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Garrafologia

por Marcos Nogueira

As garrafas – especialmente o interior delas – servem de inspiração para essa coluna



Loiras de categoria

No verão, experimente se refrescar com cervejas de puro malte.

Há algum tempo bato na tecla de que é legal diversificar na hora de beber cerveja: experimentar vários estilos, de várias nacionalidades, e prezar
mais a qualidade que a quantidade. Mas aí chega o verão, e todo mundo quer refrescar a goela com uma cervejinha gelada. Não faz sentido propor que o sujeito esnobe os amigos botequeiros e passe as noites à base de tripel belga e pale ale americana. Mesmo porque não há bolso que aguente: depois da segunda garrafa de R$ 30, o cidadão migra para algo de preço mais em conta.

Uma boa alternativa é beber cervejas do mesmo tipo das loiras de garrafa grande – as lager claras, que se dividem em vários subtipos –, mas feitas com puro malte. Para quem não conhece o jargão, são as bebidas feitas somente com malte de cevada, água, lúpulo e fermento. Não é garantia nem pré-requisito de qualidade, mas indica cuidado no preparo. Nas marcas mais baratas, o malte é misturado a arroz, milho, extratos e carboidratos diversos para maximizar o rendimento do processo.

Temos algumas boas novidades nessa seara. Uma delas é a Santa Fé, produzida pela cervejaria Premium, de Frutal (MG), que chega em garrafas de 600 ml e latões de 473 ml (equivalente a um pint americano). No formato long neck, o lançamento mais ambicioso do ano é a Duff – marca favorita de Homer Simpson que, por um descuido dos detentores dos direitos do desenho animado, foi patenteada por um grupo mexicano. Aqui no Brasil, ela é uma lager puro malte feita pela Saint Bier, de Forquilhinha (SC). A mesma cervejaria passou a produzir a honesta lager Otus da Coruja, que tem sede original em Porto Alegre. Também de Santa Catarina vem a gostosa Bierland Pilsen. Da outra ponta do Brasil, a Amazon River só agora passou a ser distribuída fora do Pará. Boa chance para prová-la.


Champanhe on the rocks

Gelo sai do balde e vai para o copo nos drinques do próximo verão

A Moët & Chandon está lançando com estardalhaço, pompa e circunstância um produto singular: um champanhe para ser tomado com cubos de gelo. O que poderia parecer heresia alguns anos atrás é a grande aposta do mercado das bebidas de luxo para o verão que se aproxima – repetindo o auê feito na Europa, onde a maison Piper Heidsieck também lançou um produto semelhante. Lá fora, há também vinhos rosés que investem no marketing do piscine – o jeito Saint-Tropez de chamar uma bebida servida com gelos “nadadores”. Por aqui, só chegou a Ice Impérial, só enquanto durar o verão e só em lugares como Jurerê Internacional, em Florianópolis.

O que esse champanhe tem de especial, além do preço de R$ 350? Tratase de uma bebida demi-séc (com mais açúcar que uma brut), que, segundo a Moët, tem estrutura complexa o bastante para aguentar alguma diluição sem ficar aguada. A vantagem do gelo é óbvia: depois de servido no copo, o vinho continua frio sob o sol escaldante. Para arrepiar ainda mais os puristas, a Moët sugere ao consumidor incrementar o drinque com folhas de hortelã, cascas de limão ou de grapefruit.

Ok, então estamos falando de coquetéis. A ideia de drinques à base de champanhe e outros vinhos não é nova, mas a tendência chegou forte nos últimos verões. Para fazê-los, você pode pagar os R$ 350 da Ice Impérial se quiser. Fica muito bom, acredite. A boa notícia é que você não precisa.

A verdade é que, de certo modo, essas bebidas glamourosas disputam o mesmo nicho de consumo que a cerveja mais humilde: um líquido gelado para refrescar à beira do mar ou da piscina. Quanto mais componentes o coquetel tiver, menos você precisa se preocupar em gastar com as borbulhas.

