EPimenta Edward Pimenta

Pescarias na rede, literatura, arte e erotismo

/// George Lois fez arte nas capas da Esquire nos 60's

Em 1965, as feministas estrilaram com a capa da bela Virna Lisi

George Lois, o homem que liderou a revolução criativa da publicidade americana nos anos 1960, foi escolhido pelo legendário editor Harold Hayes para desenvolver nova linguagem visual para Esquire, revista que registrou as profundas transformações da cultura americana, publicando textos dos mais brilhantes autores do Novo Jornalismo – outra revolução da época.

Lois inovou no design de revistas com as 92 capas criadas entre 1962 e 1972. Concisas, quase todas as peças trazem imagens poderosas e conceitos que vão muito além da mera ilustração. Mais importante, fomentaram o debate público em torno de questões então controversas, como racismo, feminismo e a Guerra do Vietnã.

Em 2008, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) adquiriu boa parte da coleção de capas produzidas por George Lois e as exibiu durante 11 meses em sua galeria de Arquitetura e Design, com curadoria de Christian Larsen.

As capas servem com uma linha do tempo visual para os turbulentos eventos dos anos 1960. Também por isso, tornaram-se referências iconográficas essenciais para todos os que vivem o fascinante mundo do design editorial.


/// Desafio você a ver Flesh for Frankenstein, do Warhol

Filme de 1973, produzido por Andy Warhol e dirigido por Paul Morrisey. Tem no elenco o indefectível Joe Dalessandro


/// Gazeta sonhava retratar a Mirassol do século 21

Gazeta de Mirassol (1999 - 2004). A capa vintage de 24 de dezembro de 1999 era sobre a chegada do ano 2000. Não é singelo?


/// Descobrir Belém foi o lucky break de Alex Atala

Cena de Belém-PA (2006), a terra da priprioca

Muitos chefs — e o Alex Atala é o mais conhecido deles – andam fazendo uma cozinha contemporânea que valoriza a culinária regional brasileira, sobretudo a amazônica, que agora é oferecida aos gourmets em forma de mimosas criações gastronômicas encimadas por rococós de inspiração europeia.

É uma velha moda, que vai e volta. Se prestar atenção, verá que desde 1665 nossa comida satisfaz olhos e estômagos dos mais urbanos. Padre Antônio Vieira atestou, horrorizado, que a mesa belenense da época era puramente indígena, um festim permanente de peixes moqueados, caças e frutas da estação; os colonizadores portugueses, saciados, deitavam nus em suas redes.

Belém é um interessante caldeirão de misturas étnicas e gastronômicas. À base da comida indígena paraense – única verdadeiramente brasileira, segundo o filósofo José Arthur Gianotti – juntaram-se sabores africanos, portugueses, alemães, japoneses, libaneses, sírios, judeus, ingleses, barbadianos, espanhóis, franceses e italianos.

Não dá para endossar o exagero do escritor Márcio Souza, autor do inesquecível “Galvez, Imperador do Acre”, quando diz que a culinária amazônica é “uma prova da superioridade das civilizações indígenas”. Mas é claro que os povos que chegaram a Belém encantaram-se com a cozinha nativa e, aos poucos, foram incorporando os ingredientes locais às receitas de além-mar. Senão, vejamos.

Os judeus marroquinos ficaram maravilhados com a quantidade de peixes com escamas do rio Guamá. Por certo, riscaram do cardápio o filé de filhote (peixe de couro, popularíssimo na região) por causa das restrições alimentares, mas em Santarém celebravam a Páscoa com macaxeira frita ou cozida, cuscuz, tapioquinha, bolo de tapioca e pupunhas com doce de cupuaçu.

Libaneses e sírios são até hoje uma importante colônia em Belém e, pouco depois de surgirem rio adentro, no fim do século 19, como verdadeiros mascates fluviais – como se nas páginas dum romance de Milton Hatoum estivessem –, trocaram o pistache e as tâmaras pela castanha do Pará na receita de seus famosos doces folheados.

