Uma das melhores surpresas deste ano foi Millenium – os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Um filme nota 10.

Daí você fala, “peraí, como assim surpresa?”

E eu terei que dar razão ao leitor: o filme é baseado num best-seller internacional (o primeiro da trilogia A Garota com a Tatuagem de Dragão, de Stieg Larsson); é dirigido pelo sempre inventivo e por vezes genial David Fincher (de Clube da Luta, Seven, Zodíaco e A Rede Social); traz Daniel Craig, o 007 que bota pra quebrar, como protagonista. Enfim, por que o filme não seria ótimo?

Pois é, mea culpa, esses atributos deveriam estar no meu radar. Não sei por quê, mas sou meio preguiçoso quanto a thrillers baseados em best-sellers. Por algum motivo bizarro, sempre ignoro o ótimo retrospecto de Fincher e espero pouco de suas novas empreitadas – e quase sempre saio surpreendido com sua competência.

Mas, enfim, o lance é que Fincher pegou um livro sueco com personagens suecos que se passa na Suécia, botou um elenco de alta classe (em geral, americanos e ingleses) para tomar uma neve na cabeça e entregou um filmaço. Começando pela abertura à la Saul Bass (uma homenagem ao episódio Goldfinger do 007, ao som de uma versão infernal do Nine Inch Nails para Immigrant Song, do Led Zeppelin), passando pela inacreditável fotografia das pairagens pra lá de geladas da Suécia, culminando com a deliciosa resolução de um caso de assassinatos em série de garotinhas com nomes bíblicos, o filme é nada menos do que deslumbrante. E divertido. Cinemão como o povo gosta.

A alma do filme – assim como do livro, segundo os fãs da série me contam – é a tal garota com a tatuagem de dragão, Lisbeth Salander, uma mocinha cheia de piercings e tatuagens, que oficialmente vive às custas do Estado por ser uma desajustada, mas que ganha a vida como espiã e hacker incontrolável. É ela que protagonizará as melhores e mais fortes cenas do filme, incluindo duas ou três cenas de sexo (consensual e forçado, dependendo da ocasião) e mais outras tantas em que ela bota os pingos nos “i”s e mostra quem manda no pedaço.

Rooney Mara: uma nova estrela, seja você fetichista ou não.

Lisbeth é vivida por Rooney Mara, a mesma atriz  namoradinha que dá o fora em Mark Zuckerberg em A Rede Social. Se naquele filme ela aparecia como uma universitária mediana, bonitinha e meio sem graça, aqui ela é um furacão de atitude e iniciativa. Ela é dona do seu corpinho esguio e faz dele o que bem entende, com um abandono impressionante: transar homens e mulheres, que ela deseja ou não, fazem pouca diferença; cultivar estranhas alterações no seu corpo, desde o corte de cabelo bizarro até as perfurações e desenhos variados que vão povoando sua pele, é um hábito de dia a dia. Tomar jeito e arrumar um emprego respeitável, ter uma conta no banco e se livrar da tutela do governo não são coisas que lhe interessem: ela só empresta sua inteligência e sagacidade para assuntos que lhe permitam pilotar seu inseparável MacBook para resolver algumas questões áridas da sua juventude, de preferência invadindo e roubando informações de sacanas em geral.

Mara, 26 anos, tem uma atuação magnética, merecidamente premiada com uma indicação para o Oscar de melhor atriz. Infelizmente, é muito provável que a moça não sairá do Kodak Theater vencedora (a Academia deverá premiar o trabalho mais limpinho de Michelle Williams, como Marilyn Monroe em Meus 7 Dias Com Marylin). Mas é uma atuação histórica, definidora de carreira (ou pelo menos com forte potencial de abrir portas e mercado para ela).

E que, ainda bem, nos dará a alegria de ver repetecos. Pois há mais dois livros protagonizados pela garota com a tatuagem de dragão, e não há razão no mundo para que Fincher não repita a dose.

Veja o trailer:

httpv://www.youtube.com/watch?v=PKA39HIgMHI

O que é essa trilha sonora? Coisa linda.

Aposto em pelo menos um Oscar em categoria técnica para Millenium – os Homens Que Não Amavam as Mulheres. De preferência, na fotografia, que é um espetáculo de brancura numa região que até quem vive na Suécia chama de “lá no pólo norte”.

E, antes que eu me esqueça: OK, David Fincher, você venceu. Você é um gênio e aguardarei com alta expectativa seu próximo filme.