/// O horror e a burrice

Gostaria de estar falando sobre o novo filme do Batman – que parece ser sensacional -, mas mais uma vez um maluco estraga tudo.

Como o leitor já sabe, um freak chamado James Holmes entrou armado numa sessão de estreia de Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge nos EUA e matou 12 pessoas, ferindo mais de 50. O rapaz usava uma máscara, emulando toscamente a aparência do vilão do filme.

Uma vez que sobre a barbárie em si – o assassinato em massa – nada possa ser dito ou explicado, coube ao diretor do filme, Christopher Nolan, o lamento pela triste escolha do cenário: “o cinema é minha casa; violar um lugar tão inocente e cheio de esperança de um modo tão insuportavelmente selvagem é devastador para mim”, declarou ele.

Quanto a mim, fico tão atônito quanto qualquer um que pare pra pensar sobre o que isso significa, e fico especialmente triste que esse tipo de coisa aconteça numa sala de cinema. É chocante quando a violência acontece em lugares de celebração da vida, da paz, da educação, da arte – como o caso nas Olimpíadas de Munique ou tantos outros em escolas de ensino médio.

Mas tenho algo a dizer sobre uma certa repercussão do acontecido. É um tipo de declaração da boca pra fora, ressentida de algo não muito bem definido, que tem ganhado as redes sociais. Manifestações idiotas que, ao mesmo tempo, relativizam a violência cometida por Holmes e incriminam suas dezenas de vítimas. São frases que vão do “ah, se fosse muçulmano diriam isso ou aquilo” ao “bem feito, porque isso é pouco perto do que os americanos fazem no Oriente Médio…”

Ora, um maníaco entrou no cinema e matou um monte de gente. Como já aconteceu aqui no Brasil. É o horror. Não tem nada a ver com a política internacional dos EUA ou com ataques terroristas.

São classes de barbárie diferentes, e infelizmente há profusão de exemplos de um e do outro. E o antiamericanismo que mistura as estações traz embutido um bom tanto de intolerância e burrice.


/// Filme VIP da semana: “Selvagens da Noite”

Este clássico cult sempre volta à memória por razões bem afetivas.

Explico: nos idos de 1989-1990, enquanto eu e meus vizinhos meliantes aprontávamos coisas um tanto indignas na vizinhança, tomei um esporro histórico da minha mãe (se não me engano, a gota d’água foi ter pixado um muro ou algo assim – dentro do próprio prédio onde morávamos). No discurso, ela dizia: “esses seus amigos parece saídos daquele filme Os Vândalos do Bronx.

O filme a que ela se referia chamava-se, na verdade, Selvagens da Noite, um semi-trash que marcou época na Sessão da Tarde (e nos vídeo-cassetes da moçada). Um típico exemplar dos anos 70: anos e anos de riponguice conjugada com cocaína e estilizada nas discotecas levaram a cultura pop a se apresentar como caricatura de si mesma. Penso nos programas de TV de música ao vivo, que traziam grandes artistas de soul num cenário “black de boutique” (tudo muito em cores vivas, muito Jackson 5). Penso também em filme como aquele O Mágico de Oz no Harlem, com a Diana Ross de Dorothy e o Michael Jackson como Espantalho.

É nesse contexto que o grande Walter Hill (48 Horas, Ruas de Fogo) pegou A Laranja Mecânica e entregou um filme único: um road movie sui generis, um festival de pancadaria, uma diversão besta. No mais, se tornou a matriz de muita coisa estilosa que ganhou os anos 80  e que chegou até hoje, passando por uma certa parte do trabalho de Tarantino, Robert Rodriguez e, pra ficar num exemplo mais recente, o ótimo Drive, com o Ryan Gosling.

A “trama”: gangues se enfrentam nas ruas de uma Nova Iorque imunda, em uma única noite. Os Warriors são os caras bacanas, vindos de Staten Island, e vão até o Bronx para um encontro de todas as gangues. O chefão da CBF das gangues (um tipo que daria mataria o Zé Pequeno – de medo ou de rir) é baleado, e os Warriors levam a culpa. E então eles – que posam de bandidos, mas são uns caras normais – tentam voltar para casa, num longo caminho pelas áreas de cada uma das outras gangues. E todas querem cobri-los de porrada.

