Autor

Saideira VIP

As crônicas bem-humoradas que fecham todas as edições de VIP.



70 anos de Ali

Ele brigou no ringue por seus títulos de boxe e brigou fora dele para combater o racismo. Alegre, desbocado, artístico, técnico, inovador, Muhammad Ali transcendeu o esporte como nenhum outro. Um mito para o qual outros mitos prestaram reverência – Por Marcelo Orozco

Que os reis, deuses e gênios de outras modalidades desculpem, mas Muhammad Ali é o maior ícone saído do esporte. Um mito pop e social. Ele faz 70 anos em 17 de janeiro, fragilizado pelo Mal de Parkinson causado pelos socos que tomou nos ringues e com a imagem histórica intacta graças a estes fatores:

O boxeador
Nos ringues, Ali foi brilhante, vencedor e inovador. Campeão olímpico e três vezes campeão mundial profissional (aos 22, 32 e 36 anos). Inteligente e estratégico, aplicava golpes certos na hora certa sem desperdício espalhafatoso de força. Superou Golias demolidores e se esquivava da maioria dos socos com uma agilidade incomum para m peso-pesado. E demoliu o clichê de que lutador deve bancar o guerreiro com cara de mau: sorria, dançava, zombava. Criou alegria num meio bruto.

O ativista
Ali aproveitou seus triunfos para ser ouvido num assunto sério: o racismo, ainda fortíssimo nos Estados Unidos dos anos 1960. Nascido com o nome de Cassius Marcellus Clay no segregador Sul americano, ele viveu ingenuamente até não ser atendido em um restaurante logo após ter sido campeão olímpico em 1960. Ferido com a injustiça, converteu-se aos engajados Muçulmanos Negros de Malcolm X e mudou seu nome para Muhammad Ali depois de ganhar o título mundial em 1964.
Seus ataques à discriminação pareciam apenas bravata. Até que ele tomou uma atitude radical: recusou-se a servir na Guerra do Vietnã em 1967. Para ele, não fazia sentido combater um povo distante por um país em que os negros eram tratados como pessoas de segunda classe. Teve seu cinturão cassado, foi proibido de lutar e esteve bem próximo de ir preso. Manteve-se firme. Aos poucos, a opinião pública virou a seu favor. Em 1970, ele voltou aos ringues como gigante moral e herói popular.

O ícone dos ícones
Por tudo que fazia, Ali virou ímã de ícones de outras áreas. Bob Dylan o citou numa música. Os Beatles lhe serviram de bobos da corte. Frank Sinatra fotografou sua luta contra Joe Frazier em 1971 para a revista Life. Woody Allen o entrevistou na TV. O adolescente Michael Jackson o fez de capacho numa foto. Pelé fez dele o principal convidado de sua despedida do futebol em 1977.
Simulou golpes com Elvis Presley e Sylvester Stallone. Posou para Andy Warhol fazer quadros que hoje valem muito em leilões. E sua luta épica com George Foreman em 1974 rendeu um livro de um dos principais escritores do século 20 (A Luta, de Norman Mailer) e um documentário que ganhou Oscar (Quando Éramos Reis).

O rei da autopromoção
Ali não tinha vergonha de se promover de vários jeitos. Tanto que foi um “pai” do MMA: em 1976, decidiu um suposto Campeonato Mundial de Artes Marciais com Antonio Inoki, campeão japonês de luta livre . O combate foi patético e terminou empatado. Mais bizarra que essa, só a “luta” de Ali contra o Superman numa HQ lançada em 1978 (a editora Panini acaba de lançar no Brasil uma edição em capa dura dessa história).
Autointitulado “The Greatest” (O maior) desde o início da carreira, Ali lançou três obras com esse nome: um LP, um livro e um filme. Mas a verdadeira “bíblia” dele é Greatest of All Time, enorme livro de luxo lançado em três versões pela editora Taschen. Uma, com mil cópias numeradas e autografadas por Ali, custa US$ 15 mil. Outra sai por US$ 6 mil. A mais básica está por US$ 150. Poucos têm cacife para receber um tratamento privilegiado (e sem medo de encalhe) como esse.


Estado civil

Depois de aprovar a união entre pessoas do mesmo sexo, o México deu mais um passo na tentativa de modernizar uma das mais antigas criações da humanidade: o casamento. Façamos disso uma bandeira

Por Renato Krausz
Ilustração Viti

O Congresso do México está discutindo a criação de uma lei para estabelecer o casamento renovável, que prevê contratos temporários de matrimônio, prorrogáveis a cada dois anos. A ideia é reduzir o número de divórcios e facilitar os procedimentos administrativos no caso de o romance acabar.

