Blogie - Cinema da VIP Ricardo Garrido

Nosso blogueiro mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta

/// Ferris, um cara popular

Um dos núcleos mais divertidos de Curtindo a Vida Adoidado é o par formado por Edward Rooney, o diretor autoritário que é obcecado em perseguir e desmascarar Ferris Bueller, e sua secretária, Grace.

Graaaaaaaaaaace!!!

Grace é uma piada ambulante das secretárias trash de filmes para adolescentes. Por exemplo, em determinada cena ela começa a tirar lápis e canetas do seu cabelo cheio de laquê. É uma sacada engraçada, mas é uma citação: em Grease – Nos Tempos da Brilhantina, a secretária do colégio também saca uma caneta da cabeleira, entregando o artefato na mão enojada da Olivia Newton-John.

Grace cheirando um liquid paper: drogas leves para tempos menos bicudos

Rooney grita com Grace o tempo todo, mas Grace se derrete de admiração pelo chefe: ela é a única que bota fé no sucesso da empreitada do cara. Para ela, Rooney conseguirá pegar Ferris no pulo.

Mas até ela acaba se rendendo ao talento do gazeteiro. Lá pelas tantas, Rooney desabafa: ele trabalhou tanto para se impor como diretor da escola, que não dá para correr o risco de ter centenas de discípulos de Ferris Bueller pelos corredores.

E Grace arremata: “ah, ele é muito popular. Todos o adoram e acham que ele é um cara super legal” (a expressão original usada é righteous dude). E desanda a elencar todas as tribos que se dão bem e gostam de Ferris. Temos, então, uma bela lista dos arquétipos juvenis das comédias voltadas para o público. O tom é propositadamente desajeitado, como se afirmasse que só mesmo imbecis perdidos no tempo, como Grace, tratam adolescentes em termos de grupos estereotipados. Cool.

Veja a cena:

httpv://www.youtube.com/watch?v=VAUW22XrnQw

Confira abaixo todos os tipos que adoram Ferris:

- Esportistas

- Motoqueiros

- Geeks

- Piranhas

- Drogados

- Debiloides

- Cabeças-de-Vento

Pelo menos, isso é o que eu consegui traduzir (as legendas e a dublagem são péssimas – traduzem sluts como gatinhas, por exemplo).

Hoje, a lista incluiria respeitáveis (e não tão respeitáveis) médicos, engenheiros, advogados e executivos. Sim, todos achamos Ferris um righteous dude.


/// Um Dia Perfeito em Chicago

Conforme prometido, vamos celebrar por vários dias aquele dia de vagabundagem explícita de Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado, clássico que completa 25 anos neste mês e que é objeto de matéria na VIP deste mês.

Pra começar, vamos seguir os passos de  Ferris e Cia. numa jornada de curtição pela Cidade dos Ventos. Sim, Chicago é um personagem tão central para Curtindo a Vida quanto o próprio Ferris e seus amigos. A rigor, o filme é uma celebração de uma das cidades mais bacanas do mundo.

O ponto de partida, todos sabemos, é uma tranquila casa num subúrbio de Chicago, onde Ferris engana sua família, fingindo uma doença com “sintomas não específicos”, e inclui uma passada na mansão do melhor amigo, Cameron, que reluta, mas acaba liberando a Ferrari do pai para a aventura. Os dois arranjam um jeito de sacar a gatinha Sloane, namorada de Ferris, da escola (iniciando a série de dribles no diretor Ed Rooney). E aí temos o seguinte diálogo:

Sloane: E aí, o que vamos fazer?

Ferris: Não pergunte o que vamos fazer; pergunte o que NÃO vamos fazer.

Cameron (amedrontado): Não diga que não estamos voltando pra casa… não diga que não estamos voltando pra casa…

Ferris (encarando a câmera): Se você tivesse um carros desses nas mãos, a primeira coisa que faria seria levá-lo de volta para a garagem? NEM EU.

