Este clássico cult sempre volta à memória por razões bem afetivas.

Explico: nos idos de 1989-1990, enquanto eu e meus vizinhos meliantes aprontávamos coisas um tanto indignas na vizinhança, tomei um esporro histórico da minha mãe (se não me engano, a gota d’água foi ter pixado um muro ou algo assim – dentro do próprio prédio onde morávamos). No discurso, ela dizia: “esses seus amigos parece saídos daquele filme Os Vândalos do Bronx.

O filme a que ela se referia chamava-se, na verdade, Selvagens da Noite, um semi-trash que marcou época na Sessão da Tarde (e nos vídeo-cassetes da moçada). Um típico exemplar dos anos 70: anos e anos de riponguice conjugada com cocaína e estilizada nas discotecas levaram a cultura pop a se apresentar como caricatura de si mesma. Penso nos programas de TV de música ao vivo, que traziam grandes artistas de soul num cenário “black de boutique” (tudo muito em cores vivas, muito Jackson 5). Penso também em filme como aquele O Mágico de Oz no Harlem, com a Diana Ross de Dorothy e o Michael Jackson como Espantalho.

É nesse contexto que o grande Walter Hill (48 Horas, Ruas de Fogo) pegou A Laranja Mecânica e entregou um filme único: um road movie sui generis, um festival de pancadaria, uma diversão besta. No mais, se tornou a matriz de muita coisa estilosa que ganhou os anos 80  e que chegou até hoje, passando por uma certa parte do trabalho de Tarantino, Robert Rodriguez e, pra ficar num exemplo mais recente, o ótimo Drive, com o Ryan Gosling.

A “trama”: gangues se enfrentam nas ruas de uma Nova Iorque imunda, em uma única noite. Os Warriors são os caras bacanas, vindos de Staten Island, e vão até o Bronx para um encontro de todas as gangues. O chefão da CBF das gangues (um tipo que daria mataria o Zé Pequeno – de medo ou de rir) é baleado, e os Warriors levam a culpa. E então eles – que posam de bandidos, mas são uns caras normais – tentam voltar para casa, num longo caminho pelas áreas de cada uma das outras gangues. E todas querem cobri-los de porrada.

Os Warriors enfrentam tipos como os Fúrias do Baseball (uns malucos parecidos com o Marilyn Manson, só que com indumentária de baseball) e as Lizzies (garotas barra-pesada que atraem os caras para festinhas do cabide antes de abatê-los). A melhor luta é contra os Punks (que de punks não tinham nada), cujo líder chega à frente, de patins, para o violento confronto dentro do banheiro do Metrô. Muita gente voando, espelhos quebrados, portas arrombadas e socos a torto e à direita, neste filme que é um longo e gratuito tributo de duas horas a uma única cena de A Laranja Mecânica. Até por disso, acabou virando cult.

Veja o trailer de Selvagens da Noite!

 

Revi outro dia no Netflix (que invenção boa!) e me diverti tanto quanto da primeira vez.

E, sim, meus vizinhos sacanas passaram o resto da adolescência se orgulhando de terem sido comparados às gangues de Warriors.