Os Warriors enfrentam tipos como os Fúrias do Baseball (uns malucos parecidos com o Marilyn Manson, só que com indumentária de baseball) e as Lizzies (garotas barra-pesada que atraem os caras para festinhas do cabide antes de abatê-los). A melhor luta é contra os Punks (que de punks não tinham nada), cujo líder chega à frente, de patins, para o violento confronto dentro do banheiro do Metrô. Muita gente voando, espelhos quebrados, portas arrombadas e socos a torto e à direita, neste filme que é um longo e gratuito tributo de duas horas a uma única cena de A Laranja Mecânica. Até por disso, acabou virando cult.

Veja o trailer de Selvagens da Noite!

 

Revi outro dia no Netflix (que invenção boa!) e me diverti tanto quanto da primeira vez.

E, sim, meus vizinhos sacanas passaram o resto da adolescência se orgulhando de terem sido comparados às gangues de Warriors.

 

 


/// Um chute no saco

Essa é sensacional: esses caras de um site chamado FilmDrunk fizeram essa seleção de mulheres que sabem como encarar um homem de frente. Basicamente, é uma sequência de dois minutos cheia de mulheres chutando homens bem ali, na zona de perigo.

Sim, um clipe de chutes no saco, desferidos por Uma Thurman e Sandra Bullock, Jennifer Anniston e Heather Graham, Anne Hathaway e Woopy Goldberg… Sobra para Mike Myers, Gerard Butler e até Arnold Schwarzenegger.

Confira:

A campeã, para mim, é mesmo a inesquecível Mallory Knox vivida por Julliete Lewis em Assassinos por Natureza, de 1993. Ela desossava – literalmente.

 Mallory e Mickey Knox: o casal-modelo do cinema dos anos 90

Em resumo: a mulherada sabe como se defender. Agora, é se cuidar e proteger o patrimônio.


/// Controle sua raiva com Joe Pesci

Dica de um amigo que vive na Austrália: esse comercial do chocolate Snickers traz o baixinho mais invocado do cinema, Joe Pesci, tendo um daqueles ataques de irritação que lhe deram um Oscar por Os Bons Companheiros - até que ele é acudido por um amigo, que lhe oferece um Snickers para acalmar a fera.

Veja:

httpv://www.youtube.com/watch?v=Ys0cmMiW6bI

O que me chama a atenção, além da boa produção e do simples fato de trazer Joe Pesci, é a ideia de um comercial de chocolate fazer piada em cima de um personagem de filme – o wise guy de Pesci nos filmes do Scorsese (além de Companheiros, ele pode ser conferido em Cassino). Não é algo tão óbvio para um público mais amplo… Ou talvez seja nos EUA, onde Hollywood é a novela das oito dos caras.

Enfim, pra quem admira a boca-suja de Joe Pesci, aqui vai uma coletânea da sua artilharia em Os Bons Companheiros.

httpv://www.youtube.com/watch?v=F7Z5DObFQjY

Come um chocolate aí e relaxa, brôu!

Boa semana a todos!


/// “Stallone Cobra”, 25 anos de brutalidade

Da série “prazeres culpados”: poucos filmes provocarão em mim o prazer que Cobra, um violento policial estrelado por Silvester Stallone, proporcionou nos idos de 1986.

Cobra foi mais um produto da linha de produção que contrapunha Stallone (o americano que vence pelos próprios punhos – Rocky, Rambo, o caminhoneiro Falcão daquele filme sobre queda-de-braço…) a Schwarzenneger (a máquina insensível de matança – Exterminador, Comando Para Matar, Jogo Brutoetc). Pra falar a verdade, era uma produção menos ambiciosa – produção mais tosca – e mais incorreta – boca-suja, abertamente reacionária, algo capaz de fazer Tropa de Elite parecer Glauber Rocha. Mas tinha três grandes trunfos:

