Falar de um ícone da cultura pop é sempre difícil. Todo mundo tem a impressão de saber tudo sobre Roberto Carlos, Paul McCartney ou James Dean. E quase ninguém consegue, no meio de todos os lugares-comuns, reconhecer as verdadeiras qualidades e toques de gênio que fizeram a fama dessa gente.

Marilyn Monroe

Com Marilyn Monroe, é a mesma coisa. Todo mundo pensa nela como a gostosa com o vestindo voando sobre o respiradouro do metrô; todos conhecem aquela foto da moça pelada, no pôster central da primeira edição da revista Playboy; seu caso com um Kennedy ou dois – com direito àquele “Happy Birthday, Mr. President” muito sexy – é parte da história; e é mais que conhecido o fim triste da estrela, entupida de calmantes, morta por ação própria ou por ação da CIA, quem sabe…

… Mas pouca gente percebe que aquela loira maravilhosa, seios apontando gloriosamente para os olhos do espectador, era além de tudo uma grande atriz, cheia de timing cômico e dotada de um carisma único. Marilyn filmou com boa parte dos grandes diretores da era de ouro de Hollywood: John Huston, Laurence Olivier, George Cukor. Foi aluna do famoso Actors Studio, e ajudou a tornar popular o Método Strasberg (e contava com a supervisão pessoal da própria Sra. Strasberg durante muitas filmagens, mesmo em filmes de mestres como Elia Kazan). Acima de tudo, foi a preferida de Billy Wilder (provavelmente, o maior diretor da história do cinema), que a escalou em O Pecado Mora ao Lado (o filme da cena do vestido branco esvoaçante) e naquela que é considerada a melhor de todas as comédias:Quanto Mais Quente Melhor!.
Sugar Kane

Há um bom número de razões para Quanto Mais Quente Melhor! ser considerada a melhor comédia de todos os tempos: em primeiro lugar, o texto irônico, gaiato, esperto e sacana de Billy Wilder. A trama maluca bota dois músicos de jazz fugindo da máfia, e então se travestindo de garotas, pra então integrar uma banda de jazz feminina -  e conhecendo Sugar Kane, a personagem de Marilyn, que entra em cena de maneira mágica, envolta em fumaça numa estação de trem.
Obviamente, os dois caras se apaixonam por ela – Tony Curtis, o galã, ganha os amores da loira e uma cena antológica em que o calor de Sugar embaça seus óculos; e Jack Lemmon, o cara engraçado, ganha um pretendente peludo, para quem suas pequenas idiossincrasias não serão obstáculo para um futuro lindo (afinal, como diz o cara na famosa frase final, “ninguém é perfeito!”).

 


Veja o trailer do sensacional Quanto Mais Quente Melhor!

O filme é realmente perfeito, e tudo dá certo, mas o gancho para o público e a justificativa capaz de manter a farsa toda de pé (e isso fica claro no trailer acima) é mesmo a presença inebriante de Marilyn, cantando e tocando ukelele aqui, rebolando ali, desfilando em vestidos colados que devem ter inspirado uma “vestimenta” tão famosa quanto transparente da Britney Spears.

Resumindo, Wilder sabe que saiu no lucro ao aturar a péssima mania da estrela de se atrasar e de  não decorar suas falas (em sua biografia … E o Resto é Loucura, Wilder afirma que, em determinada cena em que Sugar entraria no quarto e diria uma única fala – “onde está o bourbon?” -, tiveram que fazer inacreditáveis 65 tomadas! Um dia e meio foram gastos para filmar essa única frase). Perguntado sobre por que tinha escolhido Marilyn para Sugar, Wilder arrematou: “era o papel mais fraco, e o truque consistiu em ter de preenchê-lo com a atriz mais forte.”

Norma Jean

Poucos tiveram a sensibilidade e a oportunidade de conhecer a verdadeira Marilyn – a inteligente, insegura, curiosa e ambiciosa Marilyn. Uma mulher que seduziu e que teve como maridos o Pelé do baseball, Joe DiMaggio, e o escritor Arthur Miller. Que fez parte do círculo íntimo de amizades de Truman Capote, que a tinha como preferida para o papel de Holly Golightly na adaptação do seu livro Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo, que acabou estrelado por Audrey Hepburn). Uma mulher que, mesmo à distância, inspirou a dupla Elton John / Bernie Taupin no hino Candle in the Wind (no qual um jovem rapaz, na décima segunda fila de um cinema, lamenta a morte da atriz e se despede não de Marilyn, mas de Norma Jean – era esse seu nome de batismo).

Marilyn faria aniversário hoje, e BLOGIE presta sua homenagem àquela que é uma das maiores estrelas do cinema, e seguramente a mais sexy de todas. Duas frases, de duas pessoas bem diferentes, deixam clara a estranha química que emanava da loira:

“Quando a gente vê Marilyn na tela, deseja que tudo vá bem com ela, que seja feliz.” – Natalie Wood (outra mulher que não queremos esquecer)

“Ela era de carne, de uma carne que se deixa fotografar. Tinha-se a sensação de que era preciso apenas estender a mão para poder tocá-la.” – Billy Wilder

OK, ficamos com a frase de Wilder. E, principalmente, com a imagem que Wilder criou e deixou gravada na cabeça de todos nós.

Billy Wilder prepara Marilyn Monroe para a cena de O Pecado Mora ao Lado: imortais.