Blogie - Cinema da VIP Ricardo Garrido

Nosso blogueiro mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta

/// Adeus ao Tenente Drebin

Não há maneira mais triste de se iniciar uma semana do que com um obituário. Ainda mais quando o finado é um cara que fez o mundo rir. Leslie Nilsen, famoso por comédias malucas como Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu, morreu ontem, aos 84 anos.

Nilsen é o responsável pelo maior surto de gargalhadas que este blogueiro já sofreu na vida. O ano era 1988, eu e mais dois pré-adolescentes metidos a malandros entramos no cinema fortemente determinados a tornar a vida dos demais espectadores num inferno. Estávamos munidos de elásticos de dinheiro e papéis que se tornaria projéteis insuportáveis pairando pela sala. Era a nossa diversão (de como saiu um quase crítico de cinema disso, não sei). Já tínhamos visto os filmes mais “quentes” em cartaz: lembro-me que Indiana Jones e a Última Cruzada  estava na sala ao lado. Um cartaz mostrava um velho, cabeça branca e cara de bobo, com uma arma na mão, montado em cima de uma bala de revólver gigante. Corra que a Polícia Vem Aí. Entramos.

Os elásticos de dinheiro ficaram intocados. Mas o povo que lotava o cinema nem se importaria com a chuva de projéteis: a histeria havia dominado o recinto. As gargalhadas explodiram, do nada, com o velho do pôster invadindo uma reunião de inimigos dos EUA sozinho. O Aiatolá iraniano toma sopapos e tem seu corte moicano revelado; Gorbachev tem sua mancha removida com perfex da testa; Idi Amin e muitos outros apanham do cara, que se identifica: Tentente Frank Drebin, do Esquadrão de Polícia de L.A.. E então veio a vinheta de abertura, com o “cherry top” de um carro de polícia rondando pelas ruas de Los Angeles, e depois num lava-rápido, e então numa montanha-russa e, finalmente, num vestiário feminino cheio de beldades nuas tomando banho. Os risos não cessavam.

Logo depois, vem a “morte” do policial Norbert (O.J. Simpson, numa ótima participação como ator): o cara é metralhado, pisa numa armadilha de urso, põe a mão numa fornalha pelando, se suja numa porta com tinta fresca e cai no mar, sob os olhares atônitos dos seus executores. Nunca havíamos visto uma sequência cômica tão absurda e tão milimetricamente construída. Não havia espaço para uma respiração entre um riso e outro, a coisa se tornava convulsiva e o ar começava a faltar.

É a deixa para Leslie Nilsen, o coroa do cartaz, o Tenente Frank Drebin, voltar à cena. O cara mais engraçado da história.

A missão de Drebin: garantir a segurança da Rainha Elizabeth II, em visita a L.A.. Seu método: matar todo mundo de rir. Entre piadas de texto rápidas (“você tem um belo castor”, fala ele olhando sob a saia de Priscilla Presley, enquanto ela lhe passa um castor empalhado escada abaixo) e piadas visuais mais surreais do que o sonho mais viajante do Salvador Dali (o casal, prestes a fazer sexo, consensa que só o faria com “proteção” – e aparecem os dois corpos nus, cobertos por camisinhas gigantes), o que causava mais risos era a expressão atônita de Nielsen a cada absurdo. Com meia hora de filme, eu vi pessoas literalmente rolando no chão do cinema; vi um cara pulando e socando o ar como Pelé no corredor; eu e os outros dois meliantes trocávamos socos enquanto chorávamos de rir. Histeria.

