas palavras fora, na juventude, um campeão imbatível de karatê.

Por coincidência, o karatê era a ferramenta de bullying preferida dos playboys violentos: eles treinavam diariamente no Cobra Kai, academia barra-pesada liderada por um cara de cujo nome ninguém se lembra – a molecada dos anos 80 o eternizou como “o” Cobra Kai.

Daí para a redenção de Daniel San se dar através de um torneio de karatê, é previsível. Mas, de acordo com a sabedoria de boteco mais óbvia e mais agradável, é a trajetória que importa, e não o destino: o grande barato de Karate Kid é o treinamento pouco ortodoxo de Daniel San: Sr. Miyagi não acha que o cara está preparado para lutar, então manda o rapaz encarar serviços domésticos bizarros, como pintar a cerca e encerar o carro, ou simplesmente servir de ajudante numa pescaria. Como o fracote é do tipo que aceita toda e qualquer humilhação, ficamos todos pensando, “que porra de exploração safada é essa?”, mas lá pelas tantas, descobriremos que o moleque virou um fenômeno do karatê.

Além disso, o filme traz aqueles deliciosos elementos de “conto de fadas” de moleque, que envolvem um primeiro carro para o primeiro encontro com a loira maravilhosa que se revela muito sensível e inteligente. E tem o campeonato de karatê, e toda a falta de fair play da turma do Cobra Kai, especialmente do Johnny Lawrence, aquele almofadinha idiota, que protagoniza a grande e final luta contra Daniel San.

Acredito que revelar o final não vai fazer diferença pra ninguém: todos sabem que Daniel San, baleado, vencerá o campeonato com o antológico e mortal “golpe da garça”, a arma secreta ensinada por Sr. Miyagi para uma emergência; todos sabem que ele ficará com a Elisabeth Shue, aquela fantasia de saia azul correndo para abraçar o campeão; e todos sabem que o derrotado Johnny, aquele fracasso em forma de playboy, vai entregar a taça de campeão a Daniel San, gritando: “você é o melhor, Daniel! Você é bacana!” – um babaca.

Mas essa coisa toda serviu para lavar a alma deste blogueiro e de todos seus contemporâneos pré-púberes no meio dos anos 80. Estávamos cansados de ver homens anabolizados e armados até os dentes derrotando exércitos sozinhos. Rambo e Comando Para Matar eram divertidos, mas não nos davam as respostas. Karate Kid apontava o caminho: jogar bola na praia; fazer aulas de karatê; ouvir o que o zelador do prédio tinha a nos dizer; e esperar com calma, porque um dia andaríamos de carro e pegaríamos uma gata. Era só questão de tempo.


/// Estreia: “O Último Mestre do Ar”, de M. Night Shyamalan

Não quero enganar ninguém. Sei que tem gente que acha que Matrix, com sua história complicada de humanos vivendo dentro de um software, é o melhor filme que viu na vida, e que Neo, o Jesus Cristo da vez, é o personagem mais bem construído de todos. Sei que tem gente que entrou em O Senhor dos Anéis ou Harry Potter ou HQ e não saiu mais por anos. Sei, enfim, que tem gente que prefere esse tipo de cinema de fantasia a qualquer coisa mais humana e menos espalhafatosa (penso numa frase recente do grande Mike Nichols, na qual ele afirma estar “por fora” porque só sabe fazer filmes com humanos vivendo no Planeta Terra).

Por isso, não vou malhar O Último Mestre do Ar, novo filme de M. Night Shyamalan, aquele cineasta que assombrou o mundo com O Sexto Sentido e que, depois, foi enterrando sua carreira com uma bomba atrás da outra (A Vila, Fim do Mundo etc).


Veja o trailer de O Último Mestre do Ar, que estreou nesta semana.

O filme, baseado em uma série de animação, começa a história (que se desdobrará em três ou quatro filmes, não entendi direito) de um moleque que domina os quatro elementos (ar, água, fogo e terra) e que, por isso, será o messias de um sistema de quatro mundos (o Mundo do Ar, o Mundo da Água, o Mundo do Fogo e o Mundo da Terra). É lógico que ele será tutelado por sábios de fala devagar e assessorado por gente normal de grande bravura, bichos exóticos e leais e heróis de talento notável, mas muito inferior ao seu. É certo que ele revelará seus defeitos juvenis e hesitará muito em assumir seus assombrosos poderes, dos quais só lançará mão quando perceber o quanto o universo depende dele.

