/// Trilha para uma semana cheia

Sabe aquela sensação de torpor, quase agradável, que dá quando você fica muito cansado?

Deve ser a isso que John Lennon e Paul McCartney se referiam quando escreveram sobre “a noite de um dia difícil”.

Lennon: até um Beatle pode ficar exausto

A minha semana passada foi pesada. Esta aqui também promete.  E esta é a trilha sonora para o momento:

httpv://www.youtube.com/watch?v=3skNaaNjrNI&playnext=1&list=PLD03599A2838418F6

Se é para ralar o traseiro na pedra, que seja ao som de música boa.

Boa semana para todos!


/// Vivendo e aprendendo com as mulheres de Truffaut

Sem nenhum gancho específico, mas só porque de vez em quando vale a pena lembrar de filmes realmente bons: acordei hoje com vontade de rever o melhor Truffaut: Beijos Roubados, de 1968.

Beijos Roubados é o segundo filme da série sobre Antoine Doinel (Jean-Pierre-Léaud), o jovem alter-ego de François Truffaut. No primeiro, Os Incompreendidos, o protagonista é um moleque de 12 anos flertando com a delinquência. No segundo, pós-adolescente, Doinel está lutando pra virar gente grande (essa luta viraria o seu tema ao longo dos próximos filmes, mas aqui ele estava no timing certo). Arruma empregos alternativos (vigia noturno, detetive particular, estoquista de uma loja de calçados) e tenta lidar com as mulheres, partindo do fácil não-relacionamento com as profissionais do amor, passando por um affair com a esposa do chefe e terminando com sua paixão de adolescente, a linda Christine (Claude Jade, então noivinha de Truffaut).

Claude Jade e Jean-Pierra Léaud, curtindo o banco da praça em Beijos Roubados

Separei o trecho abaixo, que traz duas provas irrefutáveis de que Truffaut era gênio: primeiro, vemos o jovem Doinel escrevendo uma carta para a tal mulher do patrão e a remetendo através do “Sedex pneumático” de Paris – uma sequência que é uma aulinha de cinema, e também uma declaração de amor à cidade. Logo depois, vemos a mulher tomando as devidas providências a respeito do conteúdo da carta.

Veja (com legendas em inglês):

httpv://www.youtube.com/watch?v=AeslM9BRaTY

O discurso de Fabienne (Delphine Seyrig) é o resumo perfeito do cinema de Truffaut: honesto, direto, apaixonado pelas mulheres e, acima de tudo, humano. Essa frase diz tudo: “não sou uma aparição; sou uma mulher – o que é exatamente o contrário” – e que delícia é ver ela implodindo a fantasia do rapaz sobre uma mulher, mostrando que ela é de carne e osso, que pessoas são pessoas e que, basicamente, ela quer fazer sexo sem compromisso – agora.

“Pessoas são formidáveis”, assim ela arremata a parábola.

Nos filmes do Truffaut, são mesmo.


/// John Hughes, o dono dos anos 80

O post abaixo foi publicado em agosto de 2009, quando da morte de John Hughes. Hughes foi o criador e diretor de Curtindo a Vida Adoidado e tantas outras ótimas comédias, sobretudo para o público adolescente. BLOGIE fecha o mês de comemoração aos 25 anos de Curtindo a Vida com este repeteco da homenagem ao mestre. 
 
Morreu John Hughes.

Quem?

 

Conto uma história: um jovem publicitário/escritor de Chicago chega a Hollywood em 1982 e consegue vender um de seus contos para o cinema. Escreve o roteiro e imagina ter um grande sucesso nas mãos: a história da viagem de uma família cruzando o território dos EUA, de costa-a-costa, com coisas bizarras acontecendo ao longo do caminho. O ponto-de-vista adotado era o do filho adolescente. Mas o estúdio havia escolhido Chevy Chase, um dos maiores comediantes da época, para estrelar o filme, e o roteiro foi todo mudado, transferindo o foco para o pai da família.
 
