Se você tiver uma única chance de ir ao cinema entre hoje e o próximo domingo à noite, quando acontece a entrega dos Oscars, não tenha dúvida: o filme a ser visto é O Artista, o grande “fato novo” desta temporada.

O Artista é um desses caminhões que ninguém viu chegando: é um filme francês sobre Hollywood, com atores franceses se passando por atores americanos. E em preto-e-branco. E mudo. Não soa como algo que vá cair nas graças do povo. Não parece algo que vá virar um programão de sábado à noite. Mas virou.

Jean Dujardin e Bérénice Bejo, grandes como George Valentin e Peppy Miller: o cinema volta a ser grande.

Não é papo de crítico ou de cinéfilo arrogante; é só a constatação de que todo mundo realmente gosta do filme. Eu gostei, e muito. Porque O Artista é uma dessas coisas puras, sem a pretensão ou a ironia dos esnobes – é entretenimento bem feito, sem medo de ser sentimentalista aqui, simplório ali, e o resultado é tão bom que nos lembra por que amamos cinema.

O artista do título é George Valentin (Jean Dujardin), um dos grandes astros do cinema mudo nos idos de 1927 – uma mistura de Rudolph Valentin e Douglas Fairbanks. Ele enfrentará o declínio imposto pela chegada do cinema falado (do qual ele desdenha), e sua jornada em direção ao inferno terá ares de Crepúsculo dos Deuses e Cidadão Kane, atenuada – e, ao mesmo tempo, intensificada – pela ação de Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma fã e figurante dos tempos de cinema mudo que se torna uma enorme estrela do cinema falado. Os dois protagonistas são apaixonados um pelo outro à moda do cinema – amor à primeira vista -, mas, também segundo as regras do cinema, terão encontros e desencontros e os “finalmentes” serão protelados até a beira do insuportável, para finalmente termos aquela redenção que só a tela grande pode proporcionar.

Dizer que O Artista é um tributo ao cinema é pouco. O filme é praticamente uma tese de doutorado sobre todas as técnicas de cinema – desde o roteiro até a edição, passando pelo uso da música, técnicas de atuação, estratégia de marketing… está tudo ali. As citações são infinitas, e é necessário um post de fôlego para dar conta de tudo (farei isso no futuro). Pra dar só um gostinho: a história do astro do cinema mudo que cai no esquecimento enquanto sua namoradinha se torna a maior estrela do cinema falado é baseada no caso real de John Gilbert e Greta Garbo (pelo menos no início). Além disso, há dezenas de pequenas cenas a lembrar grandes filmes do passado, como o momento em que Valentin encara seus móveis antigos e uma enorme e imponente pintura de si mesmo nos bons tempos – e é impossível não enxergar Orson Welles definhando na Xanadu caindo aos pedaços em Cidadão Kane.

Greta Garbo e John Gilbert: inspiração real para a maior fábula do cinema

Por fim, como no cinema, todo declínio deve ser substituído por uma nova moda, por um viés de alta: e O Artista não nos priva deste momento, nos lavando a alma com o melhor do entretenimento escapista do século 20. Penso em A Rosa Púrpura do Cairo, mas é claro que não é esta a referência: ambos bebem na mesma fonte, e esta é a original, the real thing.

O Artista é a fábula definitiva sobre o mundo do cinema. Cantando na Chuva é festivo, O Último Magnata (livro inacabado de F. Scott Fitzgerald que virou filme nas mãos de Elia Kazan) é melancólico e pessimista. O Artista é uma fábula, estruturada e contada segundo as regras e melhores práticas da sétima arte. Um exercício fino e inigualável.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZMysWeSqA0Q

Confira o trailer de O Artista!

Se ganha ou não ganha o Oscar de melhor filme, eu não sei (eu acho que ganha e acho que deveria ganhar); sei que é um filme raríssimo (quem consegue imaginar, em 2012, um filme mudo de mais de 2 horas segurando numa boa uma plateia no cinema louca para acessar o Facebook pelo celular?). Sei que Jean Dujardin merece um Oscar de melhor ator – em que pese a concorrência desleal da celebridade de George Clooney – e que Bérénice Bejo merece o seu de atriz coadjuvante. E sei que, se o Oscar existe para alguma coisa, é para reconhecer o bom trabalho e dar uma forcinha nas bilheterias para filmes que não teriam moleza. É justamente o caso aqui, com O Artista: trata-se de um filme que frequentaria salas seletas nos EUA e na Europa e que sequer seria lançado no Brasil; o Globo de Ouro de melhor comédia e as indicações ao Oscar garantiram o lançamento por aqui, e deve trazer boas oportunidades de carreira para a turma francesa envolvida na empreitada – começando por Michel Hazanavicius, o diretor, e incluindo o protagonista, mas certamente as portas mais promissoras serão abertas para Bejo, perfeita como a “namoradinha da América”, papel que poderá assumir na vida real.

Caro leitor: é imperdível. Deixe a má vontade de lado e não perca a oportunidade de ver no cinema o filme mais original dos últimos15 anos (provavelmente, desde Pulp Fiction).