Antes de tudo, sou um fundamentalista: não chamo o filme pelo nome corporativo e chato que ele ganhou ao longo das décadas de culto que se seguiram ao seu lançamento. Aquilo que hoje pode ser comprado em blu-ray sob o nome Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança já se chamou, singela e simplesmente, Guerra nas Estrelas. E foi o principal fato novo no cinema desde a adoção das cores.

Guerra nas Estrelas completa, hoje, 35 anos. A efeméride foi usada com senso de humor e, já há alguns anos, o dia 25 de maio passou a ser o Dia do Orgulho Nerd. Entre tantos ícones nerds – esse tipo em alta que mistura interesse inesgotável por tecnologia, ciência, cultura pop e humor duvidoso -, não poderiam encontrar representante mais digno. O filme de George Lucas foi um pioneiro, o primeiro produto do nicho CDF  a se tornar mainstream. A primeira vez na história em que os moleques que tiram as melhores notas se sentiram em posição de destaque.

Nerds no poder: público se aglomera para ver a avant-premiére de "Guerra nas Estrelas" em Los Angeles.

Comigo não foi diferente. Guerra nas Estrelas se mistura às minhas lembranças mais antigas (primeiro jogo de futebol: Brasil x URSS, 1982; primeira revista Playboy: Lídia Brondi; primeiro filme: sim, esse mesmo). Era a noite de reveillón de 1981, e a continuação do filme estreava nos cinemas brasileiros: O Império Contra-Ataca. Como parte da promoção, Guerra nas Estrelas foi exibido pela primeira vez na televisão brasileira, sob grande alarde da Globo.

Pouco depois da meia-noite, boquiaberto, lá estava eu assistindo o enorme Cruzador Imperial a passear pelo espaço – e a ocupar a tela da TV inteira -, disparando tiros e invadindo uma nave em “missão de paz” da Aliança Rebelde. Embora eu tenha assistido ao filme dezenas – dezenas – de vezes, e embora eu conheça cada segundo e cada fala da série inteira, lembro-me com clareza do impacto causado por cada uma das cenas que mais me impressionaram: os storm troopers atirando! O R2D2 projetando o holograma da Princesa Leia! O sabre-de-luz! O Chewbacca pilotando uma nave (e partindo para o hiperespaço)! O duelo entre Obi Wan Kenobi e Darth Vader!

Eu não sabia ler e escrever, mas me tornava, ali, um cinéfilo. O resto é história: a primeira ida ao cinema (E.T., que para mim era uma versão fofinha do Mestre Yoda), o primeiro álbum de figurinhas completo (O Retorno de Jedi), e as primeiras três vezes que vi no cinema CADA UM dos filmes da série Star Wars, incluindo as reprises de 1997 e a nova trilogia, a partir de 1999. Não é mentira: tomei coragem para ligar para a moça que se tornaria minha esposa enquanto aguardava para assistir o Episódio 1 - pela segunda vez.

A tal moça, hoje, sofre com as reprises de Guerra nas Estrelas a que é submetida, de tempos em tempos. (Fora as piadas envolvendo a Força, padawans e afins.)

Han Solo, Leia e Luke escapam da Estrela da Morte

Isso – as reminiscências – é mais ou menos tudo o que restou da saga de Luke Skywalker se tornando o jedi capaz de enfrentar e derrotar o Império. O filme e suas continuações foram superexpostos, supervendidos, superanalisados. É praticamente impossível simular como seria ver Guerra nas Estrelas pela primeira vez – assim como é impossível reviver a magia de ver os Beatles pela primeira vez, ou de ouvir Stairway to Heaven pela primeira vez. Extraíram todo o sumo, e sobrou só a caricatura grotesca: os Beatles macaqueados por bandas cover com perucas ridículas, o violão de Jimmy Page banido do repertório de músicos não-iniciantes… e Luke e Darth Vader reduzidos a ícones da cultura nerd.

Nós, nerds, aceitamos e acolhemos a turma de George Lucas como nosso símbolo. Mas é injusto, porque Guerra nas Estrelas trouxe dezenas e dezenas de inovações para o cinema, desde os incríveis efeitos especiais – que, a partir de um filme, dispararam a criação de uma indústria inteira – até as técnicas de marketing, com os lançamentos de blockbusters no verão americano. No meio disso tudo, personagens inesquecíveis e bem construídos, dúzias deles, desde os protagonistas Luke, Leia e Han Solo até coadjuvantes cultuados como Chewbacca ou Boba Fett. E, claro, Darth Vader, eleito e reeleito o maior vilão da história do cinema.

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Veja o trailer original de “Guerra nas Estrelas”!

Há quem diga que as atuações são fracas, falácia que os mal intencionados sustentam com provocações (“que outro filme aquele Mark Hammil fez?”). Bobagem. Carrie Fisher fez um grande trabalho como a Princesa Leia e se tornou ícone até o fim da vida, tipo a Rita Hayworth em Gilda - só que diferente. E Harrison Ford, como podem se esquecer disso?, tornou-se provavelmente o maior astro do cinema por uma ou duas décadas, indo de comédias classudas (Uma Secretária de Futuro, Sabrina) a thrillers e dramas sérios (Acima de Qualquer Suspeita, A Testemunha). E ainda viveu um dos pouquíssimos heróis de ação capazes de rivalizar com seu Han Solo: Indiana Jones.

Guerra nas Estrelas é o responsável pelo apogeu do cinema autoral dos anos 70, coisa iniciada com os malucos à frente de Easy Rider e Bonnie & Clyde, e conduzida com maestria pela turma de barbudos que renovou  Hollywood por uma década: Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Brian DePalma… e George Lucas. Ao mesmo tempo, foi o filme responsável por acabar com aquela fase de ouro, dando a receita que vem sendo seguida, sem criatividade e em escala industrial, desde 1977. É dessa esteira que saem as grandes aventuras, animações, thrillers e “sagas” que quebram recordes de bilheteria ano após ano. Harry Potter, Crepúsculo, filmes de heróis da Marvel e da DC Comics, animações da Disney e da Pixar, filmes de catástrofe grandiosos e mega-produções do James Cameron e congêneres… tudo paga pedágio ao Guerra nas Estrelas original, que ainda permanece como postulante quase inconteste ao título de filme mais famoso, mais popular, mais rentável de todos os tempos.

É isso que acontece quando um nerd genial é capaz de transformar sua piração individual num negócio de interesse geral: o mundo muda, a vida de milhões é impactada. Esse é o legado e a lição que gente como Steve Jobs, Bill Gates e George Lucas nos deixou. Quando prepararem aquele foguete-museu com o melhor da memorabília nerd para nossos vizinhos de outras galáxias nos conhecerem, deixarão uma cópia de Guerra nas Estrelas passando em loop numa tela, enquanto iPads e Ataris ficam ali no canto, esperando por alguém para descobri-los.

Feliz dia do orgulho nerd para todos!