Vinte anos depois de Harry & Sally, voltaram à moda as comédias românticas com um casal de amigos que transam casualmente e, depois, enfrentam um distanciamento amargo até se descobrirem felizes para sempre etc e tal.

A bem da verdade, a onda agora é bem mais cheia de saliências do que a era Meg Ryan: as comédias românticas vigentes apostam nos fuck buddies – casais de amigos que transam reiteradamente, sem que isso evolua para um namoro. Claro, a coisa nunca funciona bem e vai inevitavelmente convergir para um namoro, com um final carregado em açúcar, para compensar a ousadia inicial.

Há pelo menos três filmes recentes seguindo exatamente a mesma receita, todos com elenco de primeira linha: primeiro vieram Sexo Sem Compromisso, com Natalie Potman e Ashton Kutcher (um filme engraçadinho e no máximo OK), e Amor e Outras Drogas, com Anne Hathaway e Jake Gillenhaal (bacana por ser um filme de época ambientado no fim dos anos 90, com o lançamento do Viagra, mas pentelho por lançar mão do velho recurso dramático da moça com doença degenerativa). A eles se juntam o mais recente exemplar da tendência: Amizade Colorida, que estreou no último final-de-semana no Brasil.

Justin Timberlake e Mila Kunis resolvem “se conhecer melhor” antes de firmar maiores compromissos…

Amizade Colorida reúne duas das boas supresas trazidas pela safra do último Oscar: Mila Kunis (que arrebentou como a bailarina sexy que faz contraponto à reprimida Natalie Portman em Cisne Negro) e Justin Timberlake (que, a despeito de seu passado de cantorzinho de boyband, revelou-se um ator carismático e convincente em A Rede Social). Os dois se conhecem, se tornam amigos, fazem um pacto de fazer sexo sem compromisso (é idêntico ao filme da Natalie Portman!) e começam a transar alucinadamente. Depois, é aquela coisa toda.

A boa notícia é que ambos sustentam a promessa dos seus trabalhos recentes, e dão um show de carisma e sex appeal num filme que, pela falta de novidade e de alguma inteligência no roteiro, precisa muito se apoiar no talento dos seus protagonistas. Além disso, o filme toma para si a importante missão de atualizar a Nova York de Harry & Sally para as novas gerações: ao invés de jantar quadrado no Café Luxembourg, no Upper West Side, entra o almoço improvisado no Café Habana, no SoHo (ah, aquele milho mexicano!). Até os points mais batidos, como a Times Square e a Grand Central Terminal, aparecem rejuvenescidos pelos flash mobs (só vendo para crer). Isso é bacana. O obrigatório passeio pelo Central Park (quantos casais já discutiram relação no The Mall?), ainda bem, está lá intacto e clássico. O hiato em Los Angeles, com direito à violação ao único monumento da cidade e a uma breve celebração de Malibu, também é interessante – aliás, a produção e as locações estão preparadas com muito cuidado, um trabalho impressionante.

Curiosidade idiota: já comi esse milho “mex-style” (nota mil) nessa mesmíssima mesinha na janela; o Café Habana fica na 17 Prince Street, pra quem se interessar.

Por outro lado, não há roteirista que consiga pensar em um problema novo ou uma solução nova para um tema tão batido: é mais do mesmo o tempo todo. Mas, enfim, como já disse o Stallone certa vez, “ninguém está querendo fazer Cidadão Kane aqui!”

httpv://www.youtube.com/watch?v=y1dZgWS5jdc

Veja o trailer de Amizade Colorida - ah, até que é bem divertido…

Noves fora, o saldo é um bom nota seis, talvez nota sete e meio se for usado como complemento de programa com a namorada ou prospect.

E, de quebra, Amizade Colorida tem o mesmo trunfo dos seus similares: traz uma jovem e linda atriz com pouca roupa e falando sacanagem – e isso faz do mundo um lugar melhor para viver.