/// Filme VIP da semana: “O Grande Gatsby”, de 1974

Outro dia, revi O Grande Gatsby na TV. Um triste caso do filme que tinha tudo pra dar certo, mas deu errado.

O filme, rodado em 1974, é baseado no livro que é considerado “o grande romance americano” – O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, o mais rico e triste retrato da juventude dourada dos anos 20, o esplendor da art-decó e do jazz, dos carros e mansões gigantescas, de gente endinheirada e desocupada – gastando sem dó os rendimentos de suas ações em porres e festinhas no Ritz… Tudo isso, às vésperas do Crash da Bolsa em 1929.

Robert Redford como Jay Gatsby: ícone com ícone pode resultar em nada…

O roteiro foi adaptado por Francis Ford Coppola, o nome do momento em Hollywood (seus últimos três anos acumulavam uma penca de Oscars e glórias pelos dois primeiros filmes da série O Poderoso Chefão e por A Conversação). Como Jay Gatsby, a personificação da América dos anos 20, ninguém menos do que Robert Redford, o maior astro de Hollywood naquela época, vindo de uma série de mega-sucessos como Golpe de Mestre e Nosso Amor de Ontem. Como Daisy Buchanan, a espevitada, frívola e vaporosa periguete high-society que deixa o protagonista obcecado, Mia Farrow. Tudo certo, no lugar certo.

A mídia se preparou para um novo E o Vento Levou. Estávamos nos anos 70, filmes batiam recorde atrás de recorde, e tudo indicava que esse Gatsby vinha para arrebentar.

Mia Farrow, como Daisy em O Grande Gatsby: isso é que é gerar mídia espontânea!

Mas, por algum motivo, a coisa não funcionou. O filme não foi um fracasso de bilheteria (a bem da verdade, foi um dos maiores sucessos do ano), mas esteve longe de cumprir com as expectativas. Acima de tudo, envelheceu mal e não deixou marcas históricas, especialmente se comparado aos filmes que ficaram daquela época (Serpico, Um Dia de Cão, Chinatown…).

Alguns dizem que o problema foi a direção de um inglês, Jack Clayton (seria como entregar Memórias Póstumas de Brás Cubas para um diretor estrangeiro). Outros creditam o problema na escalação de um ator fraco e inexpressivo para o papel de Nick Carraway, o semi-coadjuvante que é narrador da obra, e que fornece o ponto de vista do escpectador/leitor.

Já eu acho que é um pouco dos dois, mas acho que o maior problema é o peso da missão: adaptar Gatsby deixaria qualquer um louco. Imagine você, amigo leitor, se recebesse a missão de dirigir Brás Cubas ou Dom Casmurro. Imagine o terror de como abrir o primeiro, com aquela famosa dedicatória “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”… Imagine como seria infernal filmar o primeiro beijo de Bentinho e Capitu: não as instruções de cenas, que estão perfeitinhas ali no livro (o cara penteando a menina, ela deitando a cabeça pra trás e…), mas sim como entrar na descrição do beijo, que deságua na definição dos tais olhos de ressaca. Embarcar no vício da narração em off, à la Capitão Nascimento? Ruim. Botar o texto na boca do Bentinho, contando para alguém ou para as paredes, feito um poeta? Ruim.

Veja: não há solução plausível para uma adaptação de literatura do quilate de Machado ou Fitzgerald. Não é questão do livro ser famoso ou considerado um clássico; estamos falando de estilistas da linguagem, gente dotada de um talento extraordinário para falar as coisas de um jeito impossível de ser melhorado. Não há imagem ou extravagância que faça justiça ao texto do Fitzgerald. Assim, vejo Redford e Farrow aprisionados em retratos de Gatsby e Daisy, mal ousando abrir a boca para estragar a descrição do livro. Respeito demais atrapalha. A pressão é tanta que, lá no final do filme, o tal do Nick Carraway indo embora de Nova York, o diretor teve a audácia de simplesmente não usar a última frase do livro, uma das coisas mais poderosas já escritas na língua inglesa: “e assim continuamos, barcos contra a corrente, empurrados incessantemente para o passado.”

Eu entendo. Eu também teria medo de profanar essa frase com minhas imagens toscas e a voz de um ator qualquer.

httpv://www.youtube.com/watch?v=cTxxXK9PQT0

Aqui, você checa um trailer original, mais preocupado em ilustrar páginas do livro do que se mostrar um filme.