O filme era Férias Frustradas, que abriu oficialmente a década de 80 como a era da “comédia família”. Era o programa perfeito para noites de sábado no sofá, pai, mãe, filhos e cachorro se entupindo de pipoca, assistindo a filmes “para toda a família”, naquela incrível invenção que era o vídeo-cassete.

 

  

 Chevy Chase e família: programão nos anos 80 era ver Férias Frustradas – e suas continuações – em vídeo…

 

O jovem roteirista não parou de acreditar no potencial de suas histórias baseadas em adolescentes. Aproveitou o sucesso de Férias Frustradas e se tornou diretor. Escreveu e dirigiu, durante os três anos seguintes, Gatinhas e Gatões, O Clube dos Cinco, Mulher Nota Mil e Curtindo a Vida Adoidado. De quebra, escreveu e produziu A Garota de Rosa-Shocking e Alguém Muito Especial.

 Esse foi John Hughes.
 
Sim, é isso mesmo: todos esses filmes que cansamos de ver na Sessão da Tarde – e que são parte essencial do imaginário pop dos anos 80 – são obra de um único cara, que produziu tudo isso de uma vez! 

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZXzlCpHK3-I

Veja o trailer de O Clube dos Cinco! 
 
 Desnecessário dizer que o homem era um gênio.

Depois de satisfeita sua fase teen, Hughes voltou à comédia familiar e perpetrou outra obra-prima: Antes Só do que Mal Acompanhado, com Steve Martin e John Candy (1987). Arrancou do gordão Candy a melhor atuação da sua vida e fez dele um astro. A parceria entre Hughes e Candy voltou um ano depois, em Quem Vê Cara Não Vê Coração: outro sucesso.


 

Steve Martin e John Candy: símbolo de uma geração de comediantes brilhantes que chegava ao auge.

 E, em 1990, Hughes fechou a década de 80 escrevendo e produzindo o maior sucesso daquele ano e de sua carreira: Esqueceram de Mim.

Depois disso, ele se isolou em uma fazenda e a última foto que se viu do diretor foi em uma visita ao seu filho, em 2001.
John Hugues morreu ontem, aos 59 anos, de ataque cardíaco. Mas isso é papo chato. Vamos lembrar do que ele nos ensinou, através do herói de uma geração, Ferris Bueller:
 

 

 

Esta é parte da primeira e da segunda cena de Curitndo a Vida Adoidado, de 1986 – com a devida dublagem da Sessão da Tarde!

Como epitáfio, sugiro a frase abaixo, escrita por Hughes e proferida por Bueller, no início e no final de Curtindo a Vida Adoidado:A vida passa rápido demais. Se você não parar para dar uma olhada de vez em quando, pode perdê-la.


/// FERRIS FACTS

(Acredite: é tudo verdade!)

Sabe aquela mania de inventar histórias hiperbólicas e fantásticas sobre o Chuck Norris? Pois bem, Ferris Bueller também é capaz de mover montanhas e restaurar a ordem no universo – mas, no seu caso, os FERRIS FACTS são absolutamente verdadeiros!

Confira alguns milagres operados pelo rei dos gazeteiros:

1- O Amor está no ar

Irmã no filme, peguete na vida real: Jennifer Grey sucumbiu ao poder de Ferris. 

- Cindy Pickett e Lyman Ward, os atores que fazem os pais de Ferris, se conheceram no set e, meses depois, estavam casados na vida real.

 - Jennifer Grey, que faz a irmã de Ferris, não resistiu ao charme do cara e acabou namorando Mathew Broderick. No ano seguinte, quando ela virou estrela em Dirty Dancing, ela e Broderick estavam noivos.

