Se você acha que o último Harry Potter ou um bando de heróis da Marvel são grandes blockbusters, você deve ser muito novo para se lembrar ou ter vivido 1982. Foi uma época engraçada. A Ditadura Militar estava meio morta no Brasil, mas se recusava a entregar os pontos – naquele ano, aconteceram as primeiras eleições para governador em mais de uma década; já para presidente, as Diretas Já dariam com os burros n’água. No futebol, a Seleção encantava com Zico, Sócrates e Falcão, mas parou na Itália numa partida trágica em Barcelona, durante a Copa de 82. O rock brasileiro ia surgindo, cheio de cores new wave, com a Blitz e o Barão Vermelho e todo o resto. A música que mais fez sucesso naquele ano foi um samba do Gonzaguinha, aquele que convoca todo mundo pra berrar: “viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

O clima era de euforia, um país na iminência de entrar num Carnaval eterno. Só que a bola foi batendo na trave, batendo na trave… e o hino daquela geração seria mesmo o Inútil do Ultraje a Rigor (“a gente não sabemos escolher presidente” etc). Enfim, a década terminaria com hiperinflação e Collor na presidência e a Seleção do Lazaroni fazendo papelão.

Mas não sabíamos nada disso no meio de 1982. Acreditávamos na redenção coletiva e nada nos impedia de repetir que a vida é bonita, é bonita e é bonita.

E o que tudo isso tem a ver com cinema?, você pergunta.

Bom, é que nada, nada disso teve tanta repercussão e causou tanta comoção como o advento de E.T., o Extra-Terrestre, de Steven Spielberg, que estreou há exatos 30 anos atrás. Coloquemos assim: nenhum filme foi tão largamente comentado, amado e estendido em um universo de produtos, de álbuns de figurinhas a brinquedos a toalhas a todo tipo de merchandising oficial e pirata que possa ser imaginado. Durante semanas, o Fantástico se desdobrava em encontrar mais matérias sobre o filme, o simpático E.T. e seu mago criador. O assunto era inesgotável. Na escola, as crianças mediam sua popularidade em termos de quantas vezes tinham visto o filme. Lá pelas tantas, a diretoria organizava excursões para ir ao cinema, porque as crianças que não tinham tido a oportunidade de ver o filme estavam sofrendo bullying (na época, não era esta a palavra, mas era isso).

Eu me lembro muito bem de onde e como vi E.T. pela primeira vez: num cinema em Santana, na zona norte de São Paulo, com gente saindo pelo ladrão. Mesmo. As pessoas se sentavam no chão, nas escadas, ou assistiam lá do fundo em pé, porque vendiam (muito) mais ingressos do que os assentos comportavam. E ninguém reclamava. (Bem, lembro-me da minha mãe reclamando, mas isso foi antes de começar a projeção – assim que começou o filme, ela ficou tão embasbacada e imersa na vidinha de Elliot e o E.T. quanto nós.)

Na verdade, aquela foi a primeira vez que fui ao cinema para ver um filme de verdade (antes, eu já tinha ido ver animações da Disney, mas dessas não guardo lembrança). Não poderia haver filme mais adequado.

Spielberg se tornou um nome amplamente conhecido, de brasileiros e brasileiras, ricos e pobres, interessados por cinema ou executivos sizudos. Basicamente, E.T. fez de Spielberg  sinônimo de excelência de realização, pureza de propósitos, inteligência e sensibilidade – tudo o que faltava no Brasil que acabava só batendo na trave e não encontrava o caminho. Spielberg seria eleito presidente da república, e não faria feio à frente da Seleção Brasileira. Ele era o cara, sem concorrência ou contestação.

Os anos seguintes trariam uma série de filmes que carregavam a assinatura de Steven Spielberg como produtor executivo – filmes que ele escolhia por afinidade com seu universo de aventuras infantis e que botava nas mãos de protegidos. Esses escolhidos iriam de Joe Dante (Gremlins) a Richard Donner (Goonies) a Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro). No imaginário coletivo, era tudo “o novo filme do Spielberg”. É como aquele monte de frases e textos que circulam pela internet e que atribuem a Millôr Fernandes ou ao Luís Fernando Veríssimo ou ao Arnaldo Jabor, como se qualquer coisa mais sagaz e inteligente só pudesse sair da pena desses caras.

