Em cartaz: “Para Roma, Com Amor”, de Woody Allen
Quem acompanha este blog sabe que, por aqui, o momento mais esperado do ano não é o Natal, nem as férias, nem o coelhinho da Páscoa. O presente que todos ganhamos, ano após ano, e que faz a vida valer a pena, é mesmo o novo filme do Woody Allen.
É recompensador, para mim, ver esse brilhante final de carreira de Allen (não que ele se veja em final de carreira; é a simples e triste constatação de que o homem tem quase 80 anos). De 2005 para cá, a partir do londrino Match Point e Europa adentro com Vicky Cristina Barcelona e Meia Noite em Paris, os filmes de Allen deixaram de ser sinônimo de filme chato e cabeça para o grande público, e os shopping centers ganharam filas – filas! – de casais dispostos a conferir suas ironias, reflexões, piadas e paranoias.
Um belo exemplo dessa evolução são os cartazes dos filmes: lembro-me de quando Match Point foi lançado, e o cartaz que era exibido nos cinemas brasileiros trazia Scarlett Johansson se agarrando cheia de sorrisos com o galã do filme, Big Ben e outras paisagens londrinas ao fundo, num climão de comédia romântica – e nenhuma menção ao nome do diretor, que deveria afugentar o público (de acordo com o entendimento dos marqueteiros da distribuidora).
Acontece que o filme fez sucesso de verdade, e daí veio Vicky Cristina Barcelona – cujo cartaz também se serviu da aprazível figura de Scarlett, desta vez reforçada de Penélope Cruz e Javier Bardem. O cartaz informava: “do mesmo diretor de Match Point“. Oscar para Cruz, sucesso de bilheteria, mais um passo em direção ao improvável Meia Noite em Paris, uma comédia em que o protagonista viaja no tempo e interage com baluartes da década de 20, batendo papos e bebendo com Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Salvador Dalí… como isso foi se tornar o maior sucesso da carreira de Allen, eu não sei. Mas sei que foi a redenção definitiva da obra do baixinho junto ao grande público, coroada com mais uma esnobada pra cima dos Oscars (ele teve o roteiro premiado mas, como fez das outras duas vezes, não compareceu à festa para buscar a estatueta).
E todo esse contexto nos traz a 2012 e nos leva a Roma, cidade escolhida para o diretor ambientar seu 43º filme: Para Roma, Com Amor.
Devidamente anunciado, aliás, com a imagem de Woody Allen em destaque e com o título respeitosamente precedido de um rótulo de autor: “escrito e dirigido por Woody Allen”.

Um dia especial em Roma
Eu vivi para chegar este dia. Parece que foi ontem quando nós, os cinéfilos, nos reuníamos feito clandestinos no Espaço Unibanco para conferir o lançamento tardio de Poderosa Afrodite ou Descontruindo Harry. Tínhamos que correr, porque sairia de cartaz em uma ou duas semanas.
Mas vamos a Roma.
O filme, seguindo a fórmula de sucesso de seu antecessor parisiense, consegue encapsular uma tonelada de citações e piadas que são tão bem aproveitadas quanto maior for o repertório cultural do espectador. Se em Paris era necessário conhecer os humores de Hemingway e a loucura da mulher do Fitzgerald e o frisson em torno da Josephine Baker, em Roma é desejável saber tudo de cinema italiano, desde as iniciativas mais pop e mais cabeça de Fellini até a tradicional comédia de costumes italiana. Por outro lado, assim como em Paris, quem não tem todo o conhecimento não deixa de ver graça e de se divertir com as situações e personagens de Allen, e não deixa de se apaixonar pelas cidades, fotografadas com o carinho de um turista curioso (e talentoso).
Ou seja, o filme não frustra os admiradores de longa data do cineasta, agradando-os na mesma medida em que se deliciam os frequentadores mais desinteressados (os casais em busca de um “filminho leve para o sábado à noite”). A bem da verdade, sobe a barra um pouco, e isso é muito bem-vindo num mundo de Vingadores e congêneres.
Perder-se em Roma
Para Roma, Com Amor é uma comédia, e uma das boas. Segue aquela linha de quatro núcleos completamente independentes de personagens, cujas histórias jamais se cruzam, mas ajudam a compor o quadro. Todos eles começam de um mesmo ponto, aquele pelo qual todos que já visitaram a Cidade Eterna passaram: se perdendo em Roma.
É o que acontece com Haley (Alisson Pill, a Zelda Fitzgerald de Meia Noite em Paris), uma mocinha que se perde tentando achar a Fontana di Trevi. Conhece um italiano bonitão, namora e noiva e recebe os pais para conhecer a família do cara – e é aí que surge a história central do núcleo, com o pai da moça (o próprio Allen) tentando convencer o sogro a se tornar cantor de ópera.
Não muito longe dali, um arquiteto renomado vivido por Alec Baldwin se perde tentando encontrar o lugar onde vivera por algum tempo na juventude. É reconhecido por um estudante de arquitetura que se encontra na mesma situação – vivendo em Roma – e vão dar uma volta juntos.
Mas a mais perdida é mesmo a gracinha Alessandra Mastronardi, uma recém casada do interior que procura um cabelereiro antes de um importante compromisso com seu travado maridinho. Atrapalhada, não consegue distinguir o rumo lá do meio da Piazza del Popolo (que é um troço confuso, simétrico, com prédios idênticos lado a lado). Acaba resignada, sentadinha na Fontana delle Tartarughe – onde dá de cara com um ator famoso, do qual é fã.
Ale Mastronardi: eu não preciso de outro motivo para ver esse filme; e você?
E há Roberto Benigni, um cidadão comum e tranquilamente instalado com a família na cidade, o único cara que sabe o caminho por Roma – mas por pouco tempo. Um certo dia, na porta da sua casa, uma multidão de jornalistas e fotógrafos misteriosamente o cercarão e sua vida será instantaneamente transformada num inferno de mega-celebridade.
O surreal acontece
A partir daí, todos os núcleos viverão o improvável, o absurdo, o impossível: veremos um tenor de talento inigualável, mas que só canta debaixo do chuveiro; veremos a prostituta mais gostosa do mundo (uma Penélope Cruz sempre inspirada e carismática) caindo na cama de um desavisado; veremos um Jesse Eisenberg (o Zuckerberg d‘A Rede Social) sendo aconselhado pela sua própria consciência personificada; veremos Roberto Benigni sendo engraçado, dando entrevistas sobre fatos de interesse nacional, como o que comeu no café da manhã ou de que modo ele faz a barba; veremos, enfim, um monte de coisas absurdas, que não aconteceriam na vida real ou nem de fato acontecem nas vidas dos personagens do filme – mas que são engraçadas, espirituosas e verdadeiras como análise das falhas humanas, da cultura das celebridades, do embate entre o impulso e a razão…