1) foi lançado no momento em que Sly estava no topo do mundo (Rocky 4 e Rambo 2 tinham arrebentado nas bilheterias). Pra se ter uma ideia, o pôster do filme trazia o nome do seu astro com fonte e tamanho do nome do filme, logo acima deste – e, assim, um filme chamado “Cobra” e estrelado por Stallone passou a se chamar oficialmente Stallone Cobra (parece bizarro, e é, mas é parte do charme e da lenda do filme) ;

2) tinha um roteiro – assinado pelo próprio Stallone, que é muito melhor escritor do que ator -  recheado de frases que caíram no gosto da molecada e que foram incorporados no jargão de dia-a-dia: “eu sou a doença; você é a cura”; “aqui é onde a lei para e eu começo – sucker!”; “eu não lido com psicopatas; eu os mato”; e por aí vai;

3) contava com uma série de pequenas tiradas visuais que reforçaram o caráter icônico do personagem Marion Cobretti, o “Cobra”: óculos escuros gigantes, o palitinho sacana no canto da boca, o Stallone, todo trash, recortando uma pizza amanhecida com tesoura antes de comê-la como café da manhã…

Resumindo, o filme impactou geral a molecada de doze anos, e, na semana seguinte à exibição de Stallone Cobra, estávamos de óculos escuros e palitinho caindo da boca, proferindo palavrões às pencas e repetindo que o interlocutor era a doença, e nós, a cura. Não é nenhum exagero dizer que Cobra foi o Tropa de Elite da minha geração.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ObUuFsYgyGE

Veja o trailer de Stallone Cobra!

Outro indicador disso: eu tenho um amigo cuja família teve, por anos, algumas salas de cinema de rua – daquelas que não existem mais – no interior de São Paulo. E eu lhe perguntei, há alguns anos: “qual o filme de maior bilheteria da história?”

E o cara respondeu, após pensar um pouco: “Deixa eu ver… Titanic foi f…”  – e olhos se arregalaram, antes dele decretar, definitivo – “Stallone Cobra, sem dúvida”. Não está no Guinness nem nos almanaques, mas está no inconsciente coletivo da galera. É isso que importa.

Stallone Cobra faz 25 anos neste ano, e o filme não ganhou a fama e a lenda de outros sucessos dos anos 80. Uma injustiça. BLOGIE começa de onde a lei parou e divide com o leitor uma das grandes cenas do filme, com a devida “versão brasileira” de alguma sessão diurna do SBT. Divirta-se:

httpv://www.youtube.com/watch?v=kUhSHINh4sg

Com esta relíquia, presto meus respeitos e deixo um grande abraço para Stallone e seu Cobra, o Capitão Nascimento dos anos 80.


/// Joe Pesci: engraçado, como?

 Acredito que tenha deixado claro, no último post, que considero Joe Pesci um grandessíssemo badass motherfucker, como se falaria num filme do Tarantino. Sua verborragia e sua entonação única para xingar o próximo fazem dele uma das figuras mais carismáticas já filmadas.

E este aqui é o seu melhor momento:

httpv://www.youtube.com/watch?v=IWINtUCshxY

O filme é Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese. Pesci é Tommy Devito, papel que lhe rendeu um Oscar de melhor ator coadjuvante.

O grande lance, na minha opinião, são as repentinas guinadas de humor do mafioso. Ele contando piadas, todos rindo, um comenta como ele é engraçado e, de repente, o baixinho fecha a cara:

- Engraçado, como? Tipo, como um palhaço, eu estou te divertindo?

As reações inesperadas e psicóticas são o truque favorito de Scorsese, e Pesci é o que consegue torná-las mais impressionantes, justamente por ter o senso de humor que outros favoritos do diretor, como DeNiro ou DiCaprio, simplesmente não têm.

Pronto. Tributo completo. Agora vamos a outras pequenas obsessões.


/// Guia VIP: como não apanhar de Joe Pesci

Esqueça Stallone ou Schwarzenegger. O cara mais violento do cinema é o baixinho Joe Pesci. Revelado por Martin Scorsese como o irmão compreensivo de Robert DeNiro em Touro Indomável, Pesci logo revelou seu talento para o xingamento (ninguém fala tanto fuck ou prick como ele) e para uma violência psicótica. Sempre em colaborações com Scorsese e DeNiro, o baixinho tornou-se o gângster mais perigoso da sétima arte. Se você um dia cruzar com ele na rua, e houver uma câmera ligada por perto, fuja. Se não for possível, talvez você precise deste pequeno guia.

