EPimenta Edward Pimenta

Pescarias na rede, literatura, arte e erotismo

/// Carne processada e a triste história de Safran Foer

O veterano jornalista Bob Baird, na redação do Journal News, em 2003

Se você visse como é feita a salsicha, não teria coragem de comê-la.

Quando descobriu que ia ser pai, o escritor Jonathan Safran Foer começou uma extensa pesquisa para saber mais sobre a alimentação de seu filho. Fez entrevistas, visitou fazendas orgânicas, fábricas de alimentos e abatedouros nos Estados Unidos.

A pesquisa resultou no seu primeiro livro de não-ficção, Comer Animais  (Rocco, 320 págs., R$ 41,50), que está na minha pilhinha de prioridades. É um relato de quem conhece a nojeira da comida processada, principalmente a carne, em suas mais diversas modalidades e consistências.

Você sabe, tenho vivo interesse por aquilo que anda na cabeça dos vegetarianos.

Tinha lido seu Extremely Loud & Incredibly Close, de 2006, que tem a tragédia de 11 de setembro como pano de fundo. E agora assisti a ”Tão forte e tão perto”, filme do inglês Stephen Daldry, inspirado no romance de Foer.

É de morrer de chorar.

Apesar das lambadas que andou levando da nossa crítica especializada, é um filme que precisa ser visto, pelo menos pela curiosidade de checar a atuação do decano Max von Sydow, num papel em que convence sem pronunciar uma única palavra.

“Tão forte e tão perto” é a história do menino Oskar Schell, de 11 anos, que sofre com a perda paterna no World Trade Center. Na cena inicial, Oskar está revoltado com o funeral simbólico do pai, “é um caixão vazio”, ele berra, aos prantos.

O trauma de não poder enterrar os seus, tão bem descrito nas tragédias gregas, e que modernamente ganha as manchetes dos jornais quando há uma calamidade de grandes proporções em que os corpos se desintegram.

Lembro-me de uma história assim, marcante, contada pelo jornalista Bob Baird, o homem da foto. Velho repórter do Journal News, um pequeno diário da região de West Nyack, no estado de Nova York, Baird me recebeu para um rápido estágio, vão-se lá quase dez anos. 

Baird me contou o drama de uma mulher que havia perdido o marido no 11 de setembro e que lutou deseperadamente — como, aliás, milhares de outros parentes na mesma situação – para encontrar seus restos mortais. Exames de DNA foram usados amplamente como forma de identificação dos despojos.

Até que, um dia, encontraram nos escombros o que parecia ser um dedo humano envolto por uma aliança de casamento. Na face interna do anel, a inscrição do nome da esposa. 

No pungente relato da mulher, publicado no Journal News, ficou claro que o funeral daquele pedaço de carne podre foi a única forma de sobreviver ao trauma.


/// O cinema era mais divertido ou Sobre Sérgio Bianchi

Serjão é, antes de tudo, um punk

Lembro-me da sensação de entrar no cinema, de repente, no meio da tarde, e pegar o filme que tinha acabado de começar, qualquer um. Era quase sempre no Cineclube Elétrico, no Cine Bijoux, no CineSESC ou no MIS.

Hoje, dizem, compram-se bilhetes pela internet. Estou fora.

O acaso pode trazer muitas surpresas. E atualmente não tem havido muito espaço para o acaso.

Muitas e boas supresas. Mistérios e Paixões (1991), direção de David Cronenberg, baseado no romance Naked Lunch, de William Burroughs, uma das mais gratas. O discreto charme da Burguesia, de Buñuel. E os filmes de Sérgio Bianchi.

Conheci Sérgio Bianchi antes do lançamento de A Causa Secreta (1994). Ele morava na rua Augusta e andava por ali, conversava com jovens cinéfilos no Esfiha Chic, em frente ao Cine Belas Artes. Ele brincava que um dia ainda faria um filme definitivo sobre as mais diversas fomas de sodomia.

Uma vez ele exibiu Romance (1988), Mato Eles? (1982) e Maldita Coincidência (1979) no Centro Cultural São Paulo. Ao final da exibição, debatia com plateia. Discussões sobre a produção nacional. “Claro que o governo tem de subsidiar o cinema. É como investir em bibliotecas. É como dar lápis para as crianças na escola”, dizia.

Mato Eles? é um clássico. Trata-se de uma denúncia da situação dos índios Xavantes, Guaranis e Xetás, espremidos no meio de uma briga litigiosa entre o Grupo Slaviero, a Funai e o Governo do estado do Paraná. Expulsos de sua reserva, são obrigados à trabalhar no corte e extração de madeira de sua própria reserva, numa madeireira criada pela Funai.

Nem mesmo o próprio cineasta escapa da denúncia: a cena em que o cacique guarani pergunta ao diretor “quanto dinheiro ele ganha” pra filmar os índios pode ser considerada uma das mais emblemáticas do cinema brasileiro (a partir de 5’02”).

Se ainda não viu, procure Cronicamente Inviável, que aborda o caos social em diversas regiões e classes sociais do Brasil, e Quanto vale ou é por quilo?, que trata da questão do negro brasileiro. Vale a pena.

O cinema de Sérgio Bianchi é punk, um laivo de autenticidade numa época de pasteurização.