É possível fazer com que ela preste atenção em outra coisa além do smartphone?

Surgiu uma mulher insuportável. Vamos chamar assim: a Mulher-Celular.

É fácil reconhecê-la. Numa mesa de bar, ela dá mais atenção ao celular do que às pessoas que estão ali a seu lado.

O celular parece ter um poder erótico sobre ela equivalente ao que teve, em outra geração de mulheres, o vibrador. A diferença é que o vibrador era para uso privado, e o celular para uso público – e constante.

Ela faz múltiplas coisas com ele em qualquer circunstância. Responde a e-mails, tuíta, entra no Facebook para saber as fofocas. Tira fotos, consulta o Google, passa pelo Skype para falar com uma amiga remota. Pode fazer do telefone um espelho improvisado para checar a maquiagem. Só não dá atenção a quem está a seu lado.

Houve um tempo em que chegou a vigorar uma etiqueta informal em relação ao celular. Em público, era elegante ou não usá-lo ou, em casos extremos, usar com parcimônia.

Isso acabou.

Não sou implicante. Mas acho que temos que ter baixa tolerância com a Mulher-Celular. Minha recomendação é num primeiro momento tentar alertá-la e educá-la, caso você ache que o esforço valha a pena. Num segundo momento, se nada mudar, adeus. Há de haver ainda alguém que prefira você ao celular.

Antes que as mulheres reclamem, admito. Também se reproduz com velocidade acachapante, nas mesas de bar, o Homem-Celular. E talvez você seja um deles.

Para homens e mulheres que sejam vítimas dos celulares, trago aqui uma cena memorável de um trailer que vi recentemente. Pode servir de inspiração. Não lembro o nome do filme, mas a passagem de que falo está fresquíssima em minha mente. Kate Winslet tem um marido que fica o tempo todo no celular.

Eles estão jantando fora. Toca o telefone. Ele pede licença e atende. Há uma reunião de família. Toca o telefone. Ele pede licença e atende. Em suma, o personagem passa o filme pedindo licença para atender o telefone.

Até que Kate Winslet apanha o aparelho e o atira no aquário.

Pense nisso.

Se não houver um aquário ao alcance, um copo de cerveja, numa mesa de bar, pode servir perfeitamente.

Paulo Nogueira é jornalista e colaborador da Editora Abril em Londres