Blogie - Cinema da VIP Ricardo Garrido

Nosso blogueiro mostra que filme bom não precisa ter função social nem agradar crítico besta

/// 5 razões para não ver “Os Vingadores”

Como tantos outros, investi um tempo do meu fim de semana para checar a grandiosa destruição de Nova York em 3D proporcionada por Os Vingadores. Os tais vingadores, você sabe, são um tipo de Superamigos, só que da Marvel: Homem de Ferro, Hulk, Thor, Capitão América e mais uns agregados se unem para salvar o mundo.

(A título de curiosidade: os Superamigos, como todos aqueles rondando os 40 anos sabem, eram os heróis da DC Comics ocupantes da Sala da Justiça:  Batman, Superman, Mulher-Maravilha e mais umas bizarrices como o Aquaman e os Super Gêmeos.)

O que posso falar sobre a experiência: esse tipo de filme, definitivamente, não é para mim. É grandioso de uma maneira um tanto constrangedora e completamente desinteressante. Saí simplesmente cansado de tanto barulho, tanta conversa vazia e personagens tão bobos. Mas, antes de me xingar, não deixe de conferir essas 5 boas razões para não assistir a Os Vingadores.

1- Nerdice tem limite

Veja: não sou daqueles enjoados que só curtem cinema europeu; admiro Hollywood, gosto de cinemão e me sento na poltrona, antes de tudo, para me divertir. O diabo é que minha ideia de diversão não inclui um papo cafona e bizarro sobre seres de outra galáxia, liderados por um nobre deserdado de Asgard, que roubam o Tesseract – e que, portanto, colocam a humanidade em risco.

Sim, eu tenho a manha de torcer pelo triunfo dos últimos Jedis sobre hordas de Storm Troopers, e sei respeitar quem tem a habilidade de sentir distúrbios na Força, assim como admiro wookies que pilotam a Millenium Falcon pelo hiperespaço. Logo, sou nerd assumido. Mas há toda uma graça na mitologia de Star Wars, e essa terminologia técnica é bem acessível, qualquer criança a entende. Além disso, o herói da série, Luke Skywalker, é um menino normal, com o qual a plateia se identifica: sua jornada é a de quem está aprendendo e descobrindo aquilo tudo, e você vai junto com ele.

Já essa conversa de planetas assim-assado, e de um cubo que está sendo guardado pela NASA para garantir a produção de energia sustentável para toda a humanidade (ou para gerar armas de destruição em massa?), é absurdamente revestida de auto-importância, e não há ninguém ali para apertar a tecla SAP: você está entregue aos domínios dos fãs de HQ, e quanto mais ininteligível for a trama, mais felizes eles ficam.

Um ressalva deve ser feita aos geniais contrapontos cômicos que, geralmente pelas intervenções irônicas do Homem de Ferro de Robert Downey Jr., aliviam o peso e evidenciam o ridículo daquilo tudo: ele chama Thor e seu irmão Loki (esses semideuses que habitam o céu dos vikings) de figurantes de alguma atração teatral, seja do musical metaleiro Rock Of Ages ou das temporadas de Shakespeare no Central Park; ele ironiza a burrice disciplinada do Capitão América, o soldado perfeito; e, é claro, ele enfrenta os valores nobres de todos os super-heróis com seu cinismo (“quem você pensa que é?”, pergunta um deles; “gênio, milionário, playboy, filantropo”, responde o cara). Esses são os momentos em que Os Vingadores faz rir, e é um grande acerto do roteirista, pois o público médio não aguentaria a xaropada da trama sem essas piscadelas espertas. Engenhoso.

Mas comigo não cola.

2- Os personagens são rasos

Por que gostamos tanto dos filmes do Batman e do Homem-Aranha?

Porque eles são, cada um a seu modo, fascinantes. Um é um órfão milionário perturbado que resolve usar seus hábitos soturnos para enfrentar o crime (sua suposta homossexualidade é o enigma de Capitu das HQs). O outro é um adolescente aprendendo a lidar com as dores do crescimento. Suas histórias pessoais, seus relacionamentos com suas namoradas e amigos, são tão ou mais interessantes do que suas noites de ação contra bandidos pelas metrópoles.