1- Não ridicularize Joe Pesci na frente dos seus amigos.

Esse foi o grande erro de Spider, o garçom boa-praça que atendia os mafiosos em sua noite de pôquer, em Os Bons Companheiros. A galera se divertia com a boca-suja de Tommy Devito (Pesci), que xingava o rapaz por ele demorar com a bebida. Spider, já familiarizado com os clientes, manda um “go fuck yourself, Tommy”. Até aí, tudo bem, o cara já era da turma. Mas acontece que a moçada cai no riso, contando com uma reação bem-humorada do amigo. Aí, mexeu com ele: Tommy saca o revólver e abate o probrezinho.

 Ainda em Os Bons Companheiros, o coroa Billy Batts incorreu no mesmo erro. Encontrou Pesci e seus amigos em uma festa, e resolveu lembrar dos tempos em que o baixinho era engraxate e dava um trato nos seus sapatos. Pesci fica ofendido, quase briga, é detido, vai embora – mas não por muito tempo. Ele volta para fechar a festa, espancando o velho até a morte. Ele e seus comparsas ainda embrulham o defunto em toalhas de mesa antes de dar fim no assunto.

httpv://www.youtube.com/watch?v=2oP1NMB_I0s

Veja aqui a cena de Os Bons Companheiros que ficou conhecida como “The Billy Bats Situation”

2- Não fale com Joe Pesci sobre dinheiro. Ou melhor, não fale com ele.

 Em Cassino, Sharon Stone começou pedindo uma grana para ele. Acabou levando uns tapas e sendo chutada pra rua. No mesmo filme, ele coletava dívidas junto a malandros variados. Se o cara começasse com desculpas, sua cabeça iria atravessar o obstáculo de vidro mais próximo.

Já em Os Bons Companheiros, o afável Morrie não parava de falar. Ao entrar no carro, Tommy (Pesci) enterra um punhal na nuca do tagarela. Um pouco antes disso, Ray Liotta ria das piadas de Tommy. E comentou, “você é um cara engraçado…”. E o baixinho fecha a cara: “engraçado, como? Como um palhaço?” – e termina com um revólver enfiado na boca do amigo. Mas desta vez, ele aliviou.

3- Não olhe nos olhos de Joe Pesci.

 Em Cassino, Pesci é Nicky Santoro, o capanga de cabeça quente que começa a virar um problema para seu chefe, Ace Rothestein (DeNiro). Depois de fazer cena no cassino e ter sua atenção chamada por Ace, Nicky dá de cara com um funcionário do cassino, que está simplesmente olhando para ele. Nicky pega a primeira coisa que lhe vem à mão – um telefone público – e espanca o incauto, que acaba rolando no chão.

 4- Não mexa com o chefe de Joe Pesci.

Especialmente se o chefe for Robert DeNiro. Em Cassino, ele socorre o patrão em duas cenas: na primeira, um desavisado resolve confrontar DeNiro, que só queria devolver uma caneta. Pesci intervém e enterra a caneta no pescoço do infeliz. Mais tarde, um idiota chama DeNiro de bicha. Mais uma vez, um telefone estava nas mãos de Pesci. Mais uma vez, o artefato foi parar na cabeça de alguém.

5- Seja o Robert DeNiro.

 Em seis filmes juntos (três deles, dirigidos por Scorsese), DeNiro e Pesci formam uma das duplas mais violentas dos filmes. Mas, apesar das desavenças em quase todos eles, Pesci sempre poupou o colega de sua fúria. Em Touro Indomável, o baixinho é o irmão de Jake LaMotta que, sob a acusação de ter traido o irmão com sua esposa, leva umas porradas do boxeador – e não reage. Em outra cena memorável, DeNiro manda o irmão esmurrá-lo no rosto. A contragosto, Pesci dá dez socos na cara de DeNiro, mas para e dá um pito no brother.

(texto publicado na matéria “Porrada! As Melhores Cenas de Luta do Cinema”, na edição de maio de 2009 da VIP)