O clímax do filme se dá num estádio de baseball, no jogo em que o vilão (Ricardo Montalban, em seu último grande papel) pretende assassinar a Rainha. Drebin entra em campo como Enrico Palacio, um famoso cantor de ópera. Avacalha o hino americano, enquanto é identificado como penetra. Foge, volta a campo – desta vez disfarçado como juiz -, rouba contra o time da casa (para ganhar tempo), salva a Rainha, ganha a mocinha, leva o vilão em cana e reencontra seu parceiro convalescente: o Norbert, do começo do filme. A barriga doía, era doentio: um cara cai de uma altura impensável, é atropelado por um rolo compressor e pisoteado por uma fanfarra. Drebin só comenta: “que maneira horrível de morrer”.

httpv://www.youtube.com/watch?v=DEYpcCCS-QY&feature=related

Há muitos, muitos outros momentos. Um acidente envolvendo um peixe raríssimo assassinado por uma caneta das mais caras. O carro de Drebin descendo as ruas de L.A. em ponto morto. As reflexões cabeça recitadas por Leslie Nilsen em estado de graça.

Veio a versão em VHS, alugada na locadora. Lá pelo meio do filme, minha preocupada mãe apertou o STOP sem que percebêssemos – os mesmos moleques do cinema convulsionavam no chão, aparentando estar em algum lugar entre a agonia e o êxtase. Veio a exibição na Tela Quente, e depois na Sessão da Tarde, e até hoje, qualquer que seja o momento, sempre que estou zapeando sem rumo pela TV por assinatura, se dou de cara com o Tenente Drebin, é lá que eu fico – e a coisa se repete. E a esposa fica me olhando com aquela cara de nojo, não entendendo como vejo tanta graça num filme que já vi mais de vinte vezes.

Mas essa incredulidade dura pouco, porque em dez minutos ela está na mesma pegada, chorando de rir das trapalhadas de Drebin e da cara de panaca que o grande Leslie Nilsen lhe deu.

Portanto, o leitor não se assuste com a repercussão que a morte de Nilsen ganhou nos portais de notícias: a minha geração – gente que cresceu em algum lugar entre as gerações X e Y – perdeu seu herói cômico. Tipos como Slash, guitarrista do Guns’n'Roses, e o comediante Russel Brand, que pega a Katy Perry, deram declarações consternadas nesta manhã. Colegas das redações da Abril tuitam frases que vão de “Leslie Nilsen me ensinou a rir” até “Leslie Nilsen definiu meu caráter”. Não é exagero.

O velho Nilsen foi o último grande comediante. Não há páreo para ele no cinema ou na TV de hoje. O tipo de comédia que ele fazia ficou datada, coisa dos anos 80. A coisa mais próxima que rola hoje é Se Beber, Não Case. Perto de Apertem os Cintos ou Corra que a Polícia Vem Aí, parece A Noviça Rebelde.

Descanse em paz, velho. Você vai fazer falta.


/// A vida como ela deveria ser

Depois de dois dias orbitando no universo dos Beatles, incluindo 14 horas dentro do Morumbi, passando por 6 horas ao som da música e da voz de Paul McCartney, peguei-me no carro pensando: como vai ser a vida daqui para a frente?

Quer dizer, é claro que a vida vai continuar indo assim, assim – o trabalho, um jogo do Corinthians, idas ao boteco, e então casamentos, filhos, formaturas -, exatamente como aconteceria se essa incursão de Macca ao Brasil não tivesse existido. Mas a sensação que persiste é de que a vida acontecia dentro de um estádio, eu encontrando velhos amigos,  rodeado por famílias de gente fina com camisetas dos Beatles, e o noticiário das oito só discutia os números e feitos dos rapazes de Liverpool, e a mesa-redonda de domingo só discutia um assunto: quem é melhor, John ou Paul?

O expediente rolava das 17 hs – com a abertura dos portões – até a meia-noite e meia – com todo mundo cantando que, no fim de tudo, o amor que você ganha é igual ao amor que você dá -, e o desafio era manter as cordas vocais funcionando até Helter Skelter, para então sacrificá-las sem dó, em nome da purificação da alma pelo rock’n'roll. E a vida continuaria no dia seguinte, com o ouvido apitando e a voz se recuperando para mais uma noite de rock.

httpv://www.youtube.com/watch?v=s0PQ9QLRtkE
Helter Skelter: o momento exato em que minhas cordas vocais foram para o saco.

