/// Crosby, Stills and Nash: Woodstock é aqui

Não é todo dia que você acorda sabendo que vai ver um pedaço vivo da História com seus próprios olhos.

Mas esta é a situação em que me encontro hoje: logo mais, estarei no primeiro show de Crosby, Stills & Nash no Brasil.

Verdadeiros heróis americanos, expoentes da contracultura, o trio não é muito conhecido por aqui. Já nos EUA, entre o final da década de 60 e o início da década de 70, eram “os Beatles americanos”. David Crosby (egresso dos Byrds), Stephen Stills (do Buffalo Springfield, do qual também saiu Neil Young) e Graham Nash (da banda inglesa The Hollies), todos eram líderes de seus grupos, cantores e compositores excepcionais – e foram expulsos.

Encontraram-se nas montanhas abastadas em volta de Los Angeles, agrupados em torno de Joni Mitchell (que foi namorada e/ou consorte de cada um dos três, em momentos diferentes) e da turminha que concebeu o folk-rock que foi a cara da Costa Oeste americana nos anos 70 – muito tranquila, muito sensível, entupida de cocaína e obviamente inviável no longo prazo. Formaram o CSN (que, de tempos em tempos, ganha um “Y” com o reforço de Neil Young) e forneceram o molde que seria usado até cansar por James Taylor, Jackson Browne, The Eagles, Fleetwood Mac e tantos outros – incluindo coisas mais recentes, como Dawes e afins.

Mas o maior triunfo do trio aconteceu logo na sua estreia de fogo: eles foram uma das atrações principais em Woodstock – o original, em 1969 (os outros foram Jimi Hendrix e The Who, que tal?). Fizeram uma apresentação histórica, devidamente captada pelo documentário vencedor do Oscar, com contribuição da edição apaixonada e inteligentíssima de um jovem Martin Scorsese. E ainda tiveram a honra de gravar a canção-tema do filme, Woodstock, de Joni Mitchell (que era chata na voz da autora, mas ficou sensacional na mão dos caras).

Eis a abertura do show, em um dos melhores momentos do documentário:

No mais – e como comprovam as imagens acima -, são os únicos três homens que cantam em harmonia de maneira tão ou mais bonita do que os Beatles.

É hoje, aqui em São Paulo, no Via Funchal. E eu não vou perder.

 


/// Dossiê VIP: tudo sobre “We Are the World”

 Outro dia, escrevi sobre Do They Know It’s Christmas?, a música de Bob Geldof que deu início ao Live Aid e que reuniu o mundo todo – quase literalmente - na cruzada do rock como o resolvedor de problemas sociais no terceiro mundo. Uma marca registrada dos anos 80 (turnê da Anistia Internacional etc).

Também falei que um dos grandes méritos da empreitada de Geldof foi ter inspirado astros do outro lado do Atlântico a fazer o mesmo.

Esta é a história de We Are the World. Você conhece a canção. Já deve ter feito piada sobre ela num karaoke da vida. Mas deixe isso de lado e dê um crédito. A música é boa e vale uma lembrança.

USA for Africa: ainda mais gente famosa do que o Band-Aid dos ingleses…

O primeiro a morder a isca foi Lionel Ritchie. Ele recebeu a ligação de Geldof e foi instigado a compor uma música para produzir um disco cheio de gente famosa, cujas vendas seriam - a exemplo da canção irmã inglesa – revertidas para mitigar a fome na África.

Ritchie também tinha assistido ao documentário da BBC sobre a fome na África e topou a empreitada. Convocou Michael Jackson para dividir a composição e Quincy Jones para produzir a gravação. Isso, em 1984, significava TUDO. Michael vinha de Thriller, o disco mais vendido de todos os tempos. Jones era o produtor de Thriller.

Ritchie e Jackson escreveram a canção, se reuniram com Quincy Jones e escalaram a turminha. Convites feitos, escolheram uma data apropriada para juntar a maior seleção de estrelas musicais da História: uma madrugada em janeiro, logo após a entrega dos American Musica Awards. Todos estiveram por lá, ganharam seus prêmios, tomaram umas e outras e migraram, numa caravana de limusines, para o estúdio onde a coisa tomou corpo.

Quem esteve lá?

Willie Nelson, Lionel Ritchie, Cindy Lauper, Tina Turner, Michael Jackson e Bruce Springsteen

Bem, o grupo reuniu basicamente TODO o primeiro escalão da música negra americana – Michael Jackson e seus irmãos, Diana Ross e Diane Warwick e Tina Turner, Stevie Wonder e Ray Charles… todo mundo de Harry Belafonte a Smokey Robinson. Também reuniu TODO o primeiro escalão da tradição da “canção” americana: estavam lá os heróis Bob Dylan e Bruce Springsteen  (o cara que dividia o topo do mundo com Michael Jackson à época, em pleno fenômeno Born in the USA). Também estava Paul Simon e ícones do country, como Willie Nelson e Kenny Rogers. E ainda houve espaço para astros do momento, como o genial cantor do Journey, Steve Perry, e donos de grandes sucessos do momento, como a dupla Hall & Oates (Maneater), Cindy Lauper (Girls Just Wanna Have Fun), Huey Lewis (The Power of Love) e Kenny Logins (Footloose).

Em uma única noite, essa moçada toda foi apresentada à canção, aprendeu e gravou os corais, cantou o refrão de mil jeitos e por mil vezes - e então se dispuseram a, em uma roda, gravar os “solos” – os versos que cada um canta.

Um documentário lançado à época, com narração de Jane Fonda, mostra Stevie Wonder ao piano ensinando a música para um bando de gente, e Quincy Jones ensinando Bob Dylan a cantar sua parte como Bob Dylan cantaria – é sensacional; vemos Dylan cantando normalmente, e Jones o corrigindo (“There’s a CHOIce we’re MAking!”), na entonação tão característica do cantor folk.

Curta um trecho com a turma se confraternizando (cada um colhia os autógrafos de todos os outros nas suas partituras!), e então cenas aleatórias dos ensaios, e então a gravação das duas primeiras estrofes com os solos – sensacional!

httpv://www.youtube.com/watch?v=AGVc2kpEH60&feature=related

Uma aula de como se faz música, vale muito a pena ver inteiro!