Dois anos seriam um tempo suficiente para o casal perceber se um tem a ver com o outro ou não. O negócio vai bem? Está todo mundo satisfeito? Assina por mais dois anos.

A proposta – que parece ter sido retirada de Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman – é boa. Tão boa que resolvemos dar aos congressistas de lá e do resto do mundo algumas outras opções que podem lançar um sopro de modernidade a essa arcaica instituição criada para unir pessoas, mas que muitas vezes acaba fazendo justamente o oposto.

Casamento rotativo: semelhante ao que ocorre na proposta mexicana, a cada dois anos o casal decide se continua junto ou se… troca de cônjuge. Parágrafo único: a chance de destrocar existe, mas todo mundo tem que querer.

Half marriage: o grande ensaísta americano H.L. Mencken (1880-1956) escreveu que só existem dois tipos de pessoas realmente felizes: “As mulheres casadas e os homens solteiros”. Que tal criar um tipo de casamento em que o casal se sinta exatamente assim, ela casada e ele solteiro?

Casamento com Index Tellus Prohibitorum: o uso do latim é só para ficar mais pomposo. Na hora de assinar a união no cartório, cada cônjuge entrega também uma lista de três procedimentos proibidos. Se você for se casar pela primeira vez e não souber o que escrever, anote estas dicas: 1) querer discutir a relação; 2) dizer que está com dor de cabeça; e 3) um dia achar um saco o que hoje acha legal.

Casamento pós-sartriano: a grande sacada de Sartre foi, em outras palavras, dizer que quanto mais você amarra uma pessoa, mais distante fica dela. Cada certidão de casamento emitida a partir da promulgação desta lei traria a inscrição: “No exercício da minha liberdade, eu me prendo a você”. E caberia ao juiz de paz ou ao padre sempre reforçar: “Ou seja, meus jovens, não encheis o saco mutuamente, porque isso afastar-vos-á um do outro”.

Casamento analógico: em vez de enviar um SMS, escreva um bilhete de próprio punho para sua mulher. Fica vetado ao casal usar o celular, as redes sociais, o e-mail, o MSN e qualquer outro meio surgido nos últimos 20 anos para se comunicar entre si – e consequentemente para vigiar um ao outro. Vai viajar a trabalho? Mande uma carta para ela. Ou então um cartão-postal.

Casamento com separação parcial de almas e comunhão total de corpos: esse é o ideal. Primeira emenda: a poligamia torna-se obrigatória e revogam-se as disposições em contrário.


As deusas do Canal Brasil

A sessão Como Era Gostoso…, exibida nas madrugadas da TV a cabo, nos faz relembrar (ou conhecer) as musas do cinema erótico que embalaram tantos amores solitários no passado

Helena Ramos
Com seu jeitinho de menina ingênua do interior (que sempre se deixa seduzir por algum espertalhão), Helena era a estrela máxima do cinema erótico brasileiro nos anos 1970 e 1980.
O auge: O pico de popularidade de Helena veio em Mulher Objeto (1981), um drama erótico dirigido por Silvio de Abreu (aquele das novelas) que, de tão chato, merece ser visto sem volume.

Matilde Mastrangi
A grande estrela da fase derradeira da pornochanchada (anos 1980) fez filmes mais ousados que a média do gênero, com nudez frontal.
O auge: O grande momento de Matilde Mastrangi não foi no cinema. Em 1983, ela fez um strip-tease e leiloou a própria calcinha na boate Gallery, ponto de encontro da alta sociedade paulistana de então.

Vera Fischer
Entre a coroação no Miss Brasil e o estrelato na TV, Vera e a pinta em seu seio direito construíram uma sólida carreira nas pornochanchadas.
O auge: Nenhuma pornochanchada supera A Super Fêmea (1973), em que a nudez da mulher mais desejada do Brasil era exposta ao grande público. O enredo era apenas um detalhe.

Adele Fátima
Adele encantava pela doçura e pelo talento dramático… a quem queremos enganar? Adele Fátima conquistou o Brasil com uma das bundas mais fabulosas que já passaram por este planeta.
O auge: Adele brilhou em Histórias que Nossas Babás não Contavam (1979), uma sátira aos contos de fadas. Ela interpretava Clara das Neves, uma princesa que se esconde na cabana de sete anões lascivos para fugir do caçador interpretado pelo hilário Costinha.