Mas isso era a vida ontem. Hoje eu acordei sem saber o que fazer.


/// A hora e a vez de Macca

Entre os dias 21 e 22 de novembro, este blog estará interditado por motivos de força maior. O blogueiro verá um Beatle ao vivo. Sim, nos dois dias, porque não se desperdiça uma chance dessas. E  não dá pra pensar em outra coisa.

O cinema, o trabalho, esposa e amigos - enfim, as coisas comezinhas da vida – terão que esperar até terça-feira. Até lá, minha mente só conseguirá processar informações que venham na forma das melodias perfeitas de Paul McCartney, o maior compositor do século 20 e ídolo máximo deste que vos escreve.

Cenas constrangedoras de idolatria e descontrole emocional são esperadas. Tudo perfeitamente normal, como teria advertido Ed Sullivan ao seu staff, horas antes dos Beatles aparecerem pela primeira vez na TV americana, em 1964.

Abaixo, Helter Skelter, grande momento no bis dos shows de Macca:

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZV18scOsX54

Se é pra fazer papelão, que seja por esse cara.


/// Mais uma chance para o Grande Gatsby

Como o leitor já deve ter percebido, BLOGIE nunca embarca naquelas conversas de qual ator está sendo sondado pra fazer tal filme… pessoalmente, acho essa conversa um saco. Não sei por que os portais gastam tanto espaço com esse tipo de notícia. Não agrega nada.

Mas, quando leio que vão tentar novamente adaptar para o cinema um dos meus livros preferidos, tenho que abrir uma exceção.

O livro é O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, um dos raros merecedores do perseguido título de “o grande romance americano”.

Fitzgerald no cinema: lá vamos nós...

Adaptações de Fitzgerald para o cinema dão sempre errado – embora seus textos sejam quase roteiros prontos, de tão impactantes, bem descritos, elegantes e cheios de diálogos memoráveis. A mais recente, O Curioso Caso de Benjamin Button, abandonou o clima e o texto do autor para se reduzir a uma imitação de Forrest Gump. O próprio Gatsby teve uma tentativa séria, mas mal sucedida, no meio dos anos 70: com roteiro de ninguém menos do que Francis Ford Coppola, com Robert Redford como Jay Gatsby e Mia Farrow como Daisy Buchanan, a coisa tinha tudo pra dar certo – mas resultou num troço burocrático, frio e medroso.

Capa da GQ americana em 1975, quando do lançamento de O Grande Gatsby. 
 

Penso em todos os livros de Fitzgerald e imagino ótimos filmes saindo de cada um deles (Este Lado do Paraíso, Os Belos e os Malditos, Suave é a Noite - cada filmaço que poderia pintar por aí!). Mas bola pra frente, a luta continua.

A nova tentativa inclui Carey Mulligan (aquela coisinha fofa de Educação) como Daisy. Show. Eu não conseguiria imaginar um nome melhor do que ela para adotar o ar deslumbrado e frívolo, levemente embriagado, em alva pele e douradas mechas. O próximo nome em negociação promete algo ainda mais forte: Leonardo DiCaprio, simplesmente o maior astro do cinema, como Jay Gatsby. Se se confirmar, é sensacional.

Carey Mulligan: a próxima Daisy Buchanan, a Capitu da literatura americana.

O problema aparece quando vejo quem está à frente da empreitada: Baz Luhrmann, aquele cara afetado e espalhafatoso que fez uma adaptação polêmica de Shakespeare (Romeu e Julieta, com o próprio DiCaprio), um musical inovador (Moulin Rouge) e uma bomba trash (Austrália). M-E-D-O.

Por outro lado, é um cara destemido e que não vai se apequenar diante do desafio.