Não que a matéria-prima de Os Vingadores seja ruim: o já citado Homem de Ferro é um personagem bacana (com todo aquele estilo, o som do AC/DC e a sua armadura de cinismo); o Hulk é tão ou mais perturbado e rico em história quanto o Batman; não acho descartável a ideia do Capitão América, como a encarnação de um americano de ideais puros e coragem inabalável (é como se tivéssemos um Buddy Holly ressucitado para nos lembrar de como o rock deveria ser, sem a sujeira e a histeria e as misturas que vieram depois dele). O problema é que esses caras têm que disputar espaço entre eles e com peças menos interessantes, como os irmãos Thor e Loki (que encontrariam lugar tranquilamente no Massacration da MTV), e ainda uns humanos que andam na aba dos heróis de verdade – caso da espião Viúva Negra e de um cara que chamam de Gavião (não sei o nome correto, e não me darei ao trabalho de pesquisá-lo). Toda essa gente aparece de uma maneira tão superficial, que a história de cada um caberia num quadrinho.

3- Mau uso de atores de primeira linha (especialmente Scarlett)

Scarlett dando tiros em aliens: a mulher certa no lugar errado

Nem preciso falar que, para dar vida a essa turma tão unidimensional, não é necessário o método do Lee Strasberg. Portanto, é triste ver um ator tão capaz como Mark Ruffalo (de Zodíaco e Conta Comigo) batendo ponto como Bruce Banner / Hulk. Samuel L. Jackson, como Nick Fury, o mentor da reunião dos super-heróis, é igualmente inodoro (sua fantasia de filhote de cruzamento de pirata com Darth Vader não funciona).

Claro, crédito deve ser dado a Robert Downey Jr., de cujo carisma depende a vida e a graça do personagem Tony Stark / Homem de Ferro. Não existiriam os dois filmes da série própria do herói, e certamente não haveria este Os Vingadores, se não tivessem Downey Jr. na parada. Ele carrega o filme, mesmo seja só por sua própria diversão.

E temos Scarlett Johansson, senhora dos nossos sonhos, mulher mais desejada do mundo, capa da VIP de maio. Ruiva. De roupa preta colante. Dando chaves de perna nos seus oponentes – e com a câmera sempre a focalizando de baixo pra cima, com suas curvas bem realçadas. E ISSO NÃO É O SUFICIENTE.

Precisamos de mais Scarlett, muito mais. Precisamos da sua voz rouca, do seu riso sufocado e de seu olhar meio cabisbaixo e inseguro, como se ela não soubesse ser quem é. Como a conhecemos em Encontros e Desencontros. Como nos acostumamos nos filmes do Woody Allen. OK, ela é a tal espiã irresistível com pleno domínio do seu corpo e de sua capacidade de persuasão. Mas não tem graça, e não tem sex appeal.

E poucas imagens me deixarão maior sensação da famosa vergonha alheia do que as tomadas de Scarlett paradinha, após uma cambalhota ou algo assim, segurando o revólver com as duas mãos e cerrando os olhos, toda fodelona, buscando seu próximo alvo. Ela pode mais, ela pode tudo. Mas topou ser a Viúva Negra.

4- O filme se passa longe do mundo real

Outra coisa que apreciamos muito em Batman e no Homem-Aranha é o fato de que suas aventuras acontecem na cidade, desde uma ópera no Metropolitan até um passeio no museu; de um galpão abandonado até os trilhos do metrô. São heróis à moda antiga, que salvam a humanidade do seu jeito um tanto provinciano: um batedor de carteira por vez, uma criancinha salva aqui, um velhinho ali – até que, sei lá, um evento de grandes proporções aparece para testar os limites dos caras. A graça é o nonsense dos homens fantasiados de bichos desfilando pelas ruas em meio aos populares, tudo em nome da justiça.

Os Vingadores passa quase sua totalidade em ambientes que desconhecemos: laboratórios muito loucos com computadores extraviados de Minority Report, naves voadoras futuristas, locações externas que remetem à Terra Média. Um saco.

Quando a coisa chega a Nova York, para o esperado clímax dos vilões tentando acabar com a cidade, já estou cansado. E a ação se passa em escala gigante, raramente chegando ao drama individual das criancinhas no ônibus escolar caindo da ponte (lembram-se do Superman original? Há de haver paciência para demonstrar o tamanho do heroísmo). É só gente voando pra cá e pra lá, no meio dos arranha-céus indiferentes. E ainda há os animais alienígenas asquerosos que surgem por um portal aberto no céu. Estragaram tudo.