E o rolê começa. Confira os passos da incursão do trio pelo coração de Chicago:

1-      Deixe o carro com manobristas profissionais: Ferris sabe confiar num bom profissional, e confia no poder de uma nota amassada de cinco dólares na mão do malandro. Veja a cena:

httpv://www.youtube.com/watch?v=XVACbEHkV2Q&feature=related

2-      Arranha-Céus:  Chicago conta com mais de mil edifícios - a média dos dez mais altos conferem-lhe o título de skyline mais alto do mundo. O principal, cujo topo é visitado por Ferris & Cia, é o Wills Towers, ex-Sears Towers, o prédio mais alto do mundo na época das filmagens e, ainda hoje, prédio mais alto dos EUA.

3-      Chicago Mercantile Exchange: acompanhar um pregão já foi mais divertido antes da Internet. Hoje em dia a coisa rola na web, e o acesso aos prédios está suspenso, em razão do terrorismo. Mas é num camarote da Bolsa (presumivelmente do pai milionário de Cameron) que os amigos conversam a sério. Ferris pede Sloane em casamento, ela nega (Ferris assume que é porque ela se sentiria estranha sendo a única cheer-leader casada), e Cameron começa a ponderar sobre a terrível dinâmica familiar que o afasta mais e mais dos seus pais.

4-      Almoço no melhor restaurante da cidade: o Chez Quis, restaurante frequentado pelo pai de Ferris (e por Abe Froman, o “rei da salsicha de Chicago”), é fictício, mas está teoricamente localizado na Rush Street, junto a outros restaurantes estrelados.

“Sim, sou Abe Froman, o rei da salsicha de Chicago!”

5-      Wrigley Field: conheça a casa dos Chicago Cubs, time de baseball local. Dizem que, desde que Ferris Bueller pegou uma bola nas suas arquibancadas, os ingressos para um jogo dos Cubs ficaram muito disputados por turistas. Multidões tiram fotos em frente ao letreiro eletrônico da entrada – que, durante o filme, exibia a frase hoje tornada mantra e nome de banda: “SAVE FERRIS”.

“A esta hora, estaríamos na aula de educação física!” – e Sloane, entediada, fazendo a lição de casa…

6-      Art Institute of Chicago: num momento especialmente lírico, o diretor de Curtindo a Vida, John Hugues, afirmou querer fazer a cena com o maior número de obras-de-arte da história. E pôs o trio de protagonistas a passear entre obras de Picasso, Modigliani, Pollock, Gauguin, Rodin, Matisse… Cameron pira observando uma obra-prima do pontilhismo, de George Seurat. Já Ferris e Sloane se beijam na frente do vitral America Windows, de Marc Chagall.

Veja a cena, com a trilha original – uma versão instrumental do Dream Academy para Please, Please, Please (Let Me Get What I Want), clássico dos Smiths.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ubpRcZNJAnE

Depois dessa parada, num taxi, Cameron ensaia um mau humor, afirmando não ter feito nada de especial até então. Ferris rebate: ”Nós vimos de tudo, vimos a cidade inteira… Fomos ao museu, vimos obras-de-arte sensacionais! Nós até comemos pâncreas…”
OK, se faltava algo especial, Ferris tinha guardado o Super-Trunfo na manga. 

 7-      Von Steuben Day Parade: sempre em setembro, a parada da colônia alemã em Chicago foi o palco onde Mathew Broderick, como Ferris Bueller, reabilitou os Beatles como trilha sonora da adolescência, e sua versão de Twist and Shout, como som obrigatório nas festas de formatura e de casamento. A cena é uma das coisas mais icônicas da década de 80 e da história do cinema. Dizem que Paul McCartney odiou o uso de metais adicionado à gravação dos Beatles (Ferris dubla sob o som dos rapazes de Liverpool, e uma fanfarra adiciona um sonzinho para dar mais naturalidade)… frescura de Sir Paul! Eu sou um dos muitos beatlemaníacos iniciados por Ferris Bueller.

httpv://www.youtube.com/watch?v=tgd46QiHz4I

Veja a cena e relembre como era bacana berrar no meio de Twist and Shout!

Depois dessa, só mesmo tomar o caminho da roça, levar um papo cabeça, destruir uma Ferrari, beijar a garota e voltar correndo pra casa, a tempo de livrar o rabo do encalço do Rooney, aquele mala.