Nádia Lippi
A ruivinha Nádia tinha vida dupla na década de 1970: era uma atriz famosa de telenovelas (como Pai Herói, Globo, 1979) que podia ser vista nua em comédias eróticas no cinema.
O auge: Nádia reluz em A Árvore dos Sexos, uma história surreal dirigida por Silvio de Abreu sobre uma árvore de frutos fálicos que engravidam as mulheres, permitindo que elas tenham uma vida sexual liberada (se engravidassem, a culpa era da planta).

Aldine Müller
Se alguém ameaçava o reinado de Helena Ramos nas pornochanchadas, era a gaúcha Aldine Müller, ex-rainha da Festa da Uva de Caxias do Sul. Ela fez mais de 20 filmes e, para alguns, era mais bonita e gostosa que a colega-rival.
O auge: Aldine já tinha uma reputação (de filmes do naipe de A Ilha das Cangaceiras Virgens e As Meninas Querem… Os Coroas Podem) quando fez Ninfas Diabólicas (1978), um marco do cinema erótico de terror nacional.

Nicole Puzzi
Os homens da época enlouqueciam com corpo esguio, com o nariz empinado e com a carinha de moça de família dessa paranaense – mas, principalmente, por saber que ela ERA uma moça de família.
O auge: Foi a grande musa da melhor fase do diretor Walter Hugo Khouri, participando dos filmes O Prisioneiro do Sexo (1979), O Convite ao Prazer (1980), Eros, o Deus do Amor (1981) e Eu (1987).

Enredos de pornochanchadas em menos de 140 toques
O Bem-dotado – O Homem de Itu (1978): Nuno Leal Maia, um caipira de grande ingenuidade e bilau enorme, leva as damas da sociedade paulista à loucura na cama
Kung Fu Contra as Bonecas (1975): Chang, meio chinês e meio nordestino, enfrenta um bando de cangaceiros afrescalhados para vingar as mortes de seu pai e sua irmã
Gugu, o Bom de Cama (1980): Agildo Ribeiro vive um costureiro gay que é obrigado a casar e tem um filho que também se torna um costureiro gay
O Libertino (1974): o comediante Costinha é um político ultraconservador que mantém uma mansão secreta cheia de mulheres para satisfazer seus desejos
A Ilha das Cangaceiras Virgens (1976): donas de uma pousada, lindas garotas são obrigadas a virar bandoleiras eróticas para vingar um ataque a seus hóspedes
A obra de Walter Hugo Khouri: Marcelo é um homem atormentado que alterna crises existenciais com transas pouco convencionais


Casamento aberto

Se existe o colesterol bom, existe também a adrenalina ruim. E nenhuma adrenalina é pior do que a sensação de ser descoberto

Por Renato Krausz
Ilustração Bruno Borges

Sempre que estava bêbado no bar com a rapaziada, ele costumava dizer: “Mulher não pode encher o saco, porra!”. Era uma crítica indireta aos amigos e ao patético jogo de cintura com o qual precisavam se desdobrar a cada pedido de alvará para o chope, o pôquer, o futebol, a balada. No íntimo, ele se vangloriava por ser entre todos na turma o que mais liberdade tinha. “Saio quando quero, faço o que quero.” E de fato era mesmo. Não só com a atual mulher, mas também com as últimas três ou quatro namoradas. Quem pensasse que ele só escolhia mulheres liberais estava enganado. Todas essas garotas já haviam passado por relacionamentos em que os cinzeiros voam e que começam na cama redonda e terminam no divã.

Mas com ele não. Ele sabia doutriná-las. E as mulheres aprendem rápido. Ele dizia a elas que o ciúme não leva a nada. Que respeitar privacidade é fundamental. Antes as cartas eram invioláveis, e agora também passaram a ser os e-mails, as redes sociais, os celulares e as gavetas do criado-mudo. Sempre incentivou a vida social do casal ao mesmo tempo que defendia a individual de ambos. “Sai um pouco, linda”, costuma dizer ao telefone, quando viaja a negócios.

Que fique claro: não é nem nunca foi uma estratégia arquitetada para poder aprontar das suas. Ele realmente acredita nisso. Sua contrapartida é contundente e sincera. Ele sabe como poucos ouvir uma mulher. Elogia-as olhando nos olhos, não importando se estão no primeiro dia ou no sétimo ano juntos. Nunca deixou de desejá-las nem de deixá-las cientes disso.