5- O vilão é um fracote

Ora, quem tem medo de Loki?

O cara é o irmão loser do “Poderoso” Thor – que é, a rigor, o integrante mais bola murcha dos Vingadores. Por que uma trupe que inclui o Incrível Hulk, o Capitão América e o Homem de Ferro – e que traz a Scarlett Johansson a tira-colo – se sentiria ameaçada por esse pobre coitado?

Além do mais, sua imagem é fraca. Ele tem um ar bem franzino para ser um integrante do Valhalla, e está mais para o vocalista do Jesus Jones do que para Led Zeppelin. Sua arma mortal é um cetro que é neutralizado com facilidade pelo Homem de Ferro. Seu grande sonho é ter a potência do “martelo” do seu irmão fortão. Que ser deprimente, o Loki. Nem o exército de monstrengos do inferno que ele recruta servem para meter medo: a tal da Viúva Negra, uma mocinha com todas as fragilidades de qualquer humano, mata os bichos às dúzias com uma arma de fogo comum.

Em resumo: uma enorme perda de tempo.

 

É certo que muita gente se diverte assistindo a Os Vingadores, dadas as notícias sobre as quebras de recorde de bilheteria e tudo. Portanto, deve haver algum valor no projeto. Talvez este esteja no espetacular agrupamento do primeiro escalão da Marvel. Mas, para mim, o filme bateu como aqueles jogos de fim de ano com grandes astros do futebol: você acha que vai ver um show de bola, e tudo que ganha é um bando de caras de ressaca, tocando a bola de lado e loucos para sair dali e ir curtir um churrasco na casa do Ronaldinho ou algo assim.

P.S.: sei que esta conversa teria sido bem mais útil duas ou três semanas atrás, antes de você ter gasto seu dinheiro na aventura da Marvel. Acontece que este blogueiro esteve ocupado com outras coisinhas bobas da vida – tipo, trabalho até a tampa. E este espaço é para curtição pura de quem gosta de cinema. Curtição sem a qual a vida fica muito chata, e à qual vou me dedicar com afinco para tirar o atraso. BLOGIE is on.


/// Scarlett Johansson: sempre um bom assunto

OK, então vazaram fotos da Scarlett Johansson pelada, graças a algum hacker que conseguiu invadir o celular da moça.

Beleza, acho que o mundo merecia ver Scarlett pelada. Como bem disse o Álvaro Pereira Junior na sua coluna deste sábado na Folha de São Paulo, há algo da Vênus de Boticelli na nudez da atriz. Muito branca, boca de mulher negra, curvas renascentistas. Um tapa na cara da cultura da magreza esquelética das modelos. Enfim, ótimo, foi o assunto da semana.

Mas algo ainda me prende a um momento acontecido há quase dez anos, quando eu e o mundo conhecemos Scarlett Johansson.

A coisa começou com este close, captado por Sofia Coppola para a cena de abertura de seu primeiro grande filme:

E terminou duas horas depois, com Bill Murray se despedindo de Scarlett nas ruas de Tóquio, ao som de Jesus & Mary Chain (Just Like Honey):

O filme, claro, é Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de 2002, filme que já elegi mais de uma vez neste blog como o melhor e mais representativo do século 21.

Apesar de três filmes do Woody Allen, um Brian DePalma e aquele filme da Moça do Brinco de Pérola, o filme de Sofia Coppola continua sendo o ponto alto da carreira de Scarlett Johansson.

Talvez por não assumir o papel de mulher irresistível – simplesmente ser, sem nem saber disso.


/// Lista: as loiras de Brian De Palma

Não sei vocês, mas este blogueiro gostaria de protestar contra a ausência de novos filmes de Brian De Palma. Desde 2006, quando fomos brindados com A Dália Negra (que, a despeito de nem de longe ser um dos seus melhores, era um filmaço), estou na seca.

Há mil razões para isso: gosto da obsessão do cineasta pelos suspenses à Hitchcock – seus “filmes autorais”, que ocupam mais ou menos metade da sua produção -; também gosto muito da sua câmera a serviço de orçamentos gordos (Missão Impossível, Os Intocáveis). Claro, prezo muito o gosto de De Palma pelas minúcias técnicas (o manejo de microfones e aparelhos de gravação de som em Um Tiro na Noite, fotografia em Femme Fatale). E não deixo de me deleitar quando o cara chuta o balde e parte para a agressão sem filtros, como na obra-prima Scarface.