Quando eu for pra Chicago, já tenho a programação do dia feita. E imagino que não estarei sozinho.


/// SALVE FERRIS!

 ”Daqui a 15 anos, quando sua vida estiver acabada, esse rapaz se lembrará de mim”   

                                             (Ed Rooney, diretor da Glenbrock North High School )

 

Bem, 25 anos se passaram, e Ferris Bueller, o jovem perseguido pelo tal de Rooney, continua sendo o herói de algumas gerações.

Ferris, você sabe, é o protagonista de Curtindo a Vida Adoidado, obra-prima de John Hugues, clássico absoluto de dez entre dez pessoas de bem que cresceram nos anos 80 (e 90, e por que não as de hoje também?).

Em comemoração aos 25 anos do filme (que foi lançado em julho de 1986), a revista VIP deste mês traz uma matéria que reconta, passo a passo, o dia de vadiagem de Ferris por Chicago.  A trilha sonora, as dicas para enganar os pais (mas que serve para o chefe ou para a namorada controladora), detalhes sobre a Ferrari que é usada no filme, citações espertas do nosso herói e muitas curiosidades sobre o universo de Curtindo a Vida. Imperdível…

… Até porque a matéria foi escrita por este blogueiro, e não foi pra cumprir pauta. Foi uma enorme diversão investir três finais de semana seguidos revendo, lendo o roteiro e pesquisando detalhes do filme que mais vi e revi na minha vida. Fiz uma estimativa: vi Curtindo a Vida Adoidado no cinema, em 1986 ou 87; então se passaram alguns anos até que a Globo exibiu o filme numa Tela Quente, em 1989. No dia seguinte, a escola inteira só falava nisso. Garotas descobriam os Beatles (através de Twist & Shout, que é usada com glória no clímax do filme) e trocavam fitas cassete e discos dos fab four; rapazes decoravam fala por fala de Ferris e passavam horas travando os afiados diálogos escritos por Hugues. Eu assisti o dia de folga de Bueller diariamente por, sei lá, um ano e meio. Não é exagero nenhum dizer que assisti ao filme algo entre 150 e 200 vezes – contando, claro, as exibições que pesco de vez em quando na TV por assinatura, e mais três ou quatro exibições recentes no DVD, além de duas – duas! – rodadas completas no filme com comentários.

Trilha de fundo: versão de Please, Please, Please (Let Me Get What I Want), dos Smiths, por Dream Academy. Sei uma quantidade absurda de detalhes sobre cada cena. Preocupante.

Resumindo, acho que é justo premiar tal nível de “nerdice”. Talvez minha mãe se sinta finalmente recompensada por tantas tardes ouvindo “OH YEAH!” (aquela música bizarra que dá fim ao filme). Talvez ela abandone as suspeitas de que havia algo errado comigo, e talvez ela chegue à conclusão de que aquela obsessão serviu para alguma coisa.

Talvez.

Como vocês podem imaginar – e sabendo que fazer uma revista é uma arte de edição, acima de tudo -, há uma penca de “sobras de estúdio”: textos e boxes que não foram usados na matéria, fotos selecionadas mas que não chegaram à edição final, frases e mais frases clássicas que fazem o pensamento vivo de Bueller. Os leitores de BLOGIE serão brindados com todos eles ao longo dos próximos dias.

Acompanhe aqui. E compre a revista! Pois, como dizia um sábio adolescente gazeteiro dos anos 80, “a vida passa muito rápido. Se você não parar de vez em quando para dar uma olhada, pode perdê-la.”

 

 


/// “Taxi Driver” e a música perfeita

Passei a semana toda com uma música pingando na cabeça… uma melodia, uma frase. Estava lá dirigindo e minha cabeça: “How long have I been sleepin’?” E eu me perguntando, que música é essa?, onde eu ouvi mesmo?, quem é o cantor ou banda?