Um prosecco decente ou uma garrafa nacional de qualidade razoável é tudo o que você precisa para fazer, por exemplo, o spritz: três partes de espumante, duas de aperitivo Aperol, bastante gelo, um pouco de água gasosa e uma rodela de laranja. Você pode substituir o aperitivo por Campari ou Cynar, a depender de quanto você gosta de coisas amargas.

No campo dos vinhos sem bolhas, o drinque refrescante tradicional é a sangria, que pede um tinto barato (só cheque o rótulo para ver se ele é feito com uvas viníferas), gelo e opcionais como frutas, sucos e água com gás. Se o vinho usado for branco, o nome muda para clericot.
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Marcos viu em algum bar uma placa com a seguinte frase: “Enquanto houver gelo, há esperança”.


Novidades bem sacadas

Bom marketing acompanha o lançamento de uma boa bebida stá cada vez mais pesada a concorrência no mercado de bebidas. Para se diferenciar dos rivais, os fabricantes investem em lances que têm tanto a ver com o marketing quanto com o líquido na garrafa: pode ser uma embalagem bacana, o reposicionamento da marca (com ou sem mudanças no produto) ou uma novidade acompanhada de uma historinha para contar – eles sabem que nós, jornalistas, mordemos fácil a isca da boa história. Então, vamos às iscas que eu mordi este mês.

Vinho
O enólogo português Paulo Laureano resolveu fazer vinho em talhas (grandes ânforas) de barro, método usado pelos antigos romanos e preservado até hoje em algumas comunidades rurais lusas. O Tradições Antigas leva uvas tintas de variedades portuguesas e fermenta por oito dias na tal talha, sendo depois transferida para tanques de inox. O resultado, longe de ser ruim, não é lá muito diferente dos vinhos modernos. Mas a pequena talha em que o vinho é vendido (pode vir também na garrafa de vidro) dá um belo presente.

Cachaça
Da Santo Grau chega a Século XVIII, feita em Coronel Xavier Chaves (MG) – onde a marca tem um alambique que ela diz ser o mais antigo em funcionamento no Brasil. O lote especial descansou por dez anos numa adega, sem passar por madeira.

Tequila
A novidade mais relevante é a chegada da El Jimador, marca popular que passou a fazer tequila 100% de agave – antes, fabricava tequila mista, com outras aguardentes. A outra é a série Lucha Libre da 1800, basicamente o bom produto de sempre em garrafas com motivos de luta livre assinados por artistas consagrados.

Cerveja
A micro Bamberg lança a Camila, Camila. É uma pilsen de estilo checo, feita com puro malte e carregada no lúpulo. É uma homenagem à música homônima do Nenhum de Nós (explica-se: Sady Homrich, baterista da banda, é um dos grandes divulgadores da cultura cervejeira no Sul).
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Marcos gosta de bebida com ou sem marketing.


Lúpulo, parente da maconha

Um pouco sobre a plantinha culpada pelo amargor da cerveja

Lúpulo é uma palavra esquisita que, de uma hora para outra, virou lugar-comum em comerciais de cerveja. Até as loirinhas mais simples, na hora de se venderem, alardeiam que usam lúpulo daqui ou dali – mesmo que em quantidade imperceptível – sem explicar o que é essa coisa e como ela interfere na bebida.

Se você não gostou de cerveja a primeira vez que tomou, provavelmente isso é culpa do lúpulo. É essa florzinha, parente da maconha, que dá o amargor da cerveja. E também é ela responsável por vários aromas presentes na bebida. O lúpulo é para a cerveja o que o orégano é para a pizza: entra em pequena quantidade, mas faz toda a diferença.

Alguns estilos levam mais lúpulo que outros. Dentre os tipos mais conhecidos de cerveja, a IPA (india pale ale) é um exemplo de cerveja bem lupulada – como a plantinha tem propriedades conservantes, ela era usada em quantidades brutais nos barris embarcados para abastecer as tropas britânicas que ocupavam a Índia no século 19.

