Como tantos outros, investi um tempo do meu fim de semana para checar a grandiosa destruição de Nova York em 3D proporcionada por Os Vingadores. Os tais vingadores, você sabe, são um tipo de Superamigos, só que da Marvel: Homem de Ferro, Hulk, Thor, Capitão América e mais uns agregados se unem para salvar o mundo.

(A título de curiosidade: os Superamigos, como todos aqueles rondando os 40 anos sabem, eram os heróis da DC Comics ocupantes da Sala da Justiça:  Batman, Superman, Mulher-Maravilha e mais umas bizarrices como o Aquaman e os Super Gêmeos.)

O que posso falar sobre a experiência: esse tipo de filme, definitivamente, não é para mim. É grandioso de uma maneira um tanto constrangedora e completamente desinteressante. Saí simplesmente cansado de tanto barulho, tanta conversa vazia e personagens tão bobos. Mas, antes de me xingar, não deixe de conferir essas 5 boas razões para não assistir a Os Vingadores.

1- Nerdice tem limite

Veja: não sou daqueles enjoados que só curtem cinema europeu; admiro Hollywood, gosto de cinemão e me sento na poltrona, antes de tudo, para me divertir. O diabo é que minha ideia de diversão não inclui um papo cafona e bizarro sobre seres de outra galáxia, liderados por um nobre deserdado de Asgard, que roubam o Tesseract – e que, portanto, colocam a humanidade em risco.

Sim, eu tenho a manha de torcer pelo triunfo dos últimos Jedis sobre hordas de Storm Troopers, e sei respeitar quem tem a habilidade de sentir distúrbios na Força, assim como admiro wookies que pilotam a Millenium Falcon pelo hiperespaço. Logo, sou nerd assumido. Mas há toda uma graça na mitologia de Star Wars, e essa terminologia técnica é bem acessível, qualquer criança a entende. Além disso, o herói da série, Luke Skywalker, é um menino normal, com o qual a plateia se identifica: sua jornada é a de quem está aprendendo e descobrindo aquilo tudo, e você vai junto com ele.

Já essa conversa de planetas assim-assado, e de um cubo que está sendo guardado pela NASA para garantir a produção de energia sustentável para toda a humanidade (ou para gerar armas de destruição em massa?), é absurdamente revestida de auto-importância, e não há ninguém ali para apertar a tecla SAP: você está entregue aos domínios dos fãs de HQ, e quanto mais ininteligível for a trama, mais felizes eles ficam.

Um ressalva deve ser feita aos geniais contrapontos cômicos que, geralmente pelas intervenções irônicas do Homem de Ferro de Robert Downey Jr., aliviam o peso e evidenciam o ridículo daquilo tudo: ele chama Thor e seu irmão Loki (esses semideuses que habitam o céu dos vikings) de figurantes de alguma atração teatral, seja do musical metaleiro Rock Of Ages ou das temporadas de Shakespeare no Central Park; ele ironiza a burrice disciplinada do Capitão América, o soldado perfeito; e, é claro, ele enfrenta os valores nobres de todos os super-heróis com seu cinismo (“quem você pensa que é?”, pergunta um deles; “gênio, milionário, playboy, filantropo”, responde o cara). Esses são os momentos em que Os Vingadores faz rir, e é um grande acerto do roteirista, pois o público médio não aguentaria a xaropada da trama sem essas piscadelas espertas. Engenhoso.

Mas comigo não cola.

2- Os personagens são rasos

Por que gostamos tanto dos filmes do Batman e do Homem-Aranha?

Porque eles são, cada um a seu modo, fascinantes. Um é um órfão milionário perturbado que resolve usar seus hábitos soturnos para enfrentar o crime (sua suposta homossexualidade é o enigma de Capitu das HQs). O outro é um adolescente aprendendo a lidar com as dores do crescimento. Suas histórias pessoais, seus relacionamentos com suas namoradas e amigos, são tão ou mais interessantes do que suas noites de ação contra bandidos pelas metrópoles.

Não que a matéria-prima de Os Vingadores seja ruim: o já citado Homem de Ferro é um personagem bacana (com todo aquele estilo, o som do AC/DC e a sua armadura de cinismo); o Hulk é tão ou mais perturbado e rico em história quanto o Batman; não acho descartável a ideia do Capitão América, como a encarnação de um americano de ideais puros e coragem inabalável (é como se tivéssemos um Buddy Holly ressucitado para nos lembrar de como o rock deveria ser, sem a sujeira e a histeria e as misturas que vieram depois dele). O problema é que esses caras têm que disputar espaço entre eles e com peças menos interessantes, como os irmãos Thor e Loki (que encontrariam lugar tranquilamente no Massacration da MTV), e ainda uns humanos que andam na aba dos heróis de verdade – caso da espião Viúva Negra e de um cara que chamam de Gavião (não sei o nome correto, e não me darei ao trabalho de pesquisá-lo). Toda essa gente aparece de uma maneira tão superficial, que a história de cada um caberia num quadrinho.