Vamos acompanhar os próximos capítulos. Eu prefiriria um Cameron Crowe ou um Jason Reitman com o roteiro embaixo do braço, mas vamos lá. Em busca da adaptação perfeita de um Fitzgerald, quase cem anos depois.


/// Nos cinemas: tem pra todo mundo

Estes últimos dois meses do ano são sempre interessantes. O Campeonato Brasileiro pega fogo, as aulas acabam, os ânimos no escritório vão se acalmando… e os cinemas recebem toneladas de estreias, egressas da temporada de outono dos EUA (que traz os filmes mais adultos,  aqueles que concorrerão aos Globos de Ouro e Oscars da vida), assim como blockbusters de Natal. É difícil dar conta de tantos filmes, e escolhas devem ser feitas. A missão deste blogueiro é ajudar o leitor a escolher o programa mais adequado.

Nesta semana, temos uma boa meia dúzia de filmes que valem uma ida ao cinema, começando pela grande estreia prevista para sexta-feira: Harry Potter e as Relíquias da Morte. Para os fãs da série, assunto encerrado. Eu, que não li os livros nem me impressionei muito com o universo de Hogwarts, passei a régua no terceiro filme, pois me cansei tanto do “esquema” repetido a cada aventura quanto da espera pelo crescimento de Hermione.

Ah, Emma Watson, você demorou muito para crescer...

Outro tiro certo é Um Parto de Viagem, novo filme de Todd Phillips, diretor do fenômeno Se Beber, Não Case. A fórmula é a mesma: homens crescidos fazendo merdas inimagináveis durante uma viagem. As estrelas são Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis (o gordinho barbudo de Se Beber…), como os caras sem nada em comum que, meio por acidente, se veem obrigados a compartilhar uma viagem. É, na verdade, um upgrade do clássico Antes Só do que Mal Acompanhado, comédia de grande sucesso nos anos 80.

Downey e Galifianakis: revivendo Steve Martin e John Candy

Para a turma chegada nos filmes de ação, RED – Aposentados e Perigosos é um prato cheio: Bruce Willis é o agente secreto aposentado que, de repente, se vê perseguido por caras muito bem treinados (a própria CIA?). Pega a namorada (Mary Louise Parker, sempre ótima), arregimenta a moçada old school (Morgan Freeman, John Malkovitch e a improvável gata da terceira idade Helen Mirren ) e sai por aí, explodindo coisas e invadindo a sede da CIA. É bem divertido, Bruce Willis é sempre o cara em sua persona John McLane (o herói de Duro de Matar), e é interessante ver atores premiados como Freeman, Malkovitch e Mirren em um filme de ação despretensioso (“eu mato pessoas, querida”, explica Mirren, com pinta sua de Rainha Elizabeth II muuuito melhorada).

Helen Mirren pilota um brinquedinho como ninguém. E John Malkovitch não perde a pose. 

Mas o melhor filme em cartaz é o inesperado Minhas Mães e Meu Pai, comédia dramática magistralmente concebida em cima da curiosa ideia de duas lésbicas que usaram o mesmo doador de esperma para gerar seu casal de filhos (um de cada uma). Os filhos crescem e, no meio da adolescência, resolvem procurar o doador. Poderia render uma comédia idiota e metida a alternativa, mas não nas mãos dessa ótima escritora e cineasta Lisa Cholodenko – e não com um elenco tão perfeito quanto o formado por Julliane Moore e Annette Bening (como as mães lésbicas) e Mark Ruffalo (como o doador de esperma descoberto). O resultado é um filme extremamente humano, com seus personagens imperfeitos e bem intencionados, interessantes e revoltantes, lutando pra fazer a vida em família funcionar (“it’s a fuckin’ marathon!”, desabafa a personagem de Moore). Os filhos adolescentes também são ótimos, especialmente Mia Wasikowska (a Alice do Tim Burton). O incômodo da relação homossexual das duas é colocado com delicadeza, mas isso não impediu que uns três idiotas tenham se levantado e deixado o cinema com menos de vinte minutos de filme. Ou seja, exige uma certa sensibilidade. Se você é daqueles que só vai ao cinema se houver explosões do Stallone ou peidos do Adam Sandler bem altos, não aproveitará bem esse belo filme.