Mas a IPA normal é quase docinha perto de coisas que são feitas por aí. Um passatempo de muitos cervejeiros artesanais é fazer bebidas carregadas em lúpulo, às vezes até o limite do amargor suportável – tendência que começou nas microcervejarias americanas. Uma técnica bastante em voga é o dry hopping, em que mais lúpulo é adicionado à cerveja quando ela está terminando de fermentar, potencializando o amargor, medido pela unidade IBU (sigla em inglês para International Bitterness Unit).

Quando não há exagero, essas cervejas muito lupuladas (com 50, 100 ou até 150 IBU) chegam a ser viciantes. A experiência pode ser estranha para quem está acostumado às pilsen nacionais (que tem uns 4 IBU; a pilsen checa tem o dobro disso), mas vale insistir até o paladar acostumar. Não se esqueça de que até a cerveja mais aguada parece amarga demais para quem bebe pela primeira vez. A seguir, eu sugiro alguns bons  rótulos em que o lúpulo está em destaque.


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Marcos foi até a Alemanha beber umas cervejas, mas volta logo.


Sobreviver a um jantar de vinhos

Como não parecer jeca nem esnobe num encontro de amigos

Harmonização de vinho com comida pode ser um conceito utópico em jantares com grupos de amigos. Sempre há os metidos a sommelier e aqueles que acham um roubo qualquer coisa acima do malbec de 20 paus do supermercado. Se o negócio for na casa de alguém, a educação manda cada convidado levar uma garrafa – e as chances de termos um mix meio bizarro são bastante grandes. Num restaurante, cada um pede o que quer, mas geralmente todos dividem o mesmo vinho.

Ou seja, é quase impossível que todos saiam 100% contentes com a escolha. Mas, seguindo algumas regrinhas fáceis, você consegue sair do jantar satisfeito e com a dignidade intacta.

  1. Se alguém no grupo entende ou diz entender de vinho, deixe a escolha a cargo dessa pessoa. Assim, você se livra de uma chateação. Por mais que você não goste do vinho, finja que gostou.
  2. Se você for encarregado da escolha, use o bom senso no que diz respeito à grana. Para saber quanto os outros estão dispostos a pagar, reduza a escolha a duas opções em dois níveis de preço. Caso a resposta mostre que ninguém na mesa entende de vinho, tipo um “tanto faz”, vá no mais barato. Se alguém sugerir um vinho diferente dos que você listou, passe a bola adiante para essa pessoa – deixe que ela escolha as próximas garrafas..
  3. A não ser que você esteja numa churrascaria ou num restaurante de peixes, vai ser difcil fazer uma escolha que combine com os pratos de todo mundo. Pergunte se seus amigos preferem tinto ou branco e não tenha pudor de quebrar regras. Se o povo quiser comer linguado e tomar vinho tinto, relaxe e aproveite.
  4. O sommelier está lá para ajudar, não para empurrar garrafas caras. Confie nele, mas não se sinta obrigado a seguir suas recomendações.
  5. Num restaurante, só devolva o vinho se ele estiver absolutamente intragável. Há a chance de você entrar numa discussão constrangedora com o sommelier caso o defeito não seja muito evidente.
  6. Você pode girar discretamente a taça e cheirar o vinho, também com discrição. Mas cheirar a rolha e sorver a bebida fazendo barulho é coisa de gente besta.
  7. Se o jantar for na casa de alguém, procure saber de antemão o cardápio, o gosto do anfitrião e a faixa de preço dos vinhos que serão abertos. Isso evita que você pareça pão-duro, ignorante ou esnobe.
  8. Caso alguém leve vinho barato e ruim, aceite. Se for muito ruim mesmo, dê de beber ao vaso sanitário, de fininho, sem ninguém ver.

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Marcos é pago para beber vinho, entre outras coisas.