3- Mau uso de atores de primeira linha (especialmente Scarlett)

Scarlett dando tiros em aliens: a mulher certa no lugar errado

Nem preciso falar que, para dar vida a essa turma tão unidimensional, não é necessário o método do Lee Strasberg. Portanto, é triste ver um ator tão capaz como Mark Ruffalo (de Zodíaco e Conta Comigo) batendo ponto como Bruce Banner / Hulk. Samuel L. Jackson, como Nick Fury, o mentor da reunião dos super-heróis, é igualmente inodoro (sua fantasia de filhote de cruzamento de pirata com Darth Vader não funciona).

Claro, crédito deve ser dado a Robert Downey Jr., de cujo carisma depende a vida e a graça do personagem Tony Stark / Homem de Ferro. Não existiriam os dois filmes da série própria do herói, e certamente não haveria este Os Vingadores, se não tivessem Downey Jr. na parada. Ele carrega o filme, mesmo seja só por sua própria diversão.

E temos Scarlett Johansson, senhora dos nossos sonhos, mulher mais desejada do mundo, capa da VIP de maio. Ruiva. De roupa preta colante. Dando chaves de perna nos seus oponentes – e com a câmera sempre a focalizando de baixo pra cima, com suas curvas bem realçadas. E ISSO NÃO É O SUFICIENTE.

Precisamos de mais Scarlett, muito mais. Precisamos da sua voz rouca, do seu riso sufocado e de seu olhar meio cabisbaixo e inseguro, como se ela não soubesse ser quem é. Como a conhecemos em Encontros e Desencontros. Como nos acostumamos nos filmes do Woody Allen. OK, ela é a tal espiã irresistível com pleno domínio do seu corpo e de sua capacidade de persuasão. Mas não tem graça, e não tem sex appeal.

E poucas imagens me deixarão maior sensação da famosa vergonha alheia do que as tomadas de Scarlett paradinha, após uma cambalhota ou algo assim, segurando o revólver com as duas mãos e cerrando os olhos, toda fodelona, buscando seu próximo alvo. Ela pode mais, ela pode tudo. Mas topou ser a Viúva Negra.

4- O filme se passa longe do mundo real

Outra coisa que apreciamos muito em Batman e no Homem-Aranha é o fato de que suas aventuras acontecem na cidade, desde uma ópera no Metropolitan até um passeio no museu; de um galpão abandonado até os trilhos do metrô. São heróis à moda antiga, que salvam a humanidade do seu jeito um tanto provinciano: um batedor de carteira por vez, uma criancinha salva aqui, um velhinho ali – até que, sei lá, um evento de grandes proporções aparece para testar os limites dos caras. A graça é o nonsense dos homens fantasiados de bichos desfilando pelas ruas em meio aos populares, tudo em nome da justiça.

Os Vingadores passa quase sua totalidade em ambientes que desconhecemos: laboratórios muito loucos com computadores extraviados de Minority Report, naves voadoras futuristas, locações externas que remetem à Terra Média. Um saco.

Quando a coisa chega a Nova York, para o esperado clímax dos vilões tentando acabar com a cidade, já estou cansado. E a ação se passa em escala gigante, raramente chegando ao drama individual das criancinhas no ônibus escolar caindo da ponte (lembram-se do Superman original? Há de haver paciência para demonstrar o tamanho do heroísmo). É só gente voando pra cá e pra lá, no meio dos arranha-céus indiferentes. E ainda há os animais alienígenas asquerosos que surgem por um portal aberto no céu. Estragaram tudo.

5- O vilão é um fracote

Ora, quem tem medo de Loki?

O cara é o irmão loser do “Poderoso” Thor – que é, a rigor, o integrante mais bola murcha dos Vingadores. Por que uma trupe que inclui o Incrível Hulk, o Capitão América e o Homem de Ferro – e que traz a Scarlett Johansson a tira-colo – se sentiria ameaçada por esse pobre coitado?

Além do mais, sua imagem é fraca. Ele tem um ar bem franzino para ser um integrante do Valhalla, e está mais para o vocalista do Jesus Jones do que para Led Zeppelin. Sua arma mortal é um cetro que é neutralizado com facilidade pelo Homem de Ferro. Seu grande sonho é ter a potência do “martelo” do seu irmão fortão. Que ser deprimente, o Loki. Nem o exército de monstrengos do inferno que ele recruta servem para meter medo: a tal da Viúva Negra, uma mocinha com todas as fragilidades de qualquer humano, mata os bichos às dúzias com uma arma de fogo comum.

Em resumo: uma enorme perda de tempo.

 

É certo que muita gente se diverte assistindo a Os Vingadores, dadas as notícias sobre as quebras de recorde de bilheteria e tudo. Portanto, deve haver algum valor no projeto. Talvez este esteja no espetacular agrupamento do primeiro escalão da Marvel. Mas, para mim, o filme bateu como aqueles jogos de fim de ano com grandes astros do futebol: você acha que vai ver um show de bola, e tudo que ganha é um bando de caras de ressaca, tocando a bola de lado e loucos para sair dali e ir curtir um churrasco na casa do Ronaldinho ou algo assim.

P.S.: sei que esta conversa teria sido bem mais útil duas ou três semanas atrás, antes de você ter gasto seu dinheiro na aventura da Marvel. Acontece que este blogueiro esteve ocupado com outras coisinhas bobas da vida – tipo, trabalho até a tampa. E este espaço é para curtição pura de quem gosta de cinema. Curtição sem a qual a vida fica muito chata, e à qual vou me dedicar com afinco para tirar o atraso. BLOGIE is on.