Roubei essa imagem do Iberê Camargo

Devo ter sido um garoto mau. Nada mais justificaria o desconforto de, naquela hipotética manhã, ver-me corporificado num monte de cascas de psoríase. Preferiria morrer a ter de arrastar minha carcaça pelas ruas de Santa Cecília, infecto sob os olhos das septuagenárias que outrora admiraram minha fleuma. Minhas vias e principais artérias ainda funcionam.

Sair para comprar pães tornou-se uma operação de guerra desde quando — desajeitado e com o Parkinson bastante saliente — ficou difícil abotoar o colete e amarrar os sapatos. Mas o inferno está nos outros. Não consigo me comunicar com o porteiro do prédio. Não aprendi a saltar sobre o abismo cultural que nos distingue. Acho-o repulsivo. Ele não gosta e não entende o que eu digo, não se identifica comigo e deseja intimamente a minha morte.

À minha volta amontoam-se alguns víveres, um velho humidor, pôsteres das lutas de Bonavena, fotos dos antigos bailes do Clube Piratininga, as roupas de Maria Rocio e os lápis azuis que usava para desenhar a sobrancelha. Não há ruído exterior, está escuro, um leve cheiro de bolor emana do couro do sofá. Meus olhos estão perdidos nas reentrâncias do capitonê. Preciso buscar algo limpo para comer.

Posso sair, como às vezes faço, para comprar carne no único açougue kosher num raio de um quilômetro. E sentir, como sempre sinto, o horror nos olhos dos negros parrudos que andam nas ruas. Exalo o medo que tenho deles. Sou um magro recalcitrante, minha cavalgadura é cheia de rangidos, um homem de hábitos, uma presa com medo de morte. Aos oito dias fui circuncidado para celebrar minha ligação com Deus. Se fosse um inseto, seria um gafanhoto com perninhas de serra.

Havia uma saudável luxúria noturna nesta parte da cidade. Minha cabeça ainda está cheia de subversões sexuais. Como um flâneur que se alimenta de cenas, gostava de descer a Major Sertório e sentir aquele travo na base da língua, um pavor-prazer que eu me proporcionava à medida que a escória se mostrava, esquina por esquina. E o pacote de carne na mão, suado, textura firme, a mão cheia na tensão do filme plástico que envolve as fibras e isola o sangue.

Tal qual um voyeur obcecado, busco todos os lugares, gretas orgânicas e subterrâneos. Agora um fiapo de sangue escorre pelo braço, os dedos ganharam o beiço entumecido da carne. Um visgo, escapando, uma desatenção e logo um tranco nas costas, alguém vai pegar a peça ao final de um looping que já se desenha no ar, vai subtraí-la, obtê-la, correr com ela e comê-la. De onde estou, uma figura pardacenta dispara com o pacote embaixo do braço, movendo-se olimpicamente, deixando para trás meu corpo impotente no chão. E, de repente, começo a arrastar minha carcaça pelas ruas de Santa Cecília, infecto sob os olhos das septuagenárias que outrora admiraram minha fleuma. Meu nome é Horace Catskill, minhas vias e principais artérias são o mais completo caos.