Uma branquinha, por favor

Cachaça não precisa ser envelhecida para ser boa

Desde que a cachaça recuperou a dignidade e até ganhou algum prestígio, ela é protagonista de duas tendências nos bares e lares do Brasil: a adoção da caipirinha como símbolo de união nacional e a valorização da cachaça artesanal envelhecida em madeiras nativas como umburana e bálsamo. Os dois movimentos, positivos, acabaram prejudicando a qualidade média da cachaça branca. Na cabeça do bebedor médio, pinga boa é pinga envelhecida – boa demais para ser misturada com limão. Na caipirinha, diz o senso comum, a pinga não precisa ser tão legal. Mas precisa ser branca.

O que acontece então? A caipirinha standard leva aguardente industrial – feita com álcool retificado de grandes usinas. Dá para fazer muito melhor.

A boa notícia é que existem algumas poucas cachaças brancas feitas artesanalmente. A Santo Grau, por exemplo, vende dois rótulos de duas procedências – Paraty (RJ) e Coronel Xavier Chaves (MG). Da mesma localidade mineira vem a Jacuba Prata. Em Nova União, também em Minas, destila-se a Germana Soul – irmã mais nova da famosa cachaça envelhecida que vem na garrafa empalhada. Como característica comum, estas pingas preservam o sabor da cana, mas sem a agressividade da aguardente barata.

Merecem atenção também as marcas internacionais Leblon e Sagatiba – esta, destilada várias vezes, como uma vodca,
o que a deixa neutra como… vodca.

A obrigatoriedade da cachaça branca na caipirinha é um purismo com que eu não concordo. Acho que cada um deve pôr o que bem entender em qualquer drinque – e um bom barman pode fazer ótimas variações de caipirinha com cachaças envelhecidas e frutas diversas. Mas a receita clássica, aquela que está registrada na Associação Internacional dos Bartenders, leva açúcar, limão taiti, gelo e cachaça branca – que, quando é feita com capricho, também pode ser tomada pura sem parecer que você engoliu um gato.

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Marcos é cachaceiro (no bom sentido)


Deu Brasil na Copa da cerveja

Paulistas levaram grande prêmio em concurso na Argentina

Escrevo esta coluna logo após a Great South Beer Cup, um concurso de cervejas artesanais realizado em maio em Buenos Aires – a primeira competição a comparar os produtos de microcervejarias de vários países da América do Sul. Foi uma espécie de Copa América da cerveja. Não pude voar para lá, mas, olhando os resultados, dá para ver que o Brasil se saiu bem nesse torneio.

Para dar uma noção um pouco melhor de como a coisa funciona, a rivalidade é menor que no futebol: cervejeiros são uma classe unida, mesmo quando brasileiros, argentinos e chilenos disputam a mesma medalha. E a competição não se dá por comparação direta entre os concorrentes. Os jurados avaliam cada bebida e dão uma nota para ela. Dependendo da soma das notas, a cerveja ganha medalha de ouro, prata ou bronze – ou nenhuma medalha. Se nenhum participante atinge a nota mínima para levar bronze, a categoria fica sem premiação.

Vamos aos resultados. A cervejaria Bamberg, de Votorantim (SP), levou o prêmio mais cobiçado do torneio, o de cervejaria do ano. No quadro de medalhas, ficaríamos em segundo lugar, atrás dos donos da casa: eles levaram 21 medalhas no total, contra 14 nossas. Nada mau, considerando que havia 48 cervejarias argentinas e 13 brasileiras na competição. Foram só quatro medalhas de ouro, duas para a Argentina e uma para o Uruguai. A outra foi para a Baden Baden Golden, uma ale de trigo aromatizada com canela, feita em Campos do Jordão (SP). Das nove pratas que recebemos, apenas uma foi suplantada por um ouro – as restantes, entregues para a catarinense Eisenbahn, para a paranaense Bodebrown, para a Bamberg e para a Baden Baden, foram as campeãs da categoria. O mesmo vale para os bronzes da paulista Colorado e da Eisenbahn, dois dos quatro que trouxemos para casa.

