Blogie - Cinema da VIP Ricardo Garrido

Nosso blogueiro mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta

/// Oscar 2012 – Balanço Final

Final de temporada de premiações. Agora, sobra o agradável período de março a meados de maio, quando ainda temos a raspa do tacho dos filmes “selecionáveis” sendo lançados por aqui. Depois, chegando em junho, é aquela história: animações, Transformers, comédia do Ben Stiller. Aproveitemos.

Mas não custa nada fazer um balanço do ótimo ano que tivemos em termos de cinema, e da boa cerimônia de premiação dos Oscars que rolou na noite de ontem.

Jean Dujardin carrega seu Oscar de melhor ator e Uggie, o cão que rouba a cena em O Artista: consagração

A “festa do cinema”

Em primeiro lugar, foi uma cerimônia ágil, sem grandes frescuras, o básico do básico. Billy Crystal faz bem o papel do básico do básico e, embora tenha muita gente achando o cara chato, velho e obsoleto, eu gosto do seu estilo e das suas piadas internas sobre o mundo do cinema e a dinâmica de Hollywood. Ele é elegante e se presta ao papel de “condutor” do roteiro, nunca de estrela. Foi bacana. (E ainda teve aquele momento sensacional, em que ele fala da música nos filmes e um gigantesco livro dourado de partituras surge no palco, sob música triunfal e um fundo estrelado, uma coisa brega e megalomaníaca que chega ao ápice e então, após um segundo de silêncio, Crystal dá de ombros e resmunga: “eh.”)

Não que tenha acontecido algo especialmente brilhante na festa: pelo contrário, o número do Cirque Du Soleil foi meio sonolento e, na falta de atrações musicais e daquela apoteose dos prêmios pelo conjunto da obra (coisa que foi “comprimida” em uma breve citação), a coisa meio que se resumiu aos prêmios. Ainda bem que estes foram bem, e muito.

Enfim, um Oscar justo

Pra quem gosta de cinema do bom, não há o que reclamar: neste ano, os Oscars foram dados quase sempre para os melhores, privilegiando as contribuições e o nível geral dos filmes.

Assim, O Artista confirmou o favoritismo e ganhou os prêmios principais (filme, diretor e ator, além de dois técnicos). É um filme sobre o cinema, que usa e abusa das melhores práticas do cinemão clássico. Não por acaso, Hazanavicius agradeceu e dedicou seu Oscar de melhor diretor a Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses, Se Meu Apartamento Falasse, Quanto Mais Quente Melhor etc). Jean Dujardin citou Douglas Fairbanks, o astro do cinema mudo que claramente o ajudou a compor seu personagem. O Artista é a vitória do cinema, aquela coisa artesanal que foi virando indústria no começo do século 20 – e não do pós-cinema de plástico e ações filmadas na frente de um fundo verde que impera hoje em dia.

Nas categorias técnicas, nada de Harry Potter ou Transformers: A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese – outro filme que homenageia o cinema de 100 anos atrás -, arrebatou os prêmios de efeitos visuais, edição de som e montagem de som. De quebra, levou os mais artísticos: fotografia e direção de arte.  Um grande feito, e uma premiação justa para um filme que vai muito além de ser “apenas” uma produção grandiosa.

No campo dos roteiros, tudo de acordo com o retrospecto histórico: o Oscar costuma premiar os autores mais atrevidos com uma estatueta de roteiro, evitando ousar e dar-lhes uma de diretor ou filme. É o que aconteceu com Quentin Tarantino e Pulp Fiction, Sofia Coppola e Encontros e Desencontros, Cameron Crowe e Quase Famosos… e, agora, com Alexander Payne e sua adaptação de Os Descendentes (repetindo o triunfo de Sideways, há dez anos) e Woody Allen e Meia Noite em Paris (terceiro Oscar de roteiro para Allen, que já tinha vencido com Annie Hall em 1977 e Hannah e Suas Irmãs em 1986). Bacana, reconhecimento necessário para dois dos melhores filmes do ano.