Com algum esforço (que incluiu uns cinco minutos correndo os olhos na frente do paredão de CDs – uns 600 – que resistem, heroicamente, na minha casa), achei: era Late for the Sky, do Jackson Browne, um cantor californiano que é virtualmente desconhecido aqui, mas que fora de primeiríssimo escalão nos EUA nos anos 70. O cara é o autor de Take It Easy, mega-sucesso dos Eagles, e é líder dos artistas de esquerda que defendem causas – ambientais, sociais, tudo -, ao lado de Bruce Springsteen e Crosby, Stills, Nash & Young.

Jackson Browne, em ação em 1975

Late for the Sky é trilha de uma cena simplesmente inesquecível,  talvez a mais genial entre tantas cenas impecáveis de uma obra-prima: Taxi Driver, de Martin Scorsese.

Aqui, a cena, um show de um pensativo Robert DeNiro, que não fala uma só palavra, mas deixa claro que está se decidindo a romper com o mundo lá fora e fazer a coisa do seu jeito:

httpv://www.youtube.com/watch?v=61kkRHw_uF4&feature=related

O grande lance de Late for the Sky é a maneira como Jackson Browne injeta melancolia nos acordes, na voz e na letra de uma canção que descreve uma separação. E o faz de uma maneira que deixaria até o especialista em canções sobre separação, Chico Buarque, boquiaberto. Não há cinismo (como na magnífica Trocando em Miúdos), nem sentimentos extremos e trágicos (Atrás da Porta, Eu Te Amo), nem revanchismo (Olhos nos Olhos). É a constatação, quase fria, de que a coisa acabou, e o saldo é um amargo NADA.

Scorsese não foi o único que se rendeu à dor e à honestidade dos versos de Browne: o escritor inglês Nick Hornby, que ganhou fama e fortuna com os romances Alta Fidelidade, Febre de Bola e Um Grande Garoto, é um notório conhecedor de música pop, e elegeu Late for the Sky como uma de suas 31 músicas preferidas, no livro Songbook. Ali, Hornby confessa ter ignorado o cantor americano durante boa parte da sua vida – ele foi adolescente ao som do Led Zeppelin e chegou à faculdade sob o impacto de Sex Pistols e Clash -, mas a descoberta tardia do rock ameno e dos temas adultos de Jackson Browne lhe foi muito útil durante uma separação. E Late for the Sky foi a música que o acompanhou no fundo do poço.

Eu assino embaixo do texto de Hornby, e elejo Late for the Sky, a música e o disco, parte da quina que manteve o rock como parte essencial da minha vida depois da adolescência: Bob Dylan e seu Blood on the Tracks, Bruce Springsteen e sua sequência de discos entre Born to Run e Tunnel of Love, Fleetwood Mac e seu Rumours e, claro, os heróis do folk-rock: Crosby, Stills, Nash & Young.

Mais canções de Jackson Browne em filmes: Runnin’ on Empty em Forrest Gump (na parte em que Forrest vira corredor no meio dos anos 70); Doctor My Eyes em um monte de filmes, mas é central no chocho Meu Primeiro Amor  2; e Somebody’s Baby, como a trilha sonora da perda da virgindade de Jennifer Jason-Leigh em Picardias Estudantis.

Bom final-de-semana a todos!


/// Natalie Portman e o Aranha

Uma imagem que fala mais do que mil palavras:

Natalie Portman (and Tobey Maguire)

Tobey Maguire confere o material da colega…

É isso aí, Homem-Aranha – qualquer um de nós daria uma olhadinha antes de comentar com o cara ao lado.


/// Sobre Harry Potter, a Turma da Mônica e descobertas

Meu último post falou mal – muito mal – da milionária e agora terminada saga de Harry Potter. Teve quem gostou, teve quem odiou – e teve quem simplesmente tenha se divertido com o meu ponto de vista um tanto cínico sobre a falta de sexo nas cabeças dos bruxinhos de Hogwarts.