Marcos não foi à Argentina nem ganhou medalha, mas fica contente em beber as cervejas campeãs


Beber no trabalho

Risadas da happy hour no escritório vêm com boas ideias

Há um frigobar no centro geométrico da redação da revista VIP. Ele é nosso e ninguém tasca. Eu poderia dizer que ele está aqui para que eu possa degustar profissionalmente as cervejas que a redação recebe, mas isso seria mentira. O frigobar está aqui porque a gente bebe em serviço. E gosta de cerveja gelada: as tentativas de ocupar o espaço da nossa geladeirinha com frutas e iogurte são reprimidas com palavras duras. Os reincidentes são sujeitos a bullying.

Não que a gente encha a cara durante o expediente. Ninguém quer fazer apologia do alcoolismo, e nossas cervejas são tomadas com muita disciplina. Abaixo, eu listo algumas regras aplicadas aqui que podem ser úteis para outros escritórios.

Don Draper, de Mad Men: pode beber, mas apaga esse charuto

1. Na VIP, nós bebemos somente em horários pré-combinados: no final das tardes de sexta-feira, nas reuniões de pauta ou nos já famosos encontros com os leitores. Almoços regados a cerveja ou vinho são bem-vindos quando o ritmo do trabalho está mais tranquilo.

2. Ninguém toca nas garrafas de cachaça e vodca que sempre chegam aqui. No seriado americano Mad Men, o uísque circula livremente no escritório: isso já foi normal e ainda hoje pode ser feito sem nenhum problema em ocasiões excepcionais. Mas é inegável que o acesso a uma garrafa aberta de destilado facilita a perda de controle da situação… isso não é bom no trabalho.

3. Na nossa happy hour, é terminantemente proibido urinar nos cestos de papel e comer torresmo sobre o teclado.

Dito isto, o motoboy da entrega de cerveja já virou bróder da redação.

Beber sem exagero é a melhor maneira de criar um ambiente socialmente interessante. As conversas ficam mais divertidas, as mulheres ficam mais bonitas, as pessoas perdem o medo de dizer aquelas coisas ridículas que, no fim das contas, podem ser geniais. Por que não no trabalho? Se fôssemos neurocirurgiões ou pilotos de avião, acho que não seria o caso. Mas jornalistas trabalham com ideias, e elas surgem aos borbotões em conversas informais regadas a cerveja. Se a segunda-feira mostrar que essas ideias são um lixo, elas vão para o lixo e ninguém se machuca. Acontece de vez em quando de elas serem ótimas: um bom exemplo é a decisão de comprar um frigobar para a redação porque, sem ele, a segunda latinha nunca estava gelada o bastante.


Cerveja em três níveis

Existem algumas formas de classificar cerveja, como o estilo ou o país de origem. Outra é identificar o público que vai comprá- la. Existem cervejas feitas em quantidades absurdas para as multidões. Essas, eu e você conhecemos desde a primeira vez em que pusemos a bunda numa cadeira de bar. Para um público menor, disposto a explorar novos aromas e sabores, há cervejas artesanais em todos os  estilos possíveis. Mais recente é o fenômeno da cerveja de luxo, que mira em muitos poucos de poder aquisitivo muito alto, um produto (que pelo menos deveria ser) extraordinário.

Nos últimos dias, provei lançamentos dessas três categorias. Começando pelas industriais, a importadora Wine Society trouxe numa leva só quatro rótulos australianos: Tooheys New, James Boag’s, Hahn Premium e XXXX Bitter. Todas são lagers claras feitas com malte e cereais não maltados (milho, arroz etc.), como as grandes marcas brasileiras. Todas são ligeiramente mais amargas e aromáticas que as similares daqui, com diferenças sutis entre uma e outra. Todas são indicadas para quem quer variar de loira e saber como bebe o australiano médio.

Mudando para as artesanais, a Göttlich, Divina! é uma receita do cervejeiro carioca Leonardo Botto produzida em Joinville, Santa Catarina. Trata-se de uma pilsen extra com o amargor bombado por dois fatores: o dry hopping, método em que o lúpulo é adicionado depois que a cerveja já está pronta, e o guaraná que entra na receita. A cerveja não tem gosto de guaraná, mas a frutinha tem cafeína e transforma cada copo numa dose de energético.