Meryl e o Oscar: feitos um para o outro

Por fim, a Academia resolveu acabar com o jejum de quase trinta anos de Meryl Streep, maior atriz viva e recordista absoluta em indicações (17 até ontem, com apenas duas vitórias, a última em 1983): ela finalmente ganhou com sua performance como Margaret Thatcher em A Dama de Ferro. Não é exatamente um filme ou uma atuação com a força de As Pontes de Madison, Dúvida ou As Horas, mas é sempre um trabalho um ou dois níveis acima do resto da humanidade.

(Agora, eu prefiro a atuação – e a presença – de Rooney Mara, 23 anos, a garota com a tatuagem de dragão em Millenium – os Homens que Não Gostavam das Mulheres. O filme foi uma das melhores surpresas do ano para mim, mas acabou só levando um Oscar: a merecidíssima estatueta pela sua montagem ágil. Poderia ter levado pela fotografia, pelo roteiro adaptado e, claro, pela mocinha. É que é duro concorrer contra uma carreira inteira de Meryl Streep.)

Passando a régua

Este blogueiro não consegue vencer a barreira dos 80% de acerto. Há quatro anos, fico com uma boa porcentagem de acertos nos pitacos do Oscar, sempre entre 75% e 80%. Neste ano, 79% (11 de 14 palpites). OK, estou na minha média.

Pelo menos desta vez meu ídolo, Woody Allen, me ajudou no cômputo geral (eu sempre cravo uma apostinha nele, geralmente frustrada pelo gelo que Woody e a Academia impõem um ao outro).

E continuemos indo ao cinema, que tem muito filme bom em cartaz e outros tantos ainda a estrear!

Dica para esta semana: O Homem que Mudou o Jogo, filme de baseball com Brad Pitt. Um filmaço. Escreverei sobre ele no blog até o fim da semana.

P.S.: obrigado a todos os leitores que acompanharam a nossa “transmissão” do Oscar pelo Twitter da VIP; foi divertidíssimo, com a moçada trollando sem dó a tradução simultânea da TNT, o Rubens Ewald Filho, o sinal digital da NET, a Angelina Jolie, o Carlinhos Brown, o Corinthians, o Vasco e quem mais fosse citado em qualquer comentário.


/// Em cartaz: “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese

Um dos maiores favoritos ao Oscar de melhor filme, A Invenção de Hugo Cabret é um desafio para o espectador. Durante sua primeira hora, é um drama de Natal para famílias, com ares de Charles Dickens: o trailer nos mostra o menino Hugo, um órfão aparentando 12 anos, vivendo dentro da estação de trem de Paris. Ali, ele rouba sua comida, observa e interage com as pessoas que lá trabalham (entre elas, o inspetor da estação e vilão da fita, o Borat em pessoa). E ele tem um robô de estimação que esconde nas dependências internas (onde ele ajusta os relógios).

O trailer, assim, promete um Oliver Twist com Esqueceram de Mim com O Fantasma da Ópera.

E daí estranhamos por que deram mais de uma dezena de indicações ao Oscar para um filme desses.

A resposta está em duas constatações:

1) o filme é dirigido por Martin Scorsese, que é um gênio. Desde a abertura, com uma câmera que viaja por Paris, enfrentando a neve, para penetrar na estação e correr pela plataforma de onde parte um trem, e então atravessar o saguão e finalmente encontrar Hugo ajustando um relógio enquanto observa, solitário, o movimento. É arte pura, cinema maiúsculo e gratuito. Além disso, o filme é apresentado em 3D, e é justo dizer que apenas Avatar faz frente a Hugo em matéria de exploração da técnica das três dimensões. O que o coloca como forte candidato a meia dúzia de categorias técnicas (fotografia, direção de arte, edição etc).

