EPimenta Edward Pimenta

Pescarias na rede, literatura, arte e erotismo

/// Você é sanguíneo, fleumático, colérico ou melancólico?

Detalhe da maior escultura da mostra O sentimento da Arquitetura - Giorgio de Chirico, em cartaz no MASP até 20 de maio de 2012

 
Giorgio de Chirico é um melancólico.
 
No outono de 1906, o jovem pintor se matriculou na Academia de Belas Artes de Munique. Com uma doença intestinal, acamado, ele leu — e amou para sempre – a filosofia de Nietzsche, Schopenhauer e Heráclito.

E, a partir de então, elegeu a pintura para exprimir sua melancolia. Dá uma passada lá no MASP para ver.

Mas o que é mesmo a melancolia?

A teoria dos quatro humores foi a principal explicação racional da saúde e da doença entre o século 4 a.C. e o século 17.

Segundo a teoria humoral, como também é conhecida, a vida seria mantida pelo equilíbrio entre quatro humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, procedentes, respectivamente, do coração, sistema respiratório, fígado e baço.

Cada um destes humores teria diferentes qualidades: o sangue seria quente e úmido; a fleuma, fria e úmida; a bílis amarela, quente e seca; e a bílis negra, fria e seca.

Segundo o predomínio natural de um destes humores na constituição dos indivíduos, teríamos os diferentes tipos fisiológicos: o sanguíneo, o fleumático, o bilioso ou colérico e o melancólico.

O melancólico é analítico, abnegado e perfeccionista, o que o faz admirar as belas artes. É introvertido por natureza. Mas as vezes é levado por seu ânimo a ser extrovertido. Outras vezes enclausura-se como caramujo, chegando a ser hostil. É amigo fiel, mas não faz amigo facilmente, por ser desconfiado.

O fleumático, geralmente é calmo, frio, equilibrado e por isso a vida para ele é feliz e descompromissada; raramente explode em risos ou em raiva, conseguem fazer os outros rirem, mas ele mesmo não solta um sorriso sequer. É habilidoso para promover paz e conciliação.

O colério é ardente, vivaz, ativo, prático e voluntarioso. Por ser decidido e teimoso, torna-se auto-suficiente e muito independente. Por ser ativo, estimula os que estão ao seu redor, não cede sobre pressões. Possui uma firmeza no que faz, o que o faz frequentemente obter sucesso. 
 
 O sanguíneo é eufórico, vigoroso, vive o presente, esquece facilmente o passado e não pensa muito no futuro. Traz em si otimismo e acredita nas coisas, mesmo em meio às adversidades.
 
Em qual das categorias você se encaixa? Faça o teste de temperamento

/// Um fotógrafo — Christian Coigny

http://www.christiancoigny.com


/// Carne processada e a triste história de Safran Foer

O veterano jornalista Bob Baird, na redação do Journal News, em 2003

Se você visse como é feita a salsicha, não teria coragem de comê-la.

Quando descobriu que ia ser pai, o escritor Jonathan Safran Foer começou uma extensa pesquisa para saber mais sobre a alimentação de seu filho. Fez entrevistas, visitou fazendas orgânicas, fábricas de alimentos e abatedouros nos Estados Unidos.

A pesquisa resultou no seu primeiro livro de não-ficção, Comer Animais  (Rocco, 320 págs., R$ 41,50), que está na minha pilhinha de prioridades. É um relato de quem conhece a nojeira da comida processada, principalmente a carne, em suas mais diversas modalidades e consistências.

Você sabe, tenho vivo interesse por aquilo que anda na cabeça dos vegetarianos.

Tinha lido seu Extremely Loud & Incredibly Close, de 2006, que tem a tragédia de 11 de setembro como pano de fundo. E agora assisti a ”Tão forte e tão perto”, filme do inglês Stephen Daldry, inspirado no romance de Foer.

É de morrer de chorar.

Apesar das lambadas que andou levando da nossa crítica especializada, é um filme que precisa ser visto, pelo menos pela curiosidade de checar a atuação do decano Max von Sydow, num papel em que convence sem pronunciar uma única palavra.

“Tão forte e tão perto” é a história do menino Oskar Schell, de 11 anos, que sofre com a perda paterna no World Trade Center. Na cena inicial, Oskar está revoltado com o funeral simbólico do pai, “é um caixão vazio”, ele berra, aos prantos.

O trauma de não poder enterrar os seus, tão bem descrito nas tragédias gregas, e que modernamente ganha as manchetes dos jornais quando há uma calamidade de grandes proporções em que os corpos se desintegram.

Lembro-me de uma história assim, marcante, contada pelo jornalista Bob Baird, o homem da foto. Velho repórter do Journal News, um pequeno diário da região de West Nyack, no estado de Nova York, Baird me recebeu para um rápido estágio, vão-se lá quase dez anos. 

Baird me contou o drama de uma mulher que havia perdido o marido no 11 de setembro e que lutou deseperadamente — como, aliás, milhares de outros parentes na mesma situação – para encontrar seus restos mortais. Exames de DNA foram usados amplamente como forma de identificação dos despojos.