2- O verdadeiro rei da salsicha

- Em 1998, durante o escândalo sexual envolvendo Bill Clinton e uma estagiária, uma alta funcionária da Casa Branca, testemunha chave do caso, compareceu ao júri acompanhada do filho. Cercado de repórteres, o rapaz se identificou. E assim, no dia seguinte, lia-se na primeira página do New York Times: “ela estava acompanhada de seu filho, (…) que se identificou como ‘o rei da salsicha de Chicago’.” Explica-se: na cena em que Ferris e amigos tentam arrumar uma mesa no restaurante mais chique da cidade, ele alega ser Abe Froman, “o rei da salsicha de Chicago”.

- No Facebook, há mais de mil perfis reinvidicando o nome de “Abe Froman”, centenas deles acompanhados do nobre título: “o rei da salsicha de Chicago”. Há fóruns de discussão especulando qual seria a razão do verdadeiro Sr. Froman, que constava da lista de reservas, não ter aparecido no restaurante.

3- Mais aplaudido do que Bush

Em 1990, a então primeira-dama dos EUA, Barbara Bush, discursava para universitários quando citou uma famosa frase de Curtindo a Vida. Ovacionada, ela disse à moçada: “não contarei ao presidente que Ferris Bueller ganhou mais aplausos do que ele.”

4- Todos querem ser Ferris

- Um tal de Chris Evans, um DJ inglês famoso por torrar uma grana absurda em leilões, arrematou uma Ferrari 250 GT California 1961 (exatamente o modelo pilotado por Ferris em Curtindo a Vida) em um leilão, por U$ 10 milhões. É o carro mais caro da história.

5- Ferris, o rei do rock

- Pelo menos duas bandas de sucesso têm seus nomes inspirados no filme: Save Ferris, uma banda de ska que fez sucesso no fim dos anos 90 e que aparece no filme Dez Coisas que Eu Odeio em Você,  e Rooney, uma banda de indie rock que escolheu seu nome em “homenagem” ao diretor que persegue Ferris.

httpv://www.youtube.com/watch?v=HCzWPBR30Nk

A banda Save Ferris revisita outro símbolo dos anos 80, o sucesso Come On Eileen.

Se o Chucky Norris desse as caras em Chicago, ficaria pianinho. Daria uma relaxada no jogo de baseball e mandaria flores para Ferris, desejando – ou ordenando! – que o fedelho melhorasse logo.


/// Bogie é quem sabia das coisas

Preparando o espírito para as noitadas do final-de-semana: nada como apelar para o santo padroeiro deste blog, Humphrey Bogart (cujo apelido, Bogie, inspirou o nome deste Blogie).

Bogie com a esposinha, Lauren Bacall, mas de olho na Marylin: classe A gargalhada é isso.

É isso. O cara tocou um bar em Casablanca, foi detetive particular, gângster impiedoso e até uma encarnação de Hemingway numa aventura na África – e, depois de mais um dia no escritória, ainda saía para curtir a doce vida de Hollywood.

Façam como Bogie e curtam o tempo livre!


/// Ferris, um cara popular – 2

Que a molecada da escola idolatra Ferris Bueller, a gente já sabe. Mas mais divertido, ao longo de Curtindo a Vida Adoidado, é ir descobrindo aos poucos que o malaco tem fãs espalhados por toda a cidade, desde a vizinhança até a delegacia local.

É um tal de flores chegando na casa do suposto convalescente (a sala fica tomada de lembranças variadas, balões etc)… Há até uma “enfermeira sexy” que chega para recitar um telegrama falado com sugestão de sexo – cortesia de algum camarada que leva Ferris em alta conta.

httpv://www.youtube.com/watch?v=zj6Vg5Mirg4

“I’m here to restore your pluck / ‘Cause I’m the nurse who likes to…”   – complete a rima…

Veja o batalhão de cidadãos que desejam melhoras e mandam suas melhores lembranças a Ferris:

- Departamento de Inglês da Universidade de Chicago (como informa o cartãozinho no vaso de flores interceptado por um invejoso Rooney);

