Em cartaz: “Na Estrada”, de Walter Salles
Antes de tudo, a confissão: eu não li o clássico On The Road, de Jack Kerouac. Não sei dizer exatamente o que faltou: em momentos diferentes da vida, fui fã devoto de Bob Dylan, dos Beatles e do Jim Morrison, de modo que o fantasma da influência beat esteve sempre ali, me acenando com um exemplar do livro que tanto influenciou o estilo de vida rocker e a filosofia hippie. Mas o backlog de leitura se manteve crescendo, e o Kerouac foi sempre deixado de lado para dar lugar a qualquer outra coisa, de guias de viagens a literatura mais “séria”. Talvez tenha sido a lenda de que o cara escreveu seguindo o “fluxo da consciência”, tendo datilografado o livro inteiro em um único parágrafo, num pergaminho interminável (e eu sou meio fundamentalista quanto à composição de personagens e estrutura do romance, mas isso é outra história). Enfim, não li o livro e, com isso, o leitor terá agora o prazer de ler a primeira crítica a respeito do filme Na Estrada que não o coloca no banco dos réus, sofrendo a terrível comparação com o livro que lhe serve de matriz.
(Há de haver alguma vantagem na ignorância.)

Na Estrada é mais uma peça na série de road movies de Walter Salles. O cineasta brasileiro começou a carreira levando um jovem brasileiro arruinado pelo Plano Collor e pela morte da mãe para uma fria entre Portugal e Espanha, no belo preto-e-branco de Terra Estrangeira. Depois, botou Fernanda Montenegro ajudando um menino analfabeto a buscar o pai sertão adentro em Central do Brasil. E refez, em Diários de Motocicleta, os desbravamentos de um jovem Che Guevara pelo continente sul-americano, no período de formação que precedeu seus anos revolucionários. Era natural que a câmera de Salles resolvesse cruzar os EUA, o país que mais soube trasnformar a busca da felicidade em uma aventura física, territorial, em busca do ouro ou de qualquer outra explicação, de Atlântico a Pacífico. E Na Estrada casa bem com a simpatia do cineasta por personagens jovens e perdidos na vida, em busca da descoberta de quem são e pra que servem na vida.
Se há algo de novo no filme em relação ao resto da obra de Salles, é a maneira como a vida na estrada é reduzida a hiatos entre períodos de reflexão. Os críticos mais cultos do que eu reclamaram do tempo dedicado a eventos entre quatro paredes e do tédio retratado na tela, pois o que gostariam mesmo era de ver agito. Já eu gostei da maneira como Na Estrada (o filme) passa, meio assim passando, pelas viagens, tratando-as como breve iterações de vida entre os frustrantes períodos de Sal Paradise (o personagem principal, baseado no próprio Kerouac) tentando se convencer de que é um escritor de verdade e que conseguirá completar um livro. A primeira ida a São Francisco e as outras viagens não servem para o rapaz descobrir quem é; a bem da verdade, servem para ele ir se distraindo com umas drogas e umas transas, e para ele ir se frustrando com uma pessoa e com outra, até ele se cansar daquilo tudo e resolver contar tudo o que viveu. E, afinal, virou um escritor.

É fato que o espírito do filme é todo Dean Moriarty, o vagabundo aspirante a escritor cheio de vida que inspira Paradise e seus amigos urbanoides e intelectuais. O personagem é vivido com entrega total e muito carisma por Garrett Hedlund, de Tron – o Legado. Impressionante. Assim como é uma surpresa o desempenho soltinho e sexy de Kristen Stewart, uma moça que está se esforçando para se livrar da sombra de seu personagem mais famoso, a Bella de Crepúsculo. Aqui, ela é a amalucada Marylou, ninfomaníaca e protagonista da melhor sacanagem de estrada já filmada: uma das “grandes ideias” de Dean, no meio de uma viagem do nada para lugar nenhum, que termina com a moça e dois rapazes nus na direção do carro. Juntos. De alguma maneira.
Agora, o filme sofre – desconfio – da mesma doença de toda adaptação de algum livro muito importante ou cultuado: não pode querer dizer algo que já foi dito na matriz, então se limita a reproduzi-la com a maior fidelidade ou admiração possível. É o que estragou tantas adaptações de Fitzgeralds e Hemingways. Aqui, não chega a estragar, mas deixa um resultado muito bonito e um tanto insípido.
Veja o trailer de Na Estrada!
Resumindo, Na Estrada é um filme bacana, com alguns momentos brilhantes e divertidos e memoráveis, uma bela fotografia e atuações fortes e carismáticas, mas ao qual falta uma personalidade própria e a vontade de ser algo a mais do que um tributo. Algo que nunca faltou aos filmes de Salles, mas todo artista tem seus heróis, e um fã será sempre um fã.











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