/// O renascentista do Brooklyn

 

Adam Miller, criador de uma nova mitologi apara o século 21, em seu estúdio, em Nova York

Adam Miller, criador de uma nova mitologia para o século 21, em seu estúdio, em Nova York

 

Desde a Idade Média, o autor do pecado original é representado na arte como um belo jovem incapaz de perceber a magnitude do equívoco que selou seu destino.

Assim é a figura de Adão nas obras Durer, Cornelius Galle, Giovanni Battista Paggi, Jacopo da Empoli, Mantegna e, claro, Michelangelo – você se recorda muito bem da clássica imagem em que ele faz contato com Deus na Capela Sistina.

Adam Miller, o pintor de 34 anos que vive em Nova York, no Brooklyn, nasceu no estado de Oregon, na costa Oeste americana, viveu em Portland – a cidade conhecida na América como o berço dos hipsters – e não deixa de ser ele também uma figura de mandíbula angulosa e olhos claros de águia como muitas vezes se nos apresenta o homem primordial nas pinturas, mas há nele, nos gestos e na maneira como fala, um desalinho e autoconsciência próprios de um artista genuíno.

Na adolescência foi praticante bissexto de artes marciais, acompanhou com interesse o boxe e sua cultura, mas na época não podia imaginar que Mike Tyson viria a ser comprador de um de seus quadros e nem que fosse se encontrar pessoalmente com Muhammad Ali. As celebridades, esses mitos modernos produzidos pela indústria cultural, são para ele um tema muito caro.

Adam cultiva costeletas, lê compulsivamente história e literatura medieval e curte a ficção de Cormac McCarthy. Não soube me dizer quem foi David Foster Wallace (escritor americano nerd que se suicidou em 2008). Ficou na média da escala do meu medidor de hipsterismo.

O menino Adam cabulava aulas para desenhar e terminava os dias no museu da cidade entre obras de arte. Um dia, antes de ir para casa, viu-se dentro de um prédio abandonado na vizinhança, antigo templo maçom que servia como depósito de entulhos do museu, centenários moldes de esculturas, outrora usados para ensinar a desenhar o corpo humano, quase desfeitos pelo tempo. Ele considera que a visão daquelas formas cristalizou a noção de que uma verdadeira obra de arte precisa respirar e ser mais viva do que a própria vida.

O livro de desenhos de Kenneth Clark ajudou a descobrir a dimensão trágica em Michelangelo e aos dezesseis foi estudar na Academia de Artes de Florença. A atmosfera da Renascença teve impacto decisivo nas escolhas que faria como artista. Os afrescos de Ghirlandaio (que Michelangelo ajudou a terminar quando era aprendiz), os maneiristas e barrocos que estudou na Europa, cada detalhe da figura humana, mínimas filigranas capilares, mãos, músculos, a arte para ele passou a ser uma forma de humanismo.

De volta aos Estados Unidos, com a vivência da arte clássica na bagagem, Adam Miller teria de lidar com a contradição inescapável de um americano médio que cresceu nas décadas de 80 e 90 sob a égide da dicotomia comunismo versus capitalismo, jovem filho de um século regido pela lógica dos mercados, também na esfera da arte.

A arte de Miller é, em certa medida, uma revolta e uma negação ao século 20, marcado pelo desprezo à tradição da pintura figurativa e pelo argentarismo dos agentes da pop art e da chamada arte conceitual que redundou em figuras como Damien Hirst.

É prematuro especular se há uma Renascença Made in Brooklyn de novos artistas interessados em reabilitar a pintura, mas é o próprio Adam quem cita os nomes Vincent Desiderio, Julie Heffernan, Steven Assael e Nicola Verlato como exemplos de jovens artistas que o inspiram e com cujas obras a sua guarda semelhanças. Diz-se influenciado pelo veterano norueguês Odd Nerdrum: “Gosto de artistas que, como ele, dominam composição, narrativa e técnica. Admiro seu destemor em pintar com o coração e testar os limites”.