Agora, como é tradição neste blog, a doença: vamos dissecar, verso a verso, quem canta o quê: 

LIONEL RICHIE

There comes a time when we heed a certain call

LIONEL RICHIE & STEVIE WONDER

When the world must come together as one

STEVIE WONDER

There are people dying

PAUL SIMON

Oh, and it’s time to lend a hand to life

PAUL SIMON & KENNY ROGERS

The greatest gift of all

KENNY ROGERS

We can’t go on pretending day by day

JAMES INGRAM

That someone, somewhere will soon make a change

TINA TURNER

We are all a part of God’s great big family

BILLY JOEL

And the truth,

TINA TURNER/BILLY JOEL

you know, love is all we need

MICHAEL JACKSON

We are the world, we are the children

We are the ones who make a brighter day

So let’s start giving

DIANA ROSS

There’s a choice we’re making

We’re saving our own lives

MICHAEL JACKSON & DIANA ROSS

It’s true we’ll make a better day

Just you and me

DIONNE WARWICK

Oh, Send them your heart

So they’ll know that someone cares

DIONNE WARWICK & WILLIE NELSON

And their lives will be stronger and free

WILLIE NELSON

As God has shown us by turning stones to bread

AL JARRREAU

And so we all must lend a helping hand

BRUCE SPRINGSTEEN

We are the world, we are the children

KENNY LOGINS

We are the ones who make a brighter day

So let’s start giving

STEVE PERRY

Oh, there’s a choice we’re making

We’re saving our own lives

DARYL HALL

It’s true we’ll make a better day

Just you and me

MICHAEL JACKSON

When you’re down and out, there seems no hope at all

HUEY LEWIS

But if you just believe there’s no way we can fall

CINDY LAUPER

Well, well, well, well let us realize that a change

can only

come

KIM CARNES

When we

KIM CARNES/CINDY LAUPER/HUEY LEWIS

stand together as one

E aí vem o povo todo, repetindo o refrão:

We are the world, we are the children

We are the ones who make a brighter day

So let’s start giving

There’s a choice we’re making

We’re saving our own lives

It’s true we’ll make a better day

Just you and me

Ainda haveria espaço para os solos dos MAIS-MAIS: Bob Dylan, Stevie Wonder e Bruce Springsteen (melhor dueto desde que Lennon & McCartney resolveram cantar juntos). O único cara que gravou seu solo em outro dia foi Ray Charles. Acho que o moço tem crédito.

O resto, o mundo todo sabe no que deu. We Are the World fez tanto sucesso que se tornou algo insuportável para as próximas gerações (como Stairway to Heaven ou Faroeste Caboclo, manja?). O vídeo-clipe fez um sucesso inenarrável. Artistas brasileiros (Djavan, Chico, Gil, Gal, Fagner… a turma toda) fizeram coisa similar para ajudar vítimas da seca no Nordeste. A vida nunca mais foi a mesma. Acabaram-se os tempos em que astro de rock bacana era o cara que chegava na cidade com a preocupação de quebrar quartos de hotel e traçar groupies mal saídas da adolescência.

O que não diminui a qualidade e a curiosidade da canção, que é boa.

httpv://www.youtube.com/watch?v=DzDCBgJLhYw&feature=related

Veja o vídeo oficial, com letra e os nomes de quem está cantando!

Qual o meu momento preferido?

São dois: a passagem de Steve Perry pelo microfone, em uma frase varrendo todo mundo que cantou antes dele. A voz do Journey (Don’t Stop Believing, Faithfully) é realmente impressionante. E, claro, a participação do Boss, Bruce Springsteen, pela gravação. Ele canta o segundo refrão, e volta no final para um dueto com Stevie Wonder. Grita como nunca, até sobrar pouca voz para seu solo. Ele quase sussurra, dolorido: “there’s a choice we’re making / we’re saving our lives / it’s true, we’ll make a better day for you and me” – ele quase não fala as últimas sílabas. É a interpretação mais original e verdadeira não só naquela gravação, mas em qualquer outra.

É isso; para mim, a participação de Springsteen em We Are the World é a melhor gravação de um vocal masculino da história. E explico: quando alguém fala nessa música, a primeira coisa que vem à cabeça não é Bruce se matando de tanto berrar? Então: imagine o que é um cara ser a lembrança definitiva de uma gravação que reúne toda aquela turma. Bruce é o Chefe mesmo.

Esta foi a história de fim de ano. Mais um capítulo das reminiscências nem tão perdidas da minha infância.


/// Uma canção natalina que é bacana

No Natal de 1984, não houve concorrência: o hit de fim de ano foi Do They Know It’s Christmas?, do Band-Aid. Para este blogueiro, a canção de Natal definitiva.

E quem era Band-Aid?

Band-Aid: não é por falta de gente que um sucesso lhes faltaria…

Trata-se da turma de grandes astros da música britânica reunida por Bob Geldof, numa iniciativa pioneira e que fez escola. Hoje virou carne de vaca reunir astros em torno de uma causa, mas aqui foi onde tudo começou.

Bob Geldof era o líder de uma banda pós-punk no máximo mediana – Boomtown Rats -, que ganhou certa fama por ter estrelado o filme Pink Floyd – The Wall (não que ele tivesse algo a ver com rock progressivo), fez algum sucesso com seu hit I Don’t Like Mondays, mas que se tornou uma lenda por ter se sensibilizado com um documentário da BBC sobre fome na África.

Após se informar sobre o assunto, Geldof teve a grande ideia: escreveu uma música, mas não só isso, reuniu seus amigos, gravou a música, lançou o disco no Natal e levantou uma grana para ajudar a mitigar a fome na África. Meio ano depois, reuniu mais gente ainda e botou de pé o Live Aid, o enorme festival simultâneo em Londres e na Philadelphia, com gente do calibre de Paul McCartney, Led Zeppelin, David Bowie, Madonna, Bob Dylan, Mick Jagger, The Who, Queen, U2 e muitos, muitos outros.

Live-Aid, em 13 de julho de 1985: o esquema foi bruto

Mas o objetivo deste post é esmiuçar a canção que deu início a tudo: Do They Know It’s Christmas é uma baita música; bem produzida, refrão irresistível, bela letra. E é cantada por gente de primeiríssima qualidade. BLOGIE aproveita para decifrar para o leitor, verso a verso, quem é quem no clássico composto por Sir Geldof.

Primeiro, o vídeo-clipe, do qual jamais me cansarei:

 httpv://www.youtube.com/watch?v=w5cX_ncZLls

Agora, a doença: para cada verso, BLOGIE identifica o(s) cantor(es) responsável(eis) e qual o sucesso de cada um na época da gravação.

Paul Young (Everytime you go):

It’s Christmas time
There’s no need to be afraid
At Christmas time
We let in light and we banish shade

Boy George (Culture Club, Do You Really Want to Hurt Me?):

In a world of plenty
We can spread a smile of joy
Throw your arms around the world
at Christmas time

(e aqui aparece Phill Collins, na bateria)

George Michael (Careless Whisper):

But say a prayer
Pray for the other ones
At Christmas time it’s hard

Simon Le Bon (Duran Duran, Save a Prayer):

But when you’re having fun
There’s a world outside your window

Sting (The Police, Every Breath You Take) se junta a Simon Le Bon:

And it’s a world of dread and fear
Where the only water flowing is

Bono (U2, Pride) se junta a Sting:

The bitter sting of tears
And the Christmas bells that ring there
Are clanging chimes of doom

Bono, solo:

Well, tonight thank God it’s them instead of you!