Mas o que eu gosto mesmo em Brian De Palma é a sua predileção por loiras. Ele não quer nem saber: para ele, cinema é algo feito de ótimas ideias, tomadas milimetricamente planejadas, edição caprichada – e, acima de tudo, moças louras sendo acossadas, perseguidas, desnudadas e, eventualmente, mortas por algum maníaco.

Começando por Nancy Allen, sua esposa à época de Vestida para Matar (1980) e Um Tiro na Noite (1981). Em ambos, ela é garota de programa, e em ambos seu destino foi cruel, obedecendo fielmente às situações acima. Valeu indicação ao Globo de Ouro.

E Melanie Griffith? Hoje, a senhora Banderas está caidaça, mas, nos idos de 1984, ela não estava para brincadeiras em Dublê de Corpo. Nele, a moça era uma atriz pornô que tinha um número de dança erótica capaz de deixar qualquer um maluco.

Claro, ninguém se esquece de Michelle Pfeifer em Scarface (1983). Em seu primeiro filme, Michelle era um aspirador de pó ambulante, burra feito uma porta e tristemente sem vida – graças à sua série de casamentos com traficantes da pesada. Mesmo assim, marcou época com seus vestidos um tanto soltinhos.

A musa mais recente, como não poderia deixar de ser, é Scarlett Johansson. Em A Dália Negra, de 2006, coube a ela o papel da loura que não vale nada, mas que deixa os homens enlouquecidos. Scarlett embarcou sem medo em mais um papel para alimentar sua fase de “mulher mais sexy do mundo”.

Josh Hartnett, Scarlett Johansson in The Black Dahlia

Mas a loura verdadeiramente imbatível do time de Brian De Palma é Rebecca Romijn, também conhecida como a gostosa pintada de azul na série X-Men. De Palma soube extrair da moça – que, como atriz, é uma mulher realmente muito atraente – uma performance que lhe dá a faixa de campeã: é a mulher fatal mais irresistível e mais bandida da história do cinema, no sensacional Femme Fatale, de 2002.

A ficha corrida da meliante: ela invade a sessão de gala do Festival de Cannes, pega uma morena igualmente sensacional no banheiro, rouba os diamantes que lhe tapavam a nudez, engana a quadrilha de que faz parte, se aproveita da ingenuidade de Antonio Banderas e acaba se safando. Ou não. Sei lá, não me lembro mais do final daquela trama rocambolesca.

Mas me lembro bem da cena da dança num boteco nojento em Paris:

httpv://www.youtube.com/watch?v=gYBn8b9rfZQ

Resumindo: os anos que se passam sem filmes novos de Brian De Palma são um pouco menos interessantes.

Vamos torcer para o camarada voltar à ativa.


/// Oscar 2011: balanço e ressaca

Para quem gosta de cinema, os dois meses que antecedem o Oscar são os mais bacanas do ano: é a época em que são lançados os filmes destinados à parcela da população não muito interessada em super-heróis, desenhos animados e vampiros vacilões; além disso, há os eventos que reúnem a nata de Hollywood, desde o escrachado e divertido Globo de Ouro, até o previsível, mas relevante Oscar.

Bem, confesso que bate uma ressaca depois da cerimônia mais famosa do cinema. Tipo assim, cansei dessa gente e desses prêmios.

Mas, enquanto renovo as energias para curtir um belo cineminha despretensioso no próximo final-de-semana (Bruna Surfistinha e Deborah Secco, temos um encontro), vamos passar a régua nas previsões de BLOGIE sobre o Oscar e checar a quantas anda minha bola de cristal.

Safra boa, prêmios distribuídos

Conforme adiantado por BLOGIE no post anterior, houve uma bela distribuição de prêmios entre O Discurso do Rei (quatro), A Origem (quatro) e A Rede Social (três). Também adiantei que Toy Story 3 levaria dois prêmios, e que os filmes de elenco, O Vencedor e Cisne Negro, ficariam com três dos quatro prêmios de atuação. Por fim, previ que Bravura Indômita, o delicioso western dos Irmãos Coen, seria o esnobado da noite, sem faturar nenhuma das suas dez indicações – e foi exatamente o que aconteceu. Ou seja, no “macro”, mandei bem.