No campo das superultramegapremium, a Infinium chegou fazendo estardalhaço. Projeto conjunto da alemã Weihenstephaner (a cervejaria mais antiga do mundo) com a americana Samuel Adams (a mais inovadora), é feita com receitas diferentes em cada um dos dois países. Eu bebi a versão germânica, que é refermentada em tanques pelo método charmat (usado para vinhos espumantes). A garrafa e a rolha também remetem ao champanhe, e a cerveja em si é uma ale com sotaque belga feita com a lei da pureza alemã, complexa e levemente adocicada.

XXXX Bitter
R$ 7 (375 ml), em wineville.com.br
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Tooheys New
R$ 7 (375 ml), em wineville.com.br
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James Boag’s
R$ 10 (375 ml), em wineville.com.br
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Hahn Premium
R$ 9 (375 ml), em wineville.com.br
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Göttlich, Divina!
R$ 17,90 (600 ml), em puromalte.com.br
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Infinium
R$ 138 (750 ml, preço sugerido)


Não é bem assim

Mitos e meias-verdades sobre cerveja, vinho e cachaça

Você já deve ter ouvido que…
…cerveja escura é mais forte que a clara
Agora pegue uma latinha de Guinness, a cerveja escura favorita de 95% dos caras que eu conheço. Olhe o rótulo atentamente: está lá, apenas 4,2% de álcool. Se por acaso você tiver por perto uma Leffe Blond – uma ale belga clarinha e bem popular –, notará que o teor alcoólico é de 6,6%. Nem é preciso ir até a Bélgica… a Brahma tem 5%!

A cor da cerveja não está necessariamente relacionada à sua potência. Algumas cervejas escuras são realmente mais concentradas, densas e alcoólicas, boas inclusive para maturar em barril. Mas essas representam uma parcela mínima das negras que você encontra por aí. A cor intensa significa, na melhor das hipóteses, que a cervejaria usou maltes tostados. Na pior, quer dizer que puseram um corante na sua cervejinha clara de sempre.

…vinho branco é para peixe, tinto combina com carne

A regra vale, mas não é tão rígida assim. A razão para se evitar peixe com vinho tinto são os taninos, substâncias adstringentes presentes na casca das uvas vermelhas. Em contato com peixes de sabor intenso, os taninos produzem uma sensação metálica, desagradável, na boca. Agora, existem vinhos tintos com pouco tanino: o pinot noir é um caso clássico e combina perfeitamente com o salmão e o atum. Peixes de sabor mais suave também são candidatos a harmonizar com tintos, especialmente se a receita levar elementos terrosos como cogumelos ou bacon.

A carne bovina costuma pedir tintos, mas, se ela vier num prato muito condimentado ou picante (pense em culinária asiática), um branco ácido e aromático não cai mal. Porco pode combinar com tintos, brancos ou rosés, dependendo da receita e do gosto do freguês. Aliás, esse é o fator mais importante. Se você não vê nada errado em comer picanha com vinho branco, não dê ouvidos aos bestas que escrevem sobre vinho.

…caipirinha é com cachaça branca

Para os puristas, caipirinha leva cachaça branca, limão-taiti, açúcar refinado e gelo. Para o resto do universo, a palavra “caipirinha” há algum tempo passou a designar toda uma categoria de drinques com frutas, ervas e/ou especiarias maceradas, mais algum destilado ou até fermentado (alguém vai de saquê?). Nesse cenário, cachaças envelhecidas são perfeitamente aceitáveis, se não desejáveis. Você pode criar à vontade, mas precisa levar em conta que a madeira do barril vai agregar aromas que precisam combinar com os outros elementos do coquetel. Pode ser delicioso, pode ser desastroso. Se quiser dar uma de barman inventivo, faça testes e prove suas crias antes de servi-las aos outros.

Marcos gosta de caipirinha de limão-cravo com cachaça envelhecida em bálsamo.