Numa das discussões, pensei na Turma da Mônica, do Maurício de Souza. Ali também não tem sacanagem - pelo menos não na Mônica original, de vestido vermelho e coelho Sansão com orelhas “amaladas”. Os personagens também são castos mas, ao contrário da série Harry Potter, que cobre toda a adolescência do bruxinho, a Turma da Mônica está congelada naquela idade imediatamente anterior à descoberta da sexualidade. Descoberta, sim, porque é claro que há uma tensão sexual entre Mônica e Cebolinha, mas ambos estão naquela idade (sei lá, 9, 10, 11 anos) em que o menino gosta da menina, e sua demonstração de afeto mais natural é maltratar a garota e aprontar umas e outras pra cima dela.

Cascão: nessa idade, Harry Potter é a fantasia máxima…

O grande atrativo das histórias em quadrinhos dessa turma é justamente isso: estamos há décadas acompanhando essas crianças brincando, entre seus planos infalíveis, peladas de rua e fantasias malucas, e o que nos comove é que sabemos que, logo ali na esquina, eles descobrirão as coisas da vida, e esta não será mais a mesma. Algumas obras, como a série Anos Incríveis ou mesmo Harry Potter, tratam da jornada de transformação que acontece durante a adolescência. A Turma da Mônica está gloriosamente congelada em um único ano, talvez um único mês de férias daquela molecada. Não sabemos quanto tempo ainda vai demorar para que eles abandonem a fantasia mais pueril, e talvez no fim daquelas férias eles descobrirão o sexo, de alguma maneira. Mônica e Magali falariam com alguma garota mais velha, Cebolinha e Cascão fariam competição de masturbação e discutiriam os atributos físicos da Mônica, e finalmente alguém arriscaria algo numa brincadeira do tipo “salada mista” ou “gato mia” - e pronto, o encanto da infância estaria quebrado definitivamente.

Um perigoso indicador disso é o Titi, o almofadinha dentuço que já desfila todo pimpão com sua namorada, a Aninha – aquela coisinha doce de franjinha à la Luciana Vendramini. Titi é um pouco mais precoce, ou talvez seja um ano mais velho que o resto da molecada, e ele está obviamente operando em outra frequência: por exemplo, ele se veste bem e está sempre calçado – evitando ficar com os pés cascudos e encardidos de Cascão e cia. Está sempre passando por ali, com pinta de quem tem algo mais interessante a fazer. Ao fim das férias, outros moleques estarão andando com Titi e ouvindo suas histórias e conselhos, pode crer.

Titi e Aninha: o casal mais adiantado da turma

Acredito que o sucesso do recente lançamento da Turma da Mônica Jovem esteja justamente no fato de que, pela primeira vez, liberaram aquela criançada da sua prisão infantil. Jogaram a turma direto no meio da adolescência, com roupas e cores e linguagens diferentes – e eles estão finalmente crescendo e descobrindo coisas. Para o público acostumado durante toda uma vida com seus queridos personagens estáticos, foi uma catarse. O beijo de Mônica e Cebolinha foi um grande evento, foi como Capitu  deitando a cabeça para trás e oferecendo os lábios para Bentinho; foi Julieta colhendo um último beijo de um envenenado Romeu; foi a mão da Kate Winslet tentando se agarrar ao vidro embaçado de um carro no porão do Titanic. Foi o fim da inocência, mas foi o início da vida como a conhecemos.

Cebola e Mônica, devidamente atracados: Harry Potter continua nos “planos infalíveis”

É isso que eu acredito ter sempre faltado na saga de Harry Potter: a coragem de deixar a moçada crescer como acontece na vida. Que seja entre encantos e maldições, e que se voe numa vassora ou que catacumbas sejam fuçadas - mas que se abra espaço para as descobertas, e que elas recebam o destaque que merecem na vida de qualquer um, munido de poderes extraordinários ou não (não é disso que se trata o Homem-Aranha, afinal?).

E encerro meu caso. Voltemos ao cinema, que está chegando a temporada de outono dos EUA, quando são lançados os filmes ditos adultos – que concorrerão aos Oscars e Globos de Ouro do próximo ano.


