Em cartaz: “A Dama de Ferro”, com Meryl Streep
Olha só, vou logo dizendo sem rodeios: A Dama de Ferro é um filme pavoroso. O horror, o horror.
Não entendo duas coisas: 1) como Meryl Streep topou entrar nessa empreitada; e 2) como a imprensa tem poupado o filme das críticas que deveria receber.
Pelo menos o pôster é bacana – tem uma cara anos 80, não tem?
Quanto ao primeiro ponto, vá lá, dá sim para entender: Meryl foi seduzida por um personagem forte, fortíssimo – a primeira-dama britânica durante quase todos os anos 80, Margaret Thatcher -, e tinha confiança na diretora à frente do projeto, Phyllida Lloyd, que é britânica e que dirigiu Meryl com extremo sucesso no ultra-kitsch Mamma Mia!.
Agora, estava mentindo quem disse a Lloyd (e a Streep) que dirigir um musical de trama absurda construída em função das canções do Abba confere alguma qualificação para tratar de uma das figuras políticas mais complexas e importantes do século 20. A Dama de Ferro patina desde a saída, com a desastrada opção por mostrar uma Thatcher senil, semi-enlouquecida, lidando com lembranças do passado e com alucinações do seu marido já falecido. É de dar sono, e é sinceramente um saco aguentar o virtuosismo de Meryl “compondo” o personagem…
Os flashbacks da juventude de Thatcher também são daqueles de causar vergonha alheia: momentos críticos da sua formação política são mostrados em flashs curtíssimos, sem motivações ou situações propriamente ditas: vemos apenas a personagem anunciando seu próximo passo (“quero ser política”, “acredito no liberalismo”, “quero tentar uma vaga no Parlamento”). Parece aqueles documentários trash da TV a cabo, que mesclam depoimentos reais com encenações pobres de momentos históricos, com atores de terceira. Aqui é igualzinho.
Salvam-se as cenas de Margaret Thatcher no auge, entre 1974 e o fim dos anos 80, com Meryl recriando com exatidão os estudados maneirismos e o tom naturalmente agressivo e irônico da primeira-ministra – os primeiros debates no Parlamento, o treinamento para tentar a liderança do Partido Conservador, a dureza no enfrentamento das greves gerais e das crises internacionais, como a Guerra das Malvinas.
httpv://www.youtube.com/watch?v=vG1WgwKVHcY
Veja o trailer de A Dama de Ferro!
Mas não deixe de conferir a verdadeira Thatcher enfrentando a bancada trabalhista (consegui legendas em espanhol; dá para entender numa boa); isso, sim, é divertido:
httpv://www.youtube.com/watch?v=r2TK37ffBOs&feature=fvsr
Resumindo: é mais divertido caçar os vídeos originais de Thatcher enxovalhando socialistas na TV do que encarar uma bomba de filme concebido para ser veículo de mais uma indicação ao Oscar para Meryl Streep.
Sinto informar que, no mais, essa parte da Thatcher botando pra quebrar toma uma parcela muito pequena do filme – cerca de 30 a 40%, não mais do que isso -, e não há Cristo que aguente o resto.
Quanto à atuação de Meryl: é claro que ela é grande, e que seu trabalho é primoroso. Mas, com um filme ruim como esse, não dá. O Oscar de melhor atriz provavelmente irá para as mãos de Michelle Williams fazendo outro personagem real (Marilyn Monroe) – mas estaria nas mãos certas se fosse dado para Rooney Mara, a garota da tatuagem de dragão de Millenium – os Homens que Não Amavam as Mulheres.












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