Ou seja, o cara poderia se chamar Luke Skywalker. Mas, desgraçadamente, ele é chamado pela chocha alcunha de “Avatar”, algo que não tem a graça de um Skywalker e que, claro, não pode ser usado no título do filme.

Outro ponto fraco é não haver sabres de luz. Sabres de luz são armas bacanas.

Nos mundos dos “elementos”, cada povo tem a habilidade de manejar ar, água, fogo ou terra, da mesma maneira que o Patrick Swayze e a Demi Moore faziam com a argila em Ghost, saca? E isso vira uma arma mortal, com bolas de fogo e cachoeiras sendo atiradas de um lado pro outro. Efeitos visuais bem bacanas e em 3D, dignos do mundo pós-Avatar.

De resto, nada que faça diferença aqui no Planeta Terra. A falta de novidade impediu que a publicidade bombasse o filme – uma das razões que justificam o fracasso de bilheteria que O Último Mestre do Ar nos EUA.

Mas mais decisivo do que isso são os personagens fracos, muito fracos – não há um Han Solo, um Darth Vader, um Legolas, nem um maldito Jar-Jar Binks, for Christ sake! Personalidade zero, devidamente acompanhada por atores fracos e atuações desastrosas. O menino que faz o protagonista – um oriental pré-adolescente de cara amarrada e talento limitado – sofre na comparação com os heróis de destino messiânico que o antecederam. Não dá nem pra saída (e olhe que temos Keanu Reeves na lista).

Também não tem uma Princesa Leia de biquíni de metal, nem a Rainha Amigdala rolando na relva, nem uma Trinity toda estilosa em roupas de couro. Pegada zero.

Quer dizer, eu tentei fazer um texto isento, pensando nas pessoas que curtem esse tipo de cinema. Mas não posso enganar ninguém. O Último Mestre do Ar é muito ruim.

P.S.: por algum motivo, o crítico Inácio Araújo, da Folha de São Paulo, adorou o filme (dizendo que ele é uma beleza de contemplação em 3D, o que não deixa de ser verdade). Eu não entendi (assim como não entendi a razão pela qual ele achou A Origem uma droga). Sei lá, vai entender cabeça de crítico. Mas fica como uma segunda opinião.


/// Sexta-Feira 13 e o Bonde do Sly

Sexta-feira 13 e, como destaque das estreias do cinema, uma turma invocada: Dolph Lundgren, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Jet Li, Jason Statham e Mickey Rourke. Liderando a quadrilha, ninguém menos do que Silvester Stallone, que escreve, dirige e protagoniza Os Mercenários.

Toda essa situação me evoca uma nostalgia da década de 80, quando vivíamos entre episódios de Rocky e Rambo, entre bombas do Schwarzenegger (Comando para Matar, Jogo Bruto) e idas à locadora para rir com a série Sexta-Feira 13. Era uma época boa para ser pré-adolescente. Ouvíamos Iron Maiden e Van Halen e nos achávamos muito maus.

Certa vez, após conferir a estreia do ultra-violento e reaça Stallone Cobra (bacana esse negócio de, no Brasil, terem  botado o nome dele no título do filme, não?), os moleques da vizinhança passaram uma semana andando de óculos escuros e palitinho no canto da boca, enquanto repetiam o bordão “você é a doença; eu sou a cura”.


Relembre o clássico trash Cobra!

No entanto, nesta sexta-feira 13 de solzinho fraco e cidade calma (impressionante como o trânsito de São Paulo melhorou), o espírito é de sentimentos bem mais amenos. Não há mais Jason Vorhees e suas vítimas adolescentes que transavam em celeiros; não há mais graça em ver o Governador da Califórnia ou Stallone explodindo coisas (ainda mais aqui no Brasil, lugar onde Sly afirma ganhar macacos a cada série de explosões e tiros). É interessante a reunião de turma com todos os heróis de ação dos anos 80, 90 e 00, mas é difícil imaginar que vá sair coisa boa de um filme dirigido por Stallone (vamos lembrar que o cara dirigiu Os Embalos de Sábado Continuam, a sequência bizarra de Os Embalos de Sábado à Noite).