/// Por que odeio Harry Potter

Sei que o papel de blogueiro de cinema de uma revista é um negócio bacana: posso escrever sobre os filmes de que gosto, minhas obsessões e tudo mais. Por outro lado, há um mínimo de exigências para o papel: devo falar de filmes que caibam dentro do universo da VIP (por isso, forço a mão nas coisas mais pop, nas trilhas sonoras, nas mulheres e nos filmes que tratam, basicamente, da condição humana do macho ou algo que o valha), evitando qualquer coisa que possa ser entendida como frescura ou cabecismo (por exemplo, outro dia vi um ótimo filme francês, chamado Minhas Tardes com Margueritte, que me surpreendeu – mas dificilmente investirei um post nele… ou farei isso? Não sei…).

Mas há momentos em que a coisa pesa. Um dos momentos é quando lançam bombas incontornáveis como Transformers e afins. Sei que eu deveria ver esses filmes e escrever sobre eles mas, sinceramente, não tenho estômago para isso e não acho que meu texto ajudaria em algo ou acrescentaria algo. Tipo, OK, o roteiro é mesmo óbvio e idiota, os atores são medíocres, a mocinha é gostosíssima e os carros viram monstros gigantes, em efeitos bacanas. Prefiro me limitar a escrever sobre a mocinha gostosíssima. Sobre o último episódio de Transformers, sem a Megan Fox, simplesmente me calei. Não havia nada a ser dito.

Tudo isso para chegarmos a este final-de-semana de julho de 2011, quando a saga Harry Potter chega ao fim nos cinemas, com o lançamento do sexto ou sétimo filme… Não, não sei se é o sexto ou sétimo filme (é claro que eu poderia entrar no Google agora e rechear este texto de informações precisas, mas então eu perderia a honestidade que julgo imprescindível para este post). Também não sei – juro – o nome do filme: poderia ser Harry Potter e o Templo da Perdição e eu acreditaria (não duvido de mais nada na Hollywood de hoje em dia). Sei que o filme é um volume 2 do filme anterior, e até onde entendi a partir das resenhas, os dois juntos não valem um. Ou valem, dependendo da idade do resenhista (afinal, a molecada que começou a ler Harry Potter há doze, treze anos atrás, está chegando às redações).

O trio de bruxos, na sua última aventura

O fato é o seguinte: tenho uma confissão a fazer. Odeio Harry Potter. Não li os livros. Vi o primeiro filme e achei OK (gostei daquele lance do quadribol, eu gostaria de jogar aquele trem lá, como diria o mineiro). Vi o segundo filme e achei chato. Vi um pedaço do terceiro e cansei. Parei no meio. E nunca mais dei chance à franquia. Acompanhei o que os jornais diziam sobre cada livro e cada filme. Minha mãe, leitora voraz da série, me relatava a evolução do relacionamento da Hermione com o amigo ruivo e bobo do bruxinho (nem preciso dizer que não sei o nome do cara). Que andou devagar, aliás.

Eu me cansei de Harry Potter e sua turminha porque eles são um grande e absoluto zero a zero. Eu me lembro muito bem de como eu era e o que eu queria aprender e fazer quando eu tinha doze, treze, quinze, dezoito anos. E a minha turma lá no Tucuruvi era bem mais agitada do que a molecada de Hogwarts. Eu me lembro de ver filmes pornô soft (Sala Especial) escondido na sala de casa. Eu me lembro de fazermos vaquinhas para comprar a Playboy, mediante um chororô infernal pra cima do jornaleiro. Lembro-me de não pegar ninguém, mas sofrer por isso e traçar planos mirabolantes infalíveis para abordar a menina da vez e tentar algo. Lembro-me de que os caras mais munidos de ativos (o cara que toca bem violão; o cara que primeiro aparece com um carro; o cara que é mais bonito, mais rico, mais cara-de-pau) ganhavam as meninas mais interessantes.

E o Harry Potter? Ele é o escolhido, ele é o centro das atenções. Ele vai enfrentar o Valdemort ou algo assim algum dia, pra medir quem manda mais no pedaço. Ele é capitão do time de quadribol, não é? E o cara não é mau de aparência, apesar da cicatriz na testa e dos óculos redondinhos, mas acho que isso até ajuda nestes tempos de poder nerd. Então alguém me explique por que diabos ele não nutriu algum – algum, por favor! – interesse sexual pela Hermione logo no segundo filme? Obviamente, a menina estava caída por ele. Ela era meio que a única coisa interessante por ali, em meio a tantos dragões (os monstros, eu digo) e seres bizarros.

