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RICARDO LOMBARDI

RLombardi@abril.com.br


Como abrir uma cerveja usando uma escavadeira


Sugestão de documentário: “John Coltrane – The World According to John Coltrane”

O documentário “John Coltrane — The World According to John Coltrane“, de 1991, está disponível no Youtube. Vale a pena.


“Elas querem um monstro: O Homem Ideal”

 

Elas querem um monstro: O Homem Ideal *

Por Alexandre Soares Silva 

Tente reunir num único ser as qualidades que as mulheres almejam no parceiro dos sonhos, mas vá com calma: o bicho estranho que resultará disso pode assustar e causar pesadelos

Não há nenhuma criatura mais absurda que a mulher que diz, com sublime inconsciência do próprio ridículo, que quer um homem “macho porém sensível”.

Se fosse só isso, vá lá. Talvez seja possível de alguma forma ser “macho porém sensível” – em dias alternados da semana ou algo assim. Se você toma injeções de testosterona, talvez fique macho uma parte do mês, e na outra os seus mamilos comecem a jorrar leite. Talvez. Não sei.

Mas elas não param por aí. Elas querem um homem “macho porém sensível, firme porém delicado, sério mas com senso de humor, trabalhador mas que sabe se divertir, ambicioso mas que goste de passar tempo juntinho”.

Deveria haver uma maneira delicada de dizer às mulheres que nenhum homem pode ter essas características conflitantes sem que se torne o tema de um filme sobre as suas personalidades múltiplas, com um título como “As Nove Vidas de Alfredo”, ou algo assim. Elas realmente acham que vão encontrar alguém que goste de P.S. I Love You, mas que, ao mesmo tempo, preencha o seu requisito de “saber me pegar como homem”? Elas realmente acham que vão encontrar um membro do sexo masculino que se derreta quando vê um bebê, que chore quando vê Filadélfia enquanto massageia os seus pés mas que, ao mesmo tempo, nas suas delicadas palavras, “goste da fruta”?

“Ambicioso mas que goste de ficar juntinho” – seria como um homem dizer que quer uma mulher “alta porém baixinha”.

Talvez a melhor coisa para fazer com que as mulheres compreendam o absurdo do seu desejo fosse construir uma estátua do ideal masculino delas, ocupando a praça central de uma cidade, com uma plaquinha embaixo: O Homem Ideal.

Em cima do pedestal veríamos uma espécie de deus hermafrodita com vastas tetas pendulares e murchas, seis ao todo, pênis médio porém grande, braços tonificados porém não muito musculosos, mãos calejadas porém macias – uma segurando uma espada, outra um pano de prato e outra (sim, outra) uma rosa. Esse deus é esbelto mas não muito magro, tem uns músculos no peito por trás das tetas mas nada que indique que fica se conferindo o dia todo no espelho, e está bem vestido porém não o tanto que indique que pensou demais no assunto.

As linhas da boca indicam ao mesmo tempo uma capacidade de ser cruel, com os outros, se necessário, e extrema doçura com relação à mulher – alguém diria, quase subserviência. A linha do queixo indica firmeza, mas o olhar suaviza tudo: a 100 metros de distância, você consegue ver que os olhos da estátua são prestativos e atenciosos, como se eles estivessem eternamente perguntando em relação a qualquer decisão que acabou de tomar, “está bom assim para você?”. Ao mesmo tempo esses olhos são inegavelmente titânicos, decididos, imperiais.

Tudo que temos de fazer é contratar mulheres para construir essa estátua, ou pelo menos para fazer um desenho dela. Prevejo que não vão fazer muito mais do que um dedo ou um pé antes de parar tudo – dando em seguida um tapão coletivo nas próprias testas ao perceber, pela primeira vez, a impossibilidade da coisa toda.

*Publicado originalmente na VIP número 292. É um dos seis textos do escritor e roteirista Alexandre Soares Silva que editei desde que comecei a trabalhar na VIP, em 2009. A partir da edição de março, que será lançada amanhã, Alexandre retorna — desta vez como colunista. Bem vindo, Alexandre.


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