O lance para o final-de-semana é aproveitar a segunda semana de A Origem, de Christopher Nolan, e checá-lo numa sala com tela enorme, de preferência no I-Max.

Se o leitor estiver com vontade de contar corpos, vá direto aos originais e se divirta com Rambo II – A Missão, em que Stallone volta ao Vietnã e trucida um exército inteiro (destaque para a degolada no guarda que não o percebe camuflado numa montanha de lama), ou Comando Para Matar, em que Schwarzenegger mata toda uma milícia do tráfico de drogas sul-americano, para resgatar a filhinha (Alyssa Milano, infelizmente pré-púbere). Sua sede de sangue estará satisfeita por uns dez anos.


/// Estreia: “A Origem”, de Christopher Nolan

Há momentos na vida em que você deve deixar a pose de lado e admitir: tem gente muito mais esperta do que você.

O leitor testemunha, enquanto lê estas linhas, o exato momento em que este blogueiro entrega os pontos e abdica de tentar analisar um filme e classificar se ele é bom ou mau programa. O filme é A Origem, de Christopher Nolan, uma das coisas mais malucas já exibidas em salas de cinema e, ao mesmo tempo, um enorme sucesso.

O filme, que lembra um pouco Matrix, lembra outro tanto Vanilla Sky e evoca vários momentos do David Lynch, está arrebentando nas bilheterias americanas – tem gente vendo e revendo e declarando que é o melhor filme que viu na vida – e acaba de estrear nos cinemas brasileiros. A crítica tem se dividido entre gente que se entrega à inventividade e ao espetáculo de Nolan, e gente que simplesmente desceu a lenha por julgar o filme desagradável e confuso. BLOGIE se alinha com o primeiro grupo: A Origem é a coisa mais surpreendente do ano, merece o sucesso que está fazendo e vale uma segunda e uma terceira ida ao cinema. Deve fazer bela carreira em DVD / Blu-Ray.

Nolan tem crescido como pouquíssimos cineastas: estreou com o deveras confuso Amnésia, deixou uma pulga atrás da orelha com o bom e subestimado Insônia, acertou em cheio com O Grande Truque e arrebentou com o último Batman – o Cavaleiro das Trevas. Em comum, todos os filmes trazem elenco impecável com atuações mais que perfeitas, apuro estético muito acima da média e roteiros engenhosos com desfechos de tirar o fôlego. O cara é realmente bom, e está cada vez melhor.

Em A Origem, ele recruta Leonardo DiCaprio para o papel do cara que invade sonhos alheios com o objetivo de roubar segredos industriais. Sua equipe inclui uma promissora arquiteta (Ellen Page, de Juno), um técnico preciso e neat (Joseph Gordon-Levit, de 500 Dias com Ela), um especialista em personificações e um químico. O time encara uma missão inédita: um magnata (Ken Watanabe, de O Último Samurai) os contrata não para roubar um segredo do concorrente, mas para plantar uma ideia em seu subconsciente. Essa “inserção” (Inception, que é o nome original do filme) demanda uma preparação muito maior, a criação de universos detalhados e um complicado mergulho no mundo dos sonhos (há sonho dentro do sonho e muitas outras maluquices). O grande obstáculo está na assombração do próprio subconsciente do líder da gangue: a ex-mulher do cara (a vencedora do Oscar Marion Cotilliard) vive atrapalhando seus planos. Falar mais é estragar o filme.

Entender toda a trama é difícil? É. Mas não será nenhum problema conferir novamente o incrível mundo de sonhos criado por Nolan – como as ruas de Paris se encurvando em direção ao céu e fechando-se num inacreditável loop. Sabe aqueles desenhos do M.E. Escher, como aquela escada infinita? É disso que estamos falando.

E há cenas infinitamente belas, como Gordon-Levit lidando com a falta de gravidade enquanto dá conta de suas tarefas. Lembra aquelas sequências coreografadas de 2001, de Stanley Kubrick.

Pensando bem, é aí que encontramos o parentesco de Christopher Nolan: ele é um discúpulo de Kubrick, com filmes que não aliviam em complexidade e que não tratam o espectador como imbecil. E não está fazendo feio. Seus dois últimos filmes – e em especial este A Origem – estão no nível dos melhores Kubricks.