Africanos remanescentes dos quilombos popularizaram o gergelim nos doces e as múltiplas pimentas (murupi, camapu, olho-de-peixe, cajurana). A maniçoba que me foi servida pelas cuidadosas mãos do Alcides no melhor restaurante da cidade, o Lá em Casa, é um exemplo definitivo do casamento perfeito entre as raízes das cozinhas índigena e africana.

Os índios, óbvio, são mestres ancestrais no preparo da mandioca, caldeiradas, peixes (piranha, pirarucu, surubim, tucunaré, tambaqui), folhas (maniva, chicória, alfavaca) e frutas (bacuri, ingá, guaraná, açaí, ginja, biriba –  dão deliciosos sorvetes).

Os ingleses chegaram durante o próspero ciclo da borracha, trazendo construções pré-fabricadas que viraram cartão-postal, como o mercado Ver-o-peso. Sua vocação culinária, sabemos, nunca foi uma brastemp mas, em compensação, os caribenhos de Barbados por eles empregados na construção civil legaram um interessante churrasco de peixe, o “peixe avoado”.

Por falar nisso, a cidade tem a segunda maior colônia nipônica do país e o sashimi, servido em bons restaurantes na cidade, é preparado com os peixes da região.

São comuns nas docerias de Belém as tortas de cupuaçu com queijo do Reino e os pastéis de Santa Clara com recheio da mesma fruta, duas adaptações saborosas das clássicas sobremesas portuguesas.

É uma velha moda, que vai e volta.

O professor Aldrin Moura de Figueiredo, do departamento de história da Universidade Federal do Pará, lembra que, no final do século 19, os belenenses endinheirados ofereciam a políticos e autoridades banquetes comandados por chefs franceses. Peixes, caças e frutas da estação com cobertura de mimosidades européias.

Até parece uma certa cozinha contemporânea chique que adaptou a culinária amazônica para o proveito dos comensais urbanos.

 Leia mais:

Culinária Amazônica – O sabor da natureza, prefácio de Márcio de Souza (Editora Senac)

 Serviço:

Restaurante O Lá em Casa (Av. Gov. José Malcher, 247, fone 223-1212)

Restô do Parque (Av. Magalhães Barata, 830, fone 229-8000).

Sorveteria Cairú (Trav. 14 de Março, 1570)

Restaurante Japonês Hatobá (Boulevard Castilhos França – Estação das Docas, fone 3212-3143)


/// DOM — Se o negócio é embrutecer, siga para uma churrascaria

A inolvidável priprioca, indicada pela setinha aí em cima; ao final, um passito para arrematar

Meu irmão, o Guilherme, um médico neurocirurgião que mora em Araçatuba, veio a São Paulo outro dia e me convidou para ir ao DOM, o sofisticado restaurante de comida contemporânea do chef Alex Atala.

O restaurante havia sido nomeado naqueles dias pelo S. Pellegrino World’s 50 Best Restaurants como o 7° melhor restaurante do mundo. O que para mim diz pouco porque não conheço os outros representados no ranking e fico sem termo de comparação.

O ambiente é relativamente austero; classudo, sim, mas as mesas são muito próximas umas das outras. É caro. R$ 400 por pessoa custava o menu degustação de oito pratos. Ou seja, por esse valor você pode jantar em qualquer restaurante do mundo.

Não é, ao contrário do que eu desconfiava, um restaurante PJ daqueles que os executivos frequentam e depois pedem reembolso a suas empresas. Ali vimos pessoas físicas comemorando suas datas, umas apenas curiosas, outras tietando o Alex Atala, que afinal é uma celebridade.