httpv://www.youtube.com/watch?v=bdDSqgZ87fM
Veja o trailer de Minhas Mães e Meu Pai (aliás, uma tradução idiota de The Kids Are All Right)

Claro, tem ainda o documentário sobre Ayrton Senna, herói brasileiro. Ainda não conferi, mas o trailer promete (o Blog da Redação tem um ótimo post sobre o documentário, confira!).

E ainda há aquela expectativa sobre a estreia do novo Woody Allen, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos. Só acredito na notícia quando aparecer no jornal de sexta-feira. Por algum motivo bizarro, os filmes do baixinho nova-iorquino frequentemente são objetos de desmandos e postergações inexplicáveis. Parece que agora vai.

Boa semana a todos e boa sessão!


/// Em cartaz: “Scott Pilgrim Contra o Mundo”

Há momentos em que a gente força a barra pra se manter jovem – e acaba ficando meio ridículo. É assim que me senti, perante esposa e casal de amigos, ao final da sessão de Scott Pilgrim Contra o Mundo, inclassificável filme em cartaz nos cinemas brasileiros (comédia teen? Aventura? Adaptação de HQ? Romance? Fantasia?).

O pacote, convenhamos, é atraente: temos Michael Cera, aquele rapaz com pinta de nerd tímido que fez sucesso em Juno e Superbad, como o Scott Pilgrim do título. O cara é baixista de uma banda de indie rock, é viciado em vídeo-games e começa a namorar uma moça de cabelos coloridos (laranja, azul, verde – cada hora é uma cor). A moça, como uma música dos Ramones, se chama Ramona, e é vivida por uma tremenda gata chamada Mary Elizabeth Winstead – fez a filha do Bruce Willis em Duro de Matar 4.0 e a cheer-leader em À Prova de Morte, do Tarantino -, aqui desfigurada sob a aparência esquisita e um monte de roupas que o frio de Toronto, local onde se passa a história, lhe impõe.

Mary Elizabeth Winstead, à paisada e como Ramona: por quê?

A partir daí, o bizarro acontece: a temível “liga dos 7 ex-namorados maus” de Ramona desafia Pilgrim em lutas mortais, cheias de recursos de vídeo-game, como vidas-extra, armas obtidas aqui e ali e moedinhas que caem ao fim de cada luta. Parece divertido, sugere toneladas de citações pop, evoca experiências felizes no cinema recente – Kick-Ass, sendo objetivo.

Mas é tanta coisa, tanta frescura, um ar de bandinha de garagem metida a besta que paira sinistramente sobre o mundo de Pilgrim e Ramona, que o programa se torna insuportável para qualquer ser humano que não habite esse universo. E aí, amigo, eu entrego os pontos. Quero enganar quem? Sou só um cara que curte filmes e que está preocupado com a tradicional demora para a estreia do próximo Woody Allen em São Paulo…

Isso não significa que eu tenha odiado Scott Pilgrim, nem que eu o julgue mau filme ou mau programa. Certamente há público interessado pela riqueza e esquisitice visual dessa brincadeira pop, como aquele meu primo universitário que não consegue abandonar o vício de jogar Worms durante uma parcela assustadora do seu dia. O som (punk inofensivo, bem ao gosto da turma que tem no All Star a peça fundamental do seu guarda-roupa) também é divertido. A presença de Jason Schwartzman, o carimbo de plantão em todo filme alternativo, confere graça e aquele ar de “não me levo a sério” que a coisa pede (Schwartzman é sobrinho do Francis Ford Coppola, primo da Sofia Coppola; o cara é realeza de Hollywood, mas faz questão de ser um esquisito, de sobrenome esquisito, atuando em filmes esquisitos).