Todos:

And there won’t be snow in Africa this Christmas time
The greatest gift they’ll have this year is life
Where nothing ever grows
No rain or river flows
Do they know it’s Christmas time at all?

Ponte (todos cantam o começo da frase, Paul Young completa):

Here’s to you / raise a glass for everyone
Here’s to them / underneath that burning sun
Do They Know it’s Christmas time at all?

Refrão (moçada toda, o mundo todo, repetindo mil vezes):

Feed the world,
Let them know it’s Christmas time

Bacana, não?

O que acho mais admirável nessa iniciativa é a auto-suficiência da turma de Geldof: ao invés de apelarem para Clapton, McCartney, Elton John, etc, resolveram se virar com os jovens astros da sua própria geração (cabendo observar que Bono, Sting e Duran Duran se tornaram tão lendários quanto os dinossauros). Na banda que gravou o sucesso, e no coro que imortalizou o refrão, apareciam integrantes de bandas como Ultravox, Spandeau Ballet, Bananarama e Culture Club (além das já citadas). New wave, new romantic e outras “novidades” de cabelo estranho e cores vivas.

Pra terminar, Do They Know It’s Christmas? provocou ciúmes do outro lado do Atlântico e, por influência de Bob Geldof, Lionel Richie procurou Michael Jackson para compor We Are the World e dar a contribuição ianque para o combate à miséia na Etiópia e adjacências.

Mas isso é assunto para outro post.


/// Filme VIP da semana: “Escola de Rock”

Neste fim-de-semana em que temos o show de um Beatle e um festival que reúne de Duran Duran a Lynyrd Skynyrd, vale um post sobre rock no cinema.
 
Isso me lembra de quando publiquei um post com os dez melhores filmes de rock de todos os tempos. O que aconteceu?  Recebi protestos pela não inclusão de Escola de Rock, comédia de sucesso com o Jack Black. Protestos aceitos – realmente o filme é um grande tributo ao rock’n’roll e merecia um lugar na lista. Para a retratação, BLOGIE preparou um verdadeiro dossiê devassando Escola de Rock, revelando cada uma (ou pelo menos boa parte) das toneladas de citações musicais no filme.
 
 
O pôster já vem com citações de Pink Floyd, The Who, Slade - e do logo da revista Rolling Stone

 

1- Do Diretor:

Richard Linklater é um cineasta bem eclético. Ele é autor de comédias românticas que pagam tributo a Truffaut (Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol) e de filmes-cabeça como Fast Food Nation e O Homem Duplo. Mas também é um competente diretor profissional que bota de pé projetos “comerciais” como a comédia meio western The Newton Boys. O ponto em comum na sua trajetória é uma obsessão pela cultura pop e sua força junto aos jovens. Isso aparece em homenagens à nouvelle vague, em estudos sobre a influência do fast food nos EUA e, claro, na celebração do rock. Para isso, um filme chave em sua carreira é o ótimo Dazed and Confused, uma das melhores comédias de high school de todos os tempos, passada no meio da década de 70. Detentora de uma trilha sonora irretocável, a comédia mostra a moçada da década de 70 sofrendo massiva influência das bandas que vendiam milhões e milhões de LPs naquela década dourada para o rock. O próprio título do filme veio de uma canção clássica do primeiro disco do Led Zeppelin – que, em um episódio corriqueiro, não liberou Dazed and Confused para a trilha sonora.

Em Escola de Rock, Linklater voltou à carga. Mostrou tudo o que sabia do assunto e remeteu um vídeo, já no meio das filmagens, para o Led Zeppelin. O vídeo mostrava Jack Black, à frente de um auditório lotado de figurantes, berrando ao microfone: “Ei, Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones: deuses do rock, maior banda de todos os tempos… nós precisamos da sua música, cara. Precisamos de Immigrant Song. Este é um filme sobre rock, e sem essa música… este filme vai desabar. Quer dizer, o filme detona, mas, cara, sua canção seria a cereja roqueira no topo da montanha! Por favor…” - e põe o público todo a repetir, “Senhores do Rock, Led Zeppelin: nos abençoe com seu poderoso amor!”, e a galera se põe a acompanhar Black berrando o riff de guitarra de Immigrant Song.

Depois de tal apelação, desta vez os sobreviventes do Zep concordaram. Veja o episódio todo, desde o vídeo enviado para Page e Plant até a cena em que Immigrant Song foi usada – por, digamos, dez ou quinze segundos. Valeu a pena, não?

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=yXQMnwSeJig

2- Jack Black:

Todos sabem que Black é mais do que um comediante engraçado – é um roqueiro que é comediante. Ele tem sua banda, ele abraça filmes que reciclam a cultura pop (Rebobine por Favor, Alta Fidelidade), ele não perde a chance de demonstrar suas habilidades musicais (duvidosas, para alguns).

Em Escola de Rock, ele carrega o filme nas costas, com um competente e carismático time de pré-adolescentes que obviamente curte o seu tutor roqueiro. Trouxe um guarda-roupas de Angus Young, do AC/DC, uma atitude de Pete Townshend, do The Who, e uma  entrega de banda punk.

3- A banda perfeita:

Jack Black, como o falso professor substituto Mr. Ass (o codinome pelo qual ele é respeitosamente chamado por seus pupilos), não aceita substitutos, diz o cartaz do filme – citando Substitute, do Who. Para ele, a coisa é séria. Sem saber nada de literatura, matemática ou história, ele se põe a treinar a molecada sob os preceitos mais fundamentalistas do rock e molda a banda dos seus sonhos. Notando alguma habilidade musical na molecada, traz instrumentos e vai ensinando riffs de guitarra, linhas de baixo – e também caras feias, poses e chutes e todo tipo de atitude roqueira. Lá pelas tantas, ele dá lição de casa para a molecada: distribui CDs para cada integrante da banda, escolhidos a dedo. Vejamos a banda perfeita de Mr. Ass:

- A baixista leva um exemplar do primeiro disco do Led Zeppelin;

- Para a loirinha que faz backing vocals afinados, Blondie;

- Para o tecladista, Fragile, do Yes (ele sugere atenção ao solo do Rick Wakeman em Roundabout);

- Para o baterista, claro, o clássico 2112, do Rush (que conta com Neil Peart, tido e havido como maior baterista do mundo);

- Para o guitarrista, Axis: Bold as Love, do Jimi Hendrix. É o disco que traz Little Wing, uma das músicas mais lindas que já foram feitas.

- A Tomika, a garota negra tímida com voz de Aretha Franklyn, ele empresta The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. A intenção é que ela escute Great Gig in the Sky, aquele longo solo de piano com uma mulher gritando de maneira entre etérea e histérica.

Previsível, mas de eficiência inegável.