No prêmio a prêmio, o desempenho de BLOGIE ficou aquém dos anos anteriores: acertei 16 das 20 previsões que fiz – uma média de 70%.

Acertos e erros nas categorias principais:

A Academia continua a mesma e premiou o filminho genérico e correto do ano, O Discurso do Rei. Steven Spielberg anunciou o prêmio e falou que o vencedor se juntaria a O Poderoso Chefão, E o Vento Levou etc. Eu já acho que o filme se juntou a O Paciente Inglês, Uma Mente Brilhante etc. Enfim, tudo como esperado: o filme sobre o rei gago levou melhor filme e melhor ator.

Mas também levou os prêmios de melhor direção e melhor roteiro original, desbancando aqueles que BLOGIE considerava favoritos e melhores opções: David Fincher e seu A Rede Social, em direção, e os malucos Chris Nolan e   A Origem, por roteiro. É aí que me enganei nas contas finais.

No que diz respeito a atuação, acertei os quatro vencedores: Colin Firth, Natalie Portman, Christian Bale e Melissa Leo. Todos merecidos (apesar da minha preferência por Amy Adams no lugar de Leo).

Os novos votantes da Academia: façam o favor de votar na Amy Adams no ano que vem!

De resto, os prêmios de  melhor roteiro adaptado, montagem e trilha sonora para A Rede Social  eram barbada, assim como os prêmios de som, mixagem de som e efeitos visuais para A Origem

O crime da noite: a não premiação da fotografia de Bravura Indômita – o cinema em seu estado mais puro.

Ah, as estrelas…

Mas o que interessa mesmo no Oscar é a mulherada em vestidos caros no tapete vermelho. Entrego logo o meu Oscar da noite para Mila Kunis, a maior gata da festa:

Se eu fosse o Vincent Cassel, também ficava na dúvida entre ela e a Natalie Portman…

E claro, há a nossa hors concours, eterna preferida da casa e estranhamente ausente do cinema:

Scarlett Johansson: seu vestido dividiu opiniões no mundo da moda; aqui na VIP tratamos a coisa de um modo bem mais simples…

Mas o grande nome da noite, claro, foi a linda e grávida Natalie Portman, melhor atriz do ano pela sua performance magnífica em Cisne Negro. Natalie brilhou no discurso, citando Luc Besson (seu primeiro diretor, em O Profissional) e o grande Mike Nichols (de A Primeira Noite de um Homem, que a dirigiu em Closer), classificado por ela como seu “guru”. Também se derramou em elogios a Darren Aronofski, esse grande diretor que ainda vai fazer história no cinema, e ao seu noivo – que é coreógrafo de Cisne Negro. Arrematou elegantemente e com sentido duplo, agradecendo ao cara por ter lhe dado “o papel de sua vida” – e assim se referia tanto à bailarina Nina quanto à maternidade. Um grande momento.

Mas o grande momento de Natalie, para este blogueiro e para a moçada em geral, foi mesmo aquele comercial de perfume Dior que ela estrelava a cada intervalo comercial da TNT:

Natalie como Miss Dior: isso vale um Oscar, um Leão de Ouro em Cannes e aquela coisa toda.

A cerimônia, que chatice

Bem, a Academia tentou inovar e se deu mal: James Franco parecia ter tomado um calmante (misturado a um senhor Bob Marley), tal o seu estado de moleza no palco. Anne Hathaway parecia ter incorporado aquela cheer-leader mala de Grease - manja aquela menina que solta gritinhos e dá pulos de excitação ao final de cada frase?

Além disso, o texto era hediondo. É brincadeira os caras não conseguirem escrever uma única piada que preste. Deu dó dos apresentadores.

Menções honrosas devem ser feitas às participações de Kirk Douglas, 94 anos e nenhum compromisso em seguir o roteiro ou se preocupar com o tempo, e de Billy Cristall – que recebeu uma senhora ovação e falou, de improviso, sobre Bob Hope, o cara que apresentou o Oscar por vinte anos (Cristall deu conta da missão com louvor por oito anos).

Mas tudo foi por água abaixo num final pavoroso, com coral de criancinhas cantando Over the Rainbow. Uma pobreza, com a criançada vestindo camisetas com o nome da ONG de onde elas vêm, um clima We Are the World misturado com Michael Jackson na favela do Rio. Uma tristeza.

