Em cartaz: “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese
Um dos maiores favoritos ao Oscar de melhor filme, A Invenção de Hugo Cabret é um desafio para o espectador. Durante sua primeira hora, é um drama de Natal para famílias, com ares de Charles Dickens: o trailer nos mostra o menino Hugo, um órfão aparentando 12 anos, vivendo dentro da estação de trem de Paris. Ali, ele rouba sua comida, observa e interage com as pessoas que lá trabalham (entre elas, o inspetor da estação e vilão da fita, o Borat em pessoa). E ele tem um robô de estimação que esconde nas dependências internas (onde ele ajusta os relógios).

O trailer, assim, promete um Oliver Twist com Esqueceram de Mim com O Fantasma da Ópera.
E daí estranhamos por que deram mais de uma dezena de indicações ao Oscar para um filme desses.
A resposta está em duas constatações:
1) o filme é dirigido por Martin Scorsese, que é um gênio. Desde a abertura, com uma câmera que viaja por Paris, enfrentando a neve, para penetrar na estação e correr pela plataforma de onde parte um trem, e então atravessar o saguão e finalmente encontrar Hugo ajustando um relógio enquanto observa, solitário, o movimento. É arte pura, cinema maiúsculo e gratuito. Além disso, o filme é apresentado em 3D, e é justo dizer que apenas Avatar faz frente a Hugo em matéria de exploração da técnica das três dimensões. O que o coloca como forte candidato a meia dúzia de categorias técnicas (fotografia, direção de arte, edição etc).
2) A partir da sua metade, Hugo dá uma virada e revela o seu verdadeiro assunto: o cinema. Ele vem aos poucos, com o menino conversando com sua nova amiga sobre livros e filmes, e então eles vão ao cinema assistir a um filme do Harold Lloyd (estamos no final da década de 20, presumo). E então a coisa vira um enorme tributo ao cinema mudo francês da virada do século 19 para o século 20 – e, em especial, ao diretor Georges Meliés, realizador do clássico Viagem à Lua, de 1902. É aí que Hugo fala direto aos corações dos cinéfilos de carteirinha – e faz chorar. Se você é cinéfilo.
httpv://www.youtube.com/watch?v=wUhjhty2k9A&feature=fvst
O trailer não entrega o ouro, mas dá uma ideia clara do brilhantismo da execução…
Como um drama dickensiano vira um semi-documentário sobre o início do cinema e o trabalho de arqueologia dos filmes antigos que é tão caro a Scorsese… bem, esse é o mérito do roteiro, baseado no livro homônimo: o tal robô misterioso que o menino guarda (na verdade, é um autômato, um mecanismo a corda que funciona como um relógio, apesar de ter forma humana) guarda um segredo que o levará a cruzar caminhos com o velhinho rabugento (sempre tem um desses) de uma loja da estação, e então será iniciada a festa do cinema.

Scorsese recria os cenários de sonho de Georges Meliés: um trabalho apaixonado
A grande graça de Hugo, pelo menos para mim, é essa “enganação”: quando o espectador vê, ele está vendo projetores antigos, está fuçando bibliotecas empoeiradas em busca de algum registro raro, está sendo exposto a algumas das primeiras imagens do cinema, quando este era uma atração circense, muito antes de virar entretenimento de massa ou de ser classificado como “sétima arte”. Fico pensando se isso pode irritar algumas pessoas “normais”, mas acredito que não: Hugo é irresistível e honesto. É o trabalho apaixonado de Scorsese, ele próprio um arqueólogo do cinema, um cara que dedica mais tempo à recuperação e preservação de filmes antigos do que à sua atividade de cineasta.
Aliás, vamos arrematar este post com aquilo que o Scorsese mais gostaria: que tal conferir, na íntegra, o filme Viagem à Lua? São só oito minutos, mas são oito minutos absolutamente impressionantes, pela riqueza e inventividade da forma (a narrativa seria mais desenvolvida do outro lado do Atlântico, alguns anos depois):
httpv://www.youtube.com/watch?v=yFXwrPTOQuk&feature=related
Hugo é a junção das duas coisas, e Scorsese estava visivelmente realizado quando recebeu o Globo de Ouro de melhor diretor pelo filme, há cerca de 1 mês. Para o Oscar, ele e seu Hugo vêm fortes. Não acho que é o melhor filme do ano – particularmente, prefiro O Artista e Os Descendentes -, mas a força do propósito – e do nome – de Scorsese, aliados ao brilhantismo técnico da execução, podem puxar os votos para o seu lado. Acredito, inclusive, que leva o Oscar de melhor diretor.
Resumo da ópera: um filme meio inclassificável, sem dúvida agradável. E que ensina sobre a história do cinema.