4- Stevie Nicks, deusa do rock:

 Stevie Nicks à frente do Fleetwood Mac nos anos 70

À primeira vista, o vilão de Escola de Rock é a diretora da escola, vivida por Joan Cusack. Ela é durona, incorruptível, conservadora. Jamais dará a permissão para o professor de araque levar a sua turma para o festival de bandas de rock. Até que…

… Na sala dos professores, lhe contam que a diretora, quando toma umas e outras, dá vazão ao seu lado mais louco e se revela fã incondicional de Stevie Nicks, a cantora do Fleetwood Mac, um ícone de comportamento abusivo e maluquice – e também de beleza e talento.

Mr. Ass leva a tal diretora para um bar, vai até a Jukebox e põe Bella Donna, o primeiro disco solo de Nicks (de 1981), pra tocar. Entra o maior clássico da moça, Edge of Seventeen, com seu riff de guitarra seco. Joan Cusack dá show ao se soltar e, em coisa de um minuto, está cantando a letra e emulando os gestos característicos de “Stevie”, como a cantora é intimamente chamada pelos seus devotos.

 Stevie Nicks, que aqui no Brasil não é muito conhecida, é uma instituição americana – o disco Rumours, do Fleetwood Mac, ostentou por alguns anos a marca de “disco mais vendido de todos os tempos” (ele foi lançado em 1976). Quatro das suas faixas são assinadas por Stevie Nicks, inclusive o maior sucesso da banda, o hit Dreams, que já foi regravado pelo The Coors e em versões bate-estaca para baladas em geral. Na opinião deste blogueiro, maior artista feminina do rock, à frente de Janis Joplin e tudo. Justa homenagem.

5- AC/DC, a referência central:

A roupa, a guitarra e as palavras de Jack Black são totalmente tiradas da banda australiana, cuja barulhenta passagem recente pelo Brasil nos permite dispensar maiores explicações. Mas há muitas outras referências à banda de Angus Young.

Por exemplo, em determinada passagem, o mestre recorre a recursos áudio-visuais para ensinar um pouco de atitude com uma guitarra pendurada no pescoço. Vemos imagens de Pete Townshend girando o braço, em seu movimento característico, vemos Hendrix quase copulando com sua guitarra Fender Stratocaster, mas o ápice da aula é Angus Young rolando no chão com sua Gibson SG.

Já no finzinho do filme, no festival onde a banda de fedelhos debutará, a preleção de Mr. Ass termina com o refrão que dá fim aos shows do AC/DC: “we’ll roll tonight to the guitar bite… and for those about to rock… we salute you!” Além disso, o bis da apresentação da Escola de Rock vai de uma esquecida canção do primeiro disco do AC/DC, It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock’n’Roll). A letra, que trata das agruras de ser um pobre integrante de uma banda batalhadora, à espera de fama e fortuna, foi um achado para terminar um grande filme. Enquanto sobem os créditos, vemos a criançada e Black se divertindo muito, como só poderia acontecer quando se juntam uns amigos, se plugam uns instrumentos e se toca um AC/DC.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Tv9aIAfCDkM

Veja Jack Black e a meninada de Escola de Rock honrando o AC/DC!

6- As citações, em ordem de aparição no filme:

- Na cena de abertura, vemos Black com uma roupa que evoca Jimmy Page e barbatanas do Ozzy Osbourne. Após seus excessos no solo com uma Gibson Explorer, faz um strip-tease à Angus Young e arrisca um mosh, se estatelando no chão. Sabemos em dois minutos que ele é um roqueiro sonhador, uma compilação apaixonada de clichês roqueiros – um cara que, na prática, irrita seus companheiros de banda, mais preocupados em ser cool.

- Logo depois, sabemos que Dwey Finn (é esse o nome do personagem de Black) mora de favor com seu amigo professor de primário – um nerd que, antigamente, fora companheiro de banda de Finn num troço chamado Maggot Death (trocadilho com a banda de speed metal  Megadeth, do Dave Mustaine; a imagem e o nome evocam a bizarrice do Marylin Manson). Meio por acidente, meio por necessidade de grana, Finn recebe a ligação de uma escola e, fingindo ser o amigo, topa entrar como professor substituto para uma turma de fedelhos de uma escola pra lá de conservadora.

- Para Zack, o menino que sola lindamente no violão clássico, Finn (já chamado simplesmente Mr. Ass) ensina riffs básicos: Iron Man, do Sabbath, Smoke on the Water, do Purple, e Highway to Hell, do AC/DC. Para o japinha pianista, apresenta uma partitura de Touch Me, do Doors, que o rapaz se põe prontamente a acompanhar, para a piração do professor. Já para Katie, a menina que se vira no baixo, e para o trombadinha que esmurra uns tambores, ele volta ao básico e põe a banda para funcionar pela primeira vez ao som de Smoke on the Water – como aconteceu com praticamente 100% de todas as bandas de garagem formadas durante os últimos 40 anos.

- Influências: a criançada está numas de Christina Aguilera, Puff Daddy, e nunca ouviu falar em Led Zeppelin, Black Sabbath etc. Mr. Ass resolve preparar uma agenda pesada de aulas de rock. Desfaz as noções “equivocadas” de que montar uma banda serve  pra pegar garotas ou ficar chapado de drogas, e então explica o conceito de “enfrentar o homem” (tipo, enfrentar o sistema ou algo assim). Raiva juvenil como combustível. Parece óbvio, mas apropriado para as gerações atuais, criadas com liberdade, excesso de consumo e pouco som de responsa.

- Nome da banda: as groupies oficiais (duas loirinhas angelicais) da turma estão encarregadas de dar nome à banda. Sugerem As Abelhinhas (derivando de Beatles e Crickets) e Os Coalas, mas o professor explica que isso é coisa de veado. Então as meninas mandam, que tal Reto Suíno? Acredito que isso venha daquelas lendas sobre nomes iniciais de bandas famosas (o Van Halen, por exemplo, quase se chamou Rat Salad).

- O figurinista afetadinho encarregado do guarda-roupas da banda, por algum motivo, parece ter saído dos anos 70: aparece com um visual entre Marc Bolan (T. Rex) e David Bowie circa 1973.

- Há projeção de slides de uma aula punk. Em cinco segundos, vamos de Iggy Pop a Ramones a Sex Pistols a Kurt Kobain. Direto ao ponto, como só o punk pode ser.

- A aula de reforço fica pro baterista delinquente: vídeo-aulas de Herbie Hancock e imagens clássicas de Keith Moon, do Who.

 

7- Teoria roqueira:

Uma lousa repleta de ligações entre sub-gêneros roqueiros – cada um acompanhado de nomes de bandas – é um dos objetos de desejo deste blogueiro. O quadro aparece em um pequeno relance, e sua visão completa não é possível em cena. Mas uma observação quadro a quadro permite identificar o seguinte:

- Heavy Metal (Judas Priest, Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath, Motorhead, Dio), apresenta ligações com Hard Rock (The Who, Led Zeppelin, Aerosmith, Deep Purple, Van Halen, AC/DC), com Grunge (Nirvana, Peral Jam, Mudhoney, Soundgarden e Alice in Chains) e com Punk (Sex Pistols, Ramones, The Clash, Patti Smith).