A questão é: E.T. merecia toda essa repercussão?

Selo comemorativo dos Correios dos EUA

Sim, e muito. É um filme definidor de época, ao retratar uma família separada sob o ponto de vista da criança (Kramer Vs Kramer e Gente Como a Gente se levavam a sério demais, e se empenhavam demais em fazer a mulherada chorar; E.T. vai na veia e mostra o moleque vivendo a vida, com suas sequelas misturadas à própria solução caseira que se encontra e bola pra frente). Ele deflagrou a moda das “bicicross” (aquelas bikes de aro 20 e sem marcha, que TODOS os moleques pedalaram felizes nos anos 80, rampando nas calçadas e derrapando em série). Deve ter sido o primeiro filme a mostrar pizzas entregues em casa, e também deve ter sido o primeiro a exibir orgulhoso um controle remoto zapeando pela TV a cabo com dezenas de canais. Era um verdadeiro showroom do estilo de vida dos anos 80.

E tinha a paranoia do que vinha do espaço e de como o Governo escondia tudo da população. E aí a aventura ganha contornos absolutamente mágicos, com aquele bichinho engraçado, claramente derivado do Mestre Yoda de George Lucas, aprendendo a falar e dando aulas de astronomia para a molecada. E aquela simbiose com o Elliot? Um fica bêbado, o outro fica bêbado; um fica doente, o outro cai de cama… que ideia!

Para mim e para quase todos, nada é mais memorável do que o bando de moleques, Elliot à frente, pedalando suas bikes ameaçadoras em direção à barricada de policiais apontando armas para suas testas, e então as bikes levantam voo e passam em frente à enorme lua cheia. Todos sabem do que estou falando. A cena é daquelas poucas que entrariam numa lista de 10 cenas mais famosas do cinema, junto com a Scarlett O’Hara gritando que nunca mais vai passar fome, ou a Dorothy batendo os sapatinhos e dizendo que não há lugar como o lar, ou o Humphrey Bogart e a Ingrid Berman se despedindo na pista de decolagem em Casablanca. Simples assim.

Veja a cena:

Assisti E.T. recentemente e achei o filme tão mágico e cativante quanto na primeira vez, e também achei os efeitos especiais tão convincentes e reais quanto os de última geração que vemos hoje, todos feitos no computador. Claro, não gostei do Spielberg ter apagado digitalmente os revólveres dos policiais na tal cena, substituindo-os por walkie-talkies inofensivos. Mas o saldo foi amplamente positivo.

O residual de E.T. foi tão forte que suas estrelas mirins se viram amaldiçoadas pelo sucesso acachapante do filme. O moleque que fez o Elliot sumiu; e Drew Barrymore, que deu  graça e carisma irresistíveis à irmãzinha de 4 anos, passou mais de uma década no inferno – alcoolismo antes dos 10 anos, drogas na pré-adolescência etc. Quando Barrymore finalmente ressurgiu, aos 18 anos, fazendo uma ponta num filme do Batman, todos se lembravam dela: “a menininha do E.T. cresceu!” – e dali para um filme do Woody Allen e, então, para virar a rainha da comédia romântica, foi um pulo.

Se você não viveu 1982, é provável que não entenda ou não concorde com tudo isso que contei. É capaz que você pense, esse cara é um velho saudosista cuja memória começa a aumentar as coisas do passado. Sem problema. Mas acredite, E.T. é o filme definitivo de Spielberg; é o filme em que foi colocada toda a carga emocional, de valores e frustrações e pirações de um cara talentoso e tímido. E é o molde de quase tudo que é feito hoje em dia, de animações a blockbusters, ao tratar adultos como crianças e crianças como adultos, com gente normal lidando com problemas maiores do que a vida.