“Solteiros com Filhos”, ou a revolução da comédia feminina
Primeiro, elas queimaram sutiãs, vestiram calças compridas e reivindicaram – e conquistaram – direitos iguais. Depois, invadiram o mercado de trabalho e ascenderam a postos gerenciais e de direção. Agora, estão começando a tomar dos homens um dos últimos lugares onde estávamos no comando: no humilde canto da auto-humilhação, do rir de si mesmo, do quanto mais idiota melhor – a comédia.

Mulheres no centro: agora a comédia é assim!
Claro, as comédias – ou pelo menos um tipo de comédia – sempre tiveram o público feminino na sua cabeça, e lhes ofereceu a versão inofensiva e arrumadinha do ridículo humano: a comédia romântica. Das mãos habilidosas de Billy Wilder (com a imagem elegante de Audrey Hepburn) à competência em série de Nora Ephron (com a imagem corretinha de Meg Ryan), a comédia romântica sempre foi a nossa concessão à mulherada – OK, vocês não gostam do Mel Brooks, então verei esse filminho da Sandra Bullock com você.
E chegamos à segunda década do século 21, com a comédia entrando de sola no terreno do mau gosto, com a turma de Se Beber, Não Case chutando o balde em Las Vegas e a máfia de Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos, O Virgem de 40 Anos) se espalhando e brilhando em empreitadas solo (Seth Rogen, Paul Rudd, Jonah Hill, Jason Segel, Steve Carrell…). Tudo parecia normal no reino dos engraçadinhos e fãs de stand-up comedy, mas deveríamos ter visto a sombra se aproximando. Deveríamos ter prestado atenção no sucesso da Tina Fey no Saturday Night Live; deveríamos ter percebido que nossas namoradas e esposas estavam lotando o cinema e rindo da escrotidão dos nossos heróis e suas piadas envolvendo pêlos, peidos e nojeiras em geral. Agora é tarde: a mulherada se apoderou da comédia rasgada, e parece que elas vieram pra ficar.
O primeiro indício foi o atordoante Missão: Madrinhas de Casamento, lançado no ano passado e tão inesperado que confundiu todo mundo, que não sabia se se tratava de mais uma comédia descartável e nojenta (só que escrita e estrelada exclusivamente por mulheres) ou se era caso de Globos de Ouro e Oscars. O filme foi escrito por Kristen Wiig, egressa, claro, do Saturday Night Live, e trazia a história da melhor amiga da noiva que encara o fardo de ser a dama de honra – aquela coisa toda, escolha do vestido, lembrancinhas e docinhos, chá de cozinha e música de mulherzinha, com destaque para as (graças aos céus) sumidas moças daquele trio, Wilson Phillips. Só que o pacote veio polvilhado de conversas francas sobre sexo, ridicularização da aparência e dos hábitos das moças e um tanto de escatalogia (penso na já histórica cena da noiva, toda cagada, no meio da rua). É Se Beber, Não Case para mulheres, pode crer.
Veja o trailer de Missão: Madrinhas de Casamento!
E agora lançam uma empreitada um pouco mais light, mas que segue na mesma toada: estreou este Solteiros Com Filhos, um filme que trata da velha questão do cara um tanto imaturo, o eterno meninão, que não consegue largar da vida boa de playboy e firmar um compromisso, embora a idade vá chegando e uma família com filhos se faça necessária. Só que o cara, aqui, é uma mulher. Ou pelo menos a mulher é tão avariada moralmente quanto o homem, e isso conta muito.

O filme é escrito e dirigido por Jennifer Westfeldt, 40 anos, uma intelectual formada em Yale que é também atriz aqui e ali (seu último filme foi Beijando Jessica Stein, há dez anos!). Ela frequenta a turminha das Madrinhas de Casamento e trouxe as duas protagonistas para compor seu elenco. Também colocou no projeto seu marido, o astro Jon Hamm, de Mad Men. A história é a seguinte: dois amigos (um homem e uma mulher) desfrutam de uma intimidade absurda e parecem feitos um para o outro, mas são só amigos. Levam uma vida de filme de Woody Allen em Manhattan, e acompanhamos seus passos através de passeios bacanas e restaurantes descolados, com seus dois casais de amigos servindo como paradigma constante de comparação sobre como as coisas estão indo. Parece Harry & Sally, vão dizer, e parece mesmo, mas ganha um ingrediente a mais: o tal casal de amigos resolve ter um filho.
E assim, o que era complicado (dois amigos beirando a meia idade e fugindo de um relacionamento mais sério) vira um inferno – pois agora há bebês (não só o deles, mas os dos seus amigos), e há escalas de vigília noturna, e há a namorada de um e o namorado da outra surgindo aqui e ali, e é muito difícil mesmo equilibrar todos os pratos nas varetas. O ponto de vista é feminino, sempre: como se manter atraente, como não abrir mão da maternidade e continuar mandando bala na dolce vita…
Veja o trailer de Solteiros com Filhos!
O resultado vai um pouco além de um Harry & Sally com filhos, em que pesem os defeitos e limitações de Solteiros Com Filhos (e o maior deles foi bem apontado pelo crítico Roger Ebert, do Chicago Sun Times, que descreveu sua dor em assistir aos personagens cumprindo a óbvia acomodação no terceiro ato, caminhando chochos para um final feliz). O resultado, a despeito do filme não ser nenhuma obra-prima, é o assentamento de mais um tijolo na obra que vai se construindo. É mais uma comédia para mulheres; escrita, dirigida e protagonizada por mulheres; e capaz de engrossar o currículo e criar uma “cena” de moças duronas e destemidas, que topam pagar o preço de uma gargalhada – o preço que Jerry Lewis, Jack Lemmon, Woody Allen, Jim Carrey e Adam Sandler sempre se dispuseram a pagar. Às favas com as as aparências e o peso e os ares de mocinha indefesa, é isso que elas dizem.
E agora é a sua namorada que vai escolher a comédia no Netflix, naquele sábado preguiçoso em que vocês resolverem comer uma pizza e dar umas risadas. É uma questão de tempo.











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