2) A partir da sua metade, Hugo dá uma virada e revela o seu verdadeiro assunto: o cinema. Ele vem aos poucos, com o menino conversando com sua nova amiga sobre livros e filmes, e então eles vão ao cinema assistir a um filme do Harold Lloyd (estamos no final da década de 20, presumo). E então a coisa vira um enorme tributo ao cinema mudo francês da virada do século 19 para o século 20 – e, em especial, ao diretor Georges Meliés, realizador do clássico Viagem à Lua, de 1902. É aí que Hugo fala direto aos corações dos cinéfilos de carteirinha – e faz chorar. Se você é cinéfilo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=wUhjhty2k9A&feature=fvst

O trailer não entrega o ouro, mas dá uma ideia clara do brilhantismo da execução…

Como um drama dickensiano vira um semi-documentário sobre o início do cinema e o trabalho de arqueologia dos filmes antigos que é tão caro a Scorsese… bem, esse é o mérito do roteiro, baseado no livro homônimo: o tal robô misterioso que o menino guarda (na verdade, é um autômato, um mecanismo a corda que funciona como um relógio, apesar de ter forma humana) guarda um segredo que o levará a cruzar caminhos com o velhinho rabugento (sempre tem um desses) de uma loja da estação, e então será iniciada a festa do cinema.

Scorsese recria os cenários de sonho de Georges Meliés: um trabalho apaixonado

A grande graça de Hugo, pelo menos para mim, é essa “enganação”: quando o espectador vê, ele está vendo projetores antigos, está fuçando bibliotecas empoeiradas em busca de algum registro raro, está sendo exposto a algumas das primeiras imagens do cinema, quando este era uma atração circense, muito antes de virar entretenimento de massa ou de ser classificado como “sétima arte”. Fico pensando se isso pode irritar algumas pessoas “normais”, mas acredito que não: Hugo é irresistível e honesto. É o trabalho apaixonado de Scorsese, ele próprio um arqueólogo do cinema, um cara que dedica mais tempo à recuperação e preservação de filmes antigos do que à sua atividade de cineasta.

Aliás, vamos arrematar este post com aquilo que o Scorsese mais gostaria: que tal conferir, na íntegra, o filme Viagem à Lua? São só oito minutos, mas são oito minutos absolutamente impressionantes, pela riqueza e inventividade da forma (a narrativa seria mais desenvolvida do outro lado do Atlântico, alguns anos depois):

httpv://www.youtube.com/watch?v=yFXwrPTOQuk&feature=related

Hugo é a junção das duas coisas, e Scorsese estava visivelmente realizado quando recebeu o Globo de Ouro de melhor diretor pelo filme, há cerca de 1 mês. Para o Oscar, ele e seu Hugo vêm fortes. Não acho que é o melhor filme do ano – particularmente, prefiro O Artista e Os Descendentes -, mas a força do propósito – e do nome – de Scorsese, aliados ao brilhantismo técnico da execução, podem puxar os votos para o seu lado. Acredito, inclusive, que leva o Oscar de melhor diretor.

Resumo da ópera: um filme meio inclassificável, sem dúvida agradável. E que ensina sobre a história do cinema.


/// Saiu a lista de indicados ao Oscar!

Foi anunciada, há cerca de meia hora, a lista de indicados ao Oscar 2012. A cerimônia acontecerá no dia 26 de fevereiro, com apresentação do mais que tradicional Billy Cristal.

Confira a lista, acompanhada de comentários deste blogueiro:

Melhor Filme
Cavalo de Guerra
O Artista
Moneyball
Os Descendentes
Histórias Cruzadas
A Árvore da Vida
Meina-noite em Paris
A Invenção de Hugo Cabret

BLOGIE diz: é bem interessante a indicação de tantos filmes de figurões da geração anos 70 – Spielberg, Scorsese, Woody Allen, Terrence Mallick. Mas acho que nenhum deles leva. O prêmio principal deve ficar entre O Artista e Os Descendentes. Fico feliz com Allen ter sido contemplado, assim como fiquei feliz com a indicação de Moneyball, pois gosto desses filmes esportivos. 

Melhor Diretor
Michel Hazanavicius, por O Artista
Alexander Payne, por Os Descendentes
Martin Scorsese, por A Invenção de Hugo Cabret
Woody Allen, por Meia-noite em Paris
Terrence Malick, por A Árvore da Vida

BLOGIE diz: Hazanavicius e Payne lideram, mas torço por uma zebra daquelas, premiando Scorsese (possível) ou Allen (muito difícil).