Até que, um dia, encontraram nos escombros o que parecia ser um dedo humano envolto por uma aliança de casamento. Na face interna do anel, a inscrição do nome da esposa. 

No pungente relato da mulher, publicado no Journal News, ficou claro que o funeral daquele pedaço de carne podre foi a única forma de sobreviver ao trauma.


/// Uma fotógrafa — Autumn Sonnichsen

http://www.autumnsonnichsen.com


/// São Paulo, túmulo do rock e da literatura

A coisa é tão feia que um cara como Criolo, que é ok, tem sido tratado por Chico Buarque e Caetano como a redenção absoluta. Retrato de Daryan Dornelles.

São Paulo não é o túmulo do samba. É o jazigo perpétuo do rock e da literatura.

A grande virtude de São Paulo, cidade que adoro, foi ter proporcionado uma vida razoavelmente cosmopolita a autores vindos de todos os estados da federação, a partir da segunda metade do século 20.

Desafio qualquer um dos caríssimos leitores a citar cinco romances importantes, muito importantes, escritos por autores paulistas.

Não adianta revirar a cova dos modernistas. Nem vasculhar na Mercearia São Pedro.

Desafio qualquer um dos caríssimos leitores a citar cinco canções importantes, de qualquer modalidade, escritas ou interpretadas por artistas paulistas.

Não vale falar do Ira!, do Ratos, Inocentes, Rita Lee carreira solo, tudo muito ruim, embora nós, paulistas, tenhamos por eles um afeto irracional.


/// A linda de suplex

Ilustra do Arthur Arnold

Ser uma linda de suplex não é para qualquer uma. Os homens, em geral, querem as lindas de suplex porque são garotas comuns, com suas roupas de ginástica apertadas, posando quase sempre para o namorado. Além das ancas jovens, há um tesão especial pelo fato de eles incentivarem a exposição delas na internet. Ela foi a linda de suplex de janeiro, mês em que completou vinte anos. Djoso-horace deseja profundamente ser pisado por uma linda de suplex. E vamos supor que ele tenha conseguido contatar a nossa estrela de janeiro para um programa com o consentimento do fidanzato.

Muitos sempre suspeitaram que Horace, obviamente, nunca deixara de ser uma das personas do apresentador de televisão Djoso-horace. O fato ficou claro quando ela chegou ao porão, apertou o botão do interfone e recebeu um clique seco da porta automática.

Foram os dois lances de escada mais demorados de sua vida. Afinal, ela sabia que iria encontrar-se com ninguém menos que Djoso-horace. Mas fingiu que era normal. Ele atendeu à porta num outfit de couro justo, cheio de tiras e fivelas de metal. A barriga caía-lhe fartamente sobre as pernas como uma saia adiposa, ocultando o escroto. Sua brancura contrastava com as correias negras que separavam suas duas mamas peludas, pendentes com pregadores nos mamilos. Não era normal. Ninguém acharia normal. Mas ela fingiu que estava tudo ok. Puta acha tudo, tudo, tuturututudo normal. Uma máscara negra encobria seu rosto famoso de televisão. Ela veio apenas linda, de suplex.

Ficou bem à vontade para escolher um entre os dez consolos da coleção de Djoso-horace. Um de cristal, grosso e liso. Ela pôs o cinto de couro na pélvis, encaixou-o e logo estava metendo a vara naquelas nádegas brancas imensas. Ele levava sem dar um pio. Cansada, ela tira o suporte, tira o legging de suplex, o tapa-sexo Calvin Klein e exibe um micropênis de quatro centímetros, duro. Surpraaaise! Ninguém poderia imaginar que a nossa linda de suplex tivesse um micropênis.

Não é normal. Ninguém acharia normal. Mas Djoso-horace achou normal e chupou a coisa por 15 exaustivos minutos. Depois, pediu que ela calçasse uma sandália com salto stiletto antes de caminhar em cima dele, afundando os pezinhos na banha, quase furando.

Os pés acabaram na boca, saliva por todo lado. Agora mija, ele pediu. Fez-se um enorme silêncio. O CD do Brian Ferry terminara, e no ar só havia a respiração de ambos. Foram os segundos mais demorados de sua vida.

Afinal, ela estava ali com ninguém menos que Djoso-horace. Mas fingiu que era tudo normal e pronunciou um sonoro não no momento em que pela primeira vez fitou os olhos miúdos atrás da máscara. Ele gozou de prazer, e ela saiu rebolando porta afora, linda, de suplex.

*Conto publicado em 2006, em O Homem que não gostava de beijos, pela editora Record. http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=4835&id_entrevista=179


/// As belezinhas polonesas do Flashdancers

Imagem meramente ilustrativa

Era uma tarde outonal, daquelas em que a luz do sol chega filtrada por uma brisa fresca que só há em Nova York. Naqueles dias, tinha visto taxis com um display exibindo o rosto de uma mulher e os dizeres Flashdancers – Gentlemen’s Club 52nd & Broadway. Muitos deles circulando por Manhattan.

Os taxistas muçulmanos, aliás, andaram constrangidos com os anúncios. Foram reclamar no Taxi & Limousine Commission, pedindo a proibição das inofensivas propagandas.