O limite acertado desde o começo era a fidelidade. “Temos liberdade, mas estamos juntos e vamos ficar só com o outro, ok?” Era este o acordo. Mas trata-se de um limite que, é necessário dizer, ele não tinha por hábito respeitar. Porque também nunca deixou de desejar as outras mulheres.

E, com isso, apesar de não precisar responder a interrogatórios sobre onde e com quem estava, ele carregava consigo para cima e para baixo a sensação angustiante de ser pego no pulo do gato. Se existe o colesterol bom, existe também a adrenalina ruim. E nenhuma adrenalina é pior do que essa.

Foi assim que a semente do casamento aberto começou a brotar dentro dele. Precisava incutir aos poucos a ideia na cabeça da mulher, e aproveitou a brecha aberta numa festa em que ela, exalando felicidade e vodca, deu selinhos nas amigas e nos amigos mais próximos.

Ele era um cara que convencia as mulheres. Mesmo sua esposa sabendo que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, acabou aceitando na base do vamos ver aonde isso vai parar. Um novo acordo estava selado. E ele então se sentia mais altivo. Tinha tanta vantagem para contar aos amigos que até perdia a vontade de falar.

E belo dia lá estava ele no apartamento de uma antiga colega de faculdade que reencontrara pelo Facebook. Vinho, queijos, beijos, amassos. Elogiava-a olhando nos olhos. Transaram duas vezes e, ao contrário do que ele estava acostumado a fazer, não se vestiu para ir embora logo depois. A sensação de que podia estar ali o enchia de paz e o esvaziava de culpa. Relaxou e acabou adormecendo.

Acordou com sol ainda fraco, porém já suficiente para esquentar o travesseiro pela fresta da janela. Faltavam 15 minutos para as 8 horas. Levantou-se num espasmo, com o rosto crispado e uma palpitação nos olhos, enquanto saltitava num pé só para vestir as calças. O celular registrava sete ligações não atendidas. “Mas seu casamento não é aberto?”, perguntou ela. “São 8 da matina. Casamento aberto tem hora!”


Diz-me por que bebes

Repare: os motivos e as desculpas que as pessoas dão para beber são, muitas vezes, tão legais quanto as histórias protagonizadas por essas mesmas pessoas quando bebem

Por Felipe Van Deursen
Ilustração: Bruno Borges

Luiza morava com um cara que tinha bruxismo. Rangia os dentes muito alto quando dormia. “Eu só conseguia pegar no sono alcoolizada”, dizia. Às reticências de resposta, defendia-se: “Gente, é sério!” Ismael e Felipe se embriagam para movimentar a economia do país. “O bar da esquina está falindo, vamos ajudar.” Marcos também tem motivações estratégicas. Bebe cachaças de regiões pobres, feitas por produtores locais.

Renata e Lívia gostam de bons drinques para tentar sentir o gosto da angostura em taças de uma época que não lhes pertence. Ana e Julio já beberam por recomendações médicas. O álcool entra no sangue, o líquido invade o corpo, as pedras deixam o rim.

Trajano e Paulo tomaram um porre após um enterro. Era o dia mais triste da vida deles cheia de confetes. Marina, Fernanda, Juliana e Amanda usam o frio como desculpa para esvaziar a adega – e ganhar abraço e colo quentes. Fred e Dudu não precisam de explicação porque estão curando a ressaca. No bar.

Claudia faz convocações semanais às amigas para falar da promoção, da demissão, do peguete novo, do ex, da última viagem e do superdesconto incrível que pegou naquele site de compra coletiva. Dani, amiga dela, ia sempre no mesmo horário ao mesmo bar porque queria ficar amiga do garçom famoso. Conseguiu, e manteve o ritual, agora com direito a beijinhos e atendimento preferencial. Guilherme paga a primeira rodada dos fiéis parceiros de cadeira de ferro quando seu time ganha no Brasileiro, seu time ganha no torneio da firma, seu time perde e ele perde a aposta junto, quando fecha um negócio, quando é promovido.

Bernardo tomou o porre da vida quando viu seu Fluminense campeão. Sabia, no fundo, que podia ser o único título que presenciaria na vida. Tiago disse “eu mereço” quando abriu a primeira lata após um rolé bem-sucedido de skate. Ficou 20 minutos sobre a prancha e quatro horas no bar. Thati passou seis dias sem beber e convocou a turma da faculdade para curar sua crise de abstinência. Mateus bebe porque pode. É artista. Rodolfo vai para o boteco com os amigos para rebater os boatos de que ele estava numa pior.