- Chicago Cubs, o TIME DE BASEBALL, através do enorme letreiro do estádio: “SAVE FERRIS”;

- O pessoal da Delegacia de Polícia, que manda lembranças através da mãe do meliante;

- Todo o corpo estudantil da Glenbrook North High School, que se engaja numa vaquinha cheia de esperança para arrecadar uma grana necessária a um suposto transplante de fígado a que Ferris precisaria se submeter;

- A vizinhança, que imprime o refrão numa enorme caixa d’água;

- Charlie Sheen, o drogado que a irmã de Ferris conhece na Delegacia: “você precisa falar com um cara”, ele diz. E ela: “se você falar ‘Ferris Bueller’, eu quebro sua cara!”. E ele, surpreso: “ah, você conhece ele?”

- A galera do ônibus escolar, que talha “SAVE FERRIS” nos encostos dos assentos e desenha o refrão nas capas dos cadernos.

A comoção se justifica e se multiplica: hoje, SAVE FERRIS é tema de dezenas e dezenas de camisetas engraçadinhas que você pode encontrar na web. Também é nome de banda. Também é um trending topic frequente do Twitter. Semana sim, semana não, motivado por uma exibição na TV a cabo ou simplesmente pela euforia de uma tarde de sexta-feira, o fim-de-semana todo à frente, lá vem: #SaveFerris !

Para entrevistas de emprego, casamentos e afins: apele para um clássico e cause boa impressão!

SALVE FERRIS!


/// Ferris, um cara popular

Um dos núcleos mais divertidos de Curtindo a Vida Adoidado é o par formado por Edward Rooney, o diretor autoritário que é obcecado em perseguir e desmascarar Ferris Bueller, e sua secretária, Grace.

Graaaaaaaaaaace!!!

Grace é uma piada ambulante das secretárias trash de filmes para adolescentes. Por exemplo, em determinada cena ela começa a tirar lápis e canetas do seu cabelo cheio de laquê. É uma sacada engraçada, mas é uma citação: em Grease – Nos Tempos da Brilhantina, a secretária do colégio também saca uma caneta da cabeleira, entregando o artefato na mão enojada da Olivia Newton-John.

Grace cheirando um liquid paper: drogas leves para tempos menos bicudos

Rooney grita com Grace o tempo todo, mas Grace se derrete de admiração pelo chefe: ela é a única que bota fé no sucesso da empreitada do cara. Para ela, Rooney conseguirá pegar Ferris no pulo.

Mas até ela acaba se rendendo ao talento do gazeteiro. Lá pelas tantas, Rooney desabafa: ele trabalhou tanto para se impor como diretor da escola, que não dá para correr o risco de ter centenas de discípulos de Ferris Bueller pelos corredores.

E Grace arremata: “ah, ele é muito popular. Todos o adoram e acham que ele é um cara super legal” (a expressão original usada é righteous dude). E desanda a elencar todas as tribos que se dão bem e gostam de Ferris. Temos, então, uma bela lista dos arquétipos juvenis das comédias voltadas para o público. O tom é propositadamente desajeitado, como se afirmasse que só mesmo imbecis perdidos no tempo, como Grace, tratam adolescentes em termos de grupos estereotipados. Cool.

Veja a cena:

httpv://www.youtube.com/watch?v=VAUW22XrnQw

Confira abaixo todos os tipos que adoram Ferris:

- Esportistas

- Motoqueiros

- Geeks

- Piranhas

- Drogados

- Debiloides

- Cabeças-de-Vento

Pelo menos, isso é o que eu consegui traduzir (as legendas e a dublagem são péssimas – traduzem sluts como gatinhas, por exemplo).

Hoje, a lista incluiria respeitáveis (e não tão respeitáveis) médicos, engenheiros, advogados e executivos. Sim, todos achamos Ferris um righteous dude.