Frequentemente alguma amiga vem reclamar sobre a relação do namorado com a pornografia

Por Liliane Prata
Ilustração: Bruno Borges

Elas tremem quando acham no computador do cara os tais “vídeos educativos”, para citar uma expressão clássica. Ou fotos, seja no PC ou no – ai, ai – banheiro. O ápice do susto feminino é quando alguma descobre que o amado, aquele homem que sabe tudo sobre mitologia grega e vinhos, já frequentou, hã, casas de moças de família. “Só para ver como era”, ele esclareceu.

Separo minhas amigas entre as que cresceram com irmãos do sexo masculino e as que ficaram entre mulheres. Mas não basta ter o irmão: precisa ter conversado muito com ele, o que inclui não ter sido poupada de alguns detalhes sórdidos. Faço parte desse grupo: cresci ouvindo meu irmão contando (com menos sutileza do que eu gostaria) os bastidores dos amantes de mitologia grega e vinhos. E acabo sendo a primeira a botar panos quentes quando uma amiga vem com a crise do “não pensei que ele fosse assim”.

Bem, ele é assim. Existe uma pequena chance de que ele não seja – assim como há quem não goste de batata frita. Mas quase todo homem curte pornografia e por isso nós, mulheres, temos que lidar com essa questão. Mesmo tendo irmão, já fiquei triste com um namorado que colecionava vídeos/fotos/canetas esferográficas com mulher pelada. Eu era mais nova e achava aquilo um saco. Tentei conversar, o que foi inútil – em discussão sobre mulher pelada, não cabe mesmo muita metafísica. Chegou uma hora que não deu mais.

Depois disso, fiquei pensando: por que tantas mulheres se chateiam com a pornografia? Não é só questão de se incomodar com o exagero. Acho que ou você aceita mais ou menos bem ou não: como entender cinco fotos e não sete, dois vídeos por semana e não cinco?

Às vezes, o problema pode ser este: ela se sentir trocada na hora do sexo. Uma amiga namorava um cara meigo, família, sossegado demais, para usarmos termos elegantes. Mas ele tinha toda uma libido paralela. Como o Gerson da novela, que, com aquele cabelinho de lado e cara de que passou lavanda, mantém um submundo mais roots por trás.

Ela terminou e dei meu total apoio. Ninguém quer conviver com a versão descafeinada de um homem.

Assim, sempre sugiro a uma amiga incomodada que pense se o buraco não é mais embaixo. Se, inclusive, ela está feliz na cama – e muito. Se é desejada. Se a gente é uma deusa para o cara, o silicone alheio não incomoda.

Se incomodar… Bom, aí pode ser resultado da crença de que o namorado dela é esse ser sensível que só quer saber de vinho e mitologia grega. Se você vende essa imagem para a menina, meu conselho é parar de varrer a pornografia para debaixo do tapete. Para aceitar seu passatempo numa boa, ela pode precisar de algum tempo de intimidade com essa realidade. Principalmente se ela não teve irmãos.

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Liliane Prata é jornalista e autora do blog lilianeprata.com.br/blog