A condução da mesa ficou a cargo do Guilherme, que ali estava em casa. Com desenvoltura pediu ao sommelier o chileno Montsecano, que estava ótimo. Logo chegaria uma segunda garrafa, ainda melhor. Conversou animadamente com o Atala, que nos confidenciou já ter resolvido pequenos acidentes de cutelaria nos dedos com Super Bonder.

Vieram à mesa, numa onda meio amazônica, meio peruana, o chibé, o arroz negro tostado com legumes e leite de castanha do Pará, a espuma de funghi com caldo de vitela, as ostras empanadas com tapioca marinada, uma cavaquinha prateada com dois tipos de cozimento e o aligot (purê de batata com dois tipos de queijo).

Mas nada chegou aos pés do ravióli de gelatina de limão e banana ouro com mel de priprioca. Ah, a priprioca. Atala explicou tratar-se de uma raíz amazônica. A palavra passou então a ser um código entre os dois alegres irmãos ao fim da noite.

Tudo muito cacprichado, bom serviço, uma boa experiência. Mas se o negócio é embrutecer, siga para um churrascaria. Em geral são cafonas, mas você pode voltar ao buffet quantas vezes quiser e ainda tem o sinal verde/vermelho que você aciona quando não aguentar mais.


/// Uma imagem

Gravura do pernambucano Gilvan Samico, pai espiritual dos xilogravuristas da galeria Choque Cultural e congêneres; xilo tá na moda


/// Uma taça de vinho é e sempre será uma taça de vinho

O Alex Atala, dono do melhor restaurante de São Paulo. Comentários sobre a experiência no DOM nos próximos posts

A gastronomia, para a grande classe média brasileira, começou há 20 anos, no máximo. Antes disso, só os ricos tinham acesso a produtos de qualidade, tanto em casa como nos restaurantes. 

O conhecimento a respeito de vinhos e comidas era também muito restrito — mas é evidente que havia comida muito boa, como acontece desde que o mundo é mundo.

Os supermercados simplesmente não vendiam arroz arbóreo, mostarda dijon, creme de leite fresco, açafrão e outros coisas corriqueiras que, mais do que nunca, hoje estão à mão.

Lembro-me da sensação de beber a primeira lata de cerveja importada, uma Lowenbrau. E de tomar aquele vinho alemão doce, o Liebfraumilch, como se fosse um nectar dos deuses.

Eram gostos novos que nos libertaram de décadas de tradição de produtos nacionais de categoria inferior, mas que eram as únicas opções de que dispúnhamos.

Portanto, é de bom tom um certo low profile diante daquele seu amigo europeu — os franceses e italianos em especial — que convive com os melhores insumos da terra, sem afetação, há milênios. E a cultura em torno, claro.

Não há nada mais cafona do que um americano, por exemplo, tentando se passar por nativo gastronômico. Eles, os americanos, aliás, sabem de sua eterna inferioridade. A coisa toda também é relativamente nova para eles.

Hoje a gastronomia virou um fetiche. Comer e beber, experimentar, saber sobre o que se come e o que se bebe. Tudo isso deixou de ter uma função meramente nutritiva e passou a compor um certo statement obrigatório de status nas melhores famílias.

A ponto de alguns esquecerem de que comida e bebida são e serão sempre isso mesmo, comida e bebida. Os apologistas da frivolização, movidos por questões de marketing — às vezes pessoais — passaram a atribuir ao ato de comer características que não lhe são naturais.

Veja a mistificação quase cômica dos sabores, sensações e cheiros que podem, na teoria, surgir da degustação de um vinho tinto: mineral, magro, apimentado, terroso, nobre, arraigado, rico, gorduroso, jovem, imaturo, audacioso, folhas molhadas, relva, alecrim, frutas vermelhas, baunilha e outros quetais.

No fundo, um vinho é e será sempre um vinho. Imagino como ficam os apologistas, par example, diante da leitura de A La Recherche.