- O Rock Psicodélico (The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Velvet Underground) abastece quase todos os gêneros musicais dos anos 70: através de Jimi Hendrix, abastece  Hard Rock; mas também influencia Prog Rock (Yes, Pink Floyd, Jethro Tull, Rush, ELO, Genesis), Glitter/Glam (David Bowie, Alice Cooper, T. Rex, Roxy Music) e Southern Rock (Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Black Oak Arkansas).

- Outro “provedor geral” é o Brit Invasion (Beatles, Stones, Animals, Yardbirds, Cream), que cria o Pop Rock (um balaio de gatos que inclui Fleetwood Mac, Beach Boys, Go Gos, Kiss, Elton John e Neil Diamond!) e influencia tanto o Folk Rock (Jackson Browne, Simon and Garfunkel, Byrds, Neil Young) quanto o Soul (Gladys Night, Otis Redding, Sam Cooke, Marvin Gaye, Stevie Wonder, Diana Ross e James Brown). O Soul, por sua vez, abastece Rock Psicodélico, através da Janis Joplin.

- O Doo Wop (grupos vocais negros como The Platters), que dá cria tanto ao Soul quanto ao Funk (Prince, Parliament Funkadelic, Isley Brothers), acaba gerando a Disco (Bee Gees, Village People, Donna Summers) e, por consequência, o Hip Hop (Salt N Pepa, etc).

- Prog Rock chama uma caixa com um inusitado ponto de interrogação, sob o qual aparece o nome do maluco Frank Zappa.

- O início de tudo, ao final revelado no lado esquerdo da lousa, é o Country, o Blues e, indiretamente o Jazz. Deles, surgem o Folk (Woody Guthrie), que tem Bob Dylan como o conector com  Folk Rock, o Rockabilly (Elvis, Buddy Holly, Eddie Cochran), que influenciou as bandas inglesas, e o Rythim and Blues (Chuck Berry, Bo Didley, Little Richard), que abasteceu tanto o Rockabilly e o Doo Wop quanto o distante Hard Rock (o Zep foi beber direto na fonte).

Acho que há nomes suficientes para pesquisar por meses e meses o melhor da música dos últimos 60 anos, não? Mas melhor do que ler tudo isso é checar diretamente na fonte. Por graça de Elvis Presley, alguém no set tirou uma foto do quadro todo preenchido. Deleite-se:

 

Acho que é isso. BLOGIE é o único veículo que dá tratamento de Cidadão Kane para Escola de Rock. Como canta Black na canção original, “rock não tem razão, rock não tem rima”. Simplesmente existe.

Espero que tenha gostado.

P.S.: dedico este post aos amigos da loja It’s Only Rock’n’Roll, na Vila Madalena, em São Paulo. A decoração da loja é quase um mini parque temático roqueiro – e inclui uma cuidadosa reconstituição da lousa de Escola de Rock. É imperdível!


/// Cinema e Rock’n’Roll: o melhor dos dois mundos

Outro dia, li um texto de algum jornalista sério reclamando da onda de documentários “chapa branca” sobre ícones do rock. Sinceramente, isso não é problema para mim – só para os chatos.

Nada mais bacana do que um cineasta de primeira linha fazendo um documentário caro e apaixonado sobre um ídolo roqueiro. Foi o caso de Peter Bogdanovich (lendário diretor de A Última Sessão de Cinema), que empreendeu um filme de 4 horas e meia sobre Tom Petty & the Heartbreakers (Running Down a Dream, disponível em DVD e blu-ray). Também é o caso reiterado do grande Martin Scorsese, que alterna seus longa-metragens violentos com tributos a seus artistas preferidos – foi ele o diretor de The Last Waltz, o decantado “melhor filme de rock” sobre a The Band; foi ele o pesquisador incansável por trás de No Direction Home (quase cinco horas dissecando vida e obra do Bob Dylan); fora sua obsessão com os Stones – esta, sim, resultou em um filme excessivamente chapa-branca e nada genial (o filme-concerto Shine a Light).

Scorsese volta a atacar neste mês, com o lançamento do ultra-aguardado George Harrison: Living in the Material World, sobre aquele que o clichê apelidou “o Beatle quieto”. Pelo que tenho lido, o filme traz toneladas de imagens inéditas (coisas que escaparam, inclusive, ao projeto Anthology, dos Beatles!) e uma abordagem aos lados mais interessantes e menos famosos de Harrison: mulherengo e investidor arrojado no cinema e no automobilismo. Além disso, é claro, bota foco na questão que foi central na vida de George: a busca espiritual. Tudo isso, com declarações do círculo mais próximo do cara: Paul McCartney, Ringo Starr, Olivia e Dhani Harrison (esposa e filho), o amigo do peito e rival fura-olho Eric Clapton (aparentemente, a história toda sobre um dando em cima da mulher do outro é meio minimizada, mas não ignorada)… Enfim, imperdível.

httpv://www.youtube.com/watch?v=RDaFECh5JlI&feature=related

Veja o trailer de George Harrison: livin in the material world!

 O filme, produzido pela HBO, será exibido em duas partes nos EUA (e esperamos que chegue logo por aqui).

O outro lançamento que fará a alegria dos fãs do bom rock também vem pelas mãos de um cineasta ganhador de Oscars e Globos de Ouro, já acostumado ao tema: Cameron Crowe, diretor de Jerry Maguire e Quase Famosos – um especialista em uso da música e trilha sonora nos seus filmes. De quebra, é um cidadão “adotivo” de Seattle (sua ex-esposa, a roqueira Nancy Wilson, guitarrista do Heart, é de lá), para onde se mudou no final da década de 80, início da década de 90. Lá conheceu a cena alternativa que logo tomaria de assalto a MTV, as rádios e o mundo: o grunge. E aí veio seu filme “revelação”: Vida de Solteiro, de 1992, no qual mostrou o que era ser jovem adulto no início dos anos 90 – a AIDS, as ONGs, a falta do que fazer. E ambientou tudo na cena grunge, mostrando boa parte das bandas que já começavam a despontar para o sucesso – e o Pearl Jam foi a que ganhou maior projeção no filme, inclusive no papel da banda fictícia do Matt Dillon.

Cameron Crowe e o brother Eddie Vedder: chapa branca, mas de alta qualidade…

Bem, Crowe emprestou sua câmera e investiu sua amizade e admiração no não menos aguardado Pearl Jam: Twenty, o documentário que celebra os vinte anos da banda de Eddie Vedder.