De qualquer modo, eu não desperdiço nenhuma chance de rever o filme de 1974. Ele tem seus méritos, seja na coloração dourada (da iluminação natural, dos interiores, dos carros, do elenco), que tem um tom meio mágico, seja na minuciosa reconstituição de época – um trabalho de devotos montando um presépio ultra-fidedigno.

E isso nos leva à notícia de que Baz Luhrmann, aquele australiano talentoso, extravagante e destemido que já ambientou Romeu e Julieta num balneário violento na Flórida, está preparando uma nova tentativa de emplacar uma grande versão de Gatsby.

A escalação é auspiciosa: Leonardo DiCaprio como Gatsby, Carrie Mulligan como Daisy, Tobey Maguire como Carraway. Classe A.

O medo está em Luhrmann dar aquele banho espalhafatoso de Moulin Rouge no mundo efervescente de Fitzgerald. Pode estragar tudo, claro, mas justamente isso pode ser a salvação – afinal, naquele Romeu e Julieta com DiCaprio e Claire Daines, o cara foi tão abusado que acabou fazendo algo que valorizou o texto original, e não é exagero dizer que o filme foi um feito e um sucesso artístico e comercial.

Resumindo: estamos aqui à espera de um Gastby digno, o que significa uma obra-prima de marcar época.

Mas o mais provável é mais um flop. E, talvez, voltemos ao Gatsby de Redford e o reavaliemos.


/// Mais uma chance para o Grande Gatsby

Como o leitor já deve ter percebido, BLOGIE nunca embarca naquelas conversas de qual ator está sendo sondado pra fazer tal filme… pessoalmente, acho essa conversa um saco. Não sei por que os portais gastam tanto espaço com esse tipo de notícia. Não agrega nada.

Mas, quando leio que vão tentar novamente adaptar para o cinema um dos meus livros preferidos, tenho que abrir uma exceção.

O livro é O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, um dos raros merecedores do perseguido título de “o grande romance americano”.

Fitzgerald no cinema: lá vamos nós...

Adaptações de Fitzgerald para o cinema dão sempre errado – embora seus textos sejam quase roteiros prontos, de tão impactantes, bem descritos, elegantes e cheios de diálogos memoráveis. A mais recente, O Curioso Caso de Benjamin Button, abandonou o clima e o texto do autor para se reduzir a uma imitação de Forrest Gump. O próprio Gatsby teve uma tentativa séria, mas mal sucedida, no meio dos anos 70: com roteiro de ninguém menos do que Francis Ford Coppola, com Robert Redford como Jay Gatsby e Mia Farrow como Daisy Buchanan, a coisa tinha tudo pra dar certo – mas resultou num troço burocrático, frio e medroso.

Capa da GQ americana em 1975, quando do lançamento de O Grande Gatsby. 
 

Penso em todos os livros de Fitzgerald e imagino ótimos filmes saindo de cada um deles (Este Lado do Paraíso, Os Belos e os Malditos, Suave é a Noite - cada filmaço que poderia pintar por aí!). Mas bola pra frente, a luta continua.

A nova tentativa inclui Carey Mulligan (aquela coisinha fofa de Educação) como Daisy. Show. Eu não conseguiria imaginar um nome melhor do que ela para adotar o ar deslumbrado e frívolo, levemente embriagado, em alva pele e douradas mechas. O próximo nome em negociação promete algo ainda mais forte: Leonardo DiCaprio, simplesmente o maior astro do cinema, como Jay Gatsby. Se se confirmar, é sensacional.

Carey Mulligan: a próxima Daisy Buchanan, a Capitu da literatura americana.

O problema aparece quando vejo quem está à frente da empreitada: Baz Luhrmann, aquele cara afetado e espalhafatoso que fez uma adaptação polêmica de Shakespeare (Romeu e Julieta, com o próprio DiCaprio), um musical inovador (Moulin Rouge) e uma bomba trash (Austrália). M-E-D-O.

Por outro lado, é um cara destemido e que não vai se apequenar diante do desafio.

Vamos acompanhar os próximos capítulos. Eu prefiriria um Cameron Crowe ou um Jason Reitman com o roteiro embaixo do braço, mas vamos lá. Em busca da adaptação perfeita de um Fitzgerald, quase cem anos depois.