/// Uma imagem

William Kentridge. Drawing from Stereoscope 1998–99. Carvão, pastel, e lápis de cor no papel


/// Antes do UFC havia o charme do boxe e a picaretagem de um Hulk Hogan

Hulk e a cantora Brooke Hogan, sua filha: ela queria ser Britney Spears

A julgar pelas razoáveis dimensões do ego e do físico do cidadão americano que atende pela alcunha de Hulk Hogan – media 2,05 metros e pesava 137 quilos nos áureos tempos –, ele diria, para começo de conversa, que foi o responsável, na década de 80, por levar a luta livre do amadorismo mambembe e corrupto ao mainstream do entretenimento de massa nos Estados Unidos.

Batizado Terry Bollea, filho caçula de um trabalhador da construção civil e de uma instrutora de dança, começou a puxar ferro em 1967, em Tampa, no estado da Flórida. Depois de estudar administração de empresas e música na universidade, começou a treinar luta livre amadora em 1973. No fim da década de 70, seu talento chamou a atenção de Vincent McMahon, o lendário promotor e dono da World Wrestling Federation (WWF). McMahon achava-o parecido com o Incrível Hulk e, por isso, deu o apelido que colou para a vida toda.

Sylvester Stallone ficou impressionado com sua performance nos ringues e chamou-o para uma ponta em Rocky III, de 1982. Hogan aceitou a proposta e foi demitido da WWF. Mas então já era o mais conhecido profissional de luta livre de todos os tempos e o homem que mais influência exerceu na história da marmelada.

Seus detratores asseguram que o infante Bollea teve breve passagem por um reformatório e que não dava sorte com as garotas – informações desmentidas pelo soberbo brutamontes no livro Hulk Hogan Hollywood, sua obra, por assim dizer, da maturidade. Hogan sempre quis parecer politicamente correto: “Treine, faça suas orações, tome suas vitaminas e acredite em você” é seu bordão a uma legião de crianças que até hoje consome sua linha de bonecos, desenhos de TV e camisetas.

Como no ringue não há espaço para bonzinhos, Hogan compôs um personagem de meter medo com provocações na ponta da língua, vozeirão, cara de quem comeu e não gostou e bíceps de 60 cm. Seu melhor momento no ringue foi visto pelo maior público já reunido num evento em espaço fechado, em 1987, no Wrestlemania III, quando Hogan liquidou o gigante francês Andre, de 2,23 metros e 226 quilos.

Com a carcaça já avariada pela ação do tempo e das tesouras, chaves e pilões, Hogan, deixou de ser o ávido consumidor de marias-tatames para tornar-se um fornecedor de carne nova ao showbiz: aos 51 anos, o gigante loiro apresentou a filha adolescente, também loiríssima, cantora e pianista, Brooke Hogan, aposta declarada do pai para usurpar o trono de Britney Spears. Ao que parece, ela ainda nao chegou la.


/// Theodoro, o menino biônico, deve seu futuro à ciência

Comemore se você vir um implantado: a ciência muda a vida de muita gente

O Theodoro, três anos, nasceu surdo dos dois ouvidos.  No Brasil, a probabilidade é de um em mil nascimentos. Ou seja, muito mais comum do que a gente imaginava.

O pediatra dele não notou, nós também não. Quando percebemos, mais ou menos aos seis meses de vida, mergulhamos numa via sacra de exames. Não havia tempo para lamentações. Conhecemos uma técnica nova, o implante coclear, que no Brasil é quase exclusividade dos médicos da USP.

O implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia, também conhecido como ouvido biônico, que estimula eletricamente as fibras nervosas, permitindo a transmissão do sinal elétrico para o nervo auditivo, afim de ser decodificado pelo córtex cerebral.

É um pequeno milagre da ciência. Atualmente existem 60 mil usuários de implante coclear. O Theo escuta tudo direitinho e é uma criança como todas as outras na escola.

Se você tem algum dúvida, escreva pra mim no epimenta@abril.com.br