A melhor coisa que um crítico pode falar ao seu leitor é a seguinte: não compre DVD pirata, não baixe, não veja A Origem em casa. Não estrague seu próprio prazer. Vá ao cinema e confira esse filmaço na maior tela que você conseguir encontrar. De preferência, no I-Max.

Por essa razão, não incluí neste post imagens ou filmes. Não ajudaria em nada e ainda atrapalharia. Abandone-se à surpresa, vai fundo.

Elenco perfeito, grandes atuações, roteiro inteligente, imagens de cair o queixo: é disso que o cinema é feito. A Origem é filme pra ficar na História.


/// Na TV: “Tá Rindo do Quê?”, de Judd Apatow

1. Gente Engraçada

Você certamente já ouviu falar em O Virgem de 40 Anos. Com certeza, já assistiu a Ligeiramente Grávidos. Se é uma pessoa com bom humor e chegada numa comédia, entende que esses filmes ajudaram a mudar a cara da comédia durante os últimos cinco anos – e alavancaram as carreiras de novos e excelentes comediantes, como Steve Carrel e Seth Rogen, além de um bando de nerds judeus que inclui o gordo e fanfarrão Jonah Hill e o boa-pinta e auto-irônico Paul Rudd. Em comum, os dois filmes e todos esses nomes têm o mesmo maestro: Judd Apatow, um cineasta com a rara habilidade de fazer um humor mais escroto e ofensivo do que o de American Pie, ao mesmo tempo em que trata de questões das mais difíceis da vida humana com perspicácia e delicadeza – a solidão, a inadequação, a paternidade, a amizade…

Este blogueiro é fã incondicional de qualquer um que consiga aliar um produto rentável comercialmente com um conteúdo esperto e inteligente, e Judd Apatow entrou direto para o seleto grupo de diretores que sempre contarão com a minha audiência simplesmente pela constância de seu nome nos créditos.

Corta. Agora preciso falar de outro cara.

Qualquer pessoa que se interessa por filmes no Planeta Terra conhece Adam Sandler. Afinal, é um dos dois grandes comediantes da década de 90 (ao lado de Jim Carrey), conta com filmes de enorme bilheteria e construiu uma reputação de… bem, de um idiota. Por algum motivo, a menção do nome de Sandler vem sempre seguida de uma cara de nojo e de um ar de superioridade. Deve ser muito constrangedor, para o enorme público que vê seus filmes, assumir que se diverte com predileção de Sandler por piadas bizarramente escatológicas e nonsense (penso em Zohan, o Agente Bom de Corte) e por personagens ridiculamente lesados mentalmente (O Rei da Água, por exemplo).

Eu, no entanto, sempre fui fã de Adam Sandler. Cada um de seus filmes – e cada um a seu modo – traz uma verdadeira elegia do cara comum, um homem sem pose ou ambição, que é fiel aos seus amigos e que não trai sua namorada, que bebe cerveja e acompanha o baseball e gosta de rock. Esse cara acaba sempre enfrentando o cool, o blasé, essas expressões afrescalhadas que pedem um itálico. São filmes, apesar de todos os peidos, cofrinhos e pentelhos deixados nas mãos de terceiros, humanistas e refrescantes. O resultado final é sempre um sorrisinho tranquilo de fé no ser humano. Sandler é um comediante da linhagem de Chaplin.

2. Funny People

Pronto. Agora, junte o comediante de maior sucesso de Hollywood com o diretor de comédias mais promissor do cinema. Some a isso o fato de que, olha só como as coisas são, os caras foram colegas de quarto durante a faculdade! Inclua no elenco toda a rapaziada da máfia liderada por Apatow, Seth Rogen à frente. E não vamos nos esquecer de contar com Leslie Mann, a linda, talentosa e engraçada esposa de Apatow, presente em Ligeiramente Grávidos, estrelando o sub-plot da vida em família (as duas meninas são suas filhas com Apatow, e elas devem vir junto no pacote).

O resultado de toda essa escalação é Funny People, um filme que tinha tudo para ser um sucesso histórico no verão de 2009 nos EUA e um marco na história das comédias – mas que acabou se tornando uma bomba. Na esteira disso, o filme não foi lançado no Brasil, o tempo foi passando, a distribuidora embarcou no mau humor e o intitulou Tá Rindo do Quê? e o encalhou nas prateleiras das locadoras. Agora o filme ganha a chance de ser decifrado na TV paga (ele foi lançado na semana passada como o destaque do mês no Telecine Premium).