Eu vi todos eles bebendo e buscando um motivo para si e para os outros, mesmo quando não houvesse motivo algum, como Marcelo, que bebe porque não tem mais o que fazer. Testemunhei alegrias e tristezas, fúteis ou não, legitimadas no fundo de um copinho americano. Fechei contas e chorei saideiras, ao lado de amigos de infância e conhecidos de Facebook. Acordei dezenas de vezes prometendo não beber mais às segundas.

Desculpe, esqueci dos meus motivos. Arrumei muita desculpa para beber e esquecer. Mas esqueci que saudade não se afoga em álcool.


Jim Morrison no Rock in Rio

E se o vocalista do The Doors ressurgisse inesperadamente depois de dado como morto por 40 anos?

Por Marcelo Orozco
Ilustração: Zé Otavio

A campainha toca e o dono da casa interrompe seus exercícios matinais de Bach no teclado para atender – sem interfone nem empregada, como em tantas ficções ligeiras. Dá de cara com Jim Morrison, seu velho colega na banda The Doors. Vasta cabeleira branca, rugas, manchas de velhice na pele, barriga proeminente. Nada daquele mito raro que ele foi na juventude – um cara capaz de ser sex symbol para as mulheres e modelo a imitar para os homens. Mas o olhar penetrante e as ossudas maçãs do rosto seguiam inconfundíveis. A voz também.

– Olá, Ray. Faz tempo, não?

Ray Manzarek, o tecladista que cofundou The Doors com Jim numa praia californiana, teve a certeza imediata de que aquele visitante era seu antigo parceiro. Supostamente encontrado morto, aos 27 anos, numa banheira num apartamento fuleiro de Paris em 3 de julho de 1971. Supostamente. Porque poucas pessoas teriam visto o corpo; e porque não houve autópsia e o enterro foi ligeiríssimo e sem alarde.

Esses mistérios criaram uma daquelas lendas urbanas da música pop, em que grandes artistas fartos da popularidade forjavam suas mortes e iam passar o resto de sua existência em algum lugar perdido – o coração da África, a aldeia de Marlon Brando no filme Apocalypse Now ou uma ilha no Pacífico. Morrison seria vizinho de Elvis Presley, John Lennon, Jimi Hendrix e alguns outros abruptamente desaparecidos. Uma biografia que se dizia séria alimentou essa história, insinuando que Jim viveria como um bwana africano sob o codinome Mr. Mojo Risin.

Pois agora Manzarek tinha uma lenda urbana à sua porta. E teve um acesso de raiva.

– Então você esteve vivo mesmo nesse tempo todo! Como você pôde fazer isso, Jim? Você acabou com a carreira dos outros Doors!

Inabalável, quase zen, Jim baixou a temperatura da conversa.

– Acabei nada. Primeiro, sei que vocês ainda gravaram dois discos sem mim e fracassaram. E sei que vocês se sustentaram relançando várias vezes o que gravei. Lá na ilha secreta, volta e meia chegava à mercearia local um The Best of The Doors ou The Very Best of The Doors ou The Absolute Best of The Doors… Sempre com as mesmas músicas e capas parecidas. Enfim, fome você não passou, Ray.

Ray pensou um pouco e ficou mais amistoso. Convidou Jim a entrar para contar o que fez em suas quatro décadas como “morto”.

– De Paris, fugi para a África. Fui mercador de armas por um tempo. Como o Rimbaud, saca? (Ray preferiu não observar que aquilo era crime. Jim apenas quis imitar seu ídolo, o poeta francês Arthur Rimbaud.)

Na África, Jim conseguiu um mapa para a tal ilha secreta e se mandou para lá. Enquanto Morrison descrevia sua rotina do anonimato, Ray foi chegando à conclusão de que uma Mega-Sena pousara em seu colo: a volta do The Doors com formação original.

Talvez Jim, com atuais 67 anos, não tivesse mais condições de trajar uma calça de couro preta. Mas a oportunidade era boa demais para desperdiçar.

– Jim, chega de ilha. Você ainda é um dos caras mais adorados do rock. Nós TEMOS de voltar com The Doors! Algo monumental… Já sei: com uns telefonemas, a gente acerta um show como atração principal do Rock in Rio no Brasil!