Veja e diga se dá pra perder:

httpv://www.youtube.com/watch?v=oSp1YVGqw1Y&ob=av2n

Trailer de Pearl Jam: Twenty, de Cameron Crowe

O filme está na rua. Há uma mania dos exibidores em promoverem uma “sessão única”, na linha quem-for-fã-que-se-vire. Isso não é legal. Tanto filme ruim em cartaz, e os caras não reservam uma sessãozinha diária para um filme que tem lá seu público. Mas, enfim, em breve vem o DVD e a gente se deleita.

Quem conseguir aguardar por isso, claro.

Depois nêgo reclama que a molecada cai na pirataria.


/// Dossiê: a trilogia cinematográfica do Guns’n’Roses

Aproveitando a última incursão do Guns’n’Roses pelo Brasil, BLOGIE faz questão de unir o útil ao agradável e se entregar à dura tarefa de analisar o não desprezível legado da banda para a sétima arte. Não, não falo das citações feitas por personagens de cinema sobre o Guns (penso em Bete Midler em O Clube das Desquitadas, quando ela interpela a beberrona Goldie Hawn, que justifica uma dúzia de garrafas vazias sob sua pia dizendo que recebeu convidados – e a outra: “quem? Guns’n’Roses?”). Também não falo do uso de canções de Axl & cia em trilhas sonoras – trilhas que fizeram tanto ou mais barulho do que os próprios filmes, como foi o caso de Knockin’ On Heaven’s Door em Dias de Trovão e You Could Be Mine em O Exterminador do Futuro II. Falo do legado cinematográfico da banda. Mas especificamente, falo da trilogia de vídeo-clipes superproduzidos que gastaram os tubos e derreteram o cérebro dos pobres moleques que tentavam entender o que significavam: Don’t Cry, November Rain e Estranged.

As canções faziam parte da empreitada megalomaníaca chamada Use Your Illusion, que incluía dois álbuns duplos lançados simultaneamente em setembro de 1991, seguidos de uma interminável turnê de quase três anos por todos os continentes e apoiados por uma série de vídeo-clipes exibidos incessantemente pela MTV.

Em meio a tanta grandiosidade, nada chama mais a atenção quanto a tal “trilogia” iniciada com Don’t Cry, logo no lançamento dos discos, seguida por November Rain, no meio do ano seguinte, e finalizada com pompa e circunstância por Estranged, já em 1993, enquanto o Guns’n’Roses caía em pedaços no final da turnê.

Os três vídeos foram dirigidos por Andy Morahan, um renomado diretor de vídeo-clipes -até ali, tinha feito boa parte dos clipes do A-Ha e do George Michael; depois do auge com os vídeos do Guns, arriscou-se no cinema e o máximo que conseguiu foi a bomba Highlander 3

A “história” que se passa na tela não tem nada a ver com as letras das músicas: teoricamente, os roteiros – assinados pelo próprio vocalista da banda – se baseiam num conto chamado Without You, escrito por Del James, um cara que não era escritor nem nada – era apenas um amigão do peito de Axl Rose, que até hoje trabalha como assessor de alguma coisa do amigo.  Os três vídeos são estrelados por Axl Rose e sua então esposa, a super-modelo Stephanie Seymour. Estes são os fatos. O resto, é pura viagem ou especulação, plenamente justificados pela falta de linha narrativa e pelos excessos de locações e efeitos e situações e gente que o orçamento polpudo de Axl permitiu enfiar nos quase 25 minutos de ação.

E este blogueiro gosta de especular.

1- Dont’Cry (1991)

O primeiro vídeo traz uma confusão enorme de situações – Axl caminhando na neve, como se tivesse acabado de encarar o exército de Napoleão no inverno russo; Axl batendo na esposa; Axl e a esposa fazendo um piquenique sobre a própria cova de Axl, que morre e nasce de novo umas duas vezes. Mulheres brigam por Axl num restaurante da Sunset Strip, em Los Angeles. Axl internado num hospital, encarando a si mesmo à paisana e vestido para o show. Um dos três Axls fica de saco cheio e sai pelo espelho à sua frente.

No meio de toda essa confusão, Slash fica de saco cheio, joga seu próprio carro – com ele e uma loira gata dentro - pelo precipício e aproveita para aparecer lá em cima, tocando um solo. Termina e joga a guitarra pelo precipício também.

Enquanto isso, o Guns’n’Roses toca no alto de um prédio, rodeado por holofotes e helicópteros.

httpv://www.youtube.com/watch?v=zRIbf6JqkNc&feature=autoplay&list=PL93EFE270BFB8B601&lf=results_video&playnext=4

Veja o vídeo completo de Dont’Cry !

O que significa tudo isso? Bem, eu penso que Axl está atormentado por sonhos pesados, que ele julga serem situações de suas vidas passadas. No final, ele faz uma regressão e entende de onde veio, e meio que nasce de novo (é o bebê do final). Se não for isso, não interessa, porque o que a banda queria saber mesmo é onde estava Izzy Stradlin, guitarrista fundador da banda e principal parceiro de composição de Axl. O cara sumiu e não apareceu no vídeo-clipe.

2- November Rain (1992)

Nessa “sequência”, temos Axl Rose insone, nas noites que antecedem seu casamento. A cerimônia, cheia de pompa, acontece numa capelinha modesta no alto de um penhasco no deserto. A recepção acontece num casarão com ares coloniais. Cara de México, provavelmente Cabo San Lucas (uma instituição californiana). A despedida de solteiro, claro, acontece na Sunset Strip, no bar preferido dos gunners: o Rainbow. Como contraponto ao roteiro, temos o Guns tocando a música ao vivo num teatro de ópera, tudo muito grandioso e tals (Axl vivendo seu momento Elton John).

Até aí, dá para entender direitinho tudo o que rola.

Daí o casório acontece, Stephanie entra em cena fantasiada de noivinha periguete (parece aquelas fantasias de enfermeira sexy que as moças usam nas festas), Axl está muito feliz, Slash é o best man que esquece as alianças. Duff McKagan (o baixista) está atento e entrega a aliança para livrar o rabo do padrinho largadão.

Mas aí Slash fica de saco cheio, sai andando no meio da capela, numa atitude tipo “vou tocar um solo lá fora e já volto”. E é isso que ele faz: toca o solo no alto do penhasco, cheio de atitude e pose. Sem sentido, mas bacana.

O caldo entorna mesmo é na recepção. Começa a chover (a tal “chuva de novembro”, oras), e a festa começa a engasopar: uma correria começa, o povo tenta se proteger, alguém derruba uma cadeira, Duff – sempre malaco – se esconde debaixo de uma mesa. A coisa fica pior: alguém derruba uma garrafa de vinho – e sabemos que desperdiçar o goró é motivo de briga séria naquela turma – e então, previsivelmente, vemos um mané voando em direção ao bolo de casamento. A coisa vira pastelão, bem no auge do momento dramático que conduz a canção ao final.

