Com nove indicados a melhor filme, parece que a briga pelo principal Oscar está se polarizando entre o filme mudo francês O Artista e aquele que tem mais “cara de Oscar”, Os Descendentes, de Alexander Payne.

É com isso na cabeça que o público tem enchido as salas de cinema para conferir este último, em cartaz no Brasil desde a última sexta-feira. Mas a boa notícia é que, no meio do filme, ninguém mais está pensando em Oscar ou se merece ou não merece e etc e tal. Os Descendentes traga o espectador para dentro do pequeno universo de uma família disfuncional que vive no Havaí – e o resultado final é aquele sentimento de uma certa satisfação por estarmos vivos, aptos a viver em família, cometer erros, tentar corrigi-los. E ver filmes.

 

Um pouco sobre Alexander Payne

Essa sensação não é estranha para quem conhece bem a obra de Payne. Seu filme de estreia, A Eleição, teve o mérito de, em uma tacada só: 1) lançar a carreira de Reese Whiterspoon (que não era estreante, mas mostrou ali ser uma atriz de verdade); 2) prestar uma homenagem ao eterno Ferris Bueller, Mathew Broderick, que fez o professor atazanado por Reese; e 3) deixou de ser considerado uma comédia de high school e passou a ser visto como um filme autoral. Coisa de gênio.

Depois vieram Confissões de Schimidt – que arrancou de Jack Nicholson a última grande atuação da sua carreira – e  Sideways, que rendeu a Payne um Oscar de melhor roteiro e uma reputação de autor. Ali, ele encontrou nas vinícolas do Napa Valley (Califórnia) um cenário perfeito para disssecar seu personagem principal – aquele professor tão pobretão quanto esnobe que esconde sua pequeneza sob sua máscara de connoisseur, enquanto desce, de degustação em degustação, a ladeira da dignidade.

Veio também uma pequena pérola: o curta que fecha o filme coletivo Paris, Eu Te Amo – aquele com a turista americana que passa um tempo sozinha em Paris, estudando francês. É um dos mais singelos estudos sobre a solidão. É a melhor coisa que Payne já fez e, não por acaso, foi escolhido para terminar com uma nota nobre o filme, que é bem irregular.

Os Descendentes

O novo filme de Payne elegeu a geografia fragmentada de um arquipélago – o Havaí – como o ambiente ideal para George Clooney se ver completamente perdido, antes de tentar encontrar os retalhos e costurá-los do seu jeito.

Descobrindo-se no Havaí: Clooney e sua turminha

Os Descendentes é a história de Matt King, um homem que, a despeito de ter uma família percebida como bacana (uma mulher bonita e que faz esportes radicais, uma filha adolescente na linha “gatinha rebelde” e outra pré-teen de grande percepção e uma certa boca-suja), é um solitário, incapaz de se relacionar com o seus. É o líder (por direito e por tolerância infinita) de uma família fragmentada e espalhadas pelas ilhazinhas do Havaí – e seu papel é liderar o bando de primos distantes na delicada decisão de vender ou não (e para quem) o gigantesco e paradisíaco terreno que lhes foi deixado como herança – e que pode torná-los milionários. Com tantos pratos a serem equilibrados, King administra as varetas com preguiça e nem enxerga quando a louça começará a quebrar.

 O problema é que ele só percebe isso quando sua mulher sofre um acidente e passa a viver em estado vegetativo no hospital.

Algumas coisas farão King cair na real: a dificuldade de domar e inspirar suas filhas; lidar com algumas dolorosas descobertas que ele fará sobre sua esposa moribunda; e a impossibilidade de continuar enfrentando seus problemas e dilemas de negócios no piloto-automático. Em resumo, ele deverá abrir seus canais de recepção de áudio, vídeo e tudo mais, para então desenvolver um novo modus operandi. Não é fácil para um cara de quase cinquenta anos.

O elenco

Entre as muitas qualidades de Os Descendentes, a maior está no elenco, começando por Clooney, que, a despeito de ser “o cara” em Hollywood, raramente impressiona por suas atuações. Clooney claramente está mais para Cary Grant e Clark Gable do que para Al Pacino e Robert DeNiro. É um astro de carisma gigantesco, abençoado pela aparência de galã e coberto de uma segurança sobre seus movimentos que catapulta seu nome para a parte de cima dos cartazes dos filmes. Mas, aqui, Clooney arrebata: usa seu bom timing cômico em inúmeros diálogos carregados de ironia, mas também envia para nós a frustração, o ódio contido, os arrependimentos de seu personagem travadão. É uma interpretação de minúcias, que sabe a hora de abrir a torneira e literalmente partir para o abraço (com direito a choro e toda aquela coisa que faz a gente falar que tal atriz da Globo “trabalha muito bem” na novela).

O seu elenco de apoio também é perfeito, incluindo o novato Nick Krause (como o namoradinho da filha adolescente que não tem noção de limites e enche o saco dos interlocutores) e o veterano Robert Foster (como o sogro mais que rabugento de King), mas principalmente pelo brilho de Shailene Woodley, como a filha mais velha de King.

Shailene Woodley: filha, confidente e conselheira de um pai um tanto atrapalhado

Shailene, 21 aninhos, é uma estrela pronta para acontecer. Se entregar mais duas ou três atuações como essa, entrará para o primeiríssimo escalão de Hollywood. É bonita, sabe ser engraçada com humor verbal e inteligente - mas também com humor corporal e rasgado – e consegue ter dizer umas mil coisas em um olhar, como só conseguem atores com muito método – Meryl Streep – ou muito carisma – Audrey Hepburn. Sua Alexandra King é um personagem em ebulição, com todos os caminhos da vida possíveis e críveis à frente (do jeito que ela é, pode acabar como executiva de sucesso, atriz-modelo temperamental ou drogada encarcerada, só Deus sabe). E ainda assim ela consegue se manter confiável, interessante e cativante – seja para seu pai semi-enviuvado, seja para o público.

Dê uma olhada no trailer de Os Descendentes:

httpv://www.youtube.com/watch?v=0u9veGhtzVk

Se Os Descendentes é o melhor filme do ano, eu não sei. Particularmente, penso que nada bate um bom filme de Clint Eastwood, Woody Allen, Martin Scorsese ou Pedro Almodóvar (e este ano contou com bons lançamentos dos quatro). Mas o importante é que o filme se tornou mais uma peça de encaixe perfeito na obra de Alexander Payne, um especialista no estudo de pessoas que, do fundo da solidão mais insuportável, encontram forças para (tentar) se reinventar. Payne é um entusiasta do ser humano (lembro daquele filme do Truffaut, em que uma mulher diz que as últimas palavras de seu pai foram “as pessoas são… formidáveis”). E nada é mais renovador do que assistir um filme que nos ensina a ter mais fé nas pessoas.

Faz bem e vale o ingresso.

O resto (se o filme ganha o Oscar, se Clooney leva o seu etc) é lucro.