Melhor Atriz
Viola Davis, por Histórias Cruzadas
Meryl Streep, por A Dama de Ferro
Rooney Mara, por Millenium – Os Homens que não amavam as mulheres
Michelle Williams, por Sete Dias com Marilyn
Glenn Close, por Albert Nobbs

BLOGIE diz: Michelle Williams é favorita, mas vai saber?, qualquer hora dão mais um Oscar para a Meryll…

Melhor Ator
Demián Bichir, por A Better Life
George Clooney, por Os Descendentes
Jean Dujardin, por O Artista
Gary Oldman, por O Espião que Sabia Demais
Brad Pitt, por Moneyball

BLOGIE diz: Jean Dujardin é favorito, com George Clooney no encalço. Bacana a indicação do gênio Gary Oldman, que arrebenta em O Espião que Sabia Demais.

Ator Coadjuvante
Kenneth Branagah, por Sete Dias com Marilyn
Jonah Hill, por Moneyball
Nick Nolte, por Warrior
Christopher Plummer, por Toda Forma de Amor
Max von Sydow, por Tão Forte e Tão Perto

BLOGIE diz: prêmio pelo conjunto da obra para Von Sydow? Ou Kenneth Branagh como Lawrence Olivier leva?

Atriz coadjuvante
Octavia Spencer (Histórias cruzadas)
Berenice Bejo (O artista)
Jessica Chastain (Histórias cruzadas)
Janet McTeer (Albert Nobbs)
Melissa McCarthy (Missão madrinha de casamento) 

BLOGIE diz: Octavia Spencer é favorita (ganhou Globo de Ouro e tal), mas Melissa McCarthy é a sensação da temporada.

Roteiro adaptado
“Os descendentes”
“Hugo Cabret”
“Tudo pelo poder”
“O homem que mudou o jogo”
“O espião que sabia demais”

BLOGIE diz: torço por O Homem que Mudou o Jogo ou Tudo Pelo Poder. O Espião que Sabia Demais também seria uma boa. E tem ainda Os Descendentes. Como tem filme bom neste ano! Aposto em O Homem que Mudou o Jogo.

Roteiro original
“O artista”
“Missão madrinha de casamento”
“Margin Call” 
“Meia-noite em Paris”
“Separação”

BLOGIE diz: Missão Madrinha de Casamento tende a ser favorito, pois era cotadíssimo para melhor filme e ficou pelo caminho. Mas O Artista e Meia-Noite em Paris podem chegar lá. Assim como a surpresa da categoria, A Separação, que parece ter caído nas graças dos americanos.

Melhor filme em língua estrangeira
“Bullhead” Belgium
“Footnote” Israel
“In Darkness” Poland
“Monsieur Lazhar” Canada
“A Separation” Iran

BLOGIE diz: A Separação é a maior barbada do ano. Não perde de jeito nenhum.

Bacana a safra deste ano, não?

Hugo, de Martin Scorsese, é o filme com mais indicações, o que não significa favoritismo (ele vai ganhar bastante nas categorias técnicas mas, nas principais, deve sofrer nas mãos dos filmes de elenco e dos favoritos O Artista e Os Descendentes).

Agora, o resto das categorias:

Melhor animação
A Cat in Paris
Chico & Rita
Kung Fu Panda 2
Gato de Botas
Rango 

Direção de arte
O artista
Harry Potter
Hugo Cabret
Meia-noite em Paris
Cavalo de guerra

Fotografia
O artista – Guillaume Schiffman
Os homens que não amavam as mulheres – Jeff Cronenweth
Hugo Cabret – Robert Richardson
A árvore da vida – Emmanuel Lubezki
Cavalo de guerra – Janusz Kaminski

Figurino
Anonymous – Lisy Christl
O artista – Mark Bridges
Hugo Cabret – Sandy Powell
Jane Eyre – Michael O’Connor
W.E. – Arianne Phillips

Documentário
“Hell and Back Again”
“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”
“Paradise Lost 3: Purgatory”
“Pina”
“Undefeated”

Documentário de curta-metragem
“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”
“God Is the Bigger Elvis”
“Incident in New Baghdad”
“Saving Face”
“The Tsunami and the Cherry Blossom”

Edição
O artista
Os descendentes
Os homens que não amavam as mulheres
Hugo Cabret
O homem que mudou o jogo

Maquiagem
“Albert Nobbs”
“Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2″
“A dama de ferro”