E aí ela morre.

O quê?

Sim, a noiva está morta, e vemos Axl velando o caixão e então se demorando à frente do túmulo, depois de todos terem deixado o enterro.

E claro, nisso o Slash está solando de pé, em cima do piano de Axl.

Fim do segundo ato.

httpv://www.youtube.com/watch?v=8SbUC-UaAxE&feature=bf_next&list=PL93EFE270BFB8B601&lf=results_video

Confira o Guns em momento especialmente épico e emotivo: November Rain!

3- Estranged (1993)

O gran finale da trilogia traz Axl após a morte da esposa. Vemos uma busca da SWAT na sua mansão. Vemos Axl vagando pelos cômodos vazios. Vemos o cara lembrando a esposa morta, através dos vídeos. Vemos o cara tremendo em cima de uma sanca, acima de uma porta , enquanto a polícia entra. Daí nos lembramos de ele andando com arma na mão no vídeo de Don’t Cry. E pensamos: o cara matou a mulher? Ela se matou?

Enfim, como todo fã do Guns’n’Roses sabe (eu, por exemplo, estive no histórico show de 1992 em São Paulo,  no qual Axl terminou a noite mandando todo mundo se foder e jogando o microfone no meio da galera), a banda não facilita nada para seu público. A gente que se vire. O que vemos é a banda em um gigantesco show em um estádio, pontuado com imagens de bastidores, como os roadies carregando um avião monstruoso ou o backstage recheado de gostosas acompanhando a banda pelos monitores. Rock’n’roll.

Depois do show, a piração volta: Axl sai do próprio corpo e vai dar um rolê, devidamente vestido com sua camiseta estampada com o rosto do serial killer Charles Manson. Ele caminha pela Sunset Strip, passando em frente ao Rainbow e aos outros points da turminha do hard rock – e de repente a avenida se tornou uma “raia” de água salgada, com golfinhos nadando em alta velocidade.

Mas, a esta altura, Slash já está novamente de saco cheio e sai deslizando pela avenida: “vou tocar um solo lá fora e já volto!”

A música é longa, são quase dez minutos. Dá tempo de vermos um monte de gente de branco – gente de todas idades, gêneros e etnias – saindo da casa de Axl, como se fosse o purgatório espírita daquele filme baseado no Chico Xavier, ou então um templo de fanáticos seguidores de um Jim Jones da vida. Axl é o último dos caras de branco. Ele entra numa limusine branca. Mas isso é só um parêntese.

Pois agora ele continua na andança depois do show. Está num navio enorme. Resolve se matar. Se joga no mar. Os demais integrantes tentam salvá-lo, mas o cara afunda – até que é salvo por um bando de golfinhos.

Essa é a deixa para Slash emergir do fundo do mar (“vou tocar um solo lá fora e já volto!”). O cara detona o melhor solo dos discos Use Your Illusion como se fosse o próprio messias, caminhando sobre as águas revoltas do mar.

Isso não impede que Axl seja finalmente resgatado por um helicóptero.

O saldo final é um tênis personalizado do vocalista atingindo o fundo do mar.

É isso.

httpv://www.youtube.com/watch?v=dpmAY059TTY&feature=bf_next&list=PL93EFE270BFB8B601&lf=results_video

Para mim, o melhor dos três vídeos e a melhor das três músicas: Estranged

O que significa isso tudo?

Ora, significa que o Guns’n’Roses era a maior banda do mundo naquele momento, e que eles estavam a fim de marcar sua posição. Bancaram uma série de vídeos muito mais megalomaníaca do que toda a carreira de Michael Jackson. Deram emprego para amigos de talento questionável. Criaram uma mitologia própria para algumas das suas canções mais épicas (e aqueles dois álbuns duplos lançados simultaneamento em 1991 eram recheados de canções épicas). E pouco mais que isso.

Mas, se você quer saber o que eu entendi, é o seguinte: Axl Rose tinha visões de vidas passadas e enxergava que seu futuro seria matar a própria esposa. Isso o atormentava, mas ele seguiu em frente. Se casou com a moça, choveu no casório, e ele de fato matou a mulher. Foi perseguido, foi julgado maluco, continuou fazendo turnês gigantes com a banda, até que ele sublimou tudo e tentou se matar. Mas os golfinhos o salvaram e ele passou a enxergar que valia a pena continuar a viver.

E Slash, claro, ficou de saco cheio dessa coisa toda e foi tocar um solo lá fora.

P.S.: antes de subir este post, tive a curiosidade de baixar e ler o conto original que inspirou os vídeos. Descobri que o conto foi inspirado nas brigas do próprio Axl Rose com sua ex-mulher (a moça que inspirou Sweet Child O’Mine). No texto, a mulher se suicida, e o cara fica mal e pensa em se suicidar, mas acaba canalizando a dor para uma música sobre ela. E ele está compondo a música no piano, e uma bituca de cigarro cai no tapete, e a casa pega fogo – e o cara não sai de lá enquanto não terminar a música. E morre. Taí. No vídeo, as coisas se saem diferentes, então mantenho minha própria interpretação. Estou há vinte anos matutando isso, não vai ser um conto ruim que vai me fazer mudar de ideia.


/// Filme VIP da semana: “A Última Noite”, de Spike Lee

Já que todo mundo resolveu tirar o dia para fazer um balanço dos anos que se seguiram aos ataques de 11 de setembro de 2001, vamos falar de cinema.

Os impactos do ataque às Torres Gêmeas foram nefastos em várias frentes da economia, da vida e do mundo, e no cinema não foi diferente. O clima de guerra (que não permite nuances de cinza no entendimento de quem é do nosso lado e quem é do outro lado) matou as chances de sucesso de filmes adultos ou mais engajados em discutir a questão (penso em ótimos filmes de Mike Nichols, Robert Redford, Brian DePalma e Ridley Scott que passaram batidos). O escapismo voltou a imperar, como se os anos 60 e 70 não tivessem acontecido: Avatar é o filme-símbolo dos últimos dez anos. Por outro lado, é simbólico que Guerra ao Terror – que nem chega a ser um filme lá muito bom, mas teve a paciência de ser feito num momento em que o público já consegue olhar pra coisa com menos paixão - tenha vencido o Oscar em cima de Avatar; é um sinal de que é hora de seguir em frente.

Se eu tivesse que escolher um único filme que resumisse aquele terrível período de susto, indignação, tristeza e ódio que se seguiu a 11 de setembro de 2001, eu não hesitaria: o filme é A Última Noite, de Spike Lee (o cara que vem logo atrás de Woody Allen no ranking de grandes diretores de cinema que vivem e respiram Nova York).