Se você vai ao site do artista encontra desde seus primeiros desenhos em papel, passando pelas composições (2010 -2012), a série Entre Ruínas (2012) e a mais recente Crepúsculo em Arcádia (2013). Juntas, as obras (algumas consomem meses de trabalho) compõem o que parece ser o panteão de sua mitologia para o Século 21, repleta de ironia, sexo, desespero, sonho, dramaticidade, ceticismo em relação à ciência e tecnologia, hecatombes e descrença na economia como força motriz da vida humana.

O talento de Adam Miller é feito de duas qualidades raras, que nem sempre andam juntas: a virtude da técnica e a dimensão cerebral de um prodígio da narrativa capaz de perceber a magnitude do equívoco que selou o destino de todos nós. De certa forma, atualiza o retrato da desesperança na América produzido por Edward Hopper na primeira metade do século passado. Apenas.

 

 


/// O boxe morreu

Tyson manda a direita em Frank Bruno. A imagem é da Allsport UK/Allsport

 

Na terça-feira (7/2) almocei com Sean Ingle, editor de esportes do site do Guardian. Especialista em redes sociais, ele está interessado em desenvolver novas maneiras de engajar sua crescente audiência. 

Sean vem de uma família de pugilistas. O pai trabalhou como treinador, o tio teve modesta carreira como lutador amador e isso bastou para que se tornasse um devoto do esporte. Aos 37 anos, mantém a forma em treinos esporádicos.

Recordamos os combates entre Frank Bruno — último grande campeão mundial britânico — e Tyson, nas décadas de 80 e 90. Sean tem uma memória prodigiosa, lembrou-se também da luta de Adilson “Maguila” Rodrigues contra Evander Holyfield.

Foi então que expliquei a Sean minha teoria sobre a iminente morte do boxe moderno, essa modalidade que floresceu justamente na Inglaterra, a partir do século 18.

Boxe e literatura

O mundo do boxe inspirou momentos de vivo debate na sociedade, como na vitória de Joe Louis sobre o alemão nazi-simpatizante Max Schmeling, em 1938, ou quando Muhammad Ali, no fim dos 60′s, recusou-se a lutar no Vietnã. 

O debate não se deu no ringue, mas nos jornais e revistas pelas mãos de bons escritores como Norman Mailer, Gay Talese, Pete Ham­ill, Joyce Carol Oates, George Plimpton, David Remnick, Budd Schulberg e A. J. Liebling. Recomendo a leitura deste livro.

Os autores reconheceram não só sua dimensão política, mas também o fato que o pugilismo – talvez mais do que qualquer outro esporte – é uma potente representação dos limites entre sucesso e fracasso, vida e morte.

Literatura e jornalismo, portanto, colocaram o boxe em outro patamar, envolto num charme que outras modalidades, hoje bastante populares, talvez nunca terão.

Mas a imprensa também contribuiu para alguns dos piores momentos do esporte, ajudando a máfia a construir reputações de lutadores fracos, com o único propósito de fraudar resultados e aumentar os lucros no mercado de apostas.

Coincidentemente, o boxe morreu quando todos temos obrigação de divulgar nossos balancetes repletos das mais nobres intenções de transparência, sustentabilidade e responsabilidade social. 

O boxe, ora com seus insípidos campeões ucranianos, morreu numa época em que a imprensa repensa seu papel e os abjetos reality shows são a principal modalidade de entretenimento televisivo.

O boxe perdeu para os marombados do MMA, sempre engalfinhados no chão como uma bruta máquina de carne de oito patas. A imagem (boa) é do Verissimo. 

O MMA, vocês sabem, é sobre quem é mais rápido para aniquilar o outro com uma joelhada na cabeça. 

Sean diz que o MMA tem crescido no Reino Unido, mas que ainda está longe de ser uma febre como é nos Estados Unidos e no Brasil.

Eu disse a ele que a morte do boxe tem a ver com a onda de vulgaridade que nos assola.