Trilha sonora original
As aventuras de Tintim – John Williams
O artista – Ludovic Bource
Hugo Cabret –  Howard Shore
O espião que sabia demais – Alberto Iglesias
Cavalo de guerra – John Williams

Música original
“Man or Muppet”, de “Os Muppets”, por Bret McKenzie
“Real in Rio”, de “Rio”, por Sergio Mendes e Carlinhos Brown, letra de Siedah Garrett

Melhor curta de animação
“Dimanche/Sunday” 
“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” 
“La Luna”
“A Morning Stroll” 
“Wild Life” 

Melhor curta-metragem

“Pentecost”
“Raju” 
“The Shore” 
“Time Freak” 
“Tuba Atlantic”


Edição de som
“Drive” 
“Os homens que não amavam as mulheres”
“Hugo Cabret”
“Transformers: o lado oculto da lua” 
“Cavalo de guerra”
Mixagem de som,
“Os homens que não amavam as mulheres”
“Hugo Cabret”
“O homem que mudou o jogo”
“Transformers: o lado oculto da lua” 
“Cavalo de guerra” 
Efeitos visuais
“Harry Potter” 
“Hugo Cabret” 
“Gigantes de aço” 
“Planeta dos macacos” 
“Transformers: o lado oculto da lua” 

 


/// Cinema e Rock’n'Roll: o melhor dos dois mundos

Outro dia, li um texto de algum jornalista sério reclamando da onda de documentários “chapa branca” sobre ícones do rock. Sinceramente, isso não é problema para mim – só para os chatos.

Nada mais bacana do que um cineasta de primeira linha fazendo um documentário caro e apaixonado sobre um ídolo roqueiro. Foi o caso de Peter Bogdanovich (lendário diretor de A Última Sessão de Cinema), que empreendeu um filme de 4 horas e meia sobre Tom Petty & the Heartbreakers (Running Down a Dream, disponível em DVD e blu-ray). Também é o caso reiterado do grande Martin Scorsese, que alterna seus longa-metragens violentos com tributos a seus artistas preferidos – foi ele o diretor de The Last Waltz, o decantado “melhor filme de rock” sobre a The Band; foi ele o pesquisador incansável por trás de No Direction Home (quase cinco horas dissecando vida e obra do Bob Dylan); fora sua obsessão com os Stones – esta, sim, resultou em um filme excessivamente chapa-branca e nada genial (o filme-concerto Shine a Light).

Scorsese volta a atacar neste mês, com o lançamento do ultra-aguardado George Harrison: Living in the Material World, sobre aquele que o clichê apelidou “o Beatle quieto”. Pelo que tenho lido, o filme traz toneladas de imagens inéditas (coisas que escaparam, inclusive, ao projeto Anthology, dos Beatles!) e uma abordagem aos lados mais interessantes e menos famosos de Harrison: mulherengo e investidor arrojado no cinema e no automobilismo. Além disso, é claro, bota foco na questão que foi central na vida de George: a busca espiritual. Tudo isso, com declarações do círculo mais próximo do cara: Paul McCartney, Ringo Starr, Olivia e Dhani Harrison (esposa e filho), o amigo do peito e rival fura-olho Eric Clapton (aparentemente, a história toda sobre um dando em cima da mulher do outro é meio minimizada, mas não ignorada)… Enfim, imperdível.

httpv://www.youtube.com/watch?v=RDaFECh5JlI&feature=related

Veja o trailer de George Harrison: livin in the material world!

 O filme, produzido pela HBO, será exibido em duas partes nos EUA (e esperamos que chegue logo por aqui).

O outro lançamento que fará a alegria dos fãs do bom rock também vem pelas mãos de um cineasta ganhador de Oscars e Globos de Ouro, já acostumado ao tema: Cameron Crowe, diretor de Jerry Maguire e Quase Famosos – um especialista em uso da música e trilha sonora nos seus filmes. De quebra, é um cidadão “adotivo” de Seattle (sua ex-esposa, a roqueira Nancy Wilson, guitarrista do Heart, é de lá), para onde se mudou no final da década de 80, início da década de 90. Lá conheceu a cena alternativa que logo tomaria de assalto a MTV, as rádios e o mundo: o grunge. E aí veio seu filme “revelação”: Vida de Solteiro, de 1992, no qual mostrou o que era ser jovem adulto no início dos anos 90 – a AIDS, as ONGs, a falta do que fazer. E ambientou tudo na cena grunge, mostrando boa parte das bandas que já começavam a despontar para o sucesso – e o Pearl Jam foi a que ganhou maior projeção no filme, inclusive no papel da banda fictícia do Matt Dillon.