Ed Norton, Phillpi Seymour-Hoffman e Spike Lee nas filmagens de A Última Noite

A Última Noite não tem nada a ver com guerra, com terrorismo ou mesmo com 11 de setembro. Não traz sobreviventes ou bombeiros como personagens. Ele é simplesmente um filme sobre gente que vive em Nova York, enfrentando seus próprios problemas na vida: o protagonista, Monty (Edward Norton em seu melhor papel), é um traficante que foi pego pela polícia e está desfrutando das suas últimas 24 horas antes de ir pra cadeia. Os outros personagens são seus amigos: um professor judeu reprimido e apaixonado por uma aluna espevitada (Phillip Seymour Hoffman e Anna Paquin, perfeitos); um tubarão de Wall Street, lidando com stress, ansiedade e vazio existencial; e por aí vai.

O ponto é que toda essa gente está vivendo em Nova York, não necessariamente remoendo 11 de setembro ou evitando suas lembranças  – mas topando aqui e ali com seus efeitos: todos estão menos pacientes, todos estão amargos. Desconfiança por todo lado. O filme foi feito no início de 2002, poucos meses após os ataques, e Spike Lee soube como ninguém captar o clima dos nova-iorquinos.

Uma cena que me marcou e da qual nunca mais me esquecerei: antes da festa que Monty prepara para se despedir da sua turma (afinal, ele ficará 37 anos em cana), dois dos amigos se encontram no apartamento de um deles. Chegam à janela e a vista é aterradora: o prédio é vizinho ao World Trade Center, e o que se vê é o Ground Zero já em obras, com uma iluminação noturna meio azulada, ferros retorcidos ainda expostos. Cenário de ficção científica. Trata-se de uma sacada incrível de Lee: muitos já estavam fartos de tanta tragédia e desgraça; eu mesmo evitava ver fotos e ler coisas sobre 11 de setembro. Eu (e imagino que muita gente) jamais tinha visto uma foto do local em obras. Mas Spike Lee nos levou até a janela do apartamento de um cara e nos obrigou a encarar o buraco feito no coração do mundo. A realidade incontornável.

Apê com vista para o inferno, by Spike Lee

Há muitos outros momentos em sintonia perfeita com aquele momento de luto. Entre eles, uma cena forte e incômoda que é, sem dúvida, a melhor do filme e uma das melhores dos últimos dez anos: aquela em que Monty está no banheiro, falando consigo mesmo no espelho de um bar, onde se lê “FUCK YOU”. Ele encara a pichação, e desanda a mandar uns e outros se foderem, desabafando todo o ódio acumulado e descarregando seus preconceitos até então bem guardados sob o código do bom cidadão cosmopolita de Manhattan.

Não é uma cena bonita; a  bem da verdade, se o diretor do filme não fosse um negro militante como Spike Lee, o cara iria preso. É uma cena que mostra todo o acirramento dos nervos e a planificação do entendimento de mundo: não existem mais pessoas, com suas qualidades e seus defeitos; existem imbecis que estão estragando o mundo, e só se vê o que eles têm de pior. É o espírito de um tempo em que se apoia cegamente um país sendo lançado a uma guerra com objetivos e estratégias pouco claras.

Tudo isso, num banheiro de um pub em Nova York. Veja a cena:

httpv://www.youtube.com/watch?v=5Za2k5wA3sk

Entre os objetos de ódio de Monty, sobra pra todo mundo que compõe a paisagem de Manhattan: indianos, paquistaneses, muçulmanos em geral (chamados simplesmente de “terroristas em treinamento”), os coreanos que dominam as quitandas da cidade, os gays descolados que passeiam por Chelsea e pelo Village, porto-riquenhos (“vocês fazem a pior parada da cidade…”), russos recém-endinheirados, judeus, profissionais de Wall Street (“Michael Douglas’ Gordon Gekko wannabes motherfuckers!”), ítalo-americanos, madames do East Side, negros basqueteiros (“vocês não passam a bola, não marcam ninguém na defesa e dão cinco passos com a bola para fazer uma bandeja – e ainda botam a culpa no cara branco!”), policiais, padres (e a Igreja, e Jesus Cristo), Osama Bin Laden e sua turma de fundamentalistas, seus melhores amigos, sua namorada, seu pai (e, junto com ele, toda uma linhagem de irlandeses beberrões que arriscam suas vidas como bombeiros)… enfim, ele arremata: “foda-se esta cidade inteira e todo mundo nela, das casinhas em beira de estrada às coberturas na Park Avenue, dos conjuntos habitacionais no Bronx aos lofts no SoHo” – para então concluir que não; quem merece se foder mesmo é ele, o cara que teve acesso a tudo e pôs tudo a perder. 

A Última Noite é um filme sobre o eclipse da humanidade que há em cada um. Talvez eu seja otimista, mas sempre entendi que, no fundo, tratava-se de um eclipse temporário. As pessoas recuperariam seu centro e seu jeito de ser, não melhores nem piores do que eram antes. É assim que vejo Monty indo para a cadeia, no final do filme. Enxergando alguma luz no futuro – seu futuro, do seu pai, da cidade e dos porto-riquenhos, coreanos, judeus, muçulmanos, negros e brancos que ele vê pelo caminho.

httpv://www.youtube.com/watch?v=z-WuU7w3FCk

Veja o trailer de A Última Noite

Quando penso em A Última Noite, penso em The Rising, o disco do Bruce Springsteen sobre 11 de setembro. Um completa o outro, de maneira honesta e humana. Não que o rock de Bruce seja trilha sonora que casa perfeitamente com o filme de Lee; na verdade, as histórias de cada canção do disco, sobre bombeiros que enfrentam o fogo, viúvas do WTC e gente normal que teria uma festinha no dia dos ataques, jogam luz nos personagens de A Última Noite, que, no filme, estão abandonados na escuridão.

E, não por coincidência, Spike Lee escolheu  justamente The Fuse, uma música de The Rising, para dar fim ao filme. Sobre a tela escura e os créditos, ouvimos a voz de Bruce Springsteen calmamente descrevendo a vida na cidade, a bandeira a meio-pau, os carros baixando a velocidade e a casa vazia, uma mulher aguardando a volta do marido. A narração é do marido, que mal vê a hora de chegar e curar as feridas através de uma boa e última sessão de sexo. Não dá pra saber ao certo se ele é um narrador-defunto, que morreu nas Torres Gêmeas (eu acho que é isso), ou se é simplesmente alguém voltando pra casa, com a mulher aguardando ansiosa. Mas o que importa é que a música, assim como o fim do filme, dá a pista de como enfrentar a vida dura depois de 11 de setembro: reencontrando a própria humanidade, e reconhecendo isso no outro. E continuar com a vida, voltando pra casa, transando, tendo filhos, envelhecendo.

Nada explicará 11 de setembro de 2001. O que foi feito naquele dia era e permanece inexplicável. Mas Spike Lee soube, mais do que ninguém, retratar como ficou a vida logo depois da tragédia. E Bruce Springsteen nos ajudou a seguir em frente.

O resto é barulho.