– Atração principal? Xi… acho que não vai rolar.

– Por quê?!

– Porque o Elvis também cansou da ilha e quer voltar.


Terceiro ato

Entenda por que a melhor fase da vida de um homem começa aos 30 anos. Afinal, você assume o volante da vida e pode enfim decidir o caminho e a velocidade que quer adotar

Por Antonio Prata
Ilustração:Bruno Borges

Aos 10 anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos 20. Aos 20, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de 30. (Convenhamos, apenas seis primaveras depois da oitava série, você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro – já não tão – cabeludo me atestavam, no espelho: eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de homo sapiens. E sabe o quê? Fiquei bastante contente com a descoberta.

A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e, quando o faz por outras vias, como pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie  de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode  participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias para a prova da Fuvest.

Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos 30, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais para uma várzea do Tamanduateí do que para o tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto –, a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na educação física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.

Se você está em torno dos 30, pode lutar durante os próximos 40 anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver a fim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein, nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa para fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade, nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.

Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus 29: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam aos 30”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto – sobre o qual não convém falar, por estar muito lá para a frente, só bem depois dos 90. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte…


Seis estratégias vikings contra dragões da rede

A internet tem sido um refúgio das simpáticas, que despistam sua imagem para esconder a falta de dotes físicos. Como descobrir se elas fazem isso? Confira seis indícios trazidos pela experiência araponga nos domínios estéticos da web

Por Fabrício Carpinejar
Ilustração: Bruno Borges

CITAR O PEQUENO PRÍNCIPE: o livro curiosamente voltou à lista dos mais vendidos no país. Eu sei o motivo. Antes, era leitura obrigatória de 100% das concorrentes a miss. Todas as candidatas citavam como a grande obra da humanidade. Agora, as bruacas fizeram uma revolução sexual e tomaram Saint-Exupéry para si. Se a mulher menciona que “o essencial é invisível aos olhos”, ponha na cabeça que ela não é bonita e nunca será. Está dando a letra de que não se importa – não com a sua – com a própria aparência. Pede perdão antecipado. Espere uma Fiona, sem depilação e desalinhada.

FRAGMENTAÇÃO: um dos recursos da feia na rede é nunca usar uma foto do rosto inteiro ou do corpo nas páginas pessoais do Facebook, do Orkut, do Twitter, do MSN e do blog. É um detalhe da face, aquilo que ela acha menos problemático, pode ser um olho, um ouvido, a boca, até um pé. Esconde seu trauma bancando a cult. Toda feia é seguidora de Jean-Luc Godard e dos enquadramentos camicases.

EMOTICONS: conhece a namorada que traz o ursinho de pelúcia para a primeira noite com você? Na internet, existe algo pior: os emoticons, desenhos nas cavernas do MSN. Feia abusa desse recurso e infantiliza a linguagem para ganhar empatia.

SEM WEBCAM: a menos favorecida não vai aparecer na webcam para uma conversa no Skype (muito menos aceitará encontro presencial no primeiro mês). A câmera dela vive quebrada.

TERMOS AVOENGOS: o dicionário é a bolsa da feia, sua necessaire, ela esbanja uma média de sinônimos superior a uma mulher comum de sua idade. Parece bem mais velha, significa que dedicou boa parte de suas noites à leitura de clássicos, enquanto as cinderelas viraram as madrugadas em baladas. Se uma mulher comum é tagarela, com uma média de 20 mil palavras por dia, as menos bonitas têm uma bagagem de mais de 30 mil palavras diárias. Ela empregará expressões lustradas por Brasso e do tempo de Camilo Castelo Branco, a exemplo de soslaio, esguelha, claudicante, pernóstico.

ROMANTISMO DOS NICKNAMES: feia que é feia não faz propaganda enganosa, a ponto de alardear que é gostosa, linda, quente, fatal. Sua timidez percorrerá os cumes do romantismo poético e da astrologia. Seu nome em chat será uma metáfora. Quanto mais lírico e esotérico, pior a face. Se ela falar com você com o nickname “admiradora_do_ sol” ou “destino_das_estrelas” ou “sacerdotisa_do_mar”, prepare-se para o vale das sombras.
———————
Fabrício Carpinejar é cronista e jornalista, homem-monstro, pós-graduado em segundas intenções, autor de Borralheiro (Bertrand Brasil), entre outros.


