Depois de tantos filmes, começando lá atrás com Edward Mãos de Tesoura e chegando ao blockbuster da Disney Alice no País das Maravilhas, parece que se esgotou tudo que podia ser dito sobre a parceria de Tim Burton e Johnny Depp. Os cabelos estranhos, os trejeitos, a aparência freak - sinceramente, tudo meio que perdeu a graça. OK, entendi, você é o Johnny Depp e faz o que lhe der na telha; logo, de dois em dois anos você faz um filme esquisitão com seu amigo esquisitão, Tim Burton. Boring.

Mas não é que esse Sombras da Noite (que estreou no último fim-de-semana no Brasil) me fez esquecer todo esse histórico?

Durante as duas horas de humor negro e clima ao mesmo tempo sombrio e infantiloide, não precisei me lembrar do tratamento de auteur que Burton recebe há anos, e também pude rir dos personagens e situações do filme por seu próprios méritos, e não pela piada metalinguística de vermos o maior astro de Hollywood fazendo-se de ridículo. Sombras da Noite é uma delícia de filme, sem se levar a sério e não abandonando jamais o afeto pelos seus personagens. E é esse afeto humano que torna geniais os melhores momentos de Burton, como Ed Wood, Peixe Grande e Edward Mãos de Tesoura - assim como é sua ausência e uma ironia gratuita e exagerada que estragam filmes como Alice.. e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça.

Johnny Depp e Eva Green: ele vira e mexe sucumbe aos encantos da moça…

Sombras da Noite conta a história dos Collins, uma família inglesa que imigrou para os EUA há séculos, e que lá desbravou um porto e fundou uma cidade, vivendo na fortuna e desfrutando da admiração de todos, até que seu herdeiro – Barnabas Collins, um rapaz de modos soturnos e aparência esquisita feito um Johnny Depp em filme do Tim Burton – se envolve com a mulher errada (e eis uma rara ocasião em que Eva Green é a mulher errada). Acontece que a moça é uma bruxa e, tendo o rapaz se apaixonado por outro rabo-de-saia, ela exorcisa a rejeição lançando uma maldição secular sobre o pobrezinho e sua família. E assim chegamos aos dias de hoje com o que restou dos Collins vivendo na opulenta mansão caindo aos pedaços, com seus negócios sucateados na cidade que os ignora solenemente.

E do que se trata essa maldição? Bem, digamos que há espaço para o “penhasco da viúva”, mansão mal assombranda por fantasmas etéreos, vampiros, lobisomens e muito glam rock (com direito a ponta de Alice Cooper) numa trama que se equilibra entre A Hora do Espanto, Os Sete Suspeitos e o Carlitos de Charles Chaplin. Depp confere vulnerabilidade e coração ao amaldiçoado Barnabas, que atravessa os séculos e volta ao seu lar em plenos anos 70, onde tem de lidar com hippies, feministas e sexo livre (entre uma refeição e outra, dada sua situação peculiar). Eva Green se diverte no papel da bruxa gostosa eternamente apaixonada pelo sujeito. O mesmo pode ser dito do belo elenco que compõe o freak show da família Collins: Michelle Pfeiffer como a viúva durona que comanda a família; Helena Bonham-Carter como a psiquiatra alcoólatra que se interessa pela natureza um tanto diferente de Barnabas; e Chloë Grace Moretz, a impagável Hit Girl de Kick-Ass, aqui crescidinha como a adolescente problemática que curte Alice Cooper e vive entupida de drogas.

Veja o trailer de Sombras da Noite!

E tem a linda Bella Heathcote, um pitelzinho descoberta por Tim Burton numa novela australiana (a moça é natural daquelas praias), que serve de objeto do afeto de Johnny Depp e alvo preferencial da bruxaria de Eva Green. A moça decora a tela, além de ter bom timing cômico, e isso é bem agradável.

Pois é… eu também.

Ao final de Sombras da Noite, temos a sensação de ter viajado no tempo, aprendendo algo e imaginando um tanto sobre a formação das cidades abastadas no Nordeste dos EUA, além de curtir de um ponto-de-vista adequado a bizarrice dos anos 70. O resto é a magia de escuridão e imaginação de Tim Burton – que, afinal, é mesmo um autor genial. Quando está inspirado – e quando se ocupa em apenas divertir e se divertir -, não tem pra ninguém.