Resumo da ópera: o Oscar não para de dar munição para quem fala mal dele. Foi brega, foi chato, foi previsível. Melhor sorte para Hollywood e para nós no ano que vem.


/// Naomi Watts: o melhor investimento de Hollywood

Durante a semana passada, a Forbes deu uma notícia curiosa: dentre todas as estrelas de Hollywood, a que dá mais retorno financeiro para os estúdios não é Angelina Jolie, Nicole Kidman ou Scarlett Johansson, mas sim a australiana – e agora quarentona – Naomi Watts.

Naomi Watts: quem não investiria nela?

A conta é a seguinte: pegaram a bilheteria total dos filmes em que as moças atuaram e dividiram pelo cachê de cada uma. E Naomi venceu, ao pagar aos empregadores US$ 41 milhões pra cada milhão recebido.

Avaliação do BLOGIE: justo, justíssimo. Naomi é linda, talentosa e séria como atriz. Protagoniza dramalhões (21 gramas), thrillers (Trama Internacional) e blockbusters de ação (King Kong) e de terror (O Chamado). De vez em quando, privilegia filmes de autor, como o cult Cidade dos Sonhos, do David Lynch. No ano que vem, estará no novo filme do Woody Allen.

Em Cidade dos Sonhos, Naomi embarca na viagem de David Lynch – e deixa pelo menos uma cena na história do cinema…

Quer dizer: Angelina Jolie emagrece, adota pencas de filhos, rouba o marido da Jennifer Aniston, representa a Unicef, causa confusões, se tatua e tudo mais, mas, no fim das contas, ela deveria é estar estudando uns roteiros e escolhendo bons filmes pra fazer. Sua decantada atuação em A Troca, do Clint Eastwood, é a única coisa digna de nota que ela fez desde Garota, Interrompida – e, mesmo assim, não é grande coisa.

Veja a lista das estrelas que dão grana pros estúdios:

1- Naomi Watts (O Chamado, King Kong, 21 Gramas)

2- Jennifer Connelly (Uma Mente Brilhante, Hulk, Diamante de Sangue, Ele Não Está Tão a Fim de Você - aliás, depois de ter sido musa teen, que grande carreira Jennifer tem feito nesta década!)

3- Rachel McAdams (Diário de uma Paixão, Penetras Bons de Bico, Meninas Malvadas – uma surpresa, não? Mas a moça é talentosa e muito bonita, merece um ingresso sério no primeiro escalão de Hollywood…)

4- Natalie Portman (série Star Wars, Closer – Perto Demais  e poucos outros filmes: Natalie escolhe a dedo seus projetos, faz filmes independentes por dinheiro de pinga e evita a superexposição. Seu papel de Rainha Amidala a garante na lista.)

5- Meryll Streep (graças a Mamma Mia! e O Diabo Veste Prada, e sem perder a mão de grande atriz, como mostram Dúvida e tantos outros…)

Depois, vêm Jennifer Aniston, Halle Berry, Cate Blanchett, Anne Hathaway e Hillary Swank.

Nem sinal de Scarlett e Angelina.

Tem gente se atribuindo um preço muito alto para o que entrega.

Quanto a mim, nem preciso mentir. Já escrevi no BLOGIE várias vezes que considero Naomi Watts a atriz que está no “ponto ótimo” (maturidade, talento e beleza). A aposta mais segura que posso fazer é que ela ganhará um Oscar dentro dos próximos três anos (já deveria ter levado o seu por 21 Gramas).

Minhas outras apostas pessoais são Natalie Portman e Scarlett Johansson. Tirando o preço alto e a falta de medo de se expor da loira, ela é sempre uma atração e, hoje, é provavelmente a maior estrela do cinema. Natalie cuida melhor da carreira, é mais seletiva, mas ainda vai fazer bastante barulho. O destino de ambas é serem ícones complementares de uma era, como foram Marylin Monroe e Audrey Hepburn nos anos 50.


/// Listão: o melhor da década 00

Moçada, o ano 2000 chegou, o mundo não acabou (reagendaram o evento para 2012) e filmes continuaram a ser feitos, e nós continuamos a ir ao cinema. Graças a Deus.

Já se vão quase dez anos e é chegada a hora de fazer um balanço. Como foi o cinema nestes anos 00?

