Tyson manda a direita em Frank Bruno. A imagem é da Allsport UK/Allsport

 

Na terça-feira (7/2) almocei com Sean Ingle, editor de esportes do site do Guardian. Especialista em redes sociais, ele está interessado em desenvolver novas maneiras de engajar sua crescente audiência. 

Sean vem de uma família de pugilistas. O pai trabalhou como treinador, o tio teve modesta carreira como lutador amador e isso bastou para que se tornasse um devoto do esporte. Aos 37 anos, mantém a forma em treinos esporádicos.

Recordamos os combates entre Frank Bruno — último grande campeão mundial britânico — e Tyson, nas décadas de 80 e 90. Sean tem uma memória prodigiosa, lembrou-se também da luta de Adilson “Maguila” Rodrigues contra Evander Holyfield.

Foi então que expliquei a Sean minha teoria sobre a iminente morte do boxe moderno, essa modalidade que floresceu justamente na Inglaterra, a partir do século 18.

Boxe e literatura

O mundo do boxe inspirou momentos de vivo debate na sociedade, como na vitória de Joe Louis sobre o alemão nazi-simpatizante Max Schmeling, em 1938, ou quando Muhammad Ali, no fim dos 60′s, recusou-se a lutar no Vietnã. 

O debate não se deu no ringue, mas nos jornais e revistas pelas mãos de bons escritores como Norman Mailer, Gay Talese, Pete Ham­ill, Joyce Carol Oates, George Plimpton, David Remnick, Budd Schulberg e A. J. Liebling. Recomendo a leitura deste livro.

Os autores reconheceram não só sua dimensão política, mas também o fato que o pugilismo – talvez mais do que qualquer outro esporte – é uma potente representação dos limites entre sucesso e fracasso, vida e morte.

Literatura e jornalismo, portanto, colocaram o boxe em outro patamar, envolto num charme que outras modalidades, hoje bastante populares, talvez nunca terão.

Mas a imprensa também contribuiu para alguns dos piores momentos do esporte, ajudando a máfia a construir reputações de lutadores fracos, com o único propósito de fraudar resultados e aumentar os lucros no mercado de apostas.

Coincidentemente, o boxe morreu quando todos temos obrigação de divulgar nossos balancetes repletos das mais nobres intenções de transparência, sustentabilidade e responsabilidade social. 

O boxe, ora com seus insípidos campeões ucranianos, morreu numa época em que a imprensa repensa seu papel e os abjetos reality shows são a principal modalidade de entretenimento televisivo.

O boxe perdeu para os marombados do MMA, sempre engalfinhados no chão como uma bruta máquina de carne de oito patas. A imagem (boa) é do Verissimo. 

O MMA, vocês sabem, é sobre quem é mais rápido para aniquilar o outro com uma joelhada na cabeça. 

Sean diz que o MMA tem crescido no Reino Unido, mas que ainda está longe de ser uma febre como é nos Estados Unidos e no Brasil.

Eu disse a ele que a morte do boxe tem a ver com a onda de vulgaridade que nos assola.