Ê, meu amigo Charlie Sheen…

Um encontro com o astro renegado no boteco mais sujo do Rio de Janeiro, em pleno Carnaval

Por Marcos Nogueira
Ilustração: Marina Stivi

Por que aqui? Charlie Sheen, o louco, o drogado, o mestre da merda no ventilador, veio secretamente passar o Carnaval no Brasil e eu, por um golpe de sorte, soube e consegui uma entrevista. Quero saber se o cara é um farsante. Quero saber por que ele faz o que faz. Mas antes quero saber por que raio ele marcou o encontro no boteco mais imundo do canto errado de Copacabana, num antro de prostitutas banguelas.

“Hum, prostitutas…”, penso enquanto bebo um gole de cerveja. Nesse momento de refl exão profunda, o celular vibra: era uma mensagem direta do Twitter que dizem ser de Charlie: Precisei descer em SP. Incrível, os detectores de fumaça dos aviões brasileiros funcionam. Vou pegar o próximo voo. Tome um uísque por mim. c

Quem sou eu para desobedecer Charlie Sheen? Escaneio a prateleira empoeirada com os olhos até achar a familiar garrafa quadrada com a faixa vermelha. Ciente do risco, peço uma dose sem gelo e tuíto: Ok, espero. Vem fazer o q no Brasil?

O primeiro gole desce rasgando. Ainda me recuperava dele quando chegou novo tuíte: Trabalho. Você sabia que estou procurando uma estagiária? As mulheres daí são AWESOME. c

O gringo está certo, isso elas são. Espero duas horas, bebendo e observando o louco de rua que ignora a proibição de fumar e a puta que não para de coçar os países baixos. O bloco carnavalesco lá fora faz barulho suficiente para ninguém ouvir nada aqui dentro. Os cascos vazios de cerveja já se acumulam. Comer? Fora de cogitação. Recebo outra mensagem. Pousou. Diz uma coisa: quanto $ preciso para liberar uma coisinha que TROLLS da polícia não gostaram de ver na minha mala? c

Só na presença do meu advogado eu digo o que respondi. Aliás, nem lembro bem, culpa das cervejas e do joãozinho paraguaio. A biscate da virilha de fogo resolve dar atenção para mim, o que não é bom. Finjo ser gringo e ela fi nge acreditar. Pede uns dólares, eu não dou e ela me deixa em paz. Eis que mais um tuíte aparece no meu celular. Um ladrão #FASTBALL levou minha bagagem, carteira e celular. Preciso desmarcar. See you. c

Charlie saiu #WINNING. Me fez de idiota, o sacripanta. De onde tuitaria se tivesse sido roubado? Peço a conta, mas o luso atrás do balcão balança a cabeça em negativa e aponta para a porta, indicando que alguém já se encarregou da penosa. Na saída, o mendigo fumante caminha em direção ao Carnaval abraçado à garota de programa que me assediou minutos antes. Ele tira o casaco encardido, o chapéu e a barba postiça para se perder entre outros 16 Charlies Sheen que pulam ao som de Cabeleira do Zezé e confraternizam com os Obamas, as Dilmas, as Ladies Gaga e os Kadafis.

Apoio-me no batente, perplexo. Com um copo na mão, o dono do bar interrompe meus pensamentos impublicáveis. “Aquele senhor americano também pediu para eu entregar a ti esta bebida.” O que é? “Leva cachaça, jurubeba, campari e se chama sangue…” Desvio o olhar para o celular, que tinha nova mensagem:

#TIGERBLOOD! c


Navegar é preciso?

Para você o que é melhor: explorar novos horizontes ou sentar naquele mesmo bar em que chama o garçom pelo nome?

Por Antonio Prata
Ilustrações: Fido Nesti

Talvez seja uma característica masculina, talvez apenas um traço meu – ou, como diz minha mulher, um defeito. O negócio é que descobri, aos 33 anos, que não gosto de novidades. Isso inclui: viagens a lugares desconhecidos, passeios por galerias de arte, estudos frequentes do guia de fim de semana em busca dos horizontes intocados de nossa grande cidade.

Não tenho prazer na exploração, mas no reconhecimento. Gosto de ir correr no parque do meu bairro, fazendo sempre o mesmo trajeto: dou a volta no laguinho, passo atrás do bambuzal, depois vou em direção ao estacionamento e sinto aquela tranquilidade. Aí está o cenário amigo de tantas das minhas tardes. Mais do que descobrir artistas, gosto de ler livros e ver filmes dos meus autores e diretores preferidos. Mais um do Kurt Vonnegut, mais um do Woody Allen: que bom poder reencontrar o mesmo estilo, as mesmas idiossincrasias. Sou feliz nos bares em que chamo o garçom pelo nome e cujo cardápio posso invocar, a qualquer momento, na tela da memória.