httpv://www.youtube.com/watch?v=qoFqatfEFrw

Veja o trailer de Scott Pilgrim Contra o Mundo

E há coisas bem divertidas, como a cantada de Pilgrim baseada no nome de Pac-Man, o jogo (que se chamaria Puk-Man, mas o trocadilho potencial teria motivado os produtores a mudar de ideia). Ou os doidos que se apresentam como os sete ex-namorados(as). Ou piadas escondidas do público-alvo, como os nomes dos integrantes da banda de Pilgrim (um se chama Young Neil – tipo, Neil Young -, o outro, Stephen Stills – dois grandes músicos canadenses que tocaram juntos no Buffalo Springfield e no Crosby, Stills, Nash and Young).

Mas, confesso, passei da idade. Scott Pilgrim Contra o Mundo foi um pouco longe demais pra mim.

Invejo quem está com a idade e com o álbum de figurinhas vazio o suficiente pra curtir o longa. E espero pelo próximo filme de Mary Elizabeth Winstead, de preferência em algum balneário da Califórnia. E sem moedinhas pulando e pontos acumulando no canto da tela.


/// Nostalgia: “Sem Licença para Dirigir”

Toda essa confusão sobre o ENEM – provas com perguntas repetidas ou faltantes, problemas gráficos, discussão sobre anulação -, não sei por quê, me lembrou de um clássico das Sessões da Tarde da vida: Sem Licença para Dirigir, comédia teen dos anos 80.

Estamos em 1988, Corey Haim está naquele papel a que nos acostumamos ao longo da década perdida (moleque de franja e trejeitos modistas plastificados até para quem curtia o modus operandi da época – digamos, um Duran Duran wannabe). Ele precisa, claro, tirar carteira de motorista, de modo que consiga pegar uma tremenda gata chamada Mercedes (Heather Graham, num papel estranhamente marcante e, ao mesmo tempo, pouco lembrado na sua carreira). O filme é uma odisseia em torno da obtenção da tal carteira (ele não consegue de jeito nenhum, idiota que é) e de um carro bacana para abrigar o encontro.

Veja o trailer:

httpv://www.youtube.com/watch?v=a4KJtDxTqWQ&feature=related

Daí o leitor pergunta: e o que isso tem a ver com o ENEM? Bem, este blogueiro, quando na sua impressionável pré-adolescência, ficou estarrecido em ver americanos respondendo provas teóricas de direção em computadores. Computadores! Parecia meio NASA para nós, tupiniquins…

É claro que daí para pensar em um ENEM em base eletrônica seria uma forçada de barra – afinal, todos os estudantes de nível médio devem fazer a prova, e é óbvio que não há computadores para todos -, e que o Brasil hoje não está assim tão atrasado em tecnologia – basta lembrar o nosso sistema de votação eletrônica. Mas o fato é que fico de bobeira com o fato de que, ao fim da primeira década do século 21 (mesma época em que “não precisaríamos de rua”, segundo o Dr. Brown, de De Volta para o Futuro), estejamos lidando com problemas tão toscos como erros de impressão numa prova.

Cheira a mimiógrafo – outra coisa bem anos 80.

PS: mimiógrafo é aquele aparelho a manivela que, abastecido com álcool e a partir de uma matriz em papel-carbono, era muito usado pelas professoras para reproduzir provas e listas de exercícios. Filho de uma professora, eu tinha um exemplar em casa.

PS2: a última frase de Sem Licença para Dirigir é uma das melhores frases da história do cinema. O moleque, após arruinar o carrão do pai e não conseguir a carteira de motorista, é questionado: “e a BMW?” – e nisso, chega um carro conversível, com uma baita loira na direção, e ele entra no carro, se ajeita no banco do passageiro, e responde: “quem precisa de BMW, quando se tem uma Mercedes?”

PS3: OK, é um arremate bem machista, colocando a moça como um objeto. Mas é um achado, o roteirista não poderia mesmo desperdiçar uma frase dessas.