Eu classifico esta primeira década do milênio como uma época difusa para o cinema. Não há um filme com “a cara” da década – como A Primeira Noite de um Homem foi para os anos 60 (contra-cultura), Taxi Driver para os 70 (realismo e autoria), E.T. para os 80 (fantasia) e Pulp Fiction para os 90 (cinema “independente”). Vejo um pouco de tudo, e nada muito dominante.

BLOGIE peneirou seus filmes preferidos, para ver no que dá… Veja, em ordem cronológica, a lista dos melhores filmes desta década:

- Quase Famosos, de Cameron Crowe

- Alta Fidelidade, de Stephen Frears (baseado no livro do Nick Hornby)

- Cidade dos Sonhos, do doido David Lynch

- Fale Com Ela, o melhor de uma série genial do Almodóvar

- Cidade de Deus (e sem unfanismo!)

- Encontros e Desencontros (já falo deste)

- Sobre Meninos e Lobos, do grande Clint Eastwood

- Match Point, da fase europeia de Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona também merece lugar na lista)

- Closer – Perto Demais, teatro filmado pelo gênio Mike Nichols (o mesmo por trás de A Primeira Noite de um Homem e Uma Secretária de Futuro)

- Procurando Nemo, da Pixar

- Kill Bill, um grande exercício de estilo de Tarantino

- Os Infiltrados, porque um bom Scorsese vale ouro hoje em dia

- Juno, uma bela surpresa de um ótimo diretor novo, Jason Reitman

- Gran Torino, epitáfio dos personagens-machos de Eastwood

- Up! – Altas Aventuras, outra vez a Pixar

Como dá pra ver, tem um pouco de cinema pop e com pinta indie (Alta Fidelidade e Juno), que são praticamente um tributo aos anos 90; há grandes obras de gênios incansáveis (Woody Allen, Clint Eastwood, Martin Scorsese, Pedro Almodóvar); há pontos fora da curva (o representante brasileiro e os acertos de Tarantino e de David Lynch); há as animações da Pixar, que divide com a Dreamworks (Shrek, etc) as grandes bilheterias desta década…

… e há Encontros e Desencontros.

Se eu tivesse que escolher um filme como representante da década, seria este.

Encontros e Desencontros é o segundo filme de Sofia Coppola, filha do grande Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão, Apocalipse Now). A moça tentou de tudo na vida: quis ser atriz, quis ser fotógrafa, foi patricinha, ficou entediada. E atendeu ao óbvio chamado da natureza e realizou o talento que a genética lhe transmitiu: virou diretora.

Fez o ótimo e subestimado As Virgens Suicidas. E aí emendou esse filme incrível e sem paralelo que é Encontros e Desencontros. O nome original, Lost in Translation (“perdido na tradução”), explica mais sobre o filme. Ele é sobre aquilo que não se fala, mas que fica entalado. Frustração de viver em uma época em que se pode tudo, e isso simplesmente não é suficiente.

Veja o trailer – com legendas! - de Encontros e Desencontros..

Os protagonistas, você sabe, são Bob Harris (Bill Murray), um ator que já viveu dias melhores e que curte sua decadência fazendo comerciais de uísque no Japão, e Charlotte (Scarlett Johansson), uma moça que não sabe o que quer na vida e que está em Tóquio acompanhando seu namorado workaholic.

Bob e Charlotte, embora sejam de gerações diferentes e, aparentemente, nada tenham em comum (Bill Murray é feio a dar com pau, e Scarlett é uma deusa), acabam se entendendo, firmando uma rápida amizade baseada na auto-ironia e na cumplicidade e, eventualmente, se enroscam em um caso passageiro.

Sofia Coppola abre mão do cinismo e da vontade de ser esperta que caracterizaram o cinema dos anos 90, e é aí que Encontros e Desencontros vira símbolo desta década esquisita: você pode ficar conectado com o mundo, viajar até Tóquio, entrar nas baladas mais loucas, mas não precisa fingir que está mandando bem. Admitir a frustração é um passo nobre a ser dado, e Scarlett Johansson construiu uma carreira a partir dessa aparição inesquecível – foi, sem dúvida, a revelação da década. Bill Murray também ganha aqui o papel da sua vida, e foi uma pena Sean Penn ter vivido Sobre Meninos e Lobos no mesmo ano. Murray merecia seu Oscar, era sua grande chance (enquanto Penn já ganhou outro e, tudo indica, tem mais pela frente).