Sabe cachorro que adota um tapete encardido e dali não sai, por mais que você compre camas acolchoadas ou faça uma casinha de madeira? Pois eu sou esse cachorro. E minha mulher, que adora novidades, é a pessoa que vem tentando, há quatro anos, seduzir-me com as camas acolchoadas e casinhas de madeira.

Eis o problema: sou um Homer Simpson, casado com uma Marca Pola. Chega sábado, ela quer me levar para ver um espetáculo incrível de fantoches checos que dançam balalaica ao som de uma banda performática búlgara, ou ao Teatro Municipal, para ouvir o coral de monges tibetanos exilados no Canadá, ou a um badalado restaurante de comida coreana feita por um chef cearense – no fim da zona norte.

Beleza. Em teoria,  acho tudo isso fantástico. Se, antes de nascer, pudesse ter optado entre o modelo que adora os fantoches checos e o que prefere a velha poltrona, encarnaria no primeiro, sem dúvida. Ponho até um polegar para cima, no Facebook, sobre cada um dos programas citados: Antonio likes this. A vida é curta, o mundo é grande, é preciso vê-lo enquanto é tempo. Mas o que posso fazer se, na prática, não sou assim?

Demorou para que eu assumisse esse meu provincianismo existencial. Por anos, tentei acostumar-me a gostar de lugares onde não tenho o costume  de ir. Esforcei-me, em sábados e domingos, para não ficar mal-humorado enquanto buscávamos vaga no estacionamento abarrotado da bienal. Esmerei-me em manter o mesmo inabalado sorriso no rosto quando minha mulher propunha, diante de mapas abertos: “Aí a gente aluga um carro aqui, cruza a cordilheira, pega um barco ali, vai até essas ilhas, faz uma trilha até…”. Não sei se  o que mais me assusta na frase são os verbos – aluga, cruza, pega, vai, faz – ou os substantivos – carro, cordilheira, barco, ilhas, trilha –, mas, em respeito ao sujeito – a gente –, já atravessei até deserto em lombo de  cavalo. Confesso que, em muitos momentos, enquanto o sol se punha atrás dos montes arenosos, por exemplo, alongando  as belas sombras dos cactos por metros e metros sobre rochas vermelhas, eu aproveitei. Mas não conseguia evitar um vergonhoso pensamento: “Acho que estaria mais feliz no quiosque do Ademir, lá em Ubatuba”.

Depois que assumi essa minha, digamos, posição, tento defender-me das acusações de “preguiçoso” e “encostado” invocando supostos traços genéticos e antropológicos. Num domingo, lutando para conseguir ver Corinthians e Ponte Preta, em vez de assistir ao Encouraçado Potemkin, no Memorial da América Latina, criei a seguinte teoria: por muitos séculos, as mulheres ficaram em casa, cuidando da vida doméstica, enquanto os homens saíam pelo mundo, para caçar, pilhar, conquistar, guerrear ou, nos últimos 100  anos, bater o cartão. Agora, elas querem recuperar, nos sábados, nos domingos, nas férias e nos feriados de suas juventudes, o tempo perdido em centenas de anos de cama, mesa e banho, enquanto nós, que trazemos em  nosso DNA a exaustão dos exploradores e dos escravos, de gregos e troianos, mouros e cristãos, só queremos uma poltrona, um copo de cervejae Corinthians e Ponte Preta, às 5h30 da tarde.

Você acha que minha explicação colou? Claro que não. Consegui assistir ao jogo, mas triste, porque minha mulher foi sozinha ao filme,  e ficou um pouco chateada. O que eu posso fazer? Eu amo  minha mulher. Eu gosto muito da minha poltrona. Uma quer me levar para longe. A outra quer manter-me bem perto. Por que tanta dificuldade? Será o cansaço dos antigos navegadores e dos escravos nas galés, que acomete meus velhos músculos, ou apenas uma falha de caráter, uma preguiça monstro que impedeme de ir ao teatro, ao cinema e aos confins do mundo, ver como o sol se põe?

Não sei, meu amor. Não sei. Mas fora isso, até que eu sou legal, vai?