A propaganda, pudica como um catálogo da Sears

Broadway com 52, fachada discreta, uma escada dá acesso ao subsolo. O clube está no local onde um dia funcionou o mítico clube de jazz Birdland. De vez em quando, a fachada aparece naquela câmera externa do estúdio do programa do David Letterman.
 

Todos os clubes como o Flashdancers são parte de uma mesma cadeia, que também detém a marca New York Dolls, famosa. O gerente do FD é um tal Barry, uma figura conhecida, há fotos dele posando com garotas na internet.

Latinas, europeias do leste, mulatas e também espécimes daquilo que se chamava antigamente de white trash americano. Em plena luz do dia, enquanto os mercados mundiais estão comendo quente lá fora, os homens mais insuspeitos estão lá, sozinhos, cada qual num sofá, na espreita, vestidos com os as roupas que usam para trabalhar.

As poltronas cafonas cheiram a couro cabeludo. É o tipo de lugar que tem corrimão dourado.

$$$$

Para fazer qualquer coisa lá dentro é preciso — no caso de o sujeito não possuir os velhos e bons dólares americanos — comprar com cartão um dinheiro do tipo do do banco imobiliário chamado flash cash. E o que se pode fazer, além de beber, é conversar e pagar drinques até que a profissional comece a oferecer uma lap dance, que pode ser pública ou privada.

A lap dance é um instituição americana. Originalmente era uma dança erótica em que a mulher, quase sempre seminua, chegava a sentar no colo do conviva. Os americanos apreciam isso. Presenciei um cidadão, jovem, recebendo uma dessas danças. Ele não estava bebendo. Chegou, recebeu a dança como se estivesse se aliviando, e foi embora.

A praxe é que não se pode tocar. Na California, é lei. Você pode receber uma lap dance, mas isso não significa que pode colocar suas mãos sujas na profissional que a performa. É considerado inadequado. Portanto, sem graça.

O fim da Guerra Fria fez com que russas e polonesas invadissem os clubes. Elas estão por toda a parte, Marias Sharapovas zanzando para lá e para cá.


/// O vegetariano Morrissey inventou Renato Russo

Você pode perfeitamente substituir a carne por outras opções igualmente nutritivas

Renato Russo emulou Morrissey.
 
Não só copiou o gestual em suas performances como sempre aspirou ter o status de poeta do britânico. Tenho minhas dúvidas sobre se ambos podem ser apresentados como “bardos”, como é comum ver escrito na imprensa especializada por aqui.
 
O fato é que The Smiths foi importante e influenciou muita gente mundo afora. Uma epifania ocorreu quando comprei o LP Meat is a Murder (1985). Morrissey canta:
 
“Os aromas da cozinha não são familiares? E o cheiro profano do sangue sendo frito? A carne que você animadamente frita, a carne em sua boca, é você saboreando o sabor de assassinato”.
 
 
A canção foi trilha sonora de churrascos intermináveis. Quilos e quilos de carne consumidos avidamente, muito álcool, desde cedo. No interior de São Paulo, os meninos mais machos eram os que bebiam mais. Aliás, sempre fui considerado um dos mais machos, nesse sentido. Quando, na verdade, era apenas um dos mais bêbados.
 
Será que o velho Morrissey acabará se transformando num daqueles militantes intransigentes, defensor dos animais a la Brigitte Bardot, igualmente deprê e decadente?
Veremos.

/// O homem por trás da gostosa que se acha gorda

"Maciez é comfort"

No começo da década de 90 a gente descobriu o mundo pelo Mirc, o então popularíssimo internet relay chat por meio do qual era possível conversar e até trocar arquivos com as pessoas em tempo real, bem, quase real, havia um delay considerável, a conexão era discada, a interface era bem precária.

Aliás, o Mirc ainda existe http://www.mirc.com/

Havia grupos de pessoas legais que se reuniam em canais como o #Illuminati, um ambiente em que se falava abertamente sobre tudo, mas tudo muito refinado. Eu papeava sempre com um dos donos do canal, o @mojo, que sempre me pareceu muito afável e misterioso.

E não é que o @mojo, vim a saber muito depois, era o ótimo escritor gaúcho Daniel Pellizzarri, a.k.a @cabrapreta, criador do insuperável Tumblr Fuck Yeah! – Gostosa que se acha gorda?

Não conhece? Então vá ver http://gostosa.tumblr.com/

Se você não leu o Pellizzari, baixe o primeiro livro do moço, tenho certeza de que não vai ficar indiferente.

Eis aqui suas credenciais:

Oi. Sou Daniel Pellizzari. Vivo resmungando em @cabrapreta e tento contar a história do mundo com imagens no kaliyuga blues. Traduzi uns livros, editei mais alguns, escrevi outros tantos. Se você caiu aqui atrás da edição em PDF do meu primeiro livro, lançado em 2001, pode pegar. Também sou co-criador de uma HQ e às vezes esculpo drones mastodônticos sob a criativa alcunha de “cabrapreta”. Bueno, era isso; tome lá um abraço e até mais ver.