/// Estreia: "Educação", com roteiro de Nick Hornby

Já é tradição recente do Oscar a inclusão de uma produção independente inglesa na lista dos finalistas para melhor filme. São filmes classudos, pequenos, cheios de fleuma e sotaque britânicos – uma concessão agradável, que só foi possível depois que a Working Title, produtora das comédias românticas do Hugh Grant e de produções de época como Orgulho e Preconceito, deslanchou no meio dos anos 90. O humor britânico já deu as caras com Ou Tudo ou Nada. Nos últimos anos, A Rainha e Desejo e Reparação ocuparam o posto.

Neste ano, a vaga inglesa na lista dos indicados a melhor filme é Educação, de Lone Scherfig. Os atrativos começam no roteiro: Nick Hornby, autor de romances como Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola, assina a adaptação da história real de uma moça de 16 anos que, no início da década de 60, viu-se na encruzilhada entre dar sequência à sua educação formal e rígida – que poderia levá-la a Oxford – e abraçar um romance com um homem mais velho, nada estudado, mas dado a “curtir as coisas boas da vida”.

O roteiro de Hornby (devidamente indicado ao Oscar) é elegante e afetuoso, projetando o espectador para dentro da cabeça e do coração de uma adolescente deslumbrada com a vida refinada a que ela nunca teve acesso. A moça, Jenny, vive os anos pré-Beatles, e está engajada em se tornar francesa: escuta só o creme da chanson, manda um papo existencialista aqui e ali, fuma com afetação calculada e despeja toneladas de expressões francesas misturadas ao seu inglês suburbano. É compreensível que, ao conhecer David, o bon vivant que lhe oferece uma carona, Jenny se entregue ao pacote oferecido pelo cara: restaurantes, concertos, vinhos, apartamentos decorados com obras de arte e viagens a Paris.

Se as atrações vêm num crescente contínuo, os senões pingam aos poucos: os menos ingênuos perceberão logo que se trata de um roleiro profissional. Seu ganha-pão é misterioso; seu nível cultural e intelectual não são compatíveis com o estilo de vida. Algo não fecha. Todos vemos isso, mas Jenny – que é uma moça inteligentíssima e perspicaz – prefere empurrar com a barriga, vivendo o sonho enquanto ele for possível.

O elenco é sensacional, a começar por Carey Mulligan, a revelação do ano. A jovem atriz inglesa (que tem 24 anos) está indicada ao Oscar de melhor atriz, e tem sido saudada como “a nova Audrey Hepburn” e outros devaneios. A verdade é que Carey – que está longe de ter a beleza de Hepburn – tem personalidade própria e talento para fazer uma grande carreira. Versátil, escapará da armadilha que lhe tentam armar – a da garota sempre elegante – e poderá arriscar bastante. Em Educação, ela convence como uma adolescente quase muito mais madura do que sua idade permitira… de certa forma, é uma versão anos 60 de Juno – uma versão menos liberada, muito mais pressionada, com opções restritas e muito mais a perder.

Peter Sasgaard – um desses atores ótimos cujos nomes ignoramos – faz grande trabalho como o malandro David. Há algo de culpado e incomodado em toda sua atuação. Uma indicação da Academia para ator coadjuvante lhe faria justiça.

Por fim, Alfred Molina, como o pai de Jenny, está sensacional. Um cara difícil, impositivo, mas ao mesmo tempo fácil de ser tapeado – pois, no fundo, tem os pés mais fora do chão do que sua filhinha. É um recalcado, um deslumbrado, alguém que adiou seus planos de ascensão social, delegando-os para a herdeira.


Veja o trailer de Educação!

Como resultado, temos um estudo do difícil fim da adolescência, com suas indecisões, armadilhas e inevitáveis frustrações. Ao final, Jenny dirá, “sinto-me mais velha, mas não mais sábia” – uma auto-avaliação que casa muito bem com os personagens de Hornby. Segundo o próprio autor, Educação faz bom par com seu primeiro romance, Febre de Bola, pois ambos tratam de adolescentes entediados que sonham em se livrar das limitações suburbanas e abraçarem um mundo muito mais cool. Em Febre de Bola, é o próprio autor que foge para Londres, abrigando-se no meio dos torcedores do Arsenal e em lojas de discos. Em Educação, é uma versão feminina, apostando todas suas fichas num passeio à beira do Sena.

Um filme agradável, inteligente e delicado. Não chega a ser nenhuma obra-prima, mas terá sempre o mérito de ter lançado Carey Mulligan para o estrelato. E, por que não?, bem que poderia render uma estatueta para Nick Hornby, herói pop e um dos escritores favoritos de BLOGIE.