3. Tá Rindo do Quê?

Tá Rindo do Quê? é o filme “autoral” de Judd Apatow, um estudo de de onde vem a comédia, e como a convivência com piadas e ofensas pode deteriorar uma existência (o sucesso, a pressão por mais sucesso e o envelhecimento são componentes que complicam a equação). Três horas de duração. Incômodo. Cada boa piada ou momento reconfortante vem antecedido de uma tortura psicológica de quinze minutos – e é seguida por mais conflito. Em vários momentos, o processo criativo da comédia pode ser desagradável – e o filme não foge disso.

Adam Sandler foi buscar inspiração no Jerry Lewis de O Rei da Comédia, outro filme sinistro sobre a arte de fazer rir e como isso corrói a vida do artista (O Rei da Comédia é um dos grandes filmes do Scorsese, com Robert DeNiro como um comediante obcecado por Jerry Lewis). Sandler, assim como aquele Lewis, faz um comediante de enorme sucesso, de persona pública engraçada, mas com um enorme “lado escuro”. Sua vida pessoal é uma desgraça, ele é arrogante, destrutivo – pra simplificar as coisas: uma má pessoa.

Seth Rogen é um comediante novato que é escolhido por Sandler para lhe dar um suporte – ele será o redator de suas piadas em shows de stand-up comedy e também funcionará como assistente pau-pra-toda-obra. Da não-amizade dos dois – e das decorrências de uma doença fatal que acomete o personagem de Sandler -, mudanças de vida acontecerão. Ou não.


Veja o tocante esforço da equipe do Telecine para tentar vender o filme como algo minimamente palatável ou edificante…

Há muitos detalhes que enriquecem essa história, e que lhe conferem um toque autoral e uma pungência pesada. Dou quatro exemplos:

1- a cena de abertura já traz um Adam Sandler novinho, filmado de maneira tosca, passando trotes de seu quarto. A cena foi filmada por Apatow, décadas atrás, quando ele e Sandler eram colegas de quarto.

2- A família que Sandler deixou de ter (sua namorada de quinze anos atrás e as duas adoráveis filhas que ela teve com outro cara) é formada pela família real de Apatow: Leslie Mann e suas duas filhinhas, com direito a alguns filmes caseiros reais, como a mais velha participando de uma peça escolar. Ver como os personagens lidam com isso é incômodo e tocante.

3- O personagem de Sandler é mais do que uma paródia, uma construção triste do que é um comediante de muito sucesso: um cara que nasceu no stand-up, que ganhou fama e grana no cinema e que, hoje em dia, faz filmes bizarros voltados para o público infantil menos qualificado (digamos, um caso muito parecido com o do Eddie Murphy).

4- A máfia dos jovens atores (Rogen, Hill e outros) vivem mais ou menos o que eles faziam há poucos anos: pulam de uma série para outra, se enciumam um do outro, disputam quem é o mais engraçado ou talentoso ao mesmo tempo em que tentam manter a brodagem viva.

O filme é longo. O filme é desagradável. O filme, a despeito do nome – e de trazer muita gente que é comprovadamente engraçada – causa poucos risos. OK, Apatow chutou o balde e usou sua reputação para fazer um filme que realmente diga o que ele quer dizer. Poucos se dispuseram a escutar, mas eu gostei do que vi e ouvi, e minha admiração por seu trabalho – e pelo de Adam Sandler, em seu melhor trabalho como ator de verdade – só cresceu.

No mais, a tradução brasileira, apesar de pouco elegante, certeira: Tá Rindo do Quê?, uma provocação, quase uma ofensa. Adequado.

O filme será exibido nos seguintes dias e horas, sempre na rede Telecine:

- 7/ago, 22:00, TC Premium e TC HD

- 8/ago, 20:00, TC Pipoca

- 9/ago, 19:30, TC Premium e TC HD

- 13/ago, 23:45, TC Premium

E outros horários.

Depois de assistir, lembre-se de deixar seu comentário por aqui. Nem que seja pra me xingar.