Cameron Crowe e o brother Eddie Vedder: chapa branca, mas de alta qualidade…

Bem, Crowe emprestou sua câmera e investiu sua amizade e admiração no não menos aguardado Pearl Jam: Twenty, o documentário que celebra os vinte anos da banda de Eddie Vedder.

Veja e diga se dá pra perder:

httpv://www.youtube.com/watch?v=oSp1YVGqw1Y&ob=av2n

Trailer de Pearl Jam: Twenty, de Cameron Crowe

O filme está na rua. Há uma mania dos exibidores em promoverem uma “sessão única”, na linha quem-for-fã-que-se-vire. Isso não é legal. Tanto filme ruim em cartaz, e os caras não reservam uma sessãozinha diária para um filme que tem lá seu público. Mas, enfim, em breve vem o DVD e a gente se deleita.

Quem conseguir aguardar por isso, claro.

Depois nêgo reclama que a molecada cai na pirataria.


/// Controle sua raiva com Joe Pesci

Dica de um amigo que vive na Austrália: esse comercial do chocolate Snickers traz o baixinho mais invocado do cinema, Joe Pesci, tendo um daqueles ataques de irritação que lhe deram um Oscar por Os Bons Companheiros - até que ele é acudido por um amigo, que lhe oferece um Snickers para acalmar a fera.

Veja:

httpv://www.youtube.com/watch?v=Ys0cmMiW6bI

O que me chama a atenção, além da boa produção e do simples fato de trazer Joe Pesci, é a ideia de um comercial de chocolate fazer piada em cima de um personagem de filme – o wise guy de Pesci nos filmes do Scorsese (além de Companheiros, ele pode ser conferido em Cassino). Não é algo tão óbvio para um público mais amplo… Ou talvez seja nos EUA, onde Hollywood é a novela das oito dos caras.

Enfim, pra quem admira a boca-suja de Joe Pesci, aqui vai uma coletânea da sua artilharia em Os Bons Companheiros.

httpv://www.youtube.com/watch?v=F7Z5DObFQjY

Come um chocolate aí e relaxa, brôu!

Boa semana a todos!


/// Joe Pesci: engraçado, como?

 Acredito que tenha deixado claro, no último post, que considero Joe Pesci um grandessíssemo badass motherfucker, como se falaria num filme do Tarantino. Sua verborragia e sua entonação única para xingar o próximo fazem dele uma das figuras mais carismáticas já filmadas.

E este aqui é o seu melhor momento:

httpv://www.youtube.com/watch?v=IWINtUCshxY

O filme é Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese. Pesci é Tommy Devito, papel que lhe rendeu um Oscar de melhor ator coadjuvante.

O grande lance, na minha opinião, são as repentinas guinadas de humor do mafioso. Ele contando piadas, todos rindo, um comenta como ele é engraçado e, de repente, o baixinho fecha a cara:

- Engraçado, como? Tipo, como um palhaço, eu estou te divertindo?

As reações inesperadas e psicóticas são o truque favorito de Scorsese, e Pesci é o que consegue torná-las mais impressionantes, justamente por ter o senso de humor que outros favoritos do diretor, como DeNiro ou DiCaprio, simplesmente não têm.

Pronto. Tributo completo. Agora vamos a outras pequenas obsessões.


/// Guia VIP: como não apanhar de Joe Pesci

Esqueça Stallone ou Schwarzenegger. O cara mais violento do cinema é o baixinho Joe Pesci. Revelado por Martin Scorsese como o irmão compreensivo de Robert DeNiro em Touro Indomável, Pesci logo revelou seu talento para o xingamento (ninguém fala tanto fuck ou prick como ele) e para uma violência psicótica. Sempre em colaborações com Scorsese e DeNiro, o baixinho tornou-se o gângster mais perigoso da sétima arte. Se você um dia cruzar com ele na rua, e houver uma câmera ligada por perto, fuja. Se não for possível, talvez você precise deste pequeno guia.