Woody Allen dirige Penélope Cruz numa festa de ricaços onde ela finge não ser uma profissional do amor…
Tão importante quanto o ponto de partida – Roma é uma cidade para se perder – ou quanto o recheio – o cinema italiano é uma delícia porque aceita todo tipo de situação absurda – é o arremate das quatro histórias: a transformação dos personagens passa por experiências libertárias, que os tiram da sua mesmice e que incluem fazer sexo ardente com pessoas diferentes. Quem se arriscar a pular a cerca sairá recompensado e com uma bela história pra contar de Roma, além de mais sábio e seguro para a vida. É o que Woody Allen deseja para seus jovens e belos personagens (e até para o Benigni), e os mais velhos observam tudo com interesse e nostalgia.
O elenco, como sempre, é inacreditável, trazendo todos os nomes bacanas já citados e mais outros desconhecidos (mas igualmente competentes), e ainda algumas redescobertas: como é bom ver Judy Davis (que já fez cinco filmes de Allen) como a esposa do diretor, gastando o verbo e oferecendo as melhores piadas (“você está pensando em dólar; em euros, seu QI é bem menor…”).
O xis da questão
Pelo menos para mim, o ponto central de Para Roma, Com Amor são as aparências: todos os personagens pensam ser ou tentam se passar por algo diferente do que são. Ellen Page (a Juno) é tida como sexy e irresistível e inteligente, mas é de um visual desleixado e vazia feito a atriz wannabe que é. O diretor de óperas de Woody Allen se julga um gênio incompreendido e se vangloria do seu QI de gênio, mas é sua esposa quem arremata as discussões com tiradas geniais. Benigni adora dar opinião sobre tudo e todos, mas verá que não é tão interessante quando todos estiverem sedentos por suas opiniões. Posso continuar falando por duas horas sobre cada personagem.
E Roma, afinal, é o lugar perfeito para isso, com seus belos cartões postais enfeiados pelas hordas de turistas, e seus restaurantes-arapucas cheios de gente de classe média remediada pagando de ricaços em mesas nas calçadas, e toda aquela bela e sábia civilização arrasada e reduzida a ruínas.
Que lugar Roma ocupará na obra de Allen? Para a História, acredito que num estágio intermediário, como “mais um filme da sua fase europeia”. Já pessoalmente, eu creditarei uns pontinhos a mais, pois julgo o filme superior a Barcelona e Paris, colocando-o no brilhante bloco de ótimos filmes do diretor, como Todos Dizem Eu Te Amo, Tiros na Broadway, Tudo Pode Dar Certo e Poderosa Afrodite. Não chega ao patamar das obras-primas (onde residem Match Point, Crimes e Pecados, Annie Hall, Manhattan, Hannah e Suas Irmãs e A Rosa Púrpura do Cairo), mas quem se importa? Enquanto Allen estiver bem e lançando filmes, estarei feliz e aguardando pelo ano que vem.











Deixe seu comentário
2 comentários
Pena que agora estou no norte do Mato Grosso e é impossível ver esse filme em um cinema. Mas como você bem disse, pelo menos para mim, desde 2010 (hehe) o dia mais esperado do ano é o de ver o novo Allen.
Como é bom ver alguém ter seu trabalho valorizado (nem que seja apenas por ganhar lugar no cartaz por aqui), principalmente quando se tem méritos, e isso sabemos, o baixinho tem de sobra.
Pois é… depois nêgo reclama que o povo apela pros torrents……. Espero que você veja o filme em breve!
Um abraço e obrigado pelo comentário,
Ricardo