Encontros e Desencontros tem também uma trilha sonora com cara de anos 00 - rock independente, música eletrônica, lounge, essas coisas que eu não sei direito como rotular, tudo muito etéreo e desconexo, disperso como tudo neste mundo em que pessoas ficam se xingando em fóruns de discussão e blogs, que teoricamente têm a capacidade de unir e incluir.

Acredito que o futuro reservará um lugarzinho de destaque para essa singela e sincera realização de Sofia Coppola.

E espero que ela não se entregue aos maneirismos a que tentam reduzir seu trabalho (moças solitárias, música independente, potencial de ícone fashion). Se ela morder essa isca (e parece que mordeu em Maria Antonieta), poderá desperdiçar um grande talento para contar histórias. Que ela reencontre seu caminho.


/// Estreias fracas e um refúgio seguro

Sexta-feira de tempinho modorrento (pelo menos aqui em São Paulo) e poucas estreias no cinema. A maioria, bomba garantida.

Pra se ter uma ideia, um dos filmes que entram em cartaz hoje é A Teta Assustada, um filme peruano sobre uma menina que tem uma batata na vagina. Enough said.

Outra estreia é Veronika Decide Morrer, com a Sarah Michelle Gellar (a nossa querida Buffy). Trata-se de adaptação do livro de Paulo Coelho… o resultado é uma mistura de Garota, Interrompida com aqueles finais dos episódios do He-Man, nos quais os personagens apareciam para soletrar com calma a moral da história. Enfim, como dizia Didi, é fria!

Mas há salvação para sua noite de sexta: entra em cartaz Se Beber, Não Case!, mais um exemplar de uma tendência cada vez mais comum: a das comédias sobre idas a Las Vegas. Aqui, uns amigos vão fazer despedida de solteiro na cidade dos cassinos, tomam umas drogas, saem do ar e, ao acordarem, não encontram justamente O NOIVO. O desafio é achá-lo a tempo do casamento. O mote desse filme, assim como o de tantos outros (Jogo de Amor em Las Vegas, Quebrando a Banca, etc), é aquela frase que vira e mexe alguém repete: “what happens in Vegas, stays in Vegas” - algo parecido com a nossa expressão brasileira “amor de praia não sobe a serra”.

Veja o trailer de Se Beber, Não Case!

Apesar do elenco não muito conhecido, o filme fez bastante sucesso nos EUA e parece ser uma boa opção. O clima é de comédia amalucada – bizarrices como casamento com prostituta, o aparecimento de galinhas, um tigre e um bebê cruzam o caminho dos amigos. O mais absurdo de tudo é a aparição de Mike Tyson, como se viu no trailer. Comédia rasgada para ver com os amigos, e que deve fazer boa carreira em DVD.

Se nada disso lhe agradar, vale sempre buscar uma velha amiga na TV. No caso, Scarlett Johansson.

Scarlett em O Diário de Uma Babá: como garota normal, ela é ainda mais atraente…

Hoje, às 20:05, no Telecine Premium, será exibido O Diário de uma Babá, um dos filmes menos badalados da beldade e um dos poucos em que ela foge do estereótipo de loira fatal (que, sejamos sinceros, está começando a cansar pela repetição). Aqui, Scarlett é uma moça de New Jersey que estuda em uma faculdade de primeira em NYC, mas, para pagar as mensalidades, trabalha como babá para uma família ricaça.
A graça está na protagonista (flagrada em um momento logo depois de sua aparição em Encontros e Desencontros e antes do hype de ter se tornado musa do Woody Allen e do Brian DePalma), num papel de girl next door bem interessante e bem interpretado. E também na sua antagonista e patroa, a mãe pouco cuidadosa, fútil e cruel vivida pela sempre ótima Laura Linney (na minha opinião, melhor atriz americana do momento). De quebra, Paul Giamatti faz o marido ausente de Laura, como um executivo escroto e sinistro. O filme começa como uma comédia, e aí vai engrossando, engrossando, e no final se sai algo bem amargo e interessante. O final é redentor, de acordo com a cartilha de Hollywood, mas nada que atrapalhe o clima criado antes. Um bom filme.

É isso. Se estiver mesmo a fim de ir no cinema, minha sugestão continua sendo o brasileiro À Deriva, por sorte ainda em cartaz em várias salas em São Paulo, Rio e outras capitais. (Leia a crítica de À Deriva, publicada na quarta-feira!)