Estreia: “Homens de Preto 3″, de Barry Sonnenfeld
Entre o lançamento de Homens de Preto, há assustadores 14 anos atrás, e este outono sem graça de cinemas dominados pelos Vingadores da Marvel, o mundo viu a dita ascensão do poder nerd – graças a uma dúzia de gênios tornados milionários na Califórnia, virou bacana gostar de Star Wars e HQ, e programas flagrantemente infames passaram a ditar as regras do humor. Acima de tudo, o cinema foi tomado por super-heróis de toda espécie, desde as previsíveis repetições da Marvel e da DC Comics até brincadeiras brilhantes como Kick Ass.
Mas eis que o time formado por Steven Spielberg (dono da grana), Barry Sonnenfeld (diretor) e Ethan Cohen (roteirista) volta a se juntar e, basicamente, mostra para as crianças como se faz a coisa: Homens de Preto 3 é um filme deliciosamente nerd e, ao mesmo tempo, divertido e acessível. É o melhor filme da temporada de blockbusters.

K (em versão remoçada), Griffin e J: tudo é possível!
Entenda: como muitos nerds, frequentei a faculdade de engenharia, onde aproveitávamos a falta de moças e festas e atividades sociais para ficarmos discutindo assuntos comezinhos da vida, como viagens no tempo, discos do Dream Theater, teoria da relatividade e a mitologia de Star Wars. Tudo devidamente regado a cerveja vagabunda, claro. Qualquer coisa à toa gerava altos papos cabeça que se arrastavam para o folclórico Rei das Batidas, ou para o então desconhecido Bar do Sacha, na Vila Madalena. Lembro-me de uma conversa em que discutíamos, embasbacados, o final de Homens de Preto (o primeiro), em que o mundo, a galáxia, o universo iam sendo colocados em perspectiva, até descobrirmos que a coisa toda era um disco de hóquei num jogo de aliens. Era isso! Em questão de minutos, conversas sobre a impossibilidade da existência de Deus ou a teoria do caos estavam na mesa.
Já nestes tempos mais cínicos e práticos, nenhum dos filmes de heróis das últimas safras me reviveu tanto essa vibe dos tempos de faculdade como esse terceiro Homens de Preto. Simplesmente genial, ele dá um nó na cabeça de qualquer um ao levar o Agente J (Will Smith) numa viagem no tempo, em busca de salvar seu parceiro K (Tommy Lee Jones ou Josh Brolin, como sua versão jovem) da morte – e a humanidade de uma invasão alienígena. Isso acontece graças a Griffin (Michael Stuhlbarg, de Um Homem Sério), um alien que tem o dom de enxergar todas as variações e cenários do destino, com base nas mil possibilidades aleatórias de cada segundo. Quer dizer, ele vê o futuro – não como algo ingenuamente fatal e imutável (como acontece com a Jean Grey de X-Men ou com os jedis de George Lucas), mas como uma coleção de cenários possíveis, resultantes de um sistema de equações coalhadas de variáveis. Três dimensões não bastam. Lá pelas tantas, ele responde à indagação de um Will Smith indeciso quanto ao próximo movimento a fazer e suas consequências: “tudo é possível”. Filosofia para as massas. Mas só se você estiver a fim.
Outra pequena tirada genial é o primeiro neuralizador, então “de última geração” nos anos 60: uma geringonça enorme e barulhenta que se assemelha muito às nossas atuais máquinas de ressonância magnética – deixa para refletirmos um pouco sobre a precariedade iminente daquilo que consideramos hoje moderno.

Olhando por um viés bem mais desinteressado, Homens de Preto 3 é tão divertido e visualmente impressionante quanto seus antecessores, com seus ETs bisonhos, gadgets criativos (eles sempre dão um jeito de inventar algo que nunca vimos antes, como o monociclo de roda gigante) e piadas com a cultura pop – desta feita, como vamos aos anos 60, topamos com uma turminha de aliens reunida em torno de Andy Warhol (um agente secreto que não aguenta mais festa estranha com gente esquisita), e sabemos que Mick Jagger é um alien que veio à Terra com a missão de copular loucamente com terráqueas – e engravidá-las.
É claro que os detalhes são ricos e caprichados, e a versão sessentista do escritório da Agência é cheio de mesas de madeira e máquinas de escrever, ao mesmo tempo em que alienígenas apresentam a aparência dos alienígenas de filmes dos anos 60 – um monstrengo verde pra cá, um Aqualung pra lá – e aí passa uma agente loira gostosíssima com a pinta da Jane Fonda em Barbarella. Referências pra todo lado.
Veja o trailer de Homens de Preto 3!
E não dá para descrever o prazer que é a reconstituição, em gigantesco 3D, do lançamento da Apollo 11 no histórico dia 16 de julho de 1969 – dia em que, como todos devem saber, o agente K implantou o escudo magnético que protege o planeta de invasões desde então.
Homens de Preto 3 é o programa mais divertido em cartaz, o mais bem produzido, e também o mais inteligente. Se você já viu Os Vingadores, a sessão de Homens de Preto 3 lhe dará o efeito de uma piscada de neuralizador: você nem se lembrará mais de Capitão América, Hulk e cia.











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