1- Não ridicularize Joe Pesci na frente dos seus amigos.

Esse foi o grande erro de Spider, o garçom boa-praça que atendia os mafiosos em sua noite de pôquer, em Os Bons Companheiros. A galera se divertia com a boca-suja de Tommy Devito (Pesci), que xingava o rapaz por ele demorar com a bebida. Spider, já familiarizado com os clientes, manda um “go fuck yourself, Tommy”. Até aí, tudo bem, o cara já era da turma. Mas acontece que a moçada cai no riso, contando com uma reação bem-humorada do amigo. Aí, mexeu com ele: Tommy saca o revólver e abate o probrezinho.

 Ainda em Os Bons Companheiros, o coroa Billy Batts incorreu no mesmo erro. Encontrou Pesci e seus amigos em uma festa, e resolveu lembrar dos tempos em que o baixinho era engraxate e dava um trato nos seus sapatos. Pesci fica ofendido, quase briga, é detido, vai embora – mas não por muito tempo. Ele volta para fechar a festa, espancando o velho até a morte. Ele e seus comparsas ainda embrulham o defunto em toalhas de mesa antes de dar fim no assunto.

httpv://www.youtube.com/watch?v=2oP1NMB_I0s

Veja aqui a cena de Os Bons Companheiros que ficou conhecida como “The Billy Bats Situation”

2- Não fale com Joe Pesci sobre dinheiro. Ou melhor, não fale com ele.

 Em Cassino, Sharon Stone começou pedindo uma grana para ele. Acabou levando uns tapas e sendo chutada pra rua. No mesmo filme, ele coletava dívidas junto a malandros variados. Se o cara começasse com desculpas, sua cabeça iria atravessar o obstáculo de vidro mais próximo.

Já em Os Bons Companheiros, o afável Morrie não parava de falar. Ao entrar no carro, Tommy (Pesci) enterra um punhal na nuca do tagarela. Um pouco antes disso, Ray Liotta ria das piadas de Tommy. E comentou, “você é um cara engraçado…”. E o baixinho fecha a cara: “engraçado, como? Como um palhaço?” – e termina com um revólver enfiado na boca do amigo. Mas desta vez, ele aliviou.

3- Não olhe nos olhos de Joe Pesci.

 Em Cassino, Pesci é Nicky Santoro, o capanga de cabeça quente que começa a virar um problema para seu chefe, Ace Rothestein (DeNiro). Depois de fazer cena no cassino e ter sua atenção chamada por Ace, Nicky dá de cara com um funcionário do cassino, que está simplesmente olhando para ele. Nicky pega a primeira coisa que lhe vem à mão – um telefone público – e espanca o incauto, que acaba rolando no chão.

 4- Não mexa com o chefe de Joe Pesci.

Especialmente se o chefe for Robert DeNiro. Em Cassino, ele socorre o patrão em duas cenas: na primeira, um desavisado resolve confrontar DeNiro, que só queria devolver uma caneta. Pesci intervém e enterra a caneta no pescoço do infeliz. Mais tarde, um idiota chama DeNiro de bicha. Mais uma vez, um telefone estava nas mãos de Pesci. Mais uma vez, o artefato foi parar na cabeça de alguém.

5- Seja o Robert DeNiro.

 Em seis filmes juntos (três deles, dirigidos por Scorsese), DeNiro e Pesci formam uma das duplas mais violentas dos filmes. Mas, apesar das desavenças em quase todos eles, Pesci sempre poupou o colega de sua fúria. Em Touro Indomável, o baixinho é o irmão de Jake LaMotta que, sob a acusação de ter traido o irmão com sua esposa, leva umas porradas do boxeador – e não reage. Em outra cena memorável, DeNiro manda o irmão esmurrá-lo no rosto. A contragosto, Pesci dá dez socos na cara de DeNiro, mas para e dá um pito no brother.

(texto publicado na matéria “Porrada! As Melhores Cenas de Luta do Cinema”, na edição de maio de 2009 da VIP)