Dois livros e filmes se passaram como se a atração sexual precoce entre meninos e meninas não existisse. Lembro de Goonies e aquele beijo que o Mike ganha da namorada crescidinha do seu irmão mais velho; lembro de E.T. e aquele beijo que Elliot dá na loirinha, durante a aula de biologia em que os sapos são libertados. Penso no recente As Melhores Coisas do Mundo, ambientado nas duras ruas de São Paulo, e fico feliz em ver que a adolescência continua sendo a adolescência. A molecada só pensa em quem vai ficar com quem, as meninas estão perdidamente apaixonadas por alguém que será desprezado na próxima semana, os problemas do coração são terminais, terríveis, inapeláveis. E é desse processo de subidas ao céu e descidas ao inferno que saímos crescidos, talvez cansados, mas crescidos – para tentar uma vida com menos cagadas.

httpv://www.youtube.com/watch?v=TaLsQSCK0Jo

A cena do beijo em E.T. – o Extra-Terrestre. Elliot é que tinha atitude.

A juventude de Harry Potter não existe. Sei que, depois de muito tempo e já cheio de pêlos feiamente brotados nas suas pernas e braços, Potter acabou se interessando pela irmã de Ronney (acho que é esse o nome do amigo ruivo e bobo, que de fato acaba pegando a Hermione). Mas isso é pouco. Não entendo como a molecada se identificou tanto com adolescentes tão pouco críveis. Talvez seja o lance da magia e a riqueza da descrição de Hogwarts.

Não me espanta que a evolução natural de Harry Potter seja Crepúsculo.  Quem passou a pré-adolescência lendo algo tão conservador e assexuado, só podia mesmo chegar à idade adulta vendo Edward, o vampiro bobão, refugando frente aos avanços da Bella, aquela espevitada.

O trio de colegiais que fez minha adolescência era o de Curtindo a Vida Adoidado: Ferris Bueller, sua namorada Sloane e o amigo bobão, Cameron. O filme termina com Bueller e Sloane de roupas de baixo curtindo uma jacuzzi, sob o olhar malandro de Cameron (que viu a moça pelada, fingindo catatonia). Os problemas de Cameron são sinistros: os pais se odeiam, o pai o odeia, ele destrói a Ferrari, ele vai dar uma virada na vida. Já Ferris está no topo do mundo: popular, pais carinhosos, namorada gostosa. Mas ele confessa para a câmera: não sabe o que vai ser da sua vida. Sabe que o namoro terá fim. Sabe que o melhor amigo vai para outra faculdade, que se distanciarão. Está, no fundo, aterrorizado com a falta de segurança sobre o que fazer. Mas vai empurrando com a barriga, como manda a sabedoria adolescente.

Sloane, Ferris e Cameron: a vida como ela é – e não menos mágica…

Ferris, Sloane e Cameron. Potter, Hermione e Ronney. Como fomos parar de um extremo a outro, eu não sei. Mas não gosto disso. Por sorte, há gente cuidando de corrigir o curso das coisas. Em agosto, teremos a estreia de Super 8, de J.J. Abrams, uma homenagem ao cinema de Spielberg que traz um bando de pré-adolescentes vivendo e agindo como pré-adolescentes. Um grande filme, sobre o qual vou discorrer longamente, pode crer. Porque este BLOGIE não está aqui para enrolar ou empurrar qualquer filme-evento pra cima do leitor. Aqui só falo bem daquilo que realmente acho bom.

E, claro, observarei com atenção a evolução da carreira da Emma Watson, que virou uma mocinha muito ajeitada e elegante, e podemos dizer que já é uma gata – e pode se tornar, de fato, uma grande atriz.

P.S.: peço desculpas pelos eventuais erros. Como disse antes, gostaria de escancarar meu desinteresse pela série Harry Potter, e achei que